Nove Meses

20 Mantendo-me afastado


Notas iniciais
Hey, aqui estou eu com mais um capítulo. Espero que gostem:)

Nove Meses – Pov. Natsu

Na manhã seguinte a obra do dia anterior havia novamente retornado, fui despertado pela manhã com o assombro do pesadelo.

Fitando-me no espelho, com os cabelos molhados e de banho tomado, pela primeira vez questionei-me o que deveria fazer. Mas em seguida lembrei que há tempos estava devendo uma visita ao escritório de Igneel. Tinha alguns dias que nós mal nos falávamos e hoje que ele estava em casa poderia ser uma boa oportunidade. Desde que não estivesse imerso em trabalho e estressado com a vida do cotidiano, poderíamos trocar algumas palavras.

Como esperado encontrei-o lá, os óculos que usava para a leitura estavam sobre alguns papéis que não cheguei a ter conhecimento do conteúdo. Encostei-me ao batente da porta e ele continuou olhando para o teto, sem notar que outro corpo estava com ele ali dentro.

— Muitos problemas?

Assustou-se, mas não deixou que transparecesse por muito tempo. Reajustou-se na cadeira deixando às costas eretas.

— Natsu? Que surpresa tê-lo aqui. Venha, sente-se. — Caminhei até a cadeira a sua frente, sentando-me como havia indicado. — Não esperava vê-lo acordado há essa hora. — Lançou de relance um olhar ao relógio. — E Lissana ainda está dormindo?

— Ela não passou a noite aqui, preferiu voltar ao apartamento ontem à noite.

— Sua mãe comentou que você pediu para que Lucy organizasse o seu quarto. — Estralou os dedos descontentes. Claro, ele não ficaria feliz em saber que tivera que pedir a alguém que preparasse meu próprio aposento. Nada menos que o esperado de Igneel Dragneel. Mas naquele momento outra questão despertou-me.

— Então Lucy é o nome dela? — Perguntei enquanto um “interessante” rolava pela minha cabeça.

— Sim, Lucy Heartfilia. Você não sabia? — O sobrenome me lembrava alguém, tentei esforçar para saber quem, mas não consegui recordar de onde o conhecia.

— Eu já a tinha visto algumas vezes, mas nunca havia trocado palavras com ela. Você não espera que eu saiba o nome de todos os serviçais, não é mesmo pai?

— Não fale assim de nenhuma das pessoas que trabalham conosco Natsu, principalmente de Lucy, ela é uma menina muito especial. — Ralhou, pensei que estivesse brincando, mas estava mesmo falando sério. — O nome não lhe trás lembranças? Ela é filha de Jude Heartfilia, ele ficou muitos anos conosco. É o antigo motorista da família.

— Ah, sim, me lembrei dele.

O telefone tocou sobre a mesa interrompendo-nos, esperei até que ele atendesse. Com o decorrer das palavras que a pessoa do outro lado da linha discorria, Igneel adquiriu um semblante assustado.

— Obrigado por nos informar, por favor, mantenha-nos avisados. — Colocou o telefone de volta ao lugar.

— O que foi?

Ele respirou fundo escolhendo as melhores palavras para que pudesse me informar algo.

— O avião em que Elfmam e Mirajane estavam sofreu algumas complicações pelo caminho e...e... eles caíram em alto mar. Não temos muito conhecimento da situação até o momento. Alguns corpos já foram encontrados, contudo ainda não se tem notícias dos irmãos Strauss. Eu sinto muito, Natsu.

Abaixei a cabeça sobre o braço que estava estendido na mesa. Fechei os olhos, perguntando-me como daria essa informação a Lissana.

— Como eu vou... Como eu vou contar isso a ela? — Indaguei ao meu pai que estava mais controlado que eu.

— Você tem que ser forte, e dar forças a sua noiva, meu filho.

*

Fiquei no meu quarto às duas horas seguintes. Eu já havia perdido uma irmã e sabia como aquilo era doloroso, jamais conseguiria esquecê-la. Contar a Lissana que sua irmã e seu irmão poderiam estar mortos não estava na minha cota do dia.

Permaneci assim até que resolvi dar a notícia a Yukiko, ela era muito próxima a minha noiva e gostaria de saber sobre seus irmãos. Quando cheguei à porta do quarto ouvi o som agudo do grito de uma mulher, imediatamente reconheci a voz. Era da pessoa por quem eu estava procurando.

— O que está acontecendo aqui? — Gritei, pouco mais baixo que as duas pessoas ali dentro.

— Saia daqui, Natsu. Eu e seu pai estamos conversando.

— Não, não estamos conversando. Você está gritando. — Igneel articulou. Ele estava encostado ao guarda-roupa trazendo os braços cruzados sobre o peito.

— Qual o motivo para tanta discórdia? — Indaguei intrometendo-me entre eles. Notei pouco a pouco que o assunto relacionado aos irmãos de Lissana estava se esvaindo.

— Não é algo que quero discutir na sua frente Natsu. Dê-nos licença. — Pediu meu pai. Eram poucas as vezes que eu já lhe vi irritado, mas essas poucas já me permitem distinguir quando ele estava realmente sério. O que era, obviamente, aquela situação.

— Eu não vou a lugar algum até descobrir o que está acontecendo. Não posso sair e fingir que não estou escutando os gritos.

Yukiko andou até o lugar onde estava segurando meus braços.

— Você deve ficar Natsu. Quero que também saiba das acusações que seu pai está me fazendo. — Ela passou dois passos à frente de mim, não deixando em nenhum momento que o contato entre nós se esvaísse. — Continue falando Igneel.

— Talvez seja bom você saber um pouco mais sobre a sua mãe. — Iniciou-se a explosão. O olhar de ira na face de Igneel fez-me querer voltar para o meu quarto. — A mulher com qual me casei e só vim há conhecer tanto tempo depois. — Ele veio a andar e ficar cara a cara com ela. — Ela tem prazer em humilhar as pessoas. Ontem, depois que Lucy terminou de arrumar o seu quarto, pediu que ela levasse a bolsa para que fosse revistada. Você pode negar isso Yukiko?

— Como? — Perguntei, levando em consideração que pudesse ter ouvido errado. — Mãe, ontem eu lhe falei que não havia nada de valor lá. Não tinha porque fazer isso.

— Não tinha nada que você considerasse de valor Natsu. Ela poderia ter pegado alguma coisa sua. Esse tipo de gente não é confiável. — Tentou se defender. — E porque você está defendendo-a?

Ignorando a última pergunta de Yukiko ele falou:

— Se desconfiasse que Lucy tivesse pegado algo, você mesma iria com ela conferir a bolsa Yukiko. Não correria o risco de deixá-la sozinha fazer isso e ter a oportunidade de esconder o que você possivelmente pensa que ela poderia ter pegado.

Encarei Yukiko dando completa razão ao meu pai. Ele estava certo e esperava que ela tivesse bons argumentos em sua defesa.

— Olha, foi uma atitude impensada, tudo bem? Eu pedi que Lucy me trouxesse a bolsa sozinha porque no fundo não queria encontrar nada dentro dela. Vocês podem achar que me senti orgulhosa pelo que fiz, mas não, eu não sou uma pessoa tão ruim assim. — Ela se virou, ficando de frente para mim. Pegando meu rosto com uma das mãos olhou fundo nos meus olhos. — Acredite em mim Natsu, fiquei aliviada quando nada encontrei dentro dela.

— Como você consegue ser tão falsa assim? Estou até agora tentando acreditar.

Estava dividido. Era difícil escolher em quem acreditar. Meu pai era um homem íntegro, e que nunca mentiria. Mas minha mãe, apesar de ter deixado muitas falhas pelo caminho até aqui, não deixava transparecer em seu olhar nenhuma falsidade. Era uma merda essa situação.

Sai daquele ambiente em que nem mesmo uma pobre formiga ficaria confortável. Rumei à biblioteca, ansiando que os gritos não fossem capazes de invadir as paredes daquele ambiente.

Puxei uma cadeira qualquer e encostei-me de mau jeito a ela, deixando que a cabeça descansasse na parte mais alta. Minhas pernas estavam esticadas e deixei que meus braços sobre caíssem de lado, fechei os olhos tentando por um minuto não pensar em nada. O que não dera muito certo. Ensaiei milhares de vezes uma forma mais branda de dar aquela notícia a minha noiva. Cerca de uma hora se passou e continuei na mesma posição.

Quando me senti encorajado, acreditando que estava pronto para aquilo, liguei para Lissana pedindo que ela comparecesse a minha casa. Foram vinte minutos para que chegasse, e quando cruzou a porta da biblioteca rumando em minha direção todas às palavras desapareceram de dentro de mim.

— Olá amor, estou curiosa para saber o que tem de tão importante para me contar. —Sentou-se sobre minhas pernas, dando-me um beijo leve nos lábios. Não consegui corresponder, e foi o ponto de partida para que desconfiasse que havia algo de errado.

— Eu não sei como contar isso Lissana. Você sabe que não gosto de distender as coisas, mas nem sempre é fácil fazer as coisas que são impostas a nós.

— Natsu, você está começando a me alarmar. Vamos, diga logo, estou curiosa. — Ela se levantou do meu colo, cruzando os braços em frente ao peito.

— Aconteceram algumas coisas desagradáveis. Ligaram para o meu pai essa manhã, o avião em que seus irmãos estavam caiu em alto mar. Não se tem informações ainda sobre o seus irmãos.

Eu me levantei imediatamente, abraçando-a. avistei as prime3iras lágrimas descerem por seu rosto. Apertei seu corpo contra o meu tentando de alguma forma consolá-la, sabendo que não seria possível. Não naquele momento.

Meus olhos guiaram até a porta quando um ruído se fez audível. Fiquei surpreso ao encontrar Lucy a menina dos olhos perolados olhando-nos. Não podia dizer muita coisa naquele momento devido às circunstâncias, mas algo em seu olhar me dizia que não estava contente com a situação. Balancei rapidamente a cabeça em negativa, tentando fazer com que Lissana não a percebesse. Não queria que viesse me fazer perguntas sobre Lucy, ela não tinha nada a ver com isso.

Compreendendo que aquele não era o melhor momento para entrar ali, ela saiu.

Levei Lissana para um local mais reservado: o meu quarto. Ele estava sendo bastante frequentado nos últimos dias por ela. Deitei ao seu lado trazendo-a para meus braços.

— Natsu, poderia me fazer um favor? — Limpou as lágrimas que desciam por seu rosto com as pontas dos dedos. — Reserve um vôo para Buenos Aires para mim?

— Como? Depois do que aconteceu você irá viajar?

— Preciso ficar com a minha mãe. Não posso deixar que ela passe por tudo isso sozinha.

— Eu queria poder ir com você. — Falei a ela.

— Não tem problema, você precisa mesmo ficar. Tem alguns detalhes que precisava resolver do casamento com a sua mãe. Você pode fazer isso no meu lugar. — Virei-me para ela. Havia esquecido completamente o casamento.

— Não prefere adiar? Pensei que com o que aconteceu não iria querer se casar agora.

— Não! Não mesmo! — Ela protestou. — Espero há muito tempo por esse momento, nada nesse mundo me impedirá de casar com você Natsu Dragneel. Nada! Você me entendeu? Nada!

Franzi a testa espantado com a sua súbita reação.

— Tudo bem Lissana, eu só achei que... Não importa o que eu achei. Nós vamos nos casar, não se preocupe.

*

Minutos depois Lissana havia adormecido. Levantei cuidadosamente tentando não acordá-la. Havia decidido sair e procurar por um presente para ela, algo que fizesse nem que por um momento um sorriso surgir em sua face.

Mas para isso precisava de uma opinião feminina. Veio em minha mente imediatamente o rosto da empregada loira. Ela seria a pessoa ideal para me ajudar. Naquele momento tentei convencer a mim mesmo que aquela não era uma desculpa para vê-la novamente. Não, não era. Não havia chances de ser.

Voltei à biblioteca tentando encontrá-la, no entanto tudo que localizai foi uma vastidão de livros. Igneel passou por mim com uma face descontente, não tinha informação de onde esteve todo esse tempo, certamente não com Yukiko, pois essa casa estaria pegando fogo se esse fosse o caso. Sabia que não havia sido fácil a conversa entre ele e minha mãe, ela era impossível quando queria ser. Não me surpreenderia até mesmo se tivesse convencido a ele, que o que fizera com Lucy não fora errado. Nem mesmo eu sabia de que lado estava em toda aquela confusão.

— Pai? Você sabe onde posso encontrar Lucy?— Ele me encarou com um olhar perdido, fazendo que não. — E as outras empregas?

— Elas não vieram hoje.

— Todas elas?

— Natsu são apenas duas. Uma delas ficou doente e a outra foi acompanhar a filha ao médico.

Despedi-me dele e continuei minha busca, rumei a sala, a lavanderia, ao jardim, a piscina, aos quartos de hóspedes, a sala de jantar. Não a encontrei em lugar algum. Não entendia essa mania, não só dela, mas de todos de desaparecerem em horas inoportunas.

Segui então para a cozinha. Encontrei uma garrafa quebrada ao chão, água e um pedaço de bolo desfarinhado. Se não fosse acostumado com a elegância do meu quarto, poderia ter me espantado. Nada dela ali também.

Avistei-a finalmente quando estava saindo do cômodo.

— Lucy? — Chamei-a. Tentei ecoar mais legal que da última vez, não sabendo se tinha surtido efeito. Anos e anos tentando afastar as pessoas e quando tentava soar diferente, não conseguia. — Você pode me acompanhar? Quero que vá a um lugar comigo.

— Claro, deixe-me apenas tirar o avental. — Ela passou por mim sem me olhar. Mas sua voz continuava comigo, a simplicidade e a delicadeza me abalaram.

Ela entrou na cozinha e por lá ficou dois demorados minutos. Quando saiu algo me dizia que estava diferente e eu estava certo. Seus cabelos estavam soltos e ficavam bonitos assim. Vestia uma regatinha apertada que deixava visível sua parte de cima farta. Mas o que mais me impressionava eram os seus olhos perolados de tom castanho. Eram lindos olhos. Droga! Eu estava com uma noiva triste, abalada dentro do meu quarto, e estava pensando esse tipo de coisa sobre a empregada.

— Vamos? — Perguntei. Andei ao lado dela encarando meu anelar. Apertei os dedos da mão que tinha enfiado dentro do bolso.

Eu não conhecia Lucy Heartfilia, mas desde o momento que a vi no dia de ontem seu nome tem estado mais presente do que eu desejei. Não sabia quem ela era, mas com toda certeza devia me manter afastado. Na verdade deveria fazer ela se afastar de mim. Hora ou outra eu estava pensando em algo relacionado a essa garota. Isso não estava certo. Não estava mesmo. Tinha repelido as pessoas por toda a minha vida, não seria difícil fazer isso por mais algum tempo.

Assim eu imaginava.