Nove Meses

42 Capítulo 38 — Um pequeno presente


No capítulo anterior:

“E pela segunda vez naquele mesmo dia, eu estava com a cabeça em seu peito, onde deixei que toda a angústia, descontentamento e tristeza gritassem por liberdade.”

Capítulo 38 — Um pequeno presente

Autora:

28 de Novembro de 2001

Natsu! Natsu! Abra essa porta. Natsu!!! — Cambaleou até a entrada e com agilidade não conhecida conseguiu girar a chave. A porta se abriu e o homem que estava do outro lado quase caiu, com a ação completamente inesperada. Igneel Dragneel não esperava que o filho conseguisse fazer qualquer coisa diante da situação em que se encontrava.

— P-Pronto está feliz? — O jovem gritou sobre a face do mais velho que mal conseguiu ficar dentro do quarto diante do odor que estava ali.

O cheiro de álcool impregnava todo o ambiente, que provavelmente não sabia o que era uma janela aberta há dias. Pelo chão estavam espalhadas muitas garrafas vazias além de roupas jogadas para todos os cantos.

— Natsu a que ponto você chegou meu filho. O que é tudo isso? — Rumou ao guarda-roupa onde pegou um par de roupas limpas. — Venha comigo.

Não foi fácil para o homem conseguir carregar o jovem que mal se mantinha de pé sozinho. Os cabelos estavam completamente desgrenhados, não vestia uma camisa, e a bermuda quase caia da cintura. Sinal de que havia emagrecido. Sim, com certeza isso havia acontecido.

— Você precisa de um banho. — Comentou, mais para si mesmo do que realmente para o garoto.

— Eu preciso d-de outra g-garrafa. Traga-me mais uma agora mesmo!

— Não Natsu, você precisa de uma água fria nas costas e uma xícara de café quente.

Igneel mal acreditava no que estava acontecendo, desde que Natsu saíra do hospital via o filho sempre que podia, mas realmente o tempo não era o seu maior companheiro no momento. Não quando se tinha que dividir o pouco que lhe restava após horas de trabalho entre Natsu e a garota que ainda se encontrava em coma a alguns quilômetros dali.

— E-elas todas me enganaram. — O jovem riu. Ao menos o mais velho viu aquilo como uma tentativa. — Y-Yukiko, Lisanna e Lucy. São tudo farinha do mesmo saco. Brincaram comig...

— Não ouse comparar Lucy com aquelas duas Natsu. — Igneel parou pela primeira vez desde que saíram daquele quarto. Parou diante da porta do seu, e a empurrou com certa força, graças ao peso extra que adquirira no ombro. — Fique aqui dois minutos apenas, vou pedir para que façam um café quente para você.

Foi realmente esse o tempo que demorou a descer e pedir para que a nova cozinheira o fizesse, quando entrou na cozinha, foi como se a angustia de todos aqueles dias no hospital o acertassem de uma vez só. Tinha se acostumado com a companhia de Virgo no local, ela sempre estava dançando ou reclamando de alguma coisa sozinha. Teve vontade de rir consigo mesmo. E foi então que o pensamento se desfez com o surgimento de outro, mais agradável ao seu ver e mais feliz: Virgo não voltaria a trabalhar ali mais, quando acordasse ocuparia uma nova posição, naquela casa e em seu coração.

Ao retornar para o quarto viu que Natsu não estava na posição em que o deixara anteriormente e sim esticado sobre a cama, deitado desajeitado sobre o braço. Igneel levantou o corpo do filho e acomodou-o melhor sobre o colchão. Sentou-se na poltrona próxima ao guarda-roupa, e ali ficou, como não acontecia desde que Natsu tinha cinco anos, velando por seu sono.

*

Natsu acordou algumas horas mais tarde, num ambiente que não conseguira reconhecer imediatamente. Foi preciso alguns segundos para se dar conta de que estava no quarto do pai. A cabeça doía de uma maneira que mal conseguia deixar os olhos abertos, o corpo possuía um mal-cheiro que denunciava o último banho tomado no dia anterior pela manha. Reconheceu um par de roupas dobrado sobre o canto inferior da cama e suspirou profundamente antes de entrar no banheiro.

A água quente que lhe escorria sobre os ombros dava certa sensação de alívio, não da maneira que procurava desesperadamente nos últimos dias, mas ainda sim, era reconfortante. Apoiou os braços na parede e deixou que a cabeça descansasse sobre esses, e então a mente tentou cruelmente levá-lo a pensar nela, mas antes que aceitasse aquela condição miserável, saiu do banho.

Encontrou Igneel sentado encarando-o de modo que denunciava seu humor calamitoso, pensou em passar direto, mas não, ele não o deixaria ir. Sentou na ponta da cama, a espera do sermão que certamente viria a seguir.

— Pode começar, já estou à espera de tudo isso. — Bateu as mãos na perna, não tendo coragem de encará-lo.

— A espera de que? — Igneel pronunciou, e Natsu ouviu sua voz pela primeira vez em dois dias. — De me ouvir falar que esse não é papel de um homem? Realmente Natsu eu não imaginava que meu filho ainda fosse um moleque.

— Eu não...

— Cale-se! Eu não posso imaginar o que o levou a fazer isso, a ponto de beber de tal maneira que não conseguia se manter de pé por si mesmo. — Continuou sem nenhuma alteração na voz.

— Elas me enganaram. Todas elas...

— Te enganaram Natsu? Isso não passa de desculpas mal criadas. — E pela primeira vez Igneel levantou a voz. Assim como abandonou a poltrona em que sentava. — Lisanna e Yukiko fizeram tanto mal a mim como a você, e nem por isso estou sentado afogando as mágoas em uma garrafa de vodka. Elas ameaçaram roubar o filho de Lucy e nem posso imaginar o que fariam com ela em seguida, e mesmo assim, ela não está dessa maneira, fugindo da realidade. Ao contrario de você Natsu, ela está lá fora, lutando para dar uma vida melhor ao filho de vocês. Passou dias contigo no hospital para quando acordar mandá-la embora sem que mal deixasse se explicar. Sem que perguntasse pelo menos como estava a saúde dessa criança que está para nascer. Ela ficou com você, mesmo não sendo o mais aconselhável pelos médicos porque se recusava a sair do seu lado e você age como uma criança mimada.

Levantou os olhos para o pai, assustado. As palavras apesar de duras expunham uma realidade que não estava conseguindo aceitar.

— Não sei ao menos se isso é verdade, depois de tudo não duvido que ela esteja mentindo. Esse filho pode muito bem não ser m...

Cortado bruscamente por Igneel, suas palavras cessaram diante o olhar fuzilador. Era obvio que Lucy tinha o seu apoio.

— E ainda sim, nesse momento, quando a vejo, ainda me pergunta sobre você. Sobre sua saúde e sobre como está lidando com tudo isso.

O mais jovem apertou os punhos e achou que fosse cortá-los com as próprias unhas. A fúria era o maior sentimento que o dominava no momento. Não conseguia colocá-la em uma posição de vítima, não perante tudo que havia feito também.

— Ela não me contou sobre essa criança, me mata saber que fui o último, a saber, de acordo com vocês sobre a existência do... meu filho. — E finalmente havia admitido aquilo para si mesmo, pela primeira vez. — Meu próprio filho. O que ela faria, esperava que ele nascesse, crescesse se formasse para pensar em me contar? Eu não devo nada a ela pai, pois não sou eu o que mais errou em toda essa história.

— E que atire a primeira pedra quem nunca cometeu um erro nessa vida filho. Eu só posso dizer o quão tolo você está sendo em não aproveitar a oportunidade de estar com a pessoa que gosta. Chance essa que eu não tenho agora, e nem posso dizer quando a terei. Lucy esteve muito próxima de todo mal daquelas duas, e não sabemos onde elas estão, ou o que estão tramando agora. Fique com ela enquanto tem essa oportunidade, ela é uma pessoa maravilhosa, e pode ter certeza que não faltarão pretendentes que estarão satisfeitos em tomar o seu lugar, que apesar de tudo ela protege com tanta força. Vá ficar ao lado dela e do filho de vocês, antes que seja tarde demais.

Com o fim das palavras do mais velho, o silêncio foi o grande destaque do lugar.

— Eu te amo filho e eu entendo o quão magoado você está. E por um lado também não tiro a sua razão, pois sei como você está se sentindo. Todavia como seu pai estou tentando aconselhá-lo da melhor maneira que posso. Tente perdoar como ela também já o fez em diversas ocasiões. Depois de tudo que sua mãe e Lisanna fizeram, compreendo que é difícil confiar novamente. Eu só não quero que se arrependa depois de ter tomado a escolha errada.

— Eu não sei, eu...

— Natsu com o exame de Dna que pediu terá todas as conclusões que quer. Só convoco que por um momento tente usar a cabeça e pense um pouco nas coisas. Não estou dizendo para aceitar assim tão rápido só que se proponha algum avanço. — Igneel se aproximou mais e colocou uma mão sobre o ombro do filho. — Acredito que você conviveu mais com Lucy do que eu e se utilizar um pouco mais da razão saberá se ela está mentindo ou não.

Com um último olhar de compaixão, esperou que suas palavras tivessem algum efeito no filho. E com um último aperto no ombro saiu sem olhar para trás.

*

Igneel entrou no quarto que nos últimos tempos havia se tornado sua segunda casa. Estava quase anoitecendo e esperou que aquela noite pudesse vir com alguma surpresa, que os médicos viessem lhe avisar que Virgo finalmente havia despertado.

Mas não, tudo estava da mesma maneira que havia deixado algumas horas atrás. Existia ali apenas o barulho irritante do aparelho que monitorava seus batimentos cardíacos.

— Quando você vai deixar de ser cabeça dura e ouvir o que eu digo? Eu estou dizendo para você acordar Virgo.

Calou-se na esperança de ouvir uma resposta, mas teve apenas a amargura das palavras que acabara de dizer.

— Você realmente é impressionante, conseguiu fazer com que me apaixonasse por você.

Riu e apertou a mão dela entre as suas. Eram pequenas de uma maneira angelical, no entanto ele sabia bem que Virgo não tinha nada de angélico. Ela era como o vento, que vinha e alterava as estruturas, como o fogo que consome o que vê pela frente, ela era tudo o que ele um dia desejou. Ela lhe deixava louco, provocava e brincava com as suas emoções. Ela lhe fazia a pessoa mais feliz e também o deixava enciumado em questão de segundos. Ela não podia ser contida nem totalmente desvendada, e não seria uma cama que lhe deixaria presa.

— Você é o maior mistério da minha vida. — Riu e depositou um beijo em sua testa. — O mais incrível também...

*

Não era fácil se obrigar a fazer diversas coisas e prol de um bem maior, mas sabia que tinha o dever por causa da sua criança. Por ela ao menos fisicamente deveria se manter bem. Lucy gostada da dra. Mieko porque ao contrario de outros médicos com os quais já consultara ela realmente gostava do que fazia, era simpática e bem humorada

— Bem Lucy felizmente está tudo bem com vocês, mas sugiro que fique longe de fortes emoções por um tempo. Não é porque fisicamente vocês estão saudáveis que seu estado sentimental não possa interferir. — Falou a médica. Lucy absorvia tudo com o pensamento de que estava certa. Não poderia se permitir ficar naquela condição por mais nenhum momento.

No entanto para ela tudo parecia incrivelmente difícil.

— Fico muito aliviada por estar tudo bem conosco. Passei por alguns momentos delicados nos últimos dias e fiquei com medo de ter me descuidado. — Comentou.

A mulher sorriu e se voltou para a prancheta que tinha em mãos.

— Parece que alguém aqui não quer que desvendemos muitas coisas. — Ela olhou para a minha barriga novamente já coberta. — Normalmente quando estão com as perninhas cruzadas com alguns movimentos na barriga conseguimos descobrir o sexo da criança. Mas realmente seu bebê é muito teimoso Lucy.

Eu ri, porque não sabia quem estava puxando mais se a mim ou Natsu. Ambos tínhamos um problema com teimosia. No entanto não tinha um problema com o sexo da minha criança e poderia muito bem descobrir mais para frente. Só não poderia negar que no fundo, como qualquer mãe, a ansiedade me corroía.

Tudo que me importava era os exames que esclareciam estar tudo bem, especialmente, com o bebê.

*

22:53

Local desconhecido

O quarto se tornava pequeno para duas personalidades tão distintas e que encontravam diversas dificuldades para entrar em um consenso nos últimos tempos.

— Eu não agüento mais isso aqui. Esse lugar é um maldito chiqueiro que não tem nada pra fazer.

— Tente achar um lugar melhor então para morar, aposto que não vai conseguir sair até a esquina antes de ser condenada a muitos anos de cadeia, querida, e quando digo muitos, não estou para brincadeiras.

— O que você está querendo dizer com isso?

A mulher, alguns anos mais velha que a jovem, apenas ligou o pequeno aparelho de Tv no canto esquerdo do cômodo. A imagem era meio falha, mas o áudio estava em perfeitas condições.

— Lisanna Straus e Yukiko Dragneel são nesse momento as duas mulheres mais procuradas do país. Até o momento a polícia não disponibilizou nenhuma gravação para a imprensa, mas fontes confiáveis afirmam que é possível ver o momento exato em que confessam o plano aterrorizante que planejavam possivelmente contra a jovem Lucy Heartfilia e o instante que atiraram contra a cozinheira da residência Virgo que ainda se encontra em coma. Voltamos logo com mais notícias.

— O que quer dizer tudo isso? — Lisanna perguntou apavorada com a situação.

— O maldito do Igneel mantinha câmeras por toda a casa. Todas as nossas conversas estão registradas e com a polícia nesse momento. — Yukiko falou, mas continuou concentrada no papel que tinha sobre a mesa.

— Oh Droga! Estamos perdidas. Completamente perdidas Yukiko.

— Você com certeza estaria se estivesse sozinha. — Riu, sem desviar atenção da caneta.

— Você tem idéia do que está acontecendo? Como consegue se manter tão calma?

— Isso pode realmente levar algum tempo, segundo Jack isso não é tão fácil assim de se conseguir. Um já é complicado, quem diria dois. Mas ele vai resolver esse problema para nós.

— Como assim? Do que está falando? — Lisanna olhou para ela como se estivesse ficando louca. Não conseguia captar o raciocínio de Yukiko ainda.

— Logo nossos passaportes estarão prontos. Claro que tive que oferecer um bom dinheiro por eles, mas nada que realmente fizesse tanta diferença para nós. — Dobrou a folha e Lisanna só pôde ver que algo grande foi colado nela antes. Pelo formato parecia ser um papel retangular, nada que pudesse afirmar com tanta convicção. — Pronto. — Sorriu satisfeita. Lisanna estava um pouco receosa com a companheira, especialmente com o seu comportamento nos últimos dias.

— Passaportes? Nós vamos sair do país?

— Sim, eu estava pensando em Estados Unidos ou Brasil. Mas acho que os americanos são mais “boa pinta”, apesar de dizerem que os brasileiros serem mais receptivos.

Lisanna ouviu alguns toques na porta, mas antes de pensar em atender Yukiko já estava de frente a esta.

— Jack, obrigada por vir. Você já sabe o que fazer com isso certo? Entregue no endereço que te passei, eu gostaria que ficasse e visse como as coisas vão ficar ruins, mas eu sei que não posso te pedir tanto. É um risco muito grande até mesmo para você.

— O que está aprontando dessa vez? — Perguntou num tom divertido. Lisanna captou alguns fragmentos da aparência do homem. Tinha barba grande, de uma forma que a atraia muito. Olhos claros e um bom porte.

— Já que estou condenada a passar mais alguns meses nessa pocilga, espero me divertir um pouco nessa estadia.

Ouviu uma risada forte, natural.

— Realmente isso se parece muito com o seu estilo.

A porta bateu e Yukiko se virou com um pequeno sorriso no rosto, o qual Lisanna achou um pouco assustador.

— Sabe por que amo ver meus inimigos felizes Lisanna?

— Não posso imaginar. — Comentou. Se não conhecesse Yukiko tanto estaria amedrontada diante o seu olhar.

— Para devastação ser maior quando eu atacar. Quero vê-los se arrastando no chão de dor. Todos eles.

Lisanna engoliu em seco. Realmente Yukiko não estava em seu melhor momento. A mulher, a cada dia que passava, demonstrava ainda mais sinais de demência. Ou talvez não, quem sabe fosse apenas maldade.

— O que você escreveu naquela folha? Yukiko o que era aquilo?

— Um pequeno presente para a família Heartfilia.

Notas finais
Boa noite galerinha, como está sendo o domingo de vocês? Sobre hoje tenho algumas ressalvas: 1. Vocês notam essas pequenas passagens de tempo que a fanfic tem? Não são todas as vezes que eu coloco (um mês depois, alguns dias depois), só quero que não fique confuso para vocês e talvez esteja. Como no capítulo de hoje que não falou quanto tempo passou, mas pelo fato do Natsu já estar bebendo alguns dias se passaram desde que saiu do hospital. Algumas falas de Igneel também demonstram isso. Se vocês não estão tendo problema com isso apenas ignore o meu comentário. 2. Bem, o que vocês acham que é esse presente de Yukiko? Acredito que grande parte dos leitores já saibam ou estão desconfiados. Me falem sobre isso o que acham que pode ser. Nó próximo capítulo descobriremos. 3. Esses dias eu estava pensando, vocês gostariam de um capítulo especial mostrando a noite e tudo que aconteceu quando nosso Baby querido foi gerado? Eu comecei a escrever esse capítulo que já está pela metade. Na fanfic a Lucy fala disso muito por cima então acredito que talvez seja melhor para ficar mais esclarecido. Avisem-me se estiverem interessados, ok? Porque aí dou continuidade ao capítulo. 4. Gente estou começando a escrever a reta final da fanfic e eu gostaria que, se vocês tiverem, me mandassem as dúvidas que ainda não foram esclarecidas na estória. Se não houverem, ignorem também esse meu comentário. kkk Por hoje é isso, espero que tenham gostado do capítulo. Estou querendo postar o próximo na quarta, mas caso não dê certo domingo que vem tem próximo capítulo. Quanto aos erros, como sempre peço desculpas pelos mais grotescos. Prometo que essa semana estarei respondendo alguns comentários dos capítulos anteriores. Beijinhos♥