Notas iniciais
Espero que gostem e me desculpem de todo o coração pelo atraso, fiquei adiando a postagem do capítulo e até disse que seria ontem, mas a internet do note falhou e eu estava respondendo aos comentários pelo celular. Agora, aos avisos: Decidi colocar dois fedelhos de uma vez por dia, assim a história fica mais dinâmica e essa parte introdutória termina rápido. Espero que gostem da mudança Até lá embaixo!

Alice acordou com a cabeça latejando, não havia dormido bem. Seus olhos verdes estavam acompanhados por olheiras escuras e os cabelos outrora tão bem-cuidados e brilhantes estavam oleosos, o suor grudando uma mecha nas bochechas. A garota ainda se lembrava do barulho inacreditável dos muros se movendo e aquilo a aterrorizara pelo resto da noite. Era como se estivesse presa.... Espantou o pensamento da cabeça e olhou ao redor do cômodo no casebre, onde os outros ainda dormiam.

Gabbe resfolegava no saco de dormir próximo ao de Travis, seu braço atravessando o rosto do rapaz. Isabelle tinha o rosto coberto pelos fios loiros e respirava suavemente, enquanto Jackson roncava, quase fora do seu saco de dormir.

Alice suspirou se erguendo silenciosamente e atravessando o quarto para encarar uma janela. A lua ainda aparecia contra o céu azul-claro, ou seja, era madrugada. A garota chutaria umas cinco da manhã enquanto bocejava e se afastava para ir até a escadaria. Cada degrau rangeu e ela praguejava baixo, temendo acordar os outros. Estava querendo explorar um pouco o lugar sozinha e não seria conveniente que alguém a visse perambulando por aí como uma louca.

Alice passou pelo portal do casebre, sentindo o ar frio da matina lhe fustigando a face e jogando os cabelos castanhos por cima dos ombros, ao que ela sorriu. Gostava do vento, era como um estímulo à sua animação. Andou em direção ao lado oposto da Clareira, atravessando o sangradouro e a colheita com desinteresse até chegar em um pequeno bosque. Frondosas árvores se curvavam sobre a garota e algumas raízes no chão a faziam tropeçar vez ou outra, mas nada que a irritasse.

Chegou finalmente até um dos muros, as árvores dando lugar novamente aos conhecidos tijolos cinzas do chão. Ela soltou um suspiro, pensando em retornar ao casebre, quando ouviu.

Era um ruído mecânico, alto e grotesco. O som que o seguiu foi algo que Alice apenas podia relacionar à um gemido de cansaço, como se alguém houvesse feito muito esforço.

Vasculhou ao redor, as palmas das mãos subitamente suadas e uma bola se formando na garganta. Foi quando viu de relance um brilho contra o muro, um lampejar de algo como vidro. Se aproximou silenciosamente, sentindo as batidas do coração frenético golpeando-lhe as costelas.

Encostou a testa na superfície transparente que havia encontrado, tentando ver alguma coisa.

A garota subitamente prendeu a respiração, um calafrio arrancando tremores nervosos de seu corpo como que em espasmos.

O gigantesco ser –se poderia ser chamado assim- se assemelhava à uma bola mecânica e gosmenta, girando lentamente. Alguns pontos aparentavam ser cobertos por algo como pele, mas outros eram indescritivelmente repugnantes, parecendo vomitar alguma substância viscosa. Assim que parava, vários apêndices se lançavam de dentro daquele corpo, a maioria sendo composta por lâminas afiadas dos mais diversos tipos.

Alice tampou a própria boca em um movimento automático. Como aquilo poderia estar à apenas alguns metros de distância dela? O monstro continuou girando em seu movimento nauseante, até que a garota não pôde mais vê-lo. Só depois de alguns minutos e de não mais poder ouvir o barulho horrível, Alice se ergueu trêmula, se afastando do muro em passos rápidos e decididos. Quando chegou ao casebre, a garota ofegava alto e se dobrava sobre os joelhos tentando readquirir fôlego. Seu rosto alvo estava corado e os olhos claros arregalados de medo, mas ela se forçou a subir as escadas e se afastar mais dos muros, desejando distância do que havia presenciado.

Ao chegar no quarto superior, chutou sem querer o saco de dormir de Travis, que abriu os olhos de maneira sonolenta.

–O que foi, fedelha? –Ele murmurou se sentando. –Por que tá acordada?

Ela se sentou de frente para o garoto, sem saber direito o que fazer.

–Eu vi um... Você sabe... –Sua voz era oscilante.

Travis franziu o cenho e, de repente, não havia mais nem a sombra do sono estampado naquele rosto segundos atrás.

–Respira. –Ele instruiu, os olhos felinos estreitados.

Alice obedeceu, tentando se acalmar.

–Eu saí para dar uma volta porque acordei muito cedo, sabe? Fui até o bosque, passeei por aí...

–Você viu o muro falho. –Travis murmurou, pensativo.

–Eu acho que sim. –Alice enrugou a testa. –Mas não foi só isso. Um barulho enorme e grotesco...

–Um verdugo. –Ele divagava, encarando fixamente a garota.

Ela se lembrou subitamente do nome que Jackson citara ainda no dia anterior, sentindo um calafrio.

–A criatura rolante é um “verdugo”?

Travis apenas anuiu com a cabeça, suspirando.

–Fica calma. Não se meta no Labirinto e não terá problemas. –Ele se ergueu checando o relógio no pulso: 6 horas da manhã.

Alice franziu o cenho.

–Então por que você e o Jackson entram lá? –Ela ergueu uma sobrancelha negra, desconfiada.

O garoto ficou em silêncio por algum tempo, parecendo medir suas próximas palavras.

–Bom, os verdugos normalmente só aparecem de noite, embora alguns ataques diários tenham acontecido. É a nossa única esperança de uma saída. –Seus olhos pareceram brilhar ao enunciar a última palavra, sonhadores.

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Jackson e Travis saíram pelo alvorecer, carregando pesadas mochilas e sumindo na primeira curva do Labirinto. Alice e Isabelle cuidavam da colheita enquanto Gabbe trabalhava no sangradouro.

–Eu não aguento isso. –Isabelle murmurou após algumas horas de trabalho, descansando perto de uma videira.

Alice enxugava a testa com um pano, ofegante.

–É meio desgastante, mas é bom ter no que pensar. Sabe, manter a mente ocupada e fugir do vazio. –Ela soltou um sorriso triste.

A outra concordou com a cabeça, se pondo novamente em pé e apanhando um arado.

–Aposto como a próxima novata será garota. –Isabelle falou, tentando sustentar a conversa.

–Acho que não. Eles, seja lá quem forem, devem tentar equilibrar isso daqui e já temos mais meninas. –Alice deu de ombros.

–Às vezes esqueço que tem gente por trás disso. Acho que somos joguetes de alguns ricaços, se divertindo com toda essa situação, ou talvez isso seja um programa de TV. –A garota soltou um riso baixo.

Alice riu também, mas não pôde deixar de pensar que talvez as conspirações da outra fossem reais. Era tudo muito organizado, como simples cenários que compunham a Clareira.

Passadas algumas horas já haviam feito a maior parte do trabalho na Colheita e decidido sentar em frente aos muros para esperar os garotos chegarem.

Já entardecia quando Gabbe se juntou a elas, sua presença animada e amável acalmando a ansiedade das novatas. Isabelle se perguntava como a garota conseguia se manter daquele jeito sabendo que Travis, aparentemente seu namorado, podia não retornar no final do dia. E ela tinha de passar por isso a cada entardecer...

–Os garotos costumavam se esconder na primeira curva para passar correndo só quando os muros começavam a se fechar... –Gabbe divagava, um sorriso bobo na face. –Céus, eu ficava desesperada. –Escondeu o rosto nas mãos.

As outras duas soltaram risinhos, mas ainda estavam muito preocupadas. Alice teve vontade de entrar no Labirinto e esperar por Jackson e Travis em uma das primeiras curvas, mas reteve seus planos com algum esforço, afinal não queria causar problemas ainda no seu segundo dia.

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Jackson sentiu o desespero no peito, crescente. Encarava o céu como que em busca de pistas, mas sabia que estaria tudo perdido se não se apressasse. O garoto continuou a correr, embora não soubesse se estava no caminho certo, só precisava correr para se manter sano.

Foi quando ouviu um barulho na curva da frente e ficou apreensivo. “Verdugos, verdugos...”

Os grandes muros cobertos por hera que normalmente o davam uma louca sensação de adrenalina e êxtase agora o faziam se sentir preso e impotente enquanto procurava se embrenhar nas trepadeiras, se escondendo parcialmente logo antes do primeiro besouro mecânico pousar acima de sua cabeça, no muro. Ele já devia estar acostumado com as pequenas criaturas e suas luzes vermelhas porque estavam em todos os lugares, mas ainda sentia arrepios ao vê-las.

Jackson ouviu passos depois do que pareceu ter sido um século, ao que soltou um suspiro de alívio, se desprendendo da hera. Verdugos não caminham, então aquele só podia ser Travis.

Não se lembrava de alguma vez ter ficado tão feliz por ver o ruivo, dando um sorriso largo.

–Já vai anoitecer, Jack. –O outro rosnou. –Eu voltei para te buscar depois de chegar na Clareira, mas acho que não temos muito tempo.

Ambos começaram uma corrida frenética lado a lado, como haviam feito tantas vezes. Travis guiava, uma vez que Jackson ainda estava um pouco perdido, mas aquilo não os atrasava em nada.

O barulho alarmante dos muros deslizando se propagou por todo o Labirinto, fazendo com que os garotos sentissem calafrios e se apressassem, já ofegantes. Travis urrou após alguns segundos, furioso.

–Mértila! Só algumas curvas...

Concluíram o caminho antes da Porta Leste começar a se fechar e Jackson não conseguiu conter o sorriso bobo que lhe tomava o rosto ao passar pela última curva, triunfante, mas que não durou muito. Seu semblante ficou subitamente chocado quando viu o pequeno grupo que se amontoava em frente ao Labirinto:

Gabbe e as novatas estavam mais próximas à abertura, mas atrás delas duas figuras altas esperavam com expressão de desentendimento. Dois fedelhos? Sim, era uma novidade.

Travis chegou até a Clareira primeiro, ofegante e sem descolar os olhos do novo rapaz no grupo.

O outro o encarava também com um quê de indiferença nos olhos castanhos. Seus cabelos escuros eram curtos e repicados e ele usava uma camisa preta de mangas longas. A garota ao seu lado parecia mais desnorteada, os lábios delicados e cheios ostentando um biquinho contrariado ao fitar os largos muros se movendo. Os dois se pareciam bastante com seus cabelos e olhos castanhos e a pele bronzeada, o semblante sério e controlado.

–Dois novatos? –Travis ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

–Esses são Arthur e Aurora. –Gabbe os indicou com a mão em um gesto despreocupado. –Eles chegaram juntos na Caixa... Acho que os Criadores estão tentando recompor as pessoas que se foram.

Travis fechou a cara ao ouvir a menção aos seus velhos colegas, mas tentou disfarçar. Estendeu uma mão para Arthur, que a apanhou com um sorriso torto e arteiro.

–O que vocês fazem por aí? –Perguntava como se sua mente não estivesse completamente vazia, como se não precisasse de verdade da informação. Com certeza aquele garoto era um ótimo ator por esconder toda o seu desentendimento.

–Procuramos a saída. –Jackson respondeu por Travis, o cenho franzido. –Você não tem medo?

Arthur o encarou por alguns segundos, surpreso.

–Medo de que?

–De ficar aqui. De não se lembrar de nada, talvez? –Ele ergueu as sobrancelhas, incrédulo.

–Acho que estamos todos bastantes confusos, mas não tem nenhum motivo para ter medo, até agora. –Aurora se manifestou na conversa com uma expressão controlada de calma.

–Eu tenho medo de quem fez isso com nossas mentes. –Alice divagava, o olhar perdido nos muros que finalmente haviam se fechado e mantinham silencio.

–Bom, se vão mandar fedelhos em dobro, acho que ainda não conseguiram o resultado que queriam com a nossa cabeça. –Isabelle concluiu enquanto brincava com uma mecha do cabelo loiro.

Arthur deu de ombros se sentando no pátio cinzento.

–Eu acho isso tudo uma brincadeira idiota. Há quanto tempo estão aqui? –Sua voz era inexpressiva.

–Estou aqui há uma semana, com outros dois. Mas eles morreram lá dentro. –Travis indicou o Labirinto, o rosto contorcido de desgosto.

–Morreram? –Aurora franziu o cenho, incrédula. –Como?

–Você vai preferir não saber. –Jackson deu um sorriso torto.

–Eu acho que posso falar o que prefiro. –A garota retrucou, ainda encarando os muros.

–Tá, foi um longo dia e eu só quero descansar no casebre. Vocês fedelhos se entendam depois. –Travis se separou do grupo com Gabbe em seu encalço, atravessando o pátio.

Arthur encarou os restantes, confuso.

–Sem respostas? –Perguntou.

–Sem perguntas também. –Jackson respondeu antes de seguir os colegas.

–Cara, como eu odeio esses “veteranos”. –Alice revirou os olhos.

–Tanto faz, a gente descobre de qualquer jeito. –Isabelle deu um sorriso arteiro. –E boa-sorte por aqui. –Ela encarou os dois novatos.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Paciência se os seus personagens ainda não apareceram e muita fé, hehe :) Não esqueçam de comentar para não permitir que o seu personagem "suma" por aí e seja "acidentalmente" morto. Além disso, é mais para eu ficar sabendo no que melhorar, se vocês gostaram e esse tipo de coisa. Beijos da Dê