Nove Meses
45 Capítulo 41 — Strauss
No capítulo anterior:
— Natsu... — Disse, interrompendo-o. — Tem um lugar que quero passar.
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Capítulo 41: Strauss
O clima, para contribuir com o seu mau estar, chicoteava lhe friamente. No fundo queria ter a certeza de que sua mãe não estaria ali, mas então por que motivo ela propusera ir até la, se não por uma, mesma que mínima, desconfiança?
O momento lhe lembrava de ocasiões angustiantes enfrentados na infância. Foram situações obscuras vivenciadas pela família que abalara toda a estrutura familiar. Tratava-se do alcoolismo enfrentado por Layla naquela época. Lucy conseguia se recordar de algumas situações, mas por se tratar de um assunto delicado, não discutiam sobre isso há vários anos. Para eles, essa era uma problemática passada que nunca mais vivenciariam e a jovem esperava que este não fosse o caso para uma recaída.
Lembrava-se de que a mãe ficara alguns meses ausentes de casa. Posteriormente, descobrira que ela fora internada em uma clínica de reabilitação para tratamento intensivo contra o alcoolismo.
Até onde sabia os primeiros indícios se mostraram com a morte de sua tia, Anna Heartfilia. Layla e ela eram tão parecidas que muitos achavam que eram irmãs gêmeas, mas na realidade Anna era três anos mais velha que sua consanguínia. Até onde soubera, eram muito próximas, mas uma terrível fatalidade tirara a vida da Heartfilia mais velha.
De acordo com o pai, Anna por mais estudiosa e focada nos objetivos que fosse, adorava viver a vida ao extremo. E foi em uma dessas situações que tudo acabara mal.
Era de madrugada e eles estavam voltando de um show, bêbados, quando o carro cruzou a ponte. Além dela, as outras três pessoas que estavam no automóvel também morreram. E isso era tudo que Lucy sabia. Depois disso, nunca mais vira fotos da tia na parede ou nos quadros que ficavam na sala. Lucy nunca entendeu porque a mãe querer apagar todas as lembranças, todos os requisitos que lhe lembravam Anna, mas foi o que aconteceu.
Pensou que com o passar dos anos, com a dor se tornando mais branda, a situação poderia melhorar. Depois da fatalidade nunca mais vira Layla chorando ou reclamando da situação, apenas era como se ela tivesse apagado Anna de sua vida. No entanto Lucy bem sabia que essa era apenas uma maneira de se esconder da amargura.
— Lucy... Acho que chegamos. — Natsu falou, estacionando à frente do estabelecimento. A jovem não poderia negar o quão majestoso o garoto estava sendo, lhe ajudando mesmo depois de tudo que passaram.
Diante a situação Layla poderia estar em qualquer bar, em qualquer lugar da cidade. Mas sabia que aproximadamente há oito anos, esse era o local que a mulher freqüentava diariamente.
— Eu estou com tanto medo, acho que não posso ir até lá. — Falou. A voz trêmula pelo nervosismo.
— Eu posso ir sozinho... — Propôs o garoto. Seu olhar percorreu o rosto da menina, e desceu alguns centímetros para vê-la apressadamente acariciar a barriga. A jovem fazia isso mais do que percebia. — Vou ser rápido e antes que perceba já estou de volta.
— Natsu... Você pode fazer isso por mim? Eu não sei se posso entrar lá. Eu quero ter certeza de que ela não está ai dentro, mas parece que não tenho coragem para... para...
— Tudo bem, tenho certeza que vou sair sozinho Lucy. Sua mãe não estará ai dentro, certo? — Abaixou a cabeça e delicadamente levantou o rosto da loira para si. — Certo? — Com o aceno da menina Natsu deixou o carro.
Natsu nunca havia ido pessoalmente ao Grimoire Heart, tudo o que sabia era da fama do bar espalhada pela região. Todos conheciam o lugar pela enorme quantidade de bêbados e drogados que possuíam, como qualquer outro estabelecimento semelhante. Mas este em especial era freqüentado por muitas pessoas de má índole, tanto que o número de mortes e acidentes pertencentes ao locar era assustadores.
O garoto sabia resumidamente sobre o problema de Layla há alguns anos, apenas o que a jovem lhe contara no caminho. E devido a isso torcia com todo o seu ser para que ela não estivesse ali. Pensando em como as coisas ao seu redor estavam, não poderiam ser piores. Primeiro sua mãe quase matara Virgo, e juntamente com Lisanna estavam desaparecidas. Esta na verdade nunca estivera grávida, e pretendia, na realidade pegar seu verdadeiro filho com Lucy. E para concluir a situação descobrira que Yukiko tivera em um caso com Jude, pai da mãe de seu filho. E até agora, nenhuma dessas situações haviam se resolvido e nem mesmo muito sentido.
O ambiente possuía uma pequena porta de entrada, e do lado de dentro se mostrava um lugar maior do que poderia imaginar. Como esperado havia muitas pessoas fumando, outras jogando e todas bebendo. O ar ali lhe lembrava um prostíbulo, não conseguia imaginar que uma mulher como Layla, recatada e dona de casa, freqüentasse algum dia uma coisa assim.
Passou os olhos rapidamente pelo local, esperando o mais rápido possível poder sair dali. Todavia o coração deu uma batida ainda mais rápida ao ver uma loira em particular sentada em uma mesa solitária no canto do ambiente. De longe, Natsu não conseguiu reconhecer a garrafa que segurava, mas tinha certeza que se tratava de alguma bebida alcoólica.
Aproximando-se alguns passos sofreu por Lucy antecipadamente.
— Layla... — Falou, controlando a voz. Tinha muitos homens ali e todos mantinham uma atenção exagerada na mulher. — Você precisa vir comigo, Lucy está desesperada atrás de você.
Segurou no braço da loira que mal lhe olhava. Essa estava muito mais interessada no líquido a sua frente.
— Você precisa vir comigo... — Continuou, mas esta não se moveu nenhum passo. Tentou fazer com que ela se levantasse, no entanto, a mulher resolveu encontrar a voz e disparou.
— Ei g-garoto me s-solte... — Concluiu mais alto do que o jovem esperava. Pela clamor tinha certeza que ela já tinha bebido mais do que o razoável. Naquela situação duvidava que ela soubesse sozinha chegar em casa.
Depois de suas palavras algumas pessoas voltaram à atenção para os dois naquela mesa. Para o desconforto de Natsu os homens de antes também. Um deles se levantou e parou em frente ao garoto, de tão perto, podia-se notar a diferença de tamanho e musculatura de ambos.
— Ele está lhe incomodando senhora? — inquiriu. O fedor de cigarro atingiu-lhe as narinas e se perguntou como ela se deixara chegar nessa situação. Especialmente por se tratar de uma situação em que nenhum dos dois valia à pena.
Layla não merecia estar assim por Jude e Yukiko.
A mulher apenas acenou com a mão notoriamente alheia a situação, tudo que lhe importava era o líquido que lhe atribuía distração momentânea da realidade.
Natsu compreendia, há alguns dias ele mesmo viu a bebida como uma escapatória, mas se tinha uma coisa que poderia afirmar é que depois vinham as conseqüências. Físicas e emocionais. Após tudo que passara compreendera que fugir dos problemas nunca seria a melhor opção.
— E você garoto o que quer com ela? — Pronunciou. Natsu não era medroso, mas diante tantos homens, no mínimo cinco, encarando-lhe, sabia que poderia sair bem machucado. Não havia como brigar naquele momento com todos eles, entretanto esses também não demonstravam deixá-la sair de forma pacífica.
Sabia muito bem as coisas absurdas que eles estariam planejando para mais tarde.
— Vim levá-la para casa. Ela é parente minha e não está em condições de andar sozinha. — Disse mantendo a voz firme. O homem não convencido negou-lhe prontamente.
— Tenho certeza que alguns de nós estaríamos satisfeitos em acompanhá-la. Não é mesmo homens? — Eles gritaram, mais pela embriaguês do que por realmente darem alguma credibilidade ao falante. Algo reconhecido pelo garoto era que todos estavam bêbados demais um ponto a favor para o jovem.
Natsu se virou para a mulher e tentou como um último fio de esperança atrair-lhe a atenção.
— Layla você precisa vir comigo. Lucy e Sting estão preocupados com você. — Propôs, mas essa não estava tão interessada na conversa. — Por favor, você quer que Lucy entre no estado dela em um lugar como esse? — A última fala fez com que mesmo minimamente ela lhe direcionasse os olhos. Apesar de bêbada o garoto queria pensar que Layla não deixaria aquilo acontecer. — Eu falei que seria breve, e se não voltarmos logo ela vai entrar, já pensou em como isso a destruiria? Lucy ficaria arrasada.
A mulher fechou os olhos, e no instante seguinte virou a garrafa que estava na sua mão. Natsu não sabia onde estava com a cabeça ao tentar convencer uma pessoa totalmente alcoolizada, era obvio que isso não daria certo.
— Já viu que ela não quer sua companhia garotinho, então se manda! — O mesmo homem voltou a falar. Não existia a possibilidade de ir embora e deixá-la ali, mas confrontá-los também não parecia uma boa alternativa.
— Mãe, vamos sair...
A voz de Lucy se sobressaiu a todas as outras, ao menos para Natsu. Os olhos dela estavam vermelhos e sua feição descaída. Não precisava de muito para perceber o quão mal a jovem estava com a situação. Ela se dirigiu até a mulher, naquele instante, jogada sobre a mesa.
— L-lucy... — Disse, virando o resto da bebida. Seus olhos lutavam para se manterem abertos, um movimento quase impossível.
O homem que anteriormente enfrentara Natsu olhou inquisitivamente para Lucy e um comentário inesperado saiu de sua boca:
— Esses jovens de hoje só servem para arrumar filhos. — E riu, acompanhado pelo coro atrás de si.
A loira que até então mantinha sua atenção apenas na mãe olhou para o bêbado a sua frente. Aquelas palavras não deveriam lhe afetar, pois aquele homem estava com certeza em uma situação mais deplorável. No entanto, de alguma forma, lhe magoou. Era como se de tudo Lucy pudesse ser rotulada apenas como a garota que foi mãe jovem.
— E vocês só servem para que lugares como esses se mantenham abertos. Merecem a porcaria de vida que levam.
O homem se voltou para ela, irritado. Natsu prontamente se adiantou ao ficar na frente da loira, de forma nenhuma que ele deixaria fazerem algo com ela. Com ambas na verdade. Independente do que acontecesse ela não correria riscos ali dentro.
O dono do bar, que até então apreciava a cena, resolveu intervir ao ver a jovem acariciar a barriga já aparecendo.
— Vocês homens, voltem para o lugar se quiserem continuar no meu estabelecimento. E quanto a vocês crianças, paguem a dívida da mulher e dêem o fora daqui. — Falou apontando para a mesa.
Lucy retraiu o corpo mal acreditando em tudo aquilo.
*
Lucy
Não demorou muito para que chegássemos em casa. Avistei logo na entrada meu pai e irmão aflitos com a nossa aproximação. Eles mal esperaram Natsu parar e o chão que eu já havia perdido, se desfez também para eles.
Quando saímos daquele bar, a primeira coisa que fiz foi ligar para eles. Mas talvez não esperassem encontrá-la em uma situação tão deprimente. Mamãe estava completamente alcoolizada, mal conseguia se manter de pé. E nessa circunstância suas palavras já não tinham muito nexo.
— Layla. — Papai falou ao segurá-la nos braços, seu rosto tão triste quanto era humanamente possível. Meu coração apertou ao vê-lo daquela maneira, mas no instante seguinte me lembrei o porquê daquilo estar acontecendo. Aquela traição tinha sido demais para mamãe, assim como a morte de tia Anna.
— Pai, deixe que eu a leve para dentro. — Falei e seus olhos se estreitaram para mim. Sting apesar de chateado demonstrou estar ao meu lado e tomou-a nos braços. — Vá descansar também, prometo que lhe darei notícias.
— Mas Lucy...
— Por favor, pai, não piore a situação. Prometo que vou te avisar. — Discorri ao ver meu irmão levá-la para dentro. Ele concordou sabendo que não lhe restava alternativa e saiu logo em seguida.
Sting entrou deixando eu e Natsu para trás.
— Acho melhor eu ir Lucy... — Falou sem me encarar. Toda aquela desastrosa situação me fez esquecer por um momento de tudo que estávamos enfrentando. Nossa relação ainda não era das melhores, mas não poderia deixar que fosse embora assim depois de tudo que fizera por mim.
— Por favor, Natsu fique... Por favor... — E então seus olhos me encontraram, tão profundos quanto aquele céu escuro. — Preciso cuidar de minha mãe primeiro, mas depois gostaria que conversássemos.
Ele afirmou com a cabeça compadecido com a minha causa. Depois de tudo não me importava que estivesse com pena, pois naquele momento era tudo que me sobrava. Aquela conjuntura levava aquilo.
Foram necessários alguns minutos para que eu desce um banho em mamãe, e levasse embora, mesmo que metaforicamente, toda aquela nojeira. Quando consegui com que deitasse e descansasse, a bebida veio com seu efeito final e ela apagou completamente.
— Sinto muito por isso mãe. — Sentei ao seu lado e fiquei a observar seu semblante. Mamãe era tão linda, uma mulher tão forte, e mesmo que fossem necessárias todas as minhas forças eu não deixaria que ela voltasse a se afundar no álcool.
Por mais que doesse dizer algo assim de meu pai ele teve a atitude mais podre que eu pudera imaginar.
Quando a brisa gélida cruzara o quarto cobri-a e deixei o cômodo com um beijo na testa.
*
— Sua presença não é mais necessária. Nunca foi para ser mais exato. — Ouvi a voz de meu irmão. Sabia para quem suas palavras estavam direcionadas, visto que estavam apenas ele e Natsu na sala. — Então vaza cara.
— Se não fosse minha inútil presença, talvez sua mãe ainda não estivesse em casa cara. — O tom de Natsu soava mais forte e ranzinza. Talvez eles nunca conseguissem conviver com um mínimo de harmonia. — E foi a sua irmã que me pediu para ficar, se tem algum problema com isso resolva com ela.
— Seu desgraçado! — Ouvi o som estridente da voz de meu irmão e apressei os passos até o cômodo. Ambos estavam de pé, de punhos cerrados. O olhar mortal contagiava o clima da sala, e minha memória retornou na noite do casamento e na cena que foi presenciada, não poderia deixar que aquilo acontecesse novamente.
— Vocês dois, por favor... — Pedi e ambos pareceram finalmente prestar atenção em mim. Mesmo assim nenhum semblante mais amigável foi conquistado. Os pés de Natsu se mexeram e os punhos de Sting ficaram ainda mais fortes.
Oh Deus! Eles brigariam novamente.
— O que ele está fazendo aqui Lucy? — Sting inquiriu apontando para ele com o queixo.
— Já falei que foi sua maninha que me pediu para ficar. — Natsu discorreu provocando. Um sorriso sarcástico surgiu em seu rosto de uma forma que eu nunca tinha visto.
Já prevendo o que poderia acontecer me enfiei entre os dois. Minha mente se negava a acreditar que eles seriam capazes de se espancarem comigo ali no meio. Pelo menos buscava acreditar nisso.
— Olha só vocês dois... — Falei apontando o dedo para o peito de ambos, a paciência estourada. — Você Sting me espanta que mesmo com a situação de mamãe você tenha tempo para isso, eu lhe agradeceria muito se você se dispusesse a ficar com ela um tempo. E você Natsu, se que mesmo acompanhar essa gravidez até que o exame de DNA esteja pronto não vejo como seja possível se vocês não tiverem uma convivência no mínimo respeitosa. Por Deus, vocês são dois homens formados já, mas vivem com atitudes de duas crianças.
Eles me olharam abismados. Apontei para o quarto para que meu irmão estendesse onde deveria ir e em seguida apontei para a porta até onde acompanhei Natsu.
*
— Tenho muito que lhe agradecer, a tudo que fez pela minha família essa noite. — Alcancei o bolso de trás da calça e lhe entreguei o dinheiro que tinha gasto ao pagar a dívida de mamãe. Ele negou com a cabeça, mas insisti: — Por favor, eu preciso que fique com isso. Mesmo que seja pouco, vai fazer eu me sentir melhor.
— Lucy eu não quero seu dinheiro. — Retrucou. A carranca me lembrando os velhos tempos.
— Mas é seu o dinheiro Natsu. Por favor, fique com ele. Não quero me sentir ainda pior. — Disse, como uma última tentativa de convencê-lo.
— Isso vai mesmo lhe fazer se sentir melhor? — Perguntou sem total convicção. Assenti para ele que suspirou em desistência. — Que seja.
— Olha Natsu eu sei que você talvez se sinta pressionado por seu pai a estar presente nesse momento. Mas quero lhe dizer que você não precisa, não até esse exame estar pronto...
— O que você está querendo dizer Lucy? — Perguntou. A dúvida preencheu todo o seu semblante.
— A tecnologia está tão avançada, que hoje já é possível fazer o exame de paternidade mesmo antes do nascimento do bebê. Então não vai demorar muito para que você tenha o seu resultado. — Comentei. De alguma forma um sentimento ruim tomou posse do meu coração. Eu entendia completamente que depois de tudo que Natsu passou fosse difícil confiar novamente, mas ainda sim doía essa situação. — Depois do resultado não quero que se sinta obrigado a nada Natsu, porque você não é. — Completei.
— Você me deixa confuso... Com suas palavras, seu jeito... Ao mesmo tempo que nutro um sentimento tão forte por você me faz passar tanta raiva... — Disse confuso. — Já não sei nem mesmo o que achar... Sei que essa situação mexeu com todo mundo, mas talvez tenha sido eu a pessoa que menos soube lidar com isso.
— Porque você diretamente um dos mais afetados. — Falei e ele me olhou nos olhos. Frente a frente com ele, senti aquele arrepio novamente preencher meu corpo. O estômago presenciou um frio já conhecido.
— Eu não tenho certeza de muita coisa agora Lucy, o que sei é que me sinto desesperado quando penso na hipótese de Yukiko e Lisanna estarem ai fora planejando algum mal, para todos nós. Especialmente para você. Antes eu acreditava que não se passassem de ameaças vazias, mas depois de tudo que fizeram a Virgo...
— Eu sou mais forte do que você imagina Natsu, até você é. Elas não serão capazes de me fazerem mal...
— Elas pretendiam roubar o seu filho Lucy! — Ele falou exasperado. Suas mãos coçaram o cabelo insistentemente. — Porque elas sabiam que é meu filho também...
— Sua mãe sempre soube de tudo Natsu. Na manhã seguinte a seu aniversario ela entrou no quarto, desde o início ela sempre soube que esse filho era seu. Eu não entendia a raiva que Yukiko tinha de mim, só agora depois de toda essa confusão com mamãe e papai fui capaz de compreender.
— Eu sei, mas você também deve saber que essa não será a cartada final de Yukiko. Algo me diz que virá mais alguma coisa, algo grande. — Completou Natsu, e diante suas palavras um calafrio tenebroso possuiu meu corpo. Eu estava com medo, e por mais vergonhoso que fosse admitir, temia pela minha criança.
A pior sensação era a da escuridão. O fato de não saber onde encontrar o mal, sabendo que ele poderia vir até mim a todo o momento. Yukiko sabia onde eu morava e toda minha família, mas nós não sabíamos onde encontrá-la. E depois daquelas fotos, Natsu realmente tinha razão, ela não ficaria parada.
Ele se aproximou de mim e senti quando seus dedos tocaram minha face.
— Tenho aprendido muitas lições ultimamente Lucy. Depois de hoje, sei que elas estão por ai, planejando coisas ruins para a sua família e a minha. Não quero que façam mal a mais ninguém. — Disse. E naquele momento vi que todas as suas barreiras caíram e que agora estava a minha frente um homem marcado pelas feridas provocadas por pessoas tão queridas, por tudo que enfrentara, o cara que era o pai do meu filho.
— Eu... Talvez você não goste do que irei falar, mas mesmo todo esse tempo o meu amor nunca deixou de existir. Independente do lugar, da ocasião ou das pessoas que eu conheço, às vezes ele se encontra mais forte do que nunca. Ele nunca desaparece. Esse sentimento, que a cada dia se fortalece, nunca me deixa só. E por mais que me doa é ele que me fez seguir em frente, porque foi graças a isso que logo terei o ser mais importante do mundo em meus braços.
— Lucy, por favor...
— Eu sei que não deveria estar lhe dizendo isso agora, mas eu não consigo me controlar, é mais forte do que eu...
E naquele momento ele me calou, de uma forma totalmente inesperada. O gosto dos lábios dele novamente nos meus me fascinava, me embriagava e me completava. Fazia-me feliz de uma forma que mesmo com todos os acontecimentos que vivenciávamos, eu conseguia ter esperança de um futuro melhor.
— Eu errei Lucy e você também. — Ele falou. Deu-me um último selinho e senti quando nossas testas se encontraram — Sei que não é tão simples como parece, mas estou cansado. Cansado de ter que lidar com tantas coisas, quando gostaria de fazer apenas o que um jovem da minha idade faria. No entanto tenho uma mãe louca que fica planejando assassinatos. Eu só gostaria de esquecer todo o passado, todos os erros que cometemos e lutar por algo melhor. Deixar para trás toda essa podridão.
Eu não consegui falar, rir ou me mover.
— Natsu você está me dizendo que...
— Que se você ainda quiser alguma coisa comigo Lucy, eu estou disposto a dar uma chance para nossos sentimentos.
Eu ri, porque era incrivelmente difícil acreditar naquela realidade. Depois de tantos anos tendo expectativa naquele amor, talvez eu já tivesse perdido as esperanças. Mas agora, finalmente, mesmo com todas as barreiras nós tínhamos vencido. Tínhamos a oportunidade de ficarmos juntos.
Assenti, rodeando meus braços ao redor de seus ombros.
— Você não sabe quantas vezes me imaginei ouvindo isso, Natsu. E quem diria que situações tão horrendas nos traria de volta um para o outro.
Ele passou suas mãos pela minha cintura e senti quando aprofundou o rosto em meus cabelos.
— Tenho tantas coisas pelas quais pedir perdão Lucy, tantos erros que não consigo nem mesmo mentalizar todos eles.
— Eu também. Mas você mesmo disse, vamos deixar todos eles para trás, porque eu sei que conseguimos nos perdoar.
Ele sorriu e se afastando um pouco voltou a me olhar. Mas precisamente para o volume em meu ventre.
Seus dedos lentamente acariciaram o local e a surpresa em seu rosto foi encantadora. Ele viajou por todos os lados, descobrindo todo aquele universo.
— É incrível. — Nossos olhares se encontraram. Ele parecia de alguma forma fascinado.
Eu nunca tinha pensado em como Natsu se sentiria como pai, e o que tudo aquilo significava para ele. Mas dentro de mim soube que ele seria alguém exemplar e que a nossa criança se orgulharia dele.
— Eu gostaria de ir com você Lucy, quando for ao médico. — Pediu-me. Acenei com a cabeça e ele me pareceu por um momento agradecido.
— Eu iria adorar. Só acredito que você vai se sentir um pouco confuso, ela me fala tanta coisa que às vezes até eu me perco.
Ele sorriu novamente, e era maravilhoso poder presenciar isso tantas vezes.
— E está tudo bem com vocês? Digo, tem algo com que tenhamos que nos preocupar?
— Não Natsu, está tudo perfeitamente bem. Dra. Mieko me disse que nós estamos em perfeito estado. O trabalho que eu tenho não me cobra muitos esforços, e faço algumas caminhas matinais.
— Trabalho? Você não precisa disso. Posso dar tudo o que vocês dois precisem.
Suspirei. Estávamos bem há poucos segundos e não gostaria que começássemos a discutir sobre isso, pois sabia muito bem onde tudo isso poderia resultar.
— Mas eu gosto, e faz bem para mim. — Segurei em seu rosto para que o fizesse entender. — E nós dois temos tudo o que precisamos.
Foi à vez de Natsu suspirar. Mas acabou concordando no final.
— Você é mesmo teimosa. — Depositou um beijo em minha testa e em seguida continuou com seus carinhos em minha barriga. Poderia dizer que o momento era perfeito, todavia em algum lugar dentro de mim, algo avisava que ainda teriam coisas por vir.
Coisas terríveis.
*
Algumas horas mais tarde
— Vocês não sabem o quanto fico feliz por isso. — Igneel disse, um sorriso depois de dias aparecendo em sua face.
Estávamos na cantina do hospital. Infelizmente Virgo continuava na mesma situação. Os médicos mais uma vez também não poderiam dar informações mais concretas e tudo dependeria de como o corpo de Virgo reagiria.
Vi como o senhor Igneel estava descaído, situação que me trouxe de volta a realidade.
— Mas nem tudo ainda se resolveu. — Afirmei, visto que ambos não estavam com coragem para dizer. — Elas ainda estão por aí e nenhum de nós poderá viver em paz com isso.
— Pedi que Marco tentasse encontrar o garoto que entregou a carta a Layla Lucy. Isso poderia nos dar alguma pista do paradeiro de Yukiko. Ele conseguiu encontrar a criança e tudo que sabemos foi que um homem de bom porte e barba lhe ofereceu alguns doces para entregar o envelope na sua casa. — Falou. Meu coração gelou ao saber que Yukiko estava envolvendo mais pessoas nisso. — Não sabemos quem mais está ajudando-a, é por isso Lucy que acredito ser melhor você, Natsu e inclusive sua mãe estarem acompanhados de alguns seguranças. Depois que soubemos do caso de Yukiko e Jude, acho provável que ela tente machucá-las também.
— Eu não posso andar escoltada para cima e para baixo. — intervi, porque aquela idéia me parecia absurda. Até aquele momento não me veio à idéia de que as ações daquelas duas me manteriam presa. Se não em casa, na presença de alguns homens.
— Lucy é o melhor a ser feito. — Natsu se pronunciou. Ele que até o momento se mantinha apenas ouvindo o pai, parecia concordar com este. — Você não quer que algo aconteça com essa criança, não é mesmo?
No mesmo momento quanto abri a boca para retrucar, ele me olhou inquisitivamente. No fundo ele tinha toda a razão, jamais me perdoaria se acontecesse algo com o meu bebê.
— Não creio que seja viável vocês continuarem morando no mesmo lugar também...
Antes que terminasse de falar interrompi o homem a minha frente.
— Os seguranças eu acredito serem necessários, mas mudar de casa? — inquiri nervosa. — Isso eu não posso fazer. Minha vida não pode ser guiada de acordo com Lisanna e Yukiko. — Terminei. Eles me olharam de lado e abaixaram o rosto. Passei a mão nervosamente na barriga e senti as dores de cabeça, comuns na gravidez, me assolarem novamente. Isso era demais.
— Tudo bem Lucy, acredito que meus homens vão cuidar muito bem de sua casa. — Concordou e senti como se voltasse a respirar.
Natsu me abraçou de lado e não poderia negar o quão confortável eu me sentia com isso. Uma sensação de proteção preenchia todo o meu ser, em seus braços sentia como se nenhum mal pudesse me alcançar. Ainda custava acreditar que finalmente as coisas estavam bem entre nós, sem nenhuma mentira para nos separar.
O telefone do meu antigo patrão tocou. Ele o atendeu e não foram necessários mais que alguns segundos para notar seu semblante triste mudar para um de espanto.
Imediatamente a curiosidade me dominou. Alguns minutos mais tarde ele desligou.
— Filho... — Falou, a voz ainda estranha. — Acharam
o corpo de Elfman — fez uma pausa e continuou: — infelizmente o encontraram morto. Mas... — Respirou fundo e concluiu. — Mirajane foi localizada viva e foi encaminhada para um hospital aqui de Tóquio.
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