Notas iniciais
Olá, pessoal. Muita coisa aconteceu nesses últimos meses, inclusive um terrível bloqueio criativo, então peço desculpas por ter demorado tanto para postar. Em breve pretendo criar um blog para a história, então vocês podem acompanhar melhor minhas atividades por lá. Enfim, aqui está o capítulo. Espero que gostem e, se puderem deixar um feedback, fico muito agradecida. Abraço! ♥

O despertador toca, a música instrumental parecendo reverberar no fundo da minha mente. Tenho um sobressalto e me levanto de supetão, limpando o rastro de saliva acumulado no canto dos lábios. Meu pescoço dói, e é difícil me mover. Demoro algum tempo para me adaptar à realidade, a mente entorpecida. Desfiro em meu rosto triste e idiota alguns tapas merecidos, que fazem meus olhos se encherem de lágrimas. Paro para recuperar o fôlego, observando a escrivaninha à minha frente. Eu havia adormecido de bruços sobre o notebook. Há uma impressão do suor do meu rosto sobre a tela. Limpo-a com a parte interna da camiseta de malha.

Tateio o próprio corpo, como se para se garantir que eu estava ali, viva. Pelo menos, eu havia tido um sono sem pesadelos. O acontecimento de ontem parece estar começando a se tornar apenas uma memória. Alguns detalhes já haviam se perdido em algum lugar nas profundezas do meu cérebro.

Levanto-me da cadeira e me alongo. Estico bem os braços acima da cabeça, sentindo todos os ossos do corpo estalarem em protesto. Prendo o cabelo em um coque displicente e desço as escadas.

Um vozerio toma conta do ambiente. Posso discernir o cheiro de café fresco antes mesmo de adentrar a cozinha.

— O plantão dessa noite foi um verdadeiro inferno. Recebemos um grupo de escoteiros que haviam sido atacados por um enxame de abelhas, algumas crianças à beira de um choque anafilático. – A voz arranhada de Paul ressoa pelo recinto enquanto ele leva o bule à sua caneca, servindo-se de mais café. Audrey está sentada à mesa, o queixo apoiado sobre as mãos espalmadas, compenetrada no que o meu pai tem a dizer. – Atendemos também um acidente de trabalho. O rapaz trabalhava em uma empresa de farinha, na seção de empacotamento. Ele prendeu a mão na máquina e teve o braço dilacerado até o ombro. Foi terrível de se ver. Tivemos de amputá-lo. Considerando que a nossa equipe está reduzida quase pela metade, fizemos um serviço primoroso. Vários dos nossos enfermeiros estão de atestado depois de contraírem caxumba de um paciente. Ah, bom dia, querida.

— Bom dia, pai – respondo enquanto surrupio uma fatia de pão integral da mesa do café.

— Você está com uma aparência melhor hoje. Conseguiu dormir? – indaga Audrey.

— Um pouco. – Dou de ombros. – Pai, me alcance a faca, por favor.

— O que aconteceu? – Paul pergunta, entregando-me o objeto afiado de metal. Sinto o estômago revirar por um breve momento, recordando o brilho da lâmina do punhal de Qiang sob a penumbra.

— Acidente de bicicleta – Audrey anuncia, os olhos revirando nas órbitas, mas não dá maiores explicações. Ela havia cumprido com a sua promessa. – Mas tenho certeza de que aconteceu mais alguma coisa, e Madeleine se recusa a me contar.

— Mãe, se eu estivesse com problemas, certamente eu contaria a você. Não há motivos para eu esconder nada, já que, como você mesma disse milhões de vezes, sabe quando algo está errado só de olhar para mim – Bufo, minha voz subindo uma oitava. Audrey arqueia uma sobrancelha, estudando meu semblante. Mordisco uma fatia do pão com uma cobertura generosa de pasta de amendoim, já sentindo a fome se esvair. Paul me repreende com o olhar. – Sei lá, devem ser as minhas crises de ansiedade dando as caras novamente – minto como se estivesse desenterrando um segredo inquietante. As expressões dos meus pais suavizam.

— Por que não volta a fazer terapia? Vai fazer bem a você, em todo caso – diz Paul.

— Não, nada de Dra. Page – rebato com veemência e me estico para me servir de um copo de leite.

— Por que toda essa resistência? – meu pai indaga.

— Eu quero ser capaz de ter controle sobre a minha vida sem a terapia e os medicamentos. Eu quero tentar. — Pela primeira vez desde o incidente com Qiang, digo palavras genuínas.

O silêncio finalmente se instala no ambiente, e me sinto aliviada. Não estava disposta a ter de confrontar meus pais logo nas primeiras horas do dia. Olho pela janela. A manhã está nebulosa. Beberico um pouco do líquido branco e gorduroso que enche o meu copo, sentindo-me culpada depois de tantas tentativas frustradas de me converter ao veganismo. Perdão, vaquinhas.

— Hoje vamos passar a tarde em Bouders Beach – Audrey quebra o silêncio enquanto leva sua xícara suja à pia. Ela gesticula com o queixo em minha direção. – Depois que terminar de comer, arrume as suas coisas.

— Estou com vontade de ficar por aqui mesmo – digo, melancólica. As imagens do corpo de Qiang voltam a me perseguir, e me encolho. – Estou com uma dor de cabeça terrível, preciso recuperar as horas de sono perdidas.

E se alguém no lago soubesse o que havia acontecido na viela e me reconhecesse? Sinto as entranhas se revolverem.

— Isso não foi uma pergunta, foi apenas um aviso. Você pode dormir no carro. São uns vinte minutos até lá, trinta e cinco dependendo do trânsito. E, considerando que metade da população de Fortune vai à praia nas tardes abafadas de agosto, você terá tempo suficiente para descansar – minha mãe responde. Tenho um sobressalto ao contemplar o tom ríspido em sua voz, algo bastante incomum. Audrey quase nunca se alterava. – Se acha que vai poder ficar trancada em casa o dia todo, sem sequer ver a luz do dia, saiba que está terrivelmente enganada. Olhe para você, pálida feito giz.

— A falta de Vitamina D no organismo pode causar distúrbios do sono, sabia disso? – sentencia meu pai, o dedo em riste apontado para mim.

Meus olhos reviram nas órbitas.

— Você precisa sair, se divertir um pouco – continua Audrey, postando-se atrás de mim e sacudindo meus ombros. – Seu pai teve de dobrar os plantões para que pudéssemos tirar esse tempo em família.

Suspiro, rendida.

— Tudo bem, vocês venceram.

...

Desço as escadas. Carrego uma bolsa de tecido com a alça apoiada sobre o ombro, munida de um kit de sobrevivência: meu celular, fones de ouvido, um livro e muito filtro solar.

Encontro Audrey na cozinha preparando uma cesta de sanduíches e uma garrafa térmica para as bebidas. Pela janela, vislumbro Paul depositando um guarda-sol no porta-malas do Volvo estacionado do lado de fora da garagem. Ele traja uma bermuda cargo cor de palha e uma camiseta de estampa havaiana com botões, o que o faz parecer mais jovial.

— Todos prontos? – Paul indaga enquanto irrompe pela porta com um sorriso de ganhador de loteria, empurrando os óculos de sol até o topo da cabeça.

Cerca de meia hora mais tarde, estamos margeando a estrada da costa. Minha mãe está sentada no banco da frente ao lado de Paul, que tem as mãos retesadas sobre o volante, concentrado na direção. O vento que entra pelas janelas abertas projeta os cabelos iluminados de Audrey pelas laterais do encosto. Eles cantarolam junto à música que toca no rádio, e os dedos de Audrey tamborilam no painel do carro.

O velocímetro não ultrapassa a marca dos 60 quilômetros por hora. “A velocidade é apenas um detalhe quando se tem classe”, era o que argumentava Paul. Os demais veículos passam pelo Volvo deixando um rastro de poeira. Ao menos consigo me perder em devaneios enquanto contemplo a vista. De fato, a viagem havia perdurado mais do que o habitual.

Adentramos o que parece uma clareira. Há filas de carros. Meu pai estaciona num espaço vago em meio a dois outros veículos. Algumas crianças em seus trajes de banho brincam de pega-pega por ali, os pés produzindo ruídos contra as milhares de pedrinhas que encobrem o chão. O nome Bouders Beach nunca fez tanto sentido.

— Maddie, me ajude com as cadeiras.

Paul não me chamava por esse apelido desde que eu havia debutado. De fato, ele deveria estar em um ótimo humor.

Suspendo a bolsa de tecido sobre os ombros e, com as pálpebras cerradas e as mãos apertadas em punho, os tendões se destacando sob a pele clara, desço do carro. O sol do meio-dia desponta por entre as nuvens carregadas, e meus olhos se esforçam para se adaptarem à luz.

Apanho duas das cadeiras dobráveis do porta-malas e as carrego embaixo do braço até um trecho de areia começar. O oceano se perde no horizonte, e o barulho das ondas quebrando na enseada me ajuda a relaxar. A atmosfera é tão úmida que o sal do mar parece grudar à pele.

Paul aponta para um espaço ligeiramente distante da água, onde a concentração de guarda-sóis é menor. Audrey não havia mentido quando dissera que metade da população de Fortune viria à praia naquele dia.

Fico de cócoras para cavar um buraco na areia e ajudo meu pai a acomodar o guarda-sol, enquanto Audrey arma as cadeiras onde o utensílio projeta sombra.

Quando tudo está em seu devido lugar, desabo sobre a cadeira, e meu peso a faz afundar ainda mais na areia. Coloco os óculos de sol e apanho o livro de dentro da bolsa de pano. O Cemitério, de Stephen King. Retomo a leitura da página de onde parei, na qual Louis Creed briga com o sogro enquanto seu filho Gage está sendo velado.

Permaneço algum tempo ali, virando cuidadosamente as páginas com a ponta dos dedos, mas não consigo me concentrar o suficiente para imergir na história. Audrey me oferece um sanduíche embalado em papel filme que apanha de dentro da cesta, e eu aceito de bom grado. Sanduíche de tiras de frango e tomate, meu favorito. Mordisco alguns pedaços enquanto passo os olhos pelas páginas, e tenho de ler o mesmo parágrafo mais de uma vez para, de fato, entendê-lo, pensamentos aleatórios bombardeando minha mente.

— Audrey e Paul O’Hara? São vocês mesmo?

Uma mulher alta de canga transparente está parada em frente ao guarda-sol, seu corpo grande projetando sombras sobre os meus pés. Posso ver os contornos da calcinha escura sob o tecido transparente. Minha mãe a contempla por cima dos óculos, enquanto meu pai rapidamente se levanta e enfia as mãos nos bolsos da bermuda.

— Oi! Sim, somos nós.

Tiro os óculos de sol para fitá-la. Sua pele retinta parece brilhar sob o sol, os cachos do cabelo avolumando-se sobre os ombros nus. A mulher imediatamente direciona suas atenções para mim, efusiva.

— Meu Deus, é você! Eu reconheceria esse par de olhos azuis em qualquer lugar!

Sou tomada de assalto pelos seus braços envolvendo meus ombros, o aperto quase me sufocando. Sou pelo menos dois palmos mais baixa, e meu nariz pressiona o contorno da sua clavícula. Ela tem cheiro de sabonete barato, ligeiramente amadeirado. Não tento resistir. Retribuo o abraço, um tanto desajeitada.

Ela se afasta e segura meu rosto com as mãos espalmadas. A pressão dos dedos é gentil, mas ainda me sinto atônita com a manifestação repentina de intimidade, e retrocedo discretamente alguns passos. Ela parece não se importar e permanece sustentando um amistoso sorriso de orelha a orelha.

— Como está linda! Eu a imaginava exatamente assim.

— E quem é você, exatamente? – indaga Paul, as sobrancelhas vincadas.

— Eu? – A mulher gesticula com a mão em um gesto de desdém. – Apenas uma fã.

— Ah, sim, claro. – Meu pai imediatamente muda a postura, exibindo um sorriso condescendente e estendendo a mão para cumprimentá-la. – Desculpe-me se pareci grosseiro, mas já estamos desacostumados com esse tipo de abordagem. Às vezes até me esqueço do nosso Bebê Miraculoso.

Cruzo os braços, mas forço um meio sorriso. Ela não parece o tipo de pessoa que se sensibilizaria com a minha história, sobretudo ao considerar a faixa etária. Ela é jovem, de porte atlético, bastante distante das senhoras de meia-idade com as quais eu estou acostumada.

— Eu é que peço desculpas pela minha inconveniência, mas eu não poderia deixar essa oportunidade passar. – Ela sustenta o peso do corpo ora sobre a perna direita, ora sobre a esquerda, inquieta. – A propósito, meu nome é Anne. Com dois enes. Eu cresci acompanhando a história da sua família. Eu devia ter uns oito anos e lembro ficar com os olhos vidrados na TV quando Madeleine figurava nas emissoras cristãs que minha mãe costumava assistir. Jamais imaginaria um dia poder encontrá-la. Peço perdão se eu acabar ficando um pouco emotiva.

– Imagina, ficamos muito felizes em saber que pudemos inspirar e fazer parte da vida de tantas pessoas ao compartilharmos nossa história – diz Audrey de modo quase mecânico, como se já houvesse enunciado aquele mesmo discurso milhares de vezes.

Anne e Audrey então iniciam uma calorosa conversa sobre maternidade, e, para o meu alívio, sou deixada de fora. Murmuro um pedido de licença e caminho em direção ao mar. A areia é tórrida, e sinto a sola dos pés descalços arderem. Me apresso e solto a respiração em uma longa baforada quando meus pés vão de encontro à água. As ondas de pequena amplitude quebram sobre os meus tornozelos e, pela primeira vez naquele dia, sinto um certo conforto.

Avanço alguns passos até o ponto em que o oceano me envolve na altura da cintura. O mar está calmo, e o movimento suave das ondas faz com que eu feche os olhos e me entregue à bonança. Fico de costas para o mar, deixando que o meu corpo flutue e seja lentamente carregado pela corrente. É quase como se eu estivesse sendo ninada, e o sol, neste momento alto no céu, faz cócegas em minha pele.

De repente, sinto uma pressão na região do esterno e sou empurrada de supetão para baixo. Meu cérebro demora algum tempo para processar o que está acontecendo e, quando me dou conta, começo a me debater e tento me manter na superfície, engolindo golfadas de água salobre no processo. Abro os olhos, ignorando a irritação que o sal suscita, e tento identificar alguma coisa naquela confusão turva e tomada de bolhas. Prendo a respiração e busco me desvencilhar das mãos que me impelem cada vez mais fundo. Parece funcionar. A tensão diminui e consigo impulsionar meu corpo para fora da água. Sinto uma dor de cabeça terrível, quase como se a salmoura tivesse se alojado no meu cérebro. Irrompo em uma tosse ruidosa, tentando expulsar a todo custo a água que havia ingerido enquanto estava submersa.

— Você enlouqueceu? – digo ríspida quando o acesso de tosse passa e vislumbro Beatrice ao meu lado, gargalhando até que lágrimas despontem dos seus olhos. Porém, quando ela contempla minha expressão de poucos amigos, se detém. – Isso não se faz. Você me assustou, eu poderia ter me afogado de verdade.

— Isso foi por você não ter respondido às minhas mensagens – Beatrice murmura em tom jocoso, tentando quebrar o gelo.

— Inacreditável – bufo enquanto maneio a cabeça e discordância e marcho para longe dali.

— Ei, eu só estava brincando. Sinto muito.

Beatrice corre para me alcançar, fazendo respingos ricochetearem minhas costas. Me esforço para ignorá-la, mas ela segura meu antebraço e me impede de prosseguir, fazendo com que eu me vire em sua direção. Contemplo seus olhos castanhos salpicados de súplica e suspiro, rendida.

— Me desculpe pelo comportamento explosivo, mas eu realmente não estou em um bom dia.

— É por causa do que aconteceu ontem? – sua voz vacila, evidenciando um certo nervosismo. – Eu não deveria tê-la convidado se soubesse que Qiang daria as caras. Não deveria ter aceitado fazer parte daquele jogo idiota, assim como não deveria... bem, você sabe.

Engulo em seco, esforçando-me para expulsar as memórias inquietantes que começam a se esgueirar através dos meus pensamentos. Enrijeço as mãos em punho ao lado do corpo e tento não perder o controle.

— Você e aquele beijo não têm nada a ver com que está acontecendo. Eu só estou tendo que lidar com algumas merdas pessoais.

Beatrice assente, os olhos vidrados em mim como se quisessem espreitar minha alma.

— Se quiser falar sobre isso, sabe que pode contar comigo para o que precisar, não sabe?

Beatrice envolve minhas mãos entre as suas. O toque é suave, e tenho vontade de me derreter ali. Posso sentir a preocupação genuína que emana das suas palavras, mas apenas maneio a cabeça em concordância, sem prolongar o assunto.

— Você está perdoada por tentar me matar – digo. Beatrice revira os olhos, mas esboça um sorriso de orelha a orelha. – Apesar de tudo, é reconfortante ver um rosto familiar por aqui.

— Quer dar o fora daqui? – Beatrice indaga de supetão e sustenta um olhar incitador, arqueando uma sobrancelha.

— Eu adoraria – respondo sem pestanejar.

Beatrice mordisca o lábio para conter um riso de satisfação. Agora, observando-a com mais cautela, percebo que o cabelo, úmido e destilando filetes de água que escorrem pelas suas têmporas, está tingido de rosa. Trata-se de um tom pastel que contrasta com os alargadores pink em suas orelhas. Admiro sua ousadia por permitir-se mudar e sinto uma pontada de inveja pela minha incapacidade de me desapegar dos padrões.

— Ok. Espere aqui. Eu só preciso me secar e pegar minha bolsa.

Beatrice corre na direção de uma tenda armada a poucos metros dali, seus pés produzindo impressões na areia macia. Protegido sob a sombra da tenda, um homem repousa confortavelmente em sua espreguiçadeira. Seu físico é esguio apesar do abdômen ligeiramente proeminente e demarcado por um carreiro de pelos que desaparecem sob o calção. Seus cabelos desgrenhados e negros feito ébano estão assentados sob um chapéu panamá. Parece estar na casa dos trinta anos, muito jovem para ser o pai de Beatrice. Ela murmura alguma coisa para ele e ele lhe entrega algumas latas de cerveja que apanha de dentro de um cooler, e Beatrice as acomoda dentro da bolsa que fora buscar.

Uma mulher entra debaixo da tenda, os ombros queimados do sol. Seus traços são muito semelhantes aos de Beatrice, exceto pelo cabelo castanho e longo. Duas crianças eufóricas – uma garota e um garoto aparentemente mais jovem – a circundam e dão puxões em sua canga, tentando chamar sua atenção para o balde transbordando conchas que carregam. Beatrice afaga o cabelo do garotinho, que se estica para depositar um colar de conchas unidas por um pedaço de barbante em torno do seu pescoço.

Beatrice retorna minutos depois com a bolsa em mãos e uma toalha acomodada na cintura, ostentando seu colar como uma criança que acaba de ganhar seu presente de natal.

— Quem são eles? – indago conforme Beatrice se aproxima.

— Aqueles são Marjorie e John, minha irmã e seu marido. – A garota gesticula para o rapaz e a mulher que eu contemplara minutos antes, ambos agora sentados em roda enquanto ajudam as crianças a construir um castelo de areia. – Desde que minha mãe e meu padrasto alcóolatra me expulsaram de casa, há seis meses, eles me ofereceram um lugar para dormir nos fundos da casa. Eu quase não os vejo. Ambos trabalham o dia todo. Marjorie é professora em uma creche e John trabalha como contador. À noite só trocamos algumas palavras durante o jantar, já que passo boa parte do tempo ensaiando. Eles não me dão muita abertura e frequentemente argumentam que eu deveria encontrar um “emprego de verdade” ao invés de viver de música. De qualquer forma, sou muito grata pelo que eles têm feito por mim e espero algum dia recompensá-los. – Beatrice pigarreia e eu permaneço em silêncio enquanto caminhamos sem destino pela beira-mar. – As crianças são meus sobrinhos, filhos de Marjorie e John. Durante boa parte da tarde, eu sou a responsável por cuidar deles. Não sou remunerada por isso, mas sinto que essa é a parte do dia que mais vale à pena. Eu amo esses pestinhas. – Beatrice aninha as conchas do colar entre os dedos, perdida em pensamentos. – Se não fosse por eles, eu provavelmente não estaria mais aqui.

— Se algum dia você precisar, há um quarto vago na casa dos meus pais. Tenho certeza que eles não se importariam em recebê-la. Eles são médicos e frequentemente tem de trabalhar dia e noite, então você também não precisaria se preocupar – disparo a primeira coisa que me vem em mente, tentando consolá-la.

Beatrice me oferece um sorriso e maneia a cabeça em discordância.

— Agradeço muito pela gentileza, mas minha estadia aqui não vai durar muito mais tempo. Estou juntando grana para alugar um apartamento ou qualquer espelunca bem longe daqui. Acho que já tenho o suficiente para um pontapé inicial. Às vezes eu invejo você por não ter mais de conviver com essa cidade de caipiras – Beatrice bufa com rancor.

— Honestamente, eu sinto falta de Fortune. – Dou de ombros e sinto Beatrice estreitar os olhos para mim, contrafeita. – Morar sozinha não é tão simples quanto pregam por aí. No início, ficamos extasiados com a novidade. Quando começa a cair na rotina é que fica difícil. São muitas responsabilidades, e, se você não tiver uma boa estabilidade emocional, o risco de desabar é muito grande.

— Agora você parece a minha irmã falando. – Beatrice torce o nariz, e cubro os lábios para abafar um sorriso. – É sério, eu sou capaz de enfrentar qualquer coisa para conquistar minha liberdade. E, de todo modo, Fortune não é lugar para mim e a Nightmare Warriors. É impossível crescer aqui quando todo mundo prefere ouvir Allan Jackson em seus radinhos de pilha cheios de estática.

Dessa vez, não consigo conter uma gargalhada. Beatrice desfere um chute na areia e faz grão agarrarem-se aos meus cabelos. Praguejo baixinho, dando-lhe uma cotovelada nas costelas. Ela cambaleia alguns passos e logo recobra o equilíbrio, um sorriso jocoso moldando seus lábios.

— Então tá, drama queen. Pra onde pretende ir?

— Eu não sei. Inicialmente, pensei apenas em meter o pé na estrada com os caras. Uma viagem de carro sem destino, dirigindo pelo litoral e enchendo a van com um monte de souvenir hilário. E à noite podemos tocar em alguns bares de beira de estrada. – Beatrice gesticula entusiasticamente, divagando.

— E você acha que vai conseguir se manter? – murmuro hesitante, tentando não parecer hostil.

— Eu estou brincando, Mads. Não sou tão estúpida. Eu tenho um plano.

Uma bola de vôlei pousa diante dos meus pés. Um sujeito sem camisa de um dos lados da rede fincada na areia gesticula para que a devolvamos. Corro para alcançá-la, a bola já sendo tragada pelo balanço das ondas, e a atiro em sua direção. Ele sibila um agradecimento e a bola volta a embalar a disputa.

— Eu estava pensando em Edmonton – continua Beatrice.

— Edmonton? É praticamente do outro lado do país.

— Eu sei, parece loucura. – Seus dedos escorregam pela nuca em vaivém impertinente. – Mas há uma gravadora interessada em nosso trabalho. Pode ser uma grande oportunidade. – Seus olhos são tomados por um brilho de fascinação. Há uma sugestão de sorriso em seus lábios. – Eu estava pesquisando os preços de algumas pensões por lá. Não é a melhor das acomodações, mas cabe no meu orçamento. Eu posso arrumar um emprego como garçonete durante a tarde, já que tenho experiência com o público. E então, eu e os caras tocamos nos bares à noite. Eu posso me virar.

— Callum e os outros pretendem se mudar também?

— Sim, vamos todos juntos.

Assinto e permaneço em silêncio pelos segundos que se seguem, tentando encontrar as palavras adequadas para prosseguir.

— Eu sei que temos nossas merdas para lidar, mas não dá para simplesmente... deixar tudo para trás. E os seus sobrinhos?

O maxilar de Beatrice enrijece, e posso vislumbrar uma nota de pesar em sua testa vincada. Imediatamente me questiono se estou avançando por um terreno perigoso, mas a garota logo sentencia:

— Eu preciso muito mais deles do que eles precisam de mim, pode apostar.

Me dou por vencida e deixo um suspiro irromper em uma baforada por entre os lábios.

— Bem, se é o que você quer e está confiante sobre isso, vá em frente. A vida é muito curta para ser levada com infelicidade. Às vezes o melhor a ser feito é se arriscar.

— Agora você falou a minha língua – regozija-se ela enquanto me lança uma piscadela e passa o braço ao redor do meu. – Ei, olhe – ela se interrompe e aponta para uma estrutura de pedras metros adiante.

Paro junto dela para contemplar a vista. Uma gruta em forma de meia-lua envolve um braço de mar verde transparente. A água é tão cristalina que é possível ver cada marca na areia do fundo do mar. De lá, uma escada escavada na rocha deslizava até a praia. Um bando de gaivotas alça voo quando nos aproximamos. Contemplo o cenário atrás de mim por sobre o ombro. A multidão e os guarda-sóis quase desaparecem no horizonte. A gruta é porta de entrada para apenas meia-dúzia de exploradores mais ávidos.

— Eu não sabia da existência desse lugar – sibila Beatrice, entretida com a paisagem à frente.

A garota sorri e, diante dos meus olhos atônitos, despe-se da toalha que sustentava na cintura e mergulha na laguna que a gruta abraça. Um segundo depois, meu corpo já está imerso naquelas águas transparentes e surpreendentemente frias. Meus dentes rilham com o frio e o coração parece pulsar nas têmporas. Tris se aproxima e deposita os braços sobre os meus ombros, seu corpo pressionado contra o meu.

— Está fria, né? – ela murmura, a fala entrecortada por uma onda de calafrios.

— Que nada, uma sopa.

Ela esboça um sorriso e se inclina para me beijar. O encontro dos nossos lábios é tão natural que parecíamos já ter feito isso durante anos. Muito diferente daquela cena desagradável da noite anterior.

Beatrice e eu nadamos com braçadas enérgicas e logo estávamos estendidas ao sol nas pedras mornas. Estou com a cabeça em seu colo enquanto ela tenta gentilmente trançar meus cabelos úmidos. Com os olhos voltados para o alto, tento contar as estalactites que se originam do teto da gruta ao passo que levo uma lata de cerveja já morna aos lábios. Depois de tanto martírio, por um momento eu consigo verdadeiramente relaxar.

— Então... nós estamos saindo? – sibilo buscando esclarecer as coisas e quebrar o silêncio desconfortável.

— Eu não sei. O que você me diz? – Tris arqueia uma sobrancelha, incitadora.

— Eu não sei – replico nervosamente, esperando que aquilo não soasse como desdém quando meus olhos diziam exatamente o contrário. – Eu só... sinto que gosto de estar com você.

Algo vibra próximo a nós. Beatrice se estica para apanhar a sua bolsa e saca o celular de dentro dela.

— É Matthew. – Tris vinca as sobrancelhas enquanto contempla o aparelho, incerta. – Achei que não teríamos ensaio hoje. – Ela desliza o polegar sobre o botão de atender à chamada e leva o telefone celular à orelha. – Alô?

Uma longa pausa se segue. Por um momento, não consigo decifrar a expressão que se assoma em seu rosto, mas tenho a impressão de que a cor some de suas bochechas.

— O quê? Você não pode estar falando sério. Por quê? Nós não temos nada a ver com isso. Ah, que se dane!

Beatrice desliga o aparelho, o atira displicentemente sobre a bolsa e enrosca os dedos no cabelo, aninhando as pernas junto ao peito. Tenho um sobressalto com a súbita mudança de humor e toco seu antebraço.

— O que foi?

Tris levanta os olhos enfurecidos em minha direção.

— Qiang, aquele desgraçado. Ele desapareceu, simplesmente sumiu do mapa.

Aquilo me atingiu como um golpe no estômago. Todas as minhas funções corporais parecem congelar por um breve segundo. A notícia já havia se espalhado. Eu havia sido burra o suficiente para acreditar que talvez ninguém se daria conta.

As lembranças do dia anterior se assomam em meus pensamentos feito uma avalanche. Deixo a cerveja de lado, sentindo o sabor da bile subir à garganta, e quase me dobro para vomitar. O ar se dissipa dos meus pulmões e não consigo respirar. Fico aliviada ao ver que Beatrice está com a cabeça entre os joelhos e não se dá conta do meu estado catatônico.

— E qual o problema? – Forço os lábios a proferirem num fio de voz.

— O problema é que as autoridades que estão cuidando do caso conseguiram hackear o celular dele e conseguiram extrair alguns dados, como as ligações efetuadas e recebidas. E uma das últimas chamadas vinha diretamente do número de Matthew, quando eles estavam negociando a droga. Agora ele está indo para a delegacia e terá de prestar inquérito. Matthew disse para estarmos prontos para prestar contas com a polícia. Se descobrirem o esquema das drogas, estamos todos fodidos.

— Eles conseguiram obter outras informações além dessas? Tipo, as autoridades têm ideia de onde ele possa estar? – digo já hiperventilando, as palavras saindo atropeladas por entre os lábios.

— Segundo Matthew, a polícia também tentou rastrear o aparelho, mas aparentemente o localizador foi desativado. Onde quer que esse filho da mãe esteja, ele parece não querer ser encontrado.

Beatrice coloca-se em pé e perambula pelo local em um vaivém impertinente. Ela enterra as unhas nos coxins das mãos com tanta força que as juntas dos dedos ficam esbranquiçadas. A fúria ressurge em seus olhos como as ondas varrendo a praia em um dia tempestuoso.

— Há quanto tempo ele foi registrado como desaparecido?

— Bem, eu não sei. – Beatrice dá de ombros, a voz subindo uma oitava. – A família que prestou depoimento relatou que ele não aparecia em casa e não atendia às ligações há três dias. Mas até então eles conseguiam acompanhá-lo através da fatura do cartão de crédito. Há algumas horas, logo depois de Qiang ir embora do estúdio, não houve mais registro de gastos. – Tris se interrompe por um instante e me encara com uma expressão colérica. – Por que você está tão interessada, afinal?

Engulo em seco, esfregando as palmas das mãos suadas. Sinto vontade de me levantar e disparar para longe dali, simplesmente desaparecer. Contudo, mantenho os pés no chão e tento, custosamente, manter a cabeça no lugar.

— Só curiosidade.

Beatrice bufa e seus olhos reviram nas órbitas.

— O que quer que tenha acontecido com Qiang, se ele está encrencado ou seja lá o que for, eu não me importo nem um pouco. A questão é que, se descobrirem sobre o lance das drogas, Matthew vai ter sérios problemas com a polícia, já que costumava trabalhar para ele. Caralho, ele pode ser preso! E então é melhor darmos adeus a Edmonton.

Relutante e com a voz trêmula, sentindo o coração martelando no peito com receio da resposta, indago:

— Você acha que Matthew sabe o que pode ter acontecido com Qiang?

— Não, é claro que não! Ele foi pego de surpresa tanto quanto eu. E, como eu já disse antes, isso não importa.

Como eu gostaria que Beatrice soubesse que, sim, aquilo importava. E muito.

...

No caminho de volta para casa, com a têmpora pressionada contra o vidro do Volvo, não consigo parar de pensar na conversa que tive com Beatrice. Não sei se me sinto aliviada ou completamente amedrontada. Talvez um pouco dos dois. Saber que ainda não havia pistas sobre o paradeiro de Qiang me tranquilizava, mas saber que o acontecido estava envolvendo pessoas cada vez mais próximas a mim arrebatava o meu sossego. Uma hora ou outra, a verdade viria à tona. Só me restava esperar.

Paul estaciona o carro na garagem e eu adentro a casa em disparada, sem me preocupar com os chamados de Audrey para ajudá-la a descarregar os artigos de praia. Marcho rumo às escadas que desembocam no andar superior e subo dois degraus a cada vez, meu corpo deixando um rastro de areia.

Abro a porta do quarto num rompante e me tranco lá dentro. Fico algum tempo deitada na cama com o rosto enterrado nos lençóis até decidir o que fazer para me distrair.

Caminho até a escrivaninha e ligo o notebook, decidida a aliviar os pensamentos obsessivos através das palavras. Escrever sempre foi eficaz na tarefa de me acalmar.

Abro a página do Word e acesso o Google a fim de procurar uma playlist de música para abolir o silêncio do recinto, mas estagno em meio ao processo, atraída pela notificação de um novo e-mail. Sinto um calafrio percorrer meu corpo como uma descarga elétrica ao constatar o remetente. É Lya.

Olá, Amanda. Fico feliz que tenha se interessado pelo meu árduo trabalho de pesquisas acerca do mundo esotérico. Se você puder me encontrar amanhã às dezoito horas, podemos conversar. Wrochester Street, 184. Fico no aguardo.

Abraços,

Lya.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.