Nuvens de Sangue

14 Capítulo 14 - Devaneios


Notas iniciais
Olá meus queridos leitores! Quero agradecer à todos por estarem lendo e comentando. Só peço que não me abandonem, por que a Fic tem muita coisa para acontecer. Dedicado a todos os meus leitores que tiraram um tempinho para recomendar Nuvens de Sangue: Lady Holland B, Greyce Kelly, Sr Leitor, Sr Kratos, Valiriana e Rhasnah ColiferCaptainSwan.

"Em meus devaneios de ingratidão, perdia os sentidos, mas eles estão sempre ali para me guiar e me tirar do abismo"

O som pesado e ardente dos disparos chegou ecoar sobre minha pele que tremeu ao ritmo. Armados até os dentes, com coletes, coragem e uma única certeza: limpar o mercado dos infectados que ali estavam. Andamos seguindo a menina encorajada de uma força estranha. Marry andou despreocupada e com uma visão fixada a uma escada que ia levá-la até os supostos sobreviventes. Não tinha medo dos mortos que corriam desesperados até ela, pelo contrário, erguia sua arma desajustada, mas acertando quem fosse que tentasse atacar. Era surpreendente, a jovem e doce Marry agora mostrou-me outro lado.

Existiam, pelo menos, mais de dez deles. Vestiam uniformes verdes e calças cumpridas jeans, cada camisa com um crachá denunciando serem funcionários do mercador. Caroline, Luiza e Clarice ficaram dentro do depósito, enquanto adentramos o estabelecimento precário. Confesso que o medo me dominou, todavia sentir medo era um sinal bom. Sinal de que ainda estou firme e lucido, diferente da garota que andou sobre o sangue do piso sem preocupar-se com as consequências. Agora João e Torres davam cobertura, seguindo Marry. Bruno e Léo estavam ao meu lado.

O chicotear das balas cravando sobre a cabeça deles, me fez sentir uma repulsa enorme. Ver tanto sangue no chão escorrer sem rumo me deixou abismado com o que o mundo acabara de virar. Tinha certeza que a partir de agora era: viver ou morrer. Deveríamos estourar miolos para ter algum tempo sobre este apocalipse destrutivo.

O odor da putrefação dos infectados sentiu-se de longe, devido há horas de carne morta em movimento. Olhei para o lado e veio uma mulher em minha direção. Gorda de cabelos enrolados, sua pele pálida como neve, olhos esbugalhados em um tom negro solitário, suas veias saltadas devido a infecção se via de longe. Ergui minha arma em sua direção, suado de medo, meus olhos pesados de pavor imploraram para aquilo ser uma miragem. Infelizmente não era, atirei. A bala adentrou na altura de seu nariz e ela caiu inerte ao chão espalhando seu sangue sobre potes de vegetais em conserva sobre uma prateleira. Uma vontade gigantesca de sumir me dominou, ver aquele crachá no peito da mulher me revoltou. O nome da senhora que aparentou ter os seus cinquenta anos era Selma. Pelo visto uma mãe de família, que ainda trabalhava para dar o melhor as pessoas que amava. Agora está sobre um piso de porcelanato, com seus miolos por todos os lados. Não ter mais o direito de um funeral, de ter que ser jogada em uma vala com mais corpos, isso não era mais o nosso Planeta. Se foi isso que eles queriam, conseguiram. Estão dominando nosso mundo com o que mais dói em nós, ver nossos semelhantes morrerem como animais. Estão forçando nós mesmo matarmos uns à os outros. Que raça de seres sem alma são eles? Por que...

— Cuidado irmão. – Léo atirou e acertou um infectado que caiu sobre um amontoado de salgadinhos. Em meus devaneios de ingratidão perdia os sentidos, mas eles estão sempre ali para me guiar e me tirar do abismo. Segurei o braço de meu irmão que tremeu com o que fez. Mesmo sendo forte e decidido, a ideia de socar uma bala na cabeça de um alguém era pavoroso para qualquer um de nós.

— Acho que acabou! – Berrou Torres, — Léo busque sua irmã e as meninas, vamos seguir a Marry, rápido e tome cuidado.

— Sim Senhor. – Respondeu. Bruno seguiu Torres e os outros, fiquei esperando as garotas. Reparei nos corpos por todos os lados. Como eles se infectaram se as entradas estão todas trancadas por portas de metais e revestidas com uma camada de vidros? Será que algum deles estava lá fora na hora das coisas caírem e soltarem a nuvem de sangue? Se soubessem do domínio dos Zoens não estariam mortos. Agora fortifiquei minha certeza de que tivemos sorte em encontrar pessoas que sabiam sobre o que poderia acontecer. Estamos sendo salvos a cada segundo e ainda não conseguimos entender, por que nós? Será que outras pessoas que vamos conhecer são merecedoras desse privilegio? Maycon não soube aproveitar a chance que estava com ele, será que poderíamos confiar mesmo em novos rostos? Todo esse caos desacelera minha razão, já não consigo confiar nem mesmo em meus atos.

Léo voltou com as meninas, abracei minha irmã e selei o momento com um beijo nos lábios de Luiza. Seguimos o rumo dos outros. Caroline segurou firme a mão de Léo enquanto andávamos, senti que eles se aproximaram ainda mais depois da delegacia. Desviei de corpos ao chão, mas não consegui deixar de pisar em sangue. Aquilo era horrendo, o líquido vermelho ia se espalhando em pegadas no chão liso, quase fazendo escorregar. Tentei tapar os olhos de Clarice, mas ela não conseguiu se abalar. Estes momentos estavam tirando o brilho que ela levava em seus olhos, até seu sorriso metalizado pelo aparelho odontológico alegre de várias cores, não iluminava mais seu liso rosto branco. O mundo acabara com a sua alegria de viver, o que mais eles tirariam de mim?

Abrimos uma porta onde uma escada era o que levaria nós aos sobreviventes do mercado. E fora no topo da fria escada que Torres, João, Bruno e Marry nos aguardava, e junto com eles, mais três pessoas. Entramos na sala onde servia de refugiu para aquele pequeno grupo, percebi no exato momento que o homem que Marry abraçara com afeto e fúria, era o rapaz de quem ela falou. Seu cabelo era descolorido em um amarelo-claro e seu corpo tomado em tatuagens desalinhadas e sem sentido. Fitou-nos com um olhar trêmulo, seus olhos claros de um tom verde inundou-se em lágrimas ao ver Marry. A menina sem exitar beijou os lábios do homem que aparentou ser bem mais velho que ela, estava vestindo o mesmo uniforme que os mortos do andar de baixo.

A mulher que se vestia igual, correu e trancou a porta de onde entramos. Ela aparentou ter seus quarenta anos. Negra de cabelos ondulados, seu rosto redondo era de uma mulher assustada e desorientada, mas levava um brilho de simpática extrema. Não falou nada, apenas trancou a porta e nós fitou, dos pés à cabeça. Luiza foi a primeira a dar a voz, em meio aquele encontro tortuoso.

— Oliver? – Mirou suas palavras no segundo rapaz que estava na sala. Ele logo retribuiu e correu abraçando Luiza que soutou de minha mão e foi ao encontro do mesmo.

— Eu não acredito que é você, como conseguiu? Como nós encontramos aqui?

— Não sei, nunca imaginei que estaria aqui, e vivo... – Não conseguia entender a cena, me coloquei em frente a Luiza jogando seu corpo para trás do meu, e perguntei curioso.

— De onde vocês se conhecem? – E o rapaz de olhos azuis, cabelos cor de ouro em um penteado impecável aproximou-se de mim, era elegante e mesmo em um apocalipse sua roupa estava limpa, percebia na hora que uma pistola era o que sua mão levava.

— Me chamo Oliver Mendes, sou o ex-namorado de Luiza, quer dizer, estávamos indo nos encontrar. – Eu não conseguia compreender o que ele falou, era realmente verdade? Luiza desviou o olhar para mim, enquanto todos me olharam apreensivos.

— Isso é verdade Luiza? – Abafei palavras agressivas.

— Sim, mas eu e Oliver não temos mais nada. – Oliver foi-se à minha frente e disse com um tom alterado.

— Por que quer saber? – Luiza abraçou meu braço, e respondi seco.

— Por que ela está comigo agora! – Em um tom claro, ele se pôs para trás, quando percebeu que apertei o cano de minha 9 mm. O que ele pensa? Chegar assim do nada e levar ela de mim, não. Mas isso era o menor dos problemas, uma cena de ciúmes não combinaria com a expressão de pânico de todos da sala. Mesmo eu querendo muito socar o rosto dele, por ele olhar daquela maneira para Luiza, me contive em um suspiro de raiva e João comentou, olhando em uma janela enorme de vidro que dava visão para toda a loja do mercado.

— Provavelmente eram só aqueles, por que estavam escondidos aqui? – Gabriel o namorado de Marry respondeu ainda abraçado com a garota.

— Tentamos acabar com eles, mas eles eram amigos de anos. É difícil atirar na cabeça de pessoas que gostamos, ainda que este mundo esteja acabando, nossa sanidade continua normal. – E a mulher negra se aproximou.

— Me chamo Michele, conheço as meninas que estão sobre aquele piso há anos, é muita dor. – Ela se pôs a chorar. Luiza tentou confortar a mulher passando as mãos nos ombros largos dela, mas ela continuou seu luto.

— Se não fosse por este Playboy, nossos amigos estariam vivos. – Gritou Gabriel olhando furiosamente para Oliver, que arfou e respondeu com um tom ainda mais furioso.

— Não tive culpa, tentei entrar no mercado, vocês abriram a porta e eles entraram juntos, apenas quis sobreviver como todos. — Torres tocou nos ombros de Gabriel, e falara em um tom decidido.

— Vocês ficam aqui, deve ser complicado terem que ver eles mortos. Nós retiraremos os corpos deles do meio do mercado para pudermos usufruir das coisas, até que estabeleça contato com a Base onde estamos indo.

— Tentarei de todas as formas me comunicar com meu Radio. – Bruno exclamou. Estávamos salvos, mas ainda era o improvável que me assusta de uma maneira tremenda.

15 de Julho de 2014 – Dez dias depois dos primeiros ataques.

Faz uma semana que estamos no mercado, sem nenhum tipo de contato com o mundo. O rádio de Bruno ainda não tocou, e ninguém entrou em contato conosco. Do lado de fora o que escutamos são gritos, mas não de socorro. São mais como barulhos saindo de dentro de gargantas mortas, o som é intenso e desequilibrado, grunhidos de puro terror. Pela quantidade de pessoas, acredito que passam de milhões nas ruas, corpos podres, sem vida, sendo usados apenas de recipiente para o vírus Alienígena. Há cada dois dias, durante duas vezes era escutado aquele som ensurdecedor de uma trombeta rasgando o ar. E quando ela parava os grunhidos acabavam. Era as luzes e a abdução, que até agora não nos cabia. O que eles faziam com os corpos que abduziam? E depois do clarão sumir, as esferas caiam.

Em uma noite uma esfera caiu perto do mercado, o impacto fora devastador. Todos ajudaram empurrando prateleiras e objetos nas portas que foram danificadas pelo vento e escombros da construção à frente que pulverizou-se com a queda daquela coisa. As mascarás de gás que não tivemos oportunidade de usar, agora estavam servindo para subirmos no telhado do mercado para sentirmos a briza do mundo, mesmo ele desmoronando.

E era ali que eu sempre ficava no final da tarde. Com medo, vestia a mascará para me assegurar de não respirar a Nuvem de Sangue. Olhar aquele céu que ainda era nublado e imaginar eles me tortura. Entretanto o que mais me torturou era os olhares de Oliver para Luiza, não gosto dele. Seu jeito desagradável. Não aceitou nem mesmo as tarefas dadas a ele, medroso. Mas Luiza sorri para ele, e as vezes té conversa. Será que ela sente algo por ele? E como sempre ela aproximou-se de mim, no exato momento que pensei nela.

— Tire essa mascará de gás Nic. – Fiz o que ela pediu, retirei a mascará. – Bem melhor. – Me deu um beijo, mas eu não retribui da maneira esperada.

— Desculpe.

— O que você tem? Está me evitando?

— Não é isso, é que aquele cara...

— Já conversamos sobre isso. Oliver foi meu namorado durante dois anos, mas acabou. Estávamos indo nos encontrar a negócios, o seu pai tinha uma clínica de Psicologia e eu ia fazer uma entrevista com ele, para conseguir um estagio.

— Desculpe, é que em meio a milhões de pessoas, justo o seu namorado aqui. E eu que você beija há apenas dez dias. Me sinto na desvantagem.

— Como é bobo, ele pode ter sido meu namorado, mas nunca salvou minha vida. Te acho bem mais interessante do que ele. – Ela sorriu e se debruçou contra meu peito e nos beijamos ardentemente, e quando o calor atingia partes, fomos interrompidos.

— Vocês dois em! – Clarice.

— Oi meu amor, sente aqui conosco. – Luiza exclamou, e ela sentou entre mim e Luiza.

— Nic, sinto falta da mãe. Será que está viva? – Eu a abracei e respondi trêmulo e na incerteza.

— Espero que sim Clarice. – Ficamos ali até escurecer, e entramos quando o grunhido dos mortos se estendeu junto à escuridão.

Notas finais
Espero que tenham curtido. Não deixem de deixar seu comentários. Até o próximo :v