Nuvens de Sangue
13 Capítulo 13 - Sobrevivendo
Notas iniciais

"A Presidenta deu a ordem de extermínio até que o caos seja controlado, não existe mais rotas de fuga sobre as avenidas. São Paulo está dominada pelos mortos"
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A esperança desintegrou-se junto com o ar puro que podia respirar. Saber que viverei a escombros do que um dia fora o mundo é assustador. Me queixei demais, coisas pequenas ignorei que agora poderia me fazer feliz. Como um dia de sol, um abraço em pessoas de minha família, de um sorriso de carinho. Agora tudo que posso ver em minha frente é morte, sangue e pessoas de que gosto morrendo como animais. O Desespero é a marca registrada no rosto de todos ao meu redor. Aquela expressão fria e angustiada tapava o rosto de meus amigos que um dia já demonstraram gargalhadas de gratidão e felicidade. Como tudo terminaria? Se a cada segundo mais pessoas morrem e transformam-se nessas coisas. Não vejo esperança alguma de vitória contra os mortos, muito menos contra os Alienígenas por trás de tudo isso. Os gritos desordenados dos infectados pelos Zoens ecoavam sobre meu ouvido, invadiu meus sentidos e me deixou desordenado. Não consegui reagir aos berros de João e Torres apontando suas armas para baixo, a única coisa que pensei foi no que estou me tornando. Atirando em pessoas, deixando Maycon para trás. Qual vai ser meu próximo ato?
— Nicolas, — O que vou fazer se não me conheço mais? – Nicolas, acorde... – Sinto um tapa forte em meu rosto. Torres me tirou do transe e me puxou para perto dele, a porta de metal que separava os Zoens de nós poderia ceder à qualquer momento.
— Me desculpe, agora estou melhor. – Concluo, e corro até a beirada da laje da delegacia. As garotas aflitas tentaram de todas as formas manterem-se fortes. João, Torres e Bruno apontavam as suas armas para baixo e atiram em alguns infectados que subiam desajeitados.
— Como vamos descer as escadas até o carro se eles estão lá em baixo? – Berrou Luiza
— Se continuarmos atirar não adiantará, mais deles aparecerão. – Bruno aflito atirou em um que quase subia na laje.
— Não pare de atirar, garotas apontem as armas para a porta de metal, caso eles arrombem temos que estarmos preparados. – João dava ordens. Mas realmente Bruno tinha razão, não teria como continuarmos atirando, os barulhos dos tiros apenas atrairia mais deles, o que fazer em uma situação dessas? De um lado os Zoens estavam cercando não deixando descermos. Do outro lado a porta estava sendo arregaçada por dezenas de mãos em sanguinolências prontas para abrir nossas barrigas e devorar nossos intestinos.
— Pensa Nicolas. – Falei alto, Léo sorrio para mim, e já sabia.
— O que foi Nicolas? – Perguntou Torres, e Léo falou por mim.
— Ele está bolando um plano, olhe suas sobrancelhas, quando erguidas quer dizer que o Nicolas inteligente está em ação. – Luiza e Clarice me olham aflitas.
Olhei ao meu redor, tinham entradas de ar como cogumelos de metais giratórios. Saídas de ar, a porta de onde entramos, botijões de gás do prédio, antenas parabólicas. – Espera, — gritei. Claro, os botijões de gás. Segundo minha teoria e a conclusão de Bruno os microrganismos não suportam o fogo. Corri até os botijões, uma mão segurando a arma e a outra os tubos de onde passavam os gases altamente inflamáveis. Sorri para todos e digo com um singelo levantar de sobrancelhas.
— Me escutem com atenção, quero que Torres desça as escadas de ferro atirando e matando os que estão subindo para abrir espaço para as garotas e Léo descerem, João e Bruno me ajudam a jogar os botijões de gás para baixo.
— Como assim? O que está pensando? – João perguntou, e continuei.
— Com a queda dos botijões eles ficaram pendurados pelas mangueiras metálicas, vamos abrir um furo nelas e o gás vazará e devido a pólvora da arma a mangueira entrará em incêndio. Teremos poucos segundos para descer até os botijões explodirem e incendiar todos os que estiverem por perto, economizaremos balas e tempo.
— Mas é arriscado Nicolas, e se por um acaso a mangueira exploda antes do previsto não dará tempo de descermos. – Bruno discordou, e no mesmo tempo a porta de metal é bombardeada por infectados.
— Temos que tentar ou a porta cederá. – Caroline fala, e Marry dá a mão para a menina de cabelos negros azulados.
— Confiamos em vocês rapazes, por favor vamos logo, não quero morrer aqui.
— Pois bem, vamos seguir o plano do rapaz. – João deu de ombros e seguiu até os botijões, — vamos Torres atire nos que estão deste lado são poucos e dá para descer as garotas.
— Tudo bem Senhor, vamos acabar com esses malditos. – Como uma luz que brilhou em um dia nascendo, minha coragem surgira novamente. Com a ajuda de Bruno e João arrastamos o botijão P45 industrial até a ponta da laje, aonde o foco dos Zoens era maior, abri o lacre do botijão para vazar gás por lá afrouxando o registro da mangueira, para que a explosão fosse certeira.
— No três! – Torci o lábio em sinal de esforço, — um, dois e três. – Jogamos o botijão que quicou fortemente na estrutura da delegacia, a mangueira encouraçada de metal rasgou o chão dando corda para o recipiente do gás parar quando atingiu o chão. Olhei para o lado e Torres já descia com as garotas, o único que ficou fora Léo.
— Corra com seu irmão Nicolas, Bruno e eu jogamos o outro Botijão. – Mas a porta de metal rangiu novamente fazendo a parede rachar, não daria tempo.
— João não dá tempo, vamos descer as escadas. – João do lugar de atirar na mangueira acendeu um esqueiro e jogou na fresta que abrirá pelo impacto, uma chama forte se alastrou pelo material. O ex-general e Bruno corriam como nunca, Léo Desceu a escada mirando em Zoens que chegavam perto, enquanto Torres dava cobertura já no quintal do Banco ao lado.
Nós quatro estávamos sobre a escada de metal quando escutamos a porta da laje quebrar e uma multidão sedenta de sangue invadir o espaço. Mas fora por pouco tempo, pois a explosão foi arrebatadora, a estrutura do prédio balançou e por estar com o peso de quatro pessoas a escada começou a rachar da parede. Senti um calor forte, olhei para baixo e as meninas estavam salvas pela parede que dividia o lugar, mas pedaços de corpos e sangue fora respingado e espalhado por todos os lados. Muitos Zoens correram por todos os lados queimando, era a deixa. Com rapidez descemos as escadas que poderia cair a qualquer momento, deixando os mortos de fome por tripas na espreita do lado de cima da laje. Enfim o plano deu certo.
Pulamos o pequeno muro que quase despenca pelo impacto do botijão. Com muito suor e medo da morte estávamos do lado de fora da delegacia que agora era tomada pelos “mortos”. Torres e Bruno corriam até os carros, eram dois carros-fortes e três carros populares no estacionamento do Banco. Marry e Clarice não se soltam, e junto a Luiza e Léo apontávamos as armas para todos os lugares. Caroline sempre ao lado de meu irmão.
— Os carros estão todos trancados, vamos ter que arrombar. – Gritou Bruno, mas João diz chamando todos.
— Tem dois homens esquartejados dentro deste carro-forte. Vamos me ajudem a tirar eles de dentro e vamos todos subir, esse carro é perfeito para andar sobre os asfaltos de sangue e o melhor a chave está aqui. – Bruno e Torres tiram os homens, percebi o enjoou na expressão do durão policial, ele era enfim, como todos. Mas meu foco de visão foi tomado por um homem que correu em minha direção. Ele estava com os dentes a amostra, sem um dos braços e seus olhos negros miram em minha carne.
Em um segundo ele tentou gravar seus dentes em meu pescoço. Era meio gordo sem camisa, suas tetas caiam sobre seu peitoral. Seu fedor me dominou e cambaleou minhas pernas, não pude levantar a arma para acabar com seu resto de movimento, mas Luiza foi quem fez. Levantou a arma e atirou estourando os miolos do homem infectado. Com o barulho do tiro, avistou-se de longe uma quantidade enorme de carniceiros. Corremos até o carro e todos subimos no blindado espaçoso. Do lado de dentro apenas quatro bancos, mas o suficiente de todos caberem, espremidos, mas com a vida salva. Torres sentou no banco da frente e João ao seu lado.
Nunca havia visto um carro blindado por dentro, era grande e espaçoso ao lado dos dois únicos bancos de trás um cofre com uma telinha e uns botões proveniente de senhas. O painel do motorista era pequeno com muitas funções, mas a chave de contato comum. Os seguranças do banco estavam mortos, mas com isso veio nossa rota de fuga. As portas detrás não tinham trancas eram automáticas e muito menos janelas. Apenas pequenos orifícios que dava a visão. Dava para colocar as armas nos buracos que serviam para isso mesmo, assim poderíamos nos defender ainda dentro do furgão monstruoso. Como não tinha viro traseiro câmeras serviam como visão ampla. Penso se existem pessoas que podem estar sobrevivendo como nós. Fiquei ajoelhado com a minha arma no buraco assim como Léo ao meu lado. Torres deu a partida e saímos do estacionamento seguindo sobre as ruas caóticas e devastadas.
Desde que começou não consegui ver pessoas vivas nas ruas, apenas Bruno que salvamos. Gostaria de aumentar nosso grupo, de salvar mais pessoas. Mas parecia impossível em meio a tanto desastre. Apertei a mão de Luiza e dei um beijo rápido molhando meu lábio. Clarice sorriu e Léo vagarosamente tocou os cabelos suados de Caroline que estavam grudados em seu rosto pálido. Por instantes aquela cena me motivou, ver todos vivos. Mas ainda não conseguia deixar Maycon sair de meus pensamentos, será que conseguiu sobreviver?
— Obrigado Luiza por acertar aquele homem que tentou me devorar.
— De nada Nic, você acha que deixaria você morrer? – Dei outro beijo nos seus lábios doces.
— Pare de melação vocês dois e Marry diga o local do supermercado. – Torres perguntou ironizando.
— Rua Teodoro Sampaio, número 787. Acho que estamos perto. – Ela respondeu, e Clarice disse colocando as mãos nos ombros de Marry.
— Você trabalhava lá? Acha que tem alguém que você conheça no mercado? – Ela agachou à cabeça e chorou, — o que foi?
— Trabalhava neste mercado há mais de três anos, meu namorado é o gerente e eu uma supervisora de caixa. Tenho muitos amigos que estavam trabalhando neste mercado, ontem era minha folga só por causa do ocorrido do assalto. Mas Gabriel está lá, morto ou vivo, quero muito revê-lo, pois meus pais e amigos estão mortos com toda certeza.
— Não diga isso, temos uma esperança, o mercado estava isolado pelo assalto. Então não tinha como ninguém entrar. – Caroline indagou. No mesmo momento Bruno gritou, um grito abafado de esperança, pois o seu rádio havia chiado.
— O rádio! – Todos tiveram a atenção voltados a Bruno, enquanto Torres dirigia o carro desviando de Zoens e de carros largados no asfalto. Uma voz chiada e fraca era escutada, Bruno aumentou o volume e deduziu, — estamos pegando a interferência de algum canal de rádio local, escutem com atenção.
“Notícias da Rádio Independente Jovem São Paulo. — Os estádios foram evacuados a base de fogo, o estádio do Corinthians está ao chão. Repito, mais de milhares de mortos no local. O Itaquerão não existe mais, os aviões do exército jogaram bombas para destruir, sim! Estão matando inocentes para tentar controlar os infectados pela névoa vermelha. Se está escutando está transmissão saia das ruas, se ver algum “pessoal” do exército se esconda. A Presidenta deu a ordem de extermínio até que o caos seja controlado, não existe mais rotas de fuga sobre as avenidas. São Paulo está dominada pelos mortos, e os Alienígenas estão se estendendo por todo o estado, atingindo até mesmo cidades pequenas. Não temos confirmação, mas existem boatos que o Brasil inteiro está em rota de ataque. Não tem como calcular o número de mortes, mas são milhares. Milhões de vidas perdidas...” – A frequência começou a chiar, e saiu fora do ar. – Todos encararam Bruno e ele ergueu os ombros sem saber o que ocorreu.
— Agora o exército é inimigo? Aquela puta da Presidenta mostrou sua verdadeira face matando inocentes, isso é o desespero? – João lamentou-se
— Adoro esse programa, ele é clandestino e só toca pauleira. – Léo sorriu, mas dei um soco em seu ombro.
— Não escutou que milhões de pessoas morreram? Será que conseguiremos chegar ao abrigo Bruno?
— Nicolas se não conseguirmos comunicação será impossível atravessar a cidade.
— Mas se deixarmos o mercado para lá e formos direto para o abrigo? Isso é quase um tanque de guerra. – Caroline concluiu, mas Luiza interveio.
— Não vamos ver se o namorado de Marry está vivo! – E Torres gargalhou.
— Mesmo se quiséssemos não daria, o tanque está na reserva e olhe à frente. – Erguemos a cabeça para ver o que ele queria dizer com isso. E quase caímos para trás, em nossa frente mais de milhares de pessoas infectadas andavam pela rua, impossibilitando de chegarmos até o mercado que ficara perto dali.
— Como fazemos? – João perguntou, e Marry dá a voz.
— Vamos dar a volta por trás, a porta de onde entraremos fica nos fundos, tenho certeza que eles estão apenas nas avenidas movimentadas. – Torres fez o que a menina insegura falara, ela ainda com seu livro agora em mãos mantinha uma feição diferente, pareceu muito decidida no que falou.
O carro virou em um cavalo de pau quase a capotar pelo desastre de sua estrutura grandiosa. Chocamos um nos outros pela manobra arriscada. O carro atravessou a rua e saímos atrás do mercado onde não haviam Zoens. Paramos o carro e com extrema rapidez pulamos dele. Ergui minha 9mm na altura de meu rosto jogando ela para todos os lados, mas parecia seguro.
O mercado era grande, tomava o quarteirão inteiro. Uma famosa rede de Supermercados, aquele com o nome de um cartão-postal do Rio de Janeiro. Marry parecia saber o que estava fazendo. Retirou de uma bolsinha presa em sua cintura uma chave.
— Essa chave abre a porta de Segurança. – Olhei assustado para ela e pergunto.
— Como tem uma chave de segurança? Isso não é possível para uma empregada do mercado, não? — Ela me olhou desconfiada e respondeu com a voz confusa.
— Não temos tempo de conversar, agora vamos entrar. – Não era a resposta que esperava, mas dei de ombros para a menina e entrei no mercado quando a porta fora escancarada. Todos fizeram o mesmo.
O lado de dentro era o depósito, o estoque onde ficavam todos os produtos do mercado. Escuro foi o que definiu o lugar. Sorrateiros seguimos Marry que se colocou em frente a uma caixa de energia, abriu e puxou uma alavanca fazendo as luzes do lugar iluminar.
— Luzes de emergência. – Sorriu. João com sua metralhadora enorme apontara para a porta a cima da escada.
— Não tinha me falado deste mercado e nem que tinha uma chave com você.
— Me desculpe, não achei que conseguiríamos chegar aqui, mas estamos bem não é? – Não respondemos e seguimos até a porta de saída do estoque.
Com muito cuidado João e Torres foram na frente os mais qualificados. Seguimos atrás, quando abrimos a porta tivemos uma grande surpresa. O lugar estava um caos, e haviam alguns infectados se debatendo pelas prateleiras. Marry segurou seu grito, entretanto chorou.
— O que? Martins, Selma, Luiz, Carlinha e Samara? – Parecia que eram amigos de trabalho dela. Torres jogou a menina atrás dele e começou atirar quando os Zoens correram em sua direção, certeiramente acabando com a cabeça de todos que tentaram atacá-lo. Marry chora desesperada, Luiza tenta segurar a menina, mas era impossível.
— Acalme-se fique aqui que vamos checar o mercado, ver se existem mais deles. – O velhaco disse, enquanto Marry falara.
— Temos que ir até a administração no andar de cima, não vi Gabriel aqui, ele deve estar vivo.
Entre muito sangue no chão, tripas de pessoas atacadas por Zoens, muitos produtos e prateleiras derrubadas, encontramos um raio de esperança. A jovem garota tímida demonstrou sua verdadeira personalidade. Seguimos Marry sem saber o que nos aguarda.
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