Nox et Lux
4 III.
Notas iniciais
O suor desce pelas têmporas, emplastando a gola da camisa e as costas. Meu rosto está coberto de fuligem e coriza. Lágrima de pavor traçam uma linha imaginária em meu rosto pálido feito giz. Mechas de cabelo ricocheteiam meu rosto, levadas pelo vendo, e permanecem ali, aderidas à sujeira.
Atiro a bicicleta de qualquer jeito sobre o gramado do jardim. Meus músculos ardem. Minhas pernas fraquejam, incapazes de obedecer aos meus comandos. Eu nunca havia pedalado com tanto vigor em toda a minha vida, e isso havia exigido tudo de mim. Meu corpo protesta, exausto.
Minhas narinas inflam a cada vez que eu inspiro com força, acompanhadas de arquejos medonhos que irrompem da traqueia. Tento recuperar o fôlego. Agacho-me diante do gramado, sentindo o gosto da bile subir à garganta, e vomito em golfadas sôfregas ali mesmo.
Permaneço algum tempo naquela posição enquanto aguardo meus pensamentos voltarem ao lugar. Me levanto e roço os lábios sujos e com um intenso sabor acre sobre o ombro, na manga da camiseta. Avanço alguns passos, trôpega, e espreito pela vidraça opaca. Esquadrinho o interior da casa, detectando uma claridade diáfana que emana da sala. Audrey estava acordada, esperando por mim.
Contemplo meu reflexo no vidro. Estou deplorável. Limpo o suor e a sujeira do rosto com as costas da mão. Respiro fundo, tentando me recompor.
Caminho até a entrada, apanhando o molho de chaves extras de dentro do bolso. Abro a porta o mais silenciosamente possível.
— Sabe que horas são?
Minha mãe está aninhada no sofá, os pés cobertos por uma manta felpuda cor de palha. Tranco a porta de mogno atrás de mim e deposito as chaves sobre a mesa da cozinha.
— Eu te liguei diversas vezes. – Audrey sequer olha para mim enquanto profere secamente as palavras. Seus olhos permanecem compenetrados na TV, de onde as cenas de uma série policial repletas de adrenalina iluminam a penumbra.
— Meu celular estava sem bateria – minto num fio de voz, caminhando em direção às escadas.
— Grupo de estudos, é? – ri-se ela enquanto balança a cabeça em discordância. – Posso sentir o cheiro de cerveja daqui.
— Mãe, minha cabeça está a ponto de explodir. Eu só quero tomar um banho e ir para a cama, está bem? Conversamos amanhã.
— Sei que já é adulta e a responsável legal pelos seus próprios atos, mas não gosto quando mente para mim. Você sabe que, além de sua mãe, sou sua amiga. – Ela suspira, apertando as pálpebras com os indicadores. Em seguida, Audrey olha para mim. Escondo o rasgo talhado no tecido da calça sob os dedos da mão. Quando não vejo nada em sua expressão além de preocupação genuína, sinto-me terrivelmente culpada. – Madeleine, o que aconteceu com você? Está um caco.
Audrey se levanta e caminha em minha direção. Ela me avalia dos pés à cabeça, apalpando meus braços e meu abdômen em busca de alguma escoriação. Ela esfrega os polegares na região abaixo dos meus olhos, limpando a fuligem.
— Sofri um acidente com a bicicleta. Mas não foi nada de mais. Atravessei uma rua esburacada e perdi o controle sobre o guidão. Estou bem, ganhei apenas alguns arranhões – minto, incapaz de olhá-la nos olhos.
Audrey maneia a cabeça em um gesto afirmativo, compreensiva.
— Meu Deus, Madeleine, você precisa se cuidar. Já não é a primeira vez que esses acidentes acontecem. Onde você anda com a cabeça? Parece que está sempre fora de sintonia. – Audrey suspira, depositando as mãos sobre a cintura. Sua voz sobe um oitavo enquanto ela me dá um dos seus sermões. Dou de ombros. – Você me deixou morta de angústia. Estava prestes a ligar para o seu pai no plantão.
— Agora estou aqui, não estou? – murmuro friamente. Sinto o peito apertar. – Estou inteira, não tem porquê se preocupar.
— Poderia não estar.
Flashes das mãos de Qiang agarrando meus pulsos irrompem em minha mente, e tenho vontade de vomitar. Porém, permaneço resoluta, tentando não demonstrar hesitação enquanto dou as costas para Audrey e subo os degraus um a um. Minhas mãos tremem compulsivamente e, quando abro a porta do banheiro e contemplo meu semblante transtornado no espelho, os olhos injetados e as olheiras fundas abaixo deles, desato em um choro copioso. Desabo sobre os joelhos, a bochecha pressionada contra a porcelana gélida da banheira. Tento abafar os soluços que escapam dos meus lábios com o antebraço.
Qiang agora está morto. Irrevogavelmente morto. Seus músculos devem estar endurecidos, o corpo escuro e inchado. Em breve, a pele e os órgãos irão se desfazer, atraindo moscas quando o cheiro de carne pútrida começar a emanar, e o encéfalo virará um caldo.
Alguma força da natureza – brutal e avassaladora – havia salvado a minha pele. Havia curado o corte profundo que o punhal havia cravado em minha perna. E meu cérebro se recusava a processar o acontecido, tentando enterrar as imagens que assombram meus pensamentos, e havia me forçado a correr para longe da viela, deixando para trás os vestígios daquela cena monstruosa – o corpo de Qiang repousando em um ângulo impossível, meu sangue na lâmina do punhal e em poças no asfalto. Meu sangue.
Em breve, quando o cheiro de podridão se tornar insuportável e incomodar os moradores da região, as autoridades serão contatadas e irão localizar o corpo. E não demorará até que os peritos façam uma averiguação mais apurada e notem as manchas de sangue coagulado na cena do crime, ligando-me à morte de Qiang. Sinto vontade de gritar. O que eu diria caso as autoridades viessem até mim para que eu prestasse contas? Tudo o que acontecera na viela fora no mínimo inconcebível. Ninguém acreditaria em mim.
Levanto-me vacilante e giro a manopla, deixando a água quente escoar para o fundo da banheira. Quando a água atinge altura suficiente para me cobrir até a cintura, me dispo. Encaro o teto, incapaz de olhar para o meu corpo nu. Corpo que havia sido tocado sem consentimento pelas mãos de Qiang.
Entro na banheira e por um instante apenas permaneço ali, deixando a água embeber meu corpo e relaxar meus músculos. Em seguida, apanho uma bucha vegetal e a esfrego em meus braços, minhas pernas, meus seios, meu abdômen e tudo aquilo que consigo alcançar. Esfrego com tanta força que sinto gotículas de sangue irromperem dos arranhões que deixo em minha pele. A dor parece atenuar o sentimento de repulsa que me consome, e minhas lágrimas quentes se misturam à água.
...
Apesar da exaustão, não consigo adormecer. Fecho os olhos, apertando bem as pálpebras, mas minha mente se recusa a parar de trabalhar. Quanto mais penso, pior fica. Quanto menos penso, pior fica.
Afasto o edredom que envolve meu corpo até a altura do queixo, ficando sentada sobre a cama. Fios rebeldes de cabelo estão grudados em meu pescoço úmido de suor frio.
Desbloqueio o celular a fim de verificar as horas. Já passa das três da manhã. Há diversas mensagens não visualizadas de Beatrice, e as leio rapidamente pela barra de notificações, mas não me dou ao trabalho de responder.
Tris (23h05min): Oi, chegou bem em casa?
Tris (23h17min): Aquele asiático otário finalmente se mandou. Enfim, paz.
Tris (01h02min): Está tudo bem? Por que não responde?
Tris (01h48min): Terra para Madeleine.
Salto da cama, os pés tocando o linóleo impecavelmente limpo. Caminho até a escrivaninha e apanho o notebook que jaz em uma das repartições do móvel. Sento-me diante dele e acendo a luminária, da qual provém uma luz branca fluorescente que projeta uma imagem tremeluzente da minha silhueta na parede. Ligo o aparelho, as ilustrações do monitor em tons tênues de azul anil e amarelo sobressaindo-se na penumbra. Mordisco a cutícula enquanto aguardo o carregamento do modem. Meu coração bate tão forte dentro do peito que me pergunto se alguém além de mim pode ser capaz de ouvi-lo.
Acesso o Google e, com as mãos trêmulas, procuro pelo nome de Qiang na barra de pesquisa, sem sequer saber o sobrenome. Nos resultados da busca não há nada além de perfis em redes sociais e imagens de um tipo de lança popular na China. Então, procuro por Qiang, Fortune. Chego a revirar listas dos desaparecimentos mais recentes na delegacia virtual. Contudo, não encontro nada relevante.
Impaciente, meus dedos percorrem habilidosamente as teclas do notebook, iniciando uma nova busca: explosão em Fortune, Canadá. Porém, a notícia mais recente é a da explosão em um apartamento no centro da cidade, decorrente de um vazamento de gás. Há mais de dois meses.
Recosto-me na cadeira, bufando, e o seu espaldar vazado rilha em protesto. Estalo as juntas dos dedos, frustrada – e, ao mesmo tempo, aliviada – pela carência de respostas.
Então, meus olhos se dirigem à fina cicatriz assinalada na pele da coxa que desponta da barra do meu calção de malha. Roço a ponta dos dedos sobre ela, sentindo a protuberância do tecido hipertrofiado. Algo me ocorre. Volto minhas atenções para a tela do notebook, onde o cursor de texto pisca na barra de pesquisas em branco. Desacreditada, digito “poder de cura” e pressiono Enter. Diversas páginas de conteúdo hierático, textos motivacionais e até mesmo um site de curiosidades que explica o funcionamento de placebos surgem na tela. Nada disso me interessa.
Porém, entre os últimos resultados da pesquisa, um link em específico desperta minha atenção. Há “Poderes que podemos desenvolver – Oficina Ocultista” escrito em letras maiúsculas. Ocultismo. Engulo em seco e acesso o link.
O site se trata de uma espécie de blog, cuja administradora apresenta-se pelo nome de Lya. Alguns de seus contatos pessoais figuram na descrição, incluindo e-mail e telefone.
Meus olhos cansados varrem a tela. Diversas matérias atulham o blog, sem estarem organizadas por ordem alfabética, o que me causa uma certa inquietação. Telepatia: o poder de enviar e receber mensagens mentais. Elementares e o dom da manipulação. Ilusionismo: a incrível capacidade de controle sobre os sentidos. Desmaterialização e materialização, uma desintegração do corpo material, seguida de um comentário em anônimo: “Isso me parece ficção de filmes. Alguém crê?”.
Vinco as sobrancelhas, um riso estrangulado irrompendo do fundo da garganta. Sinto-me ridícula por me prestar a ler algo tão absurdo, talvez até envergonhada. Mas, dado os acontecimentos recentes, qualquer coisa me parece admissível.
Continuo fitando a tela, compenetrada na tarefa. Leio cuidadosamente todas as descrições, procurando alguma coisa que me pareça familiar, para não dizer plausível. Faço um pequeno catálogo mental com as informações que acredito serem relevantes, e uma em específico atrai minha atenção:
Sanación, o poder que permite que bruxas e feiticeiros aumentem a sua capacidade de autocura.
O ar se esvai dos meus pulmões, as palavras parecendo dançar diante dos meus olhos. Mordisco o lábio inferior e observo a cicatriz de soslaio. Com as mãos tremendo e o gosto margo da bile subindo à garganta, acesso a matéria.
— Ainda acordada, Madeleine?
Tenho um sobressalto e desligo o computador no botão principal, sem esperar que ele desligasse apropriadamente, e fecho a tela do notebook com toda a força. Vislumbro Audrey parada à porta, o ombro recostado contra o batente e as mãos pousadas dentro dos bolsos do roupão. Seus olhos me estudam, alarmados. Sinto o sangue pulsar dentro dos ouvidos, arfando.
— Mãe, você me assustou!
— Desculpe, eu deveria ter batido. – Audrey adentra o quarto. Seu nariz anguloso projeta sombras em seu rosto sob o brilho da luminária. – Está tudo bem?
— Sim, eu só... não consigo dormir. Então resolvi fazer alguns planejamentos de estudo para passar o tempo – minto, gesticulando para o notebook.
Andrey se senta na ponta da cama e se inclina para afastar uma mecha de cabelo que cai sobre o meu rosto.
— Madeleine, você está de férias. Tente relaxar um pouco.
Ofereço-lhe um meio sorriso e assinto.
— Eu vou tentar.
— Quer que eu prepare um chá para ajudá-la a descansar? Hoje mesmo, eu colhi alguns ramos de erva cidreira direto da horta. Você precisa ver como os tomates estão vingando depois que passei a incrementar cascas de ovo na terra antes do cultivo. Vi essa dica na internet, dizem que as cascas ajudam a enriquecer os níveis de cálcio no solo.
— Não, mãe, obrigada – interrompo. Audrey imediatamente se detém e levanta os olhos, esquadrinhando meu rosto. – Estou bem.
— Não, não está. Sei quando alguma coisa está te incomodando só de olhar para você – rebate ela enquanto segura meus ombros e aproxima seu rosto do meu. – É sobre aquele lance de você gostar de garotas? Sabe que pode falar abertamente comigo sobre isso. Aliás, como estão indo as consultas com a Dra. Page?
— Eu parei de frequentar a clínica de psicologia há muito tempo, mãe. Achei que soubesse disso – murmuro, os olhos revirando nas órbitas, e afasto as suas mãos dos meus ombros. – E não, não tem nada a ver com a minha bissexualidade. Eu só... preciso ficar sozinha. Por favor?
Audrey tamborila os dedos sobre o antebraço, contrafeita. Em seguida, se levanta e ajeita os óculos que escorregam pelo dorso do nariz.
— Está bem. Se precisar de alguma coisa, estarei logo ali, no quarto ao lado. Pode me chamar.
— Mãe – repreendo, estreitando os olhos para ela.
— Estou saindo, estou saindo. – Audrey projeta as mãos acima da cabeça, na defensiva.
— Mãe, espere. – Ela para na porta e se volta sobre os calcanhares na direção do quarto. – Não conte nada do que aconteceu hoje para o pai, está bem?
— Prometo segurar a minha língua – assegura ela, soprando um beijo com a mão espalmada.
Aceno para ela, sibilando um “boa noite”, e me apresso em fechar a porta assim que Audrey deixa o cômodo. Dessa vez, certifico-me de girar a chave dentro da fechadura.
Volto a me sentar diante da escrivaninha e abro o notebook. O brilho da tela ilumina a penumbra e me cega por um breve momento, fazendo-me pestanejar. Contrariando todas as minhas convicções, tomada por um lapso de insanidade, copio o endereço de e-mail de Lya e acesso o Outlook.
O que é que há de errado comigo? Eu havia sido violentada e assistido à morte do meu abusador, e a única coisa que faço é ficar sentada em frente ao computador buscando informações inconcebíveis sobre feitiçaria. Eu deveria estar ligando para a polícia. Mas todas as implicações que isso traria me fazem resistir. Sinto o rosto ruborizar e uma veia pulsante despontar em minha testa.
Clico na opção de enviar uma nova mensagem e colo o seu endereço no espaço designado ao destinatário. Hesitante, escrevo:
Olá, tudo bem? Meu nome é Amanda e sou leitora do seu blog. Estou bastante interessada em uma matéria em específico e gostaria de saber mais sobre o assunto. Será que poderíamos marcar um encontro? Prefiro sanar minhas dúvidas pessoalmente. Entendo se recusar, afinal não fomos devidamente apresentadas. Desde já, agradeço.
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