Nove Meses
43 Capítulo 39: A dor dos que amamos
No capítulo anterior:
“Lisanna engoliu em seco. Realmente Yukiko não estava em seu melhor momento. A mulher, a cada dia que passava, demonstrava ainda mais sinais de demência. Ou talvez não, quem sabe fosse apenas maldade.
— O que você escreveu naquela folha? Yukiko o que era aquilo?
— Um pequeno presente para a família Heartfilia.”
Capítulo 39: A dor dos que amamos
5 de Dezembro de 2001
Natsu Dragneel
O dia amanheceu frio quando puxei as cortinas do quarto e tudo que encontrei foi um céu cinzento que se caracterizava muito bem pelo clima de Tóquio.
Nos últimos dias estranhamente o tempo passara depressa. Eu não tinha notícias de Lucy e o pouco que sabia eram informações baseadas no relatos de meu pai. As vezes me pegava pensando no que ela poderia estar fazendo ou como poderia estar se sentindo. Apesar de tudo, ela estava esperando um filho que possivelmente era meu. Fato, que depois de tantos esforços de meu pai eu não poderia negar.
Igneel costumava acompanhá-la de perto, uma enorme atenção de sua parte era direcionada a Lucy. Era esse fator que me dava certeza de suas palavras em alguns momentos, apesar de que, as vezes, a dúvida corroer minha mente. Era realmente verdade a história de eu ser o pai dessa criança? Era até um pouco cruel pensar nisso, pois eu não conseguia ver mentira em seu olhar ou até mesmo nas palavras que deixaram sua boca naquele dia no hospital, mas confiar, não era algo que eu conseguiria fazer facilmente nos próximos meses, anos ou décadas. Quando se está no meio de tanta mentira, crueldade e falsidade, mesmo que não queira, você acaba sendo atingido. Parece que estava esperando sempre o pior de todos ao meu redor, de alguma maneira, algo havia se quebrado.
Virgo continuava da mesma forma, os médicos não tinha precisão quanto a uma data para despertar. Sentia que meu pai afundava um pouco de cada vez. Para qualquer um ele continuava mantendo a pose de durão, mas não tinha como esconder isso de mim, ele não era o mesmo Igneel Dragneel, na verdade, há muito tempo deixara de ser.
A casa tinha um ar estranho desde o acontecido, à polícia continuava investigando o paradeiro de Lisanna e Yukiko, mas não se tinham notícias de nada ainda. Meu pai utilizava de toda a influência que possuía a seu favor, mas elas haviam desaparecido, é como se sua existência fosse apagada da terra.
Ouvi dois toques de leve na porta, e logo em seguida a face morena da nova cozinheira surgiu diante dos meus olhos.
— Senhor Natsu, o jantar está servido.
— Obrigado, Donna Ana. Já irei descer.
Meu pai havia contratado uma nova cozinheira, mas ela de fato não tinha muito serviço agora, a não ser é claro com os outros empregados. Igneel não parava em casa, e não me restava muita vontade para comer.
Ela era amigável, uma senhora de aproximadamente cinqüenta e cinco anos que me parecia muito com uma daquelas avós, que não sossegam até verem os netos empanturrados de comida. Era um pouco engraçada a forma como tratava as coisas, e até mesmo os outros ajudantes mais jovens.
— Donna Ana, a senhora teve filhos? — Perguntei, sentado na pequena mesa da cozinha. Agora não havia mais sentido usar a sala de jantar.
Ela sorriu.
— Sim, tive três meninas e dois meninos. Infelizmente perdi minha filha do meio há onze meses.
Senti que, mesmo contra minha vontade, as bochechas avermelhar. Não sabia muito bem o que dizer em situações como aquela.
— Sinto muito, isso é... Tão triste.
— Bem... Sim. Ela faleceu durante o parto. — Suas palavras me chamaram atenção. Tinha um olhar triste que parecia distante. Seus olhos adquiriram uma coloração vermelha, ela segurava lágrimas. Bem, compreendi o quão idiota havia sido aquela pergunta. — Houve algumas complicações e perdemos os dois. Perdi meu neto e minha filha naquele dia.
Ela colocou um pouco de comida dentro do próprio prato, e sentou em uma cadeira do outro lado da mesa.
— Eu não vou fingir que não sei de nada, ouço os comentários dos outros empregados. Senhor se quer um conselho de uma mulher com experiência de vida, não desperdice o tempo. Ele é muito precioso e passa muito rápido, antes que perceba você já será um velho que mal consegue se manter de pé. — Parei de comer, espantado com suas palavras, mas nem mesmo isso fez com que parasse. — Bem, quem sou eu para te falar alguma coisa não é mesmo? Sou uma simples empregada que não consegue mais ver tanto tempo jogado fora por jovens como o senhor. Aproveite antes que seja tarde.
Suas palavras ficaram comigo por mais tempo do que eu pretendia. Durante alguns minutos aquela infeliz história ficou repassando na minha cabeça e então pensei em tudo que Lisanna e Yukiko pensaram em fazer. Todo mal que planejavam para Lucy e o bebê e o quão perto tudo chegou de se concretizar. Refleti que elas ainda estavam aí fora, escondidas em algum lugar, Deus sabe com quais planos mais.
No entanto o pensamento de que me enganara por tanto tempo, e que me deixara ser o último, a saber, da existência da criança continuava a perturbar. Lucy havia se passado por Lisanna e eu nem mesmo consegui distinguir. Malditamente eu não me lembrava de boa parte daquele momento. Já ouvi amigos dizer que não se lembravam do que faziam quando estavam bêbados, mas aí se esquecer do principal? Que merda era aquela?
Aproveite antes que seja tarde. Dona Anna havia me falado o que meu pai também me dissera outro dia.
Só que o que nenhum deles me dissera era como conseguir superar. Esquecer tudo que havia acontecido. Nenhum deles também havia dito que seria fácil.
Levantei da mesa e larguei o prato pela metade. Procurei a chave do carro e decidi o que deveria fazer. Não pensei mais, para não acontecer de me arrepender, e apenas fiquei com um pensamento na cabeça, eu deveria tentar chegar até ela.
Tudo se resumia em pelo menos tentar.
*
Lucy Heartfilia
Coloquei um vestidinho folgado de tom azul claro, enquanto que calcei as velhas e confortáveis chinelas de tira. Escovei os cabelos e desci para jantar. Essa noite, por aproximadamente duas horas a casa seria só minha. Mamãe e Papai iriam ao cinema, o que para mim foi à novidade do ano, eles resolveram sair um pouco e apoiei de imediato. Precisavam viver um pouco mais a vida deles, pois desde que me entendo por gente, toda atenção havia sido direcionada para mim e Sting.
Quanto a ele estava com Yukino em casa, ela havia recebido alta e até onde sabia já estava melhor. Graças a Deus por isso. Sting costumava passar a maior parte do tempo que tinha com ela, ele se dividia entre trabalho, faculdade e Yukino. Ela havia começado mais uma etapa do tratamento e tinha fé que tudo daria certo. Yukino tinha disposição o suficiente para lutar e sair dessa.
— Querida, eu deixei janta pra você. Está tudo pronto. Estou levando o celular e qualquer coisa não hesite em ligar, tudo bem? — Me deixou um beijo singelo na testa. Sorri.
— Está tudo bem mãe. Relaxe, não vou colocar fogo na casa durante a ausência de vocês.
Ela ri, acompanhada de papai.
— Se cuide Lucy. — Ele disse mais alegre.
Observei ambos saírem, rindo, como há tempos não via. Papai e mamãe estavam tão felizes, eu não gostaria que nada fosse capaz de acabar com essa felicidade. Eles são um daqueles casais que completam, se ajudam, que ficarão juntos pelo resto da vida.
Suspirei. Queria eu possuir um relacionamento assim. Estar tão feliz como eles e por diversas vezes não me obrigar a fazer as coisas apenas pelo meu bebê. Tinhas dias que não sentia fome, mas insistia em comer porque existia agora um serzinho que necessitava de toda a minha atenção. Havia manhãs que não gostaria de levantar da cama, mas me obrigava porque não poderia eu entrar em um estado depressivo. Eu sorria mesmo quando não era totalmente sincero porque não queria que as pessoas que estavam ao meu lado também se sentissem mal. Especialmente elas que eram as únicas a me alegrarem nos piores momentos.
Ouvi o celular tocar sobre o sofá e corri a espera de notícias. Horas do meu dia também se resumiam a isso, esperando que senhor Igneel ou alguém viesse me passar informações de Virgo. Passava no hospital sempre que possível, mas vê-la daquela maneira, imóvel sobre uma cama, destruía-me pouco a pouco. Virgo era alegre, autoritária e até um pouco irresponsável e vê-la tão diferente da pessoa que já foi, era desolador. Ela era minha amiga, e eu só queria que tudo voltasse a ser como antes. Por piores que sejam os momentos que presenciei antes, era mil vezes melhor pelo simples fato de todos aqueles que amo estarem bem e saudáveis.
Lembrei-me de nossa situação com a barata e a água, e logo mais, quando fizera um decote no uniforme para falar com senhor Igneel. Não seria ela se não fizesse algo assim. Ri, Virgo havia conseguido. Conseguira ficar com a pessoa pelo qual estava apaixonada, e logo isso voltaria a se repetir. Por que com todas as minhas forças era o que mais desejava.
Eu não podia me imaginar, de forma alguma, perdendo-a.
Olhei o número desconhecido que apareceu na tela.
— Alô? — Falei, sem muita certeza.
O silêncio foi tudo que me encontrou do outro lado da linha, conseguia ouvir uma respiração acelerada, que por algum motivo fez meu coração palpitar. Senti um tremor tão conhecido e minha respiração se interrompeu.
No momento seguinte, ouvi dois toques leves na porta. Fiquei dividida entre o estranho ao celular e a pessoa que estava me esperando logo mais. Caminhei a passos lentos esperando ouvir algo. No entanto, o indivíduo do outro lado da linha não fez mais nenhum ruído. Estressei-me e desliguei. Abri a porta e o celular que segurava quase foi ao chão.
Na minha frente havia um Natsu um pouco mais magro, mas igualmente belo. O celular ainda estava próximo ao ouvido, e lentamente ele encontrou seu caminho até o bolso. Encaramo-nos por breves momentos, incapaz de quebrar aquele sigilo, que ao contrario de muitos momentos, me trazia um pouco de calmaria.
— Natsu? — Perguntei, como se para ter certeza que ele estava realmente bem ali.
— Podemos conversar? — Sua voz soou mais grossa que de costume e quase não consegui acreditar. Alguns segundos depois de olhá-lo tudo que fiz foi abrir caminho para que passasse.
Senti minhas mãos tremendo e esperei que ele não visse aquilo. O coração deu uma cambalhota tão conhecida e pensei que ele pudesse sair ali mesmo pela boca.
— Claro.
Ele se acomodou no sofá e fiz o mesmo no móvel logo a sua frente. Notei que passava as mãos sucessivamente pela calça, e senti que as minhas também precisavam de um processo semelhante. Suavam além de estarem mais frias que o habitual. Claros sinais do nervosismo, que estaria, provavelmente, estampado em meu rosto.
— Eu... — Respirou fundo. — Eu pensei um pouco sobre tudo que aconteceu, temos algumas coisas a esclarecer.
— Sim Natsu, temos muitas coisas para falar. — Respirei profundamente, tentando ao máximo me acalmar. O que eu havia aprendido nos últimos dias, a me manter bem pela minha criança. — Mas para isso, eu preciso que você tenha um pouco de confiança em mim, eu sei que é difícil, principalmente nesse momento, mas se isso não acontecer, não vamos evoluir em nada em relação às conversas anteriores.
Ele apenas me olhou por alguns momentos, e então acenou com a cabeça, levemente. Seria imperceptível se eu não estivesse tão atenta em todos os seus movimentos.
— Eu vim até aqui porque quero entender toda essa situação. Realmente quero.
Suspirei. Tinha tanta coisa para contar. Havia uma pequena alegria em mim, apesar de seu semblante não ser dos melhores e a situação como se não pudesse estar pior. Estava feliz apenas por ele conseguir considerar a hipótese.
— A primeira vez em que lhe vi você estava saindo da piscina, naquela época você ainda não estava namorando com Lisanna, ao menos acho que não era uma coisa séria. Eu havia visto o anúncio no jornal e foi à primeira coisa que fiz naquele dia. É engraçado que alguns meses atrás descobri que meu pai também já trabalhara ali, e mesmo assim, ninguém nunca havia me contado sobre isso...
Balancei a cabeça retomando o foco da conversa.
— Naquele mesmo dia como uma adolescente apaixonada eu me encantei. — Ri, porque no fundo até hoje não passava disso. Uma boba menina que amava o cara que lhe era impossível. Parecia até mesmo história de filme de romance, com o único diferencial de que isso aqui era a vida real. E nada se resolveria do dia para noite como nas histórias que nos são passadas. — Primeiro seus cabelos, eu nunca havia visto nada parecido. São tão diferentes, eles brilhavam tanto. — Abaixei a cabeça, incapaz de saber o que se passava no seu rosto. Por mais que minhas bochechas estivessem quentes e sabia eu que muito vermelhas, precisava dividir aquilo com Natsu. Me ver livre dessa angústia que era guardar esse sentimento apenas para mim. Não era inocente ao ponto de imaginar que tudo se resolveria depois de hoje, havíamos nos magoado muito. Da mesma forma que eu lhe feri os sentimentos, Natsu também conseguira abrir uma ala em mim. Num pequeno e estreito pedaço do meu coração.
— Depois o seu sorriso, é tão grande e tão verdadeiro. Nos poucos momentos que você se permite sorrir Natsu, é lindo, você merece saber disso. — Abaixei a cabeça para a minha barriga um pouco maior, e acariciei-a, de alguma forma aquilo me dava forças nos últimos meses. — Ainda naquele dia, na entrevista, Yukiko foi totalmente contra a minha contratação. Mas eu precisava muito do emprego, minha família também. Naquela época minha mãe sofreu algumas crises devido às diabete e também recorrente do vício, e precisava de remédios que o governo não oferecia.
“— Igneel, essa garota não se enquadra nos padrões dos funcionários que precisamos.
Ele me analisou por alguns momentos, era um homem sério, que exalava confiança. Orei em meus pensamentos sucessivamente. Precisava muito do emprego. Por favor, por favor, por favor...
— Por que não mãe? — Ele apareceu ao lado da porta. No pequeno escritório de Igneel Dragneel, encontravam-se agora, pai, mãe e filho, de uma das famílias mais influentes de toda a capital. O jovem me encarou por alguns segundos e então concluiu. — A ruiva ali — Apontou para a uma jovem mulher do outro lado do corredor, essa estava distraída demais conversando com outra mulher ao seu lado. — Não teve disposição nem mesmo para tirar as sujeiras dos olhos, e olha que já são — Olhou no relógio de pulso. — três e meia. A morena tudo que escutei-a falar desde que chegou é que quer sentar, não acredito Yukiko, que queira uma pessoa assim para cuidar das suas coisas. Ela ao menos me parece uma pessoa dedicada.
Sorri e senti meu coração palpitar um pouco.”
— Não me lembrava disso. — Ele comentou baixinho. — Só agora que comentou...
— Imaginava isso, não posso deixar de agradecer, foi por sua causa que me contrataram. — Conclui.
— Não ache que fui tão benevolente assim Lucy, você era a mais bonita entre elas. Lembrando-me agora a ruiva me dava dor de cabeça, só de olhar para aquele cabelo.
Tinha certeza que meu rosto assemelhava-se muito nesse momento com um tomate. Mais vermelho impossível.
Então ele me achava bonita? No auge dos dezesseis anos cheia de sardas na cara?
— Acho que devo dizer que tudo começou naquele dia. Até hoje me pergunto como algo assim aconteceu. Por um tempo pensei que tudo não passava de algo da minha cabeça, como poderia sentir algo por alguém sem nem mesmo que nunca houve acontecido nada. Forcei-me a pensar nisso por algum tempo, mas ai...
“Chovia horrores e pensei que nunca fosse capaz de chegar ao ponto de ônibus. Mas quando finalmente o alcancei descobri que o ônibus já passara a cerca de cinco minutos. Quase chorei ao pensar quando o próximo passaria e por quanto tempo teria que esperar sozinha e embaixo de chuva.
Foi então que um carro preto parou bem a minha frente. A janela abriu um pouco, por apenas alguns segundos e de lá apareceu um garoto de cabelos negros.
— Uma carona? — Meu primeiro pensamento foi dizer não, e foi assim que acenei com a cabeça, isso era algo que fazia parte de quem eu era, algo que minha mãe me ensinara desde de pequena, e hoje era refletido nas ações do dia a dia.
Vi a cabeça do garoto ser bruscamente jogada para o lado, ouvi ele reclamar de algo, e então um rosto mais familiar apareceu por trás deste. Tratava-se dos mesmos cabelos que brilhavam no dia da piscina e os mesmo lábios que seguravam o sorriso na mesma ocasião.
— Entre, é melhor do que ficar toda molhada. Você nem sabe quando o ônibus vai passar novamente.
— Eu me lembro desse dia, nós estávamos voltando da casa de uns amigos. Gray falou que queria te seqüestrar, pois você era muito gata. Acertei-lhe um soco por causa disso. — Olhei para o seu rosto e vi que ele sorriu com a recordação.
— Espere um minuto.
Levantei-me e saí por alguns instantes, rumei até o guarda roupa e peguei uma peça que estava guardada ali por anos. Continuava da mesma maneira que a adquiri. Claro que, agora não tinha mais o aspecto novo da época.
Quando voltei à sala, entreguei-lhe a peça.
— Isso pertence a você.
— Você ainda a tem?— Disse, um pouco espantado.
“ — Você só saiu agora?O babaca aqui do meu lado me disse que você trabalha na casa dele. — E então virou-se para o amigo. — Natsu dê uma folga para ela.
Natsu me olhou, estava toda encolhida no banco de trás, notei que havia molhado um pouco o banco do carro e senti que queria sair correndo dali. Fazia frio, mais do que estávamos habituados naquela época do ano e foi então que senti algo tocar em mim. Olhando mais atentamente que vi aquele garoto, que estava conseguindo ocupar meus pensamentos, me estendia sua jaqueta.”
— Sim, na verdade eu iria lhe devolver no dia seguinte, mas preferi guardá-la por mais um tempo para você. — Abaixei a cabeça ao contar essa verdade, eu havia lhe dito que a tinha esquecido em casa, mas na realidade, tudo sempre fora algo que ocorreu pela minha vontade. — Infelizmente depois desse dia, você mudou tanto. Não me arrisco dizer que éramos amigos ou até mesmo colegas, no entanto não agia tão mal comigo como passou a fazer na semana seguinte. Era como se houvesse feito algo que de desagradasse, nunca entendi o motivo completamente.
— Você tinha razão quando disse que Yukiko não gostou de você desde o primeiro momento, devo dizer que ela sempre sentiu algo bem maior que desagrado em relação a você Lucy. Ela sempre fez o que pôde para me afastar de você, e por mais que eu não entendesse, não fiz muita questão de insistir nesse assunto, pois...
— Pois eu era apenas uma empregada que não valia o tempo de discussão Natsu? Eu entendo, não esperava que fosse diferente.
— Não queria dizer isso... — Tentou se justificar, mas por mais que não fosse agradável admitir, aquela era a realidade. Não podia almejar que ele fizesse algo, no fim eu era só a empregada nova, quem ele nem ao menos conhecia direito. Nem todas as pessoas são como eu, que se apaixonam por um total estranho que nunca lhe daria chances. — Natsu eu já te disse isso antes e vou voltar a repetir, naquela noite, nunca foi minha intenção lhe enganar, jamais pensaria que tudo aquilo fosse ocorrer. Eu lhe juro que com todas as minhas forças tentei resistir. — Deixei que as palavras saíssem por mim, contei todos os detalhes, tudo que aconteceu de uma forma que nunca adveio antes. — Sua mãe apareceu na manha seguinte, ela nos viu juntos, foi um dos momentos mais horríveis da minha vida. — Fechei os olhos com a lembrança, ainda conseguia ouvir seus gritos assustadores.
— Nem ao menos consigo pensar nisso, que uma pessoa assim possa ser minha mãe. Só de pensar em tudo que ela fez e esperava fazer. Ambas, pois Lisanna é tão culpada nessa história como ela. Quando penso na crueldade que elam almejavam fazer a você e esse... bebê. Quando penso que ela já foi capaz de abortar, de acabar com uma vida... — Ele murmurou, parecia ter saído desse mundo por alguns segundos. Natsu tinha o olhar fundo e então todas as conseqüências bateram sobre ele, seus olhos cansados não conseguiam esconder as noites mal dormidas. — E agora estão desaparecidas, Deus sabe onde, provavelmente planejando fazer coisas horríveis, porque infelizmente, isso é o que fazem de melhor.
— Mas nós precisamos confiar no trabalho da força policial, seu pai tem provas concretas contra elas e contratou ótimos detetives. Não vai demorar a que consigam encontrá-las.
Ele apenas suspirou fundo e não tocou mais no assunto, achei que fosse melhor que eu também não o fizesse.
— Qual... — Ele coçou a cabeça — Qual é o tempo de gestação?
— Quatro meses e duas semanas. Infelizmente ainda não conseguimos descobrir o sexo do bebê, alguém aqui insiste em se manter com as perninhas cruzadas. — Falei e ri um pouco. Natsu, porém, não fez o mesmo. Não estava habituado com isso, não sei nem ao menos se conseguia digerir muito bem a idéia de ser pai.
— Natsu — Falei, me sensibilizando — Você não tem que entender tão rápido. Leva tempo para se acostumar, levou também para que eu me habituasse. Eu quero mesmo fazer esse exame de DNA para não lhe restar dúvidas. Só posso dizer que espero que ele se pareça com você, que tenha a mesma cor que seus cabelos.
— Eu não acho que seja necessário... Meu pai conversou muito comigo. Esclareceu-me algumas coisas também...
— Eu insisto. De qualquer forma, é algo muito simples que não vai levar muito tempo. — Ri, sem graça. No fim era a coisa mais habitual do mundo seu pedido e por mais que eu tivesse certeza compreendia que era difícil para ele. Especialmente depois de tudo que acontecera.
— Lucy eu vim aqui essa noite porque realmente estou disposto a cumprir o meu papel, mas não é tão fácil como pensei que seria. Não é tão simples voltar a confiar nas pessoas depois de tudo que aconteceu. — Ele fechou os olhos por um momento, parecia ponderar sobre algo. — no entanto, mesmo assim eu não consigo me afastar de você completamente. Nunca consegui por todo esse tempo. — Eu me levantei, onde espera chegar com tudo isso? Nada se resolveria tão facilmente entre nós, mesmo que meu coração no fundo carregasse um fio de esperança. — Não consigo deixá-la desprotegida depois de todo mal que tentaram causar a vocês, — Ele se levantou também — Mas ainda não sei se estou pronto para isso.
Abaixei os olhos para os chinelos que acomodavam meus pés, meus dedos brincavam uns com os outros num claro sinal de nervosismo.
— Já esperava por isso, não espero que fique comigo por causa de circunstâncias,nem eu quero isso para mim. — Pensei em uma alternativa mais amigável — Podemos tentar então ser amigos? — Sorri de lado, e o encarei em expectativa.
Ele riu, tentando compreender minhas palavras.
— Você é mesmo muito estranha. — Balançou a cabeça para os lados e estendeu a mão. — Podemos tentar então. Amigos que irão ter um filho juntos, ainda sim amigos.
Foi a minha vez de sorrir.
— Você deve estar com sede, certo? Temos um suco de laranja, mas se você achar que não está bom posso fazer...
— Lucy, o suco de laranja já está ótimo. — Falou em resposta a minha fobia. Ele voltou a se sentar no sofá, um pouco mais descontraído. — Eu gostaria de saber quem era aquele cara que eu vi no outro dia, vocês pareciam muito próximos, por um momento pensei que era o pai de seu filho. — Disse, e deixou algo no ar. Se não fosse a situação, e aquele a minha frente Natsu, diria que era ciúmes.
Mas não, era impossível.
— Ele é um grande amigo. — Falei e notei que ele esperou algo a mais. Todavia Natsu infelizmente não ouviria mais nada de mim sobre o Loke, principalmente o pequeno detalhe de que ele era Gay. Virgo diria que era a coisa certa a fazer.
Fui para a cozinha sem realmente acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. É claro que meus problemas não estavam resolvidos, no entanto, só de pensar que Natsu sabia do filho e que agora estaria ao seu lado, era como um sonho realizado.
Ouvi que a porta da frente foi aberta e meu coração congelou com a possibilidade de dele ter mudado de idéia e ter saído, mas foi então que uma frase de uma voz muito conhecida chegou ao meu ouvido.
— Lucy querida o cinema não abriu hoje, logo hoje que seu pai e eu resolvemos...
As palavras de mamãe foram cortadas ao meio, e nesse instante já estava na porta da sala, encarando uma mãe muito espantada, um pai que bufava raiva e um Natsu mais confuso que todos nós juntos.
— O que esse garoto está fazendo aqui? — Papai gritou. Meu sangue gelou diante da situação, pois sabia que nada de bom resultaria de tudo isso.
— Jude, pense no que está fazendo.
Papai caminhou rumo a Natsu e esse moveu um pé para trás, mas parou ao encontrar o sofá logo atrás de si. Ele me olhou sem saber o que fazer e soube que deveria ser eu a acabar com essa situação. Não queria que meu pai e o pai do meu filho saíssem aos murros. Ou pior, que ambos acabassem se machucando.
— Pai, por favor, ele veio conversar comigo. Deixe-me explicar...
— Com licença senhora. — Virei para trás com a nova voz que surgiu no recinto. A porta estava aberta e em frente a ela estava um garotinho, aparentemente com um pouco mais de oito anos, estava com as roupas rasgadas o que me lembrava muito essas crianças que não tem a quem recorrer e vivem por aí, perambulando nas ruas. — Isso é para a senhora.
— Para mim? — Mamãe perguntou. Não sabia quem ele era, todavia estava abundantemente agradecida por ser capaz de evitar que uma briga ocorresse bem a minha frente, entre dois homens que me eram muito importantes.
Ele sacudiu a cabeça e saiu correndo. Sumiu na escuridão da rua e logo os meus olhos o perderam de vista.
Olhei em expectativa para mamãe e notei que tanto meu pai como Natsu faziam o mesmo.
— Layla, o que é isso? — Ela tinha em mãos um envelope amarelo liso, vi-a virá-lo diversas vezes, mas nada tinha escrito no verso. Mamãe rasgou a ponta e lentamente retirou de dentro alguns papeis. Ela encarou-o por alguns segundos e então vi quando ficou tão palida que o assombro me tomou. Em seguida lágrimas desceram por seus olhos.
Assustei-me e rapidamente aproxime-me para conferir o que estava acontecendo. Mais de perto fui capaz de observar que não se tratavam de papeis e sim de algumas fotos. Meus olhos nublaram, quando vi os protagonistas daquela cena.
Nas fotos era muito fácil detectar meu pai juntamente com uma presença inesperada, triste e nojenta. Papai e Yukiko estavam juntos, aos beijos e em algumas outras imagens, sobre uma cama de forma que até meus pensamentos se negavam a imaginar.
Olhei para ele e vi seus olhos confusos fazerem o mesmo caminho que meu, e então ele entendeu.
Meu pai havia traído minha mãe, isso era muito claro naquelas fotos, havia traído com Yukiko Dragneel.
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