Nove Meses

4 Ladeira abaixo


Notas iniciais
Eu sei que demorei, e que mereço ser apedrejada por isso. Mas 9M é muito especial para mim, e eu não estava em condições nenhuma de continuar naquela hora, estava muito mal mesmo. Mas agora que estou melhorando, consegui terminar o capítulo, e eu realmente espero que vocês não me matem. desculpas novamente, e eu espero nunca mais demorar tanto assim para postar. Aproveitem.

Austin me encara intensamente, a vontade chorar aumenta proporcionalmente com a minha vontade de socar a cara dele.

Tudo deu errado e eu não vou negar: metade da culpa é toda dele. Talvez setenta e cinco por cento.

— Austin! — repreendo-o — Vou falar isso claramente para ver se entra na sua cabeça. VOCÊ. NÃO. É. O. PAI. DESSA. CRIANÇA.

Ele arqueja, parecendo que levou um golpe com as minhas palavras. Sei que fui dura, mas é algo que ele não parece entender, e para que nossa improvável e disfuncional amizade dê certo, ele precisa entender que não foi ele que colocou o bebê no meu útero.

— Como se essa criança tivesse um pai.

Agora quem leva o soco sou eu. Tenho dificuldades para assimilar as palavras dele, para fazer os fonemas, os morfemas se juntarem. Antes que eu possa pensar, o rosto dele tomba para o lado com um estalido alto do tapa que eu dei em sua face.

— Ao contrário do que você pensa, ela tem sim. Dallas. E apesar de ele ser um imbecil, eu nunca pensei que você fosse um também.

Ele suspira, visivelmente arrependido do que disse. Meus cinco dedos estão marcados em escarlate no lado direito de seu rosto. Ele abaixa a cabeça.

— Eu sei, Ally, me desculpa. Você sabe que não foi isso que eu quis dizer.

Fungo alto, secando furiosamente umas lágrimas que escaparam. Não acredito nele, não consigo.

— Quis sim — minha voz não passa de um fiapo —Se você não quisesse dizer isso não teria dito. — recomponho-me, fazendo de tudo para minha voz soar melhor — E mesmo se essa criança não tivesse um pai, seria melhor do que ter você como. Um egocêntrico, mesquinho, que não se importa com os sentimentos dos outros. E digo mais: pare de agir como se fosse o pai, pare de sugerir nomes, pare de assumir responsabilidade sobre algo que você não tem que se meter.

— Você me pediu ajuda, sua louca! — seu rosto estava vermelho de raiva e eu podia ver uma veia saltando em seu pescoço.

Controlo-me para não gritar, e fazer ainda mais cena. Eu podia ver algumas pessoas na rua da minha casa andando mais devagar para acompanhar a discussão.

— Eu pedi para você me levar em uma clínica de aborto. E a partir do momento que eu não abortei, seu “dever” comigo — fiz aspas com as mãos — Acabou. Você poderia ter ficado de fora, como Trish e Dez, e eventualmente me dar apoio moral. Não pedi para que se tornasse pai do meu filho.

Ele bufou e passou as mãos no cabelo furiosamente. Ambos estávamos estressados, revoltados, cansados.

— Não espere nem apoio moral vindo de mim, Dawson.

Ele deu as costas, e eu me senti vazia por dentro. Tão vazia que não tinha mais nada que quisesse por para fora, nem as lágrimas, que eram minha companhia recente e mais frequente.

Sentei no meio fio, querendo que Dez e Trish não tivessem ido embora, assim eu não estaria me sentindo tão sozinha e tão vazia.

Voltando agora, não tenho absolutamente ideia nenhuma de como isso acabou acontecendo. Quer dizer, estávamos bem, ele me trouxera em casa após o que acontecera na clínica.

Meu pai estava sentado lendo o jornal na namoradeira que tínhamos na entrada de casa. Eu sangue logo gelou, eu mudei de ideia umas mil vezes sobre contar para ele sobre a gravidez. Foi nessa hora em que Austin apertou a minha mão. Meus olhos desesperados encontraram conforto em seus olhos calmos e eu senti que as coisas poderiam dar certo.

Olhando pelo retrovisor, vi o carro de Dez parar atrás do de Austin, e ele e Trish saltarem juntos, pela primeira vez sem brigar como duas crianças.

Eles sorriem para mim, e eu sei que não estou sozinha. Nada de tão ruim pode me acontecer quando tenho aqueles dois comigo. E agora Austin.

Chegamos os quatro juntos até meu pai, como se fossemos algum tipo de esquadrão dos anúncios de gravidez, e meu pai nos olha sorridente, mas confuso.

Geralmente é esse o olhar dele para tudo mesmo.

Meu pai é o melhor do mundo. O que pode dar errado? Além de ele me expulsar de casa. Ou me rejeitar como filha. Ou os dois.

Ai. Meu. Deus.

Quero voltar para clínica.

— Ally, querida, chegou cedo! — passou a mão nos cabelos da filha — Quem é esse garoto? É amigo do Dallas?

O clima pareceu ficar mais gelado, apesar do sol de Miami.

— Na verdade, não. Sou Austin Moon, muito prazer em conhecê-lo, Sr. Dawson.

Lester inclinou a cabeça, parecendo estar pensando em algo.

— Moon? Do Reino dos Colchões Moon?

Austin deu um sorriso constrangido, e eu quis rir muito da cara dele.

Ai lembrei o motivo de ele estar aqui, e calei minha boca.

— Sim senhor, os donos são meus pais.

Papai sorriu afetuosamente para Austin. Ele era assim, afetuoso com todos. Mão de vaca, também.

— Adoro Mike e Mimi, eles são da associação do shopping. Gente boníssima.

— Papai — interrompi, antes que meu pai começasse um monólogo sobre como os pais de Austin eram legais. — Preciso te contar uma coisa.

Meus amigos me olharam, questionando a certeza da minha ação, e me dando apoio também. Estava na hora de parar de esconder isso do meu pai. Principalmente agora que o aborto ficara de lado.

— O que? Que caras são essas, crianças? — riu nervoso — Parece até que vai me contar que está grávida, Ally.

Ok, clima abaixo de zero.

— Mas é isso mesmo, Sr. D.

Todos olhamos para o Dez, que tinha um sorriso bobo nos lábios, ignorando a gravidade das palavras dele.

Revirei os olhos e Trish lhe deu um tapa na nuca.

— Que tipo de brincadeira é essa, Ally? Não é nada engraçado.

— É porque não é brincadeira, pai...

Meu pai primeiro parou com aquele sorriso confuso. Ele ficou tão sério como eu nunca vi, nem quando mamãe foi embora. Depois ele ficou vermelho como pimenta, logo assumiu um tom roxo, e por fim caiu duro no chão.

Arregalei meus olhos, desvencilhando-me dos meus amigos e ajoelhando-me ao lado do meu pai, dando leves tapinhas em seu rosto.

— Ally, será que ele morreu? — Dez indagou.

Eu amo Dez, juro por todas as forças desse universo que eu amo meu amigo, mas isso não impediu a minha vontade de pular no pescoço dele e sacudir até a pessoa a estar morta ser ele.

Ouvi Trish repreender Dez pela insensibilidade para com a situação, e senti Austin se ajoelhar do meu lado, sacudindo meu pai.

Depois de uns minutos, não muitos, provavelmente, meu pai ofegou um pouco, e logo acordou, dando um sorriso bobo, o que me deixou muito aliviada.

— O que aconteceu, querida? — perguntou — Acabei de ter um sonho esquisito, Ally. Você dizia que estava grávida? — ok, o alívio foi embora, trazendo de volta a cara espantada — Exatamente! Como se minha princesa fosse fazer isso!

Trish pigarreou, chamando a atenção para ela. A latina segurava Dez pela orelha, mas ela não parecia mais irritada com ele, não mais do que o normal. Estava apiedada da minha situação.

— Vou levar o Dezidiota para casa antes que ele faça ou fale mais alguma asneira. Vai ficar, Austin? — o loiro, que ainda estava do meu lado, assentiu — Me liga mais tarde, Ally.

Concordei e ajudei meu pai a se sentar de novo na cadeira onde estava antes de chegarmos. Eu e Austin nos acomodamos na namoradeira que tinha ao lado, e, por mais romântico que sentar em uma namoradeira fosse, nossas intenções eram menos que românticas.

O clima estava claramente pesado. Meu pai alternava as olhadelas confusas entre mim e Austin, mas sem realmente ter coragem de perguntar qualquer coisa. Lester sempre foi meio covarde, muito contido, nunca se arrisque.

Se você não arriscar, as chances das coisas darem errado diminuem drasticamente. Eu devia ter seguido esse conselho de vida e não ter tido relações sexuais com Dallas.

Estaria virgem, com um namoro cálido e inocente, e principalmente, não grávida.

Essa seria uma linha de pensamento muito boa, na verdade, mas quando não se arrisca, as chances das coisas darem certo são nulas, porque nunca vai acontecer nada na sua vida.

Papai não era assim antes de mamãe nos deixar. A culpa é praticamente dela, nos tornou pessoas fechadas e assustadas demais para dar um passo em direção ao novo.

— Então, Ally... — papai começou, a voz hesitante demais — Esse é seu namorado novo?

Austin engasgou com sabe-se-lá-Deus-o-que – suponho que saliva – e começou a tossir desesperadamente. Dei batidas em suas costas, e quando me olhou, estava vermelho e ofegante.

Eu quis rir, mesmo que não fosse nada propício.

— Não, papai. Austin não é meu namorado.

Austin resmungou qualquer coisa que não pude – e não fiz questão de – entender.

— Por que exatamente estamos aqui tendo essa conversa, Ally?

Suspirei, de repente cansada de toda a enrolação e drama acerca da minha gravidez.

— Porque você não sonhou, papai. Eu estou grávida.

Pensei que meu pai fosse desmaiar de novo. Lester não era exatamente a pessoa mais forte para aguentar emoções bruscas como essa. Entretanto, ele não desmaiou. Parecia perdido, confuso, olhava para mim e Austin, tentando decidir algo que eu não fazia ideia do que era.

Foram minutos que pareceram horas, até ele suspirar, fungando levemente.

— Tem certeza?

Assinto, e ele estala os lábios, negando levemente. Pensei em todas as coisas que ele poderia dizer, me ofender, me expulsar, me renegar como filha, mas ele nunca pode falar nada disso, porque Austin, que estava quieto até então, se manifestou:

— Mas não vai faltar nada para Ally, Sr. Dawson. E eu vou ajudar de todas as maneiras que eu puder. Até trabalharei na loja dos meus pais — fez uma careta de horror para a última.

O.k. alguém além de mim achou isso muito, muito esquisito?

Espero que a resposta tenha sido sim, pois foi. Foi muitíssimo esquisito.

— Austin — sibilei — o que pensa que está fazendo?

Ele me ignorou. Parecia afobado, tentando provar algo que, definitivamente, não precisava provar.

— E Ally também trabalha, então não vai ser um problema muito grande continuar com a gravidez e criar Noah.

— Noah? — Lester indagou, visivelmente.

Austin! — repreendi.

— Olha — meu pai nos interrompeu — Eu estou claramente perdido. Austin, devo presumir que você é o pai?

Gravem bem essa cena, de verdade. Meu pai está sentado na cadeira, olhando para nós dois seriamente. Austin está corado, mas igualmente sério. Nunca vi Austin Moon tão obstinado com alguma coisa quanto agora.

Eu olho para meu pai, decidida. Não há motivos para mentir mais.

Foi nesse momento que tudo deu errado. Toda a cumplicidade que eu e Austin desenvolvemos por causa da gravidez foi para o espaço a partir do momento em que falamos ao mesmo tempo:

— Não.

— Sim, senhor.

O que Austin pensava que estava fazendo? Ele era louco? Ele comia cocô no café da manhã?

Era a única explicação possível.

Ele me olhou, tentando me induzir a cooperar com ele, mas eu não ia fazer uma maluquice dessas nem se eu quisesse.

— Não acho que vocês tenham sido específicos.

Jura, pai?

Repetimos o que dissemos anteriormente, e nos olhamos revoltados.

— Olha, vou deixar vocês sozinhos por uns minutos.

Meu pai falou isso, mas acho que ele precisava de uns minutos para ele. A iminente briga entre mim e Austin viera bem a calhar.

E foi assim que tudo aconteceu. Em uma hora estávamos bem, ele apertava minha mão porque eu estava assustada demais com tudo, e na outra, gritávamos coisas desconexas na cara um do outro.

Austin entrou no carro e passou por mim cantando pneu. Revoltada, sentei nos degraus que levavam à varanda da minha casa, sentindo as lágrimas de ódio começarem a descer.

Austin era realmente um estúpido se pensava que eu o deixaria assumir um filho assim. Uma criança não era um brinquedo ou um animal de estimação que se nomeava e brincava quando se está entediado. É um comprometimento para a vida inteira, e se o imbecil do Moon não entende isso, e acha que vai ser uma brincadeira de casinha entre dois amigos, então ele é mais burro do que eu pensava.

Senti uma presença do meu lado, mas eu não olhei, estava ocupada demais chorando por causa de Austin.

— Sinto muito por isso, querida — papai disse.

Não respondi nada, apenas me agarrei a ele, chorando por tudo.

— Eu sinto muito. Eu estraguei tudo. Eu não devia ter deixado nada disso chegar onde chegou. Eu sou uma imbecil.

Ele afagou minhas costas e fez cafuné no meu cabelo, como sempre fazia quando queria me acalmar. Reparei que estávamos na mesma posição de anos atrás, quando eu corri para a entrada de casa, tentando impedir minha mãe de ir embora.

— Shh, acalme-se, Ally. — funguei mais algumas vezes, e papai secou minhas lágrimas. — Conte-me tudo.

Contei para ele a história toda, desde engravidar de Dallas, até a clinica de aborto e da minha desistência. Lester não me interrompeu nenhuma vez, mas ficou muito tenso na parte da clinica. Contei como Austin me encontrou no dia que descobri e como ele vinha me apoiando, embora parecesse entusiasmado demais com essa história.

— Eu não tive a oportunidade de dizer antes, mas saiba que eu amo você independente de suas escolhas, Ally.

Pode parecer algo bobo de se dizer, mas acreditem, fez toda diferença. Eu tenho o melhor pai do mundo.

Depois disso, ele depositou um beijo em minha testa e se retirou para dentro de casa, e eu agradeci por isso, pois precisava ficar sozinha.

Resolvi dar uma volta pela praia, assim como fiz semanas atrás. Parecia que tinha sido ontem que descobri que estava esperando um bebê, e minha vida já tinha dado tantas voltas que eu queria pedir para darem uma parada para eu vomitar.

A noite começava a cair e o vento batendo em mim era agradável, a leve maresia me fazia querer ficar ali para sempre. Sentei perto de um quiosque, vendo o movimento.

Muitos casais passavam, e eu lembrei que muitas vezes éramos eu e Dallas caminhando por aqui, fazendo as mesmas coisas de casal. Tomando água de coco, vendo o por do sol, namorando. Parecia eras atrás, na verdade, e eu senti uma falta desesperadora dele.

Dallas tinha uma sensibilidade muito grande, e de alguma maneira, nos completávamos muito. Acho que meu choque maior foi a rejeição tão forte dele, as acusações.

Bufei, lembrando de Austin. Sinceramente, eu queria guardar minha raiva de Austin em um potinho e liberar da forma certa, na hora certa. Meu pai tinha razão, eu precisava me acalmar.

Infelizmente, eu estava em uma parte da praia onde tinha uma espécie de brinquedos infantis, e um “baixo mamãe”, onde a mãe podia trocar as crianças que se sujassem.

Eu só posso ter algum tipo de retardo mental de vir justo para cá.

Eu olhava as crianças em um misto de carinho e terror, foi por isso que não senti a presença do meu lado, mas assim que eu senti, voltei para quando Austin me encontrou.

O mesmo pensamento de que Miami não era uma cidade tão pequena assim.

— Você?

Notas finais
Tan tan tannnnnn o que acharam? Comentem e façam uma autora felizzzzz