Nove Meses
34 Capítulo 30 — Infeliz realidade
Notas iniciais
No capítulo anterior:
— Sinto muito, Lucy. Há coisas que não estávamos esperando. Lisanna está muito mal. — Ela abaixou os olhos, em consideração e tristeza. Nunca havia passado por mim, mas ela também sentia muito pelo estado de minha... Noiva. — Ela está grávida.
Lucy se encolheu, amedrontada. Tremia tanto que me aproximei para ver se estava bem. Ela rodeou a barriga num gesto protetor, e aquele simples ato me intrigou de uma forma avassaladora. Talvez fosse essa história de gravidez que estivesse me fazendo ver coisas onde não tinha.
Eu poderia ser chamado de qualquer coisa, mas nunca poderiam me acusar de não ter coragem. Afastar-se da pessoa que gosta não é tão simples quanto parece, e por isso eu sabia que, o que estava prestes a fazer seria uma bomba posicionada estrategicamente perto do meu coração. E para meu desespero, eles estavam se aproximando com um fósforo aceso.
Lucy
— Ela está grávida. — Quando Natsu me disse isso, primeiro a frase ecoou por alguns longos minutos e depois todo seu impacto me acometeu de uma só vez. Como se tudo não pudesse se tornar pior ela também esperava uma criança. — Eu não posso me separar de Lisanna no estado em que está. — Ele fechou os olhos, sem coragem para me encarar. Respirou fundo e quando suas pálpebras se ergueram não me encarou. — Talvez eu nunca tenha deixado de gostar dela. Posso ter me confundido esse tempo com a sua ausência. O casamento na verdade nunca deveria ter parado.
Doeu, mais do que qualquer um pudesse imaginar.
Minha mão apertou seu queixo, mais forte do que minha mente pretendia. Virei seu rosto para mim, fazendo seus olhos por fim se encontrarem com os meus.
— Diga isso novamente Natsu, mas diga olhando em meus olhos. — Esperei por alguns segundos. — Vamos, faça-me acreditar direito.
Como havia imaginado ele não conseguiu. Não era capaz de mentir tão descaradamente assim.
— Eu preciso falar com Lisanna. — Falei, tão decidida como poucas vezes me vi.
— Não Lucy, não acho que isso seja viável dada a situação. — Segurou-me o braço e rapidamente puxei-o de volta.
— Eu irei Natsu, e não há nada que me fará mudar de ideia.
*
Alguns metros me separavam do quarto de Natsu, o atual lugar onde Lisanna se encontrava. Eu procurava por palavras, expressões, nem mesmo eu sabia o que faria exatamente quando a encontrasse.
Só precisava ter certeza que era verdade, ouvir dela com os meus próprios ouvidos. Eu sei que, estava proporcionando a mim mesma essa dor; Se Levy estivesse aqui me daria uns bom sopapos, mas Virgo me incentivaria a continuar. Entre a amiga certinha e a desaforada, decidi por seguir aquela que, mesmo entre idas e voltas, acabava por me dar bons conselhos.
Respirei fundo e por fim entrei no quarto. Lisanna estava de pé, se olhando no espelho. Ela estava realmente descaída, mas o que acentuava a diferença era a falta de maquiagem.
— Lucy?! — Perguntou um tanto surpresa. Logo depois voltou a se olhar no espelho, e apontou-me um cesto de roupas dentro do banheiro. — As roupas sujas de Natsu estão ali.
— Eu não vim por isso. Fi... — Respirei fundo — Fiquei sabendo que está grávida. Parabéns.
Sua expressão me fez realmente ter dó. Era algo como assustada e indefesa ao mesmo tempo.
—Oh... Obrigada, eu acho. — Grande Merda! Ou ela era uma ótima atriz, ou tudo que eu me negava a acreditar era realmente verdade. Apenas essa possibilidade já me fazia ter calafrios no estomago, o que seria de mim, Natsu e minha criança se fosse tudo realidade? Era tão difícil de acreditar que eu negaria até o último instante.
Ela se encolheu, e rodeou a barriga com as mãos. Merda Dupla! Eu fazia muito aquilo, até mesmo sem perceber.
— Eu acho?
— Eu amo o fato de estar grávida, amo mesmo. Mas não consigo afastar o medo depois do que o médico me disse. — Ela se virou para mim, e se eu não estivesse enganada aquilo era mesmo lágrimas em seus olhos. O que o médico havia lhe dito que a deixara em tal estado de pânico?
— O que... ele te falou? — Ela parecia receosa, e lhe dava total razão. Nós nunca nem ao menos havíamos trocado uma com a outra mais que duas palavras e agora aparecia eu querendo saber detalhes de sua... Gravidez.
— Eu não sei se devo...
— Lisanna...
— Minha gravidez é de risco. O médico que consultei enquanto estava fora disse-me que em um caso como esse eu poderia recorrer a um...— Ela não foi capaz de terminar mas não era necessário que o fizesse, a palavra aborto ecoou na minha mente. . Eu sabia muito bem o que ela iria dizer.
Não foi muito o tempo que demorei para sair daquele quarto, era como se o ar que ali corria estivesse poluído demais para que conseguisse respirar.
Puta que pariu! Era só isso que eu poderia pensar, se não quisesse me desfazer em lágrimas.
Fechei os olhos por alguns segundos, mas não parei minha caminhada. Continuei vagando, apenas seguindo em frente. Onde meus pés quisessem me levar. Minha velha amiga dor de cabeça voltou a me assolar.
— Lucy... — Ouvi aquela voz que me trazia tanto conforto. A voz de uma pessoa que me ampararia independente da situação.
— É verdade Virgo, ela está realmente esperando um filho de Natsu. — Desabafei com um fio de voz. Ela pareceu não compreender de imediato, o que era esperado. — Lisanna está esperando um filho de Natsu. Ele mesmo... Ele mesmo me contou. — Não foi preciso dizer mais nada, pois sua mente fez a junção dos pontinhos. — Eu fui vê-la e... Eu não posso competir com isso, não quando ela pode... Pode perdê-lo. Eu não posso imaginar...
— Lucy! — Sacudiu-me levemente, me trazendo para a realidade. — Ela é farinha do mesmo saco que Yukiko, você não pode acreditar em tudo que dizem.
— Ela não inventaria isso Virgo, ela acaba de perder os irmãos e tem uma gravidez de risco. Por quais motivos ela faria isso?
— Talvez porque saiba que Natsu está apaixonado por você? Pense Lucy, — Ela me puxou até a cadeira, e mesmo contra a minha vontade fez-me sentar. — Se Yukiko sabe de tudo, porque não Lisanna? Não se deixe ser enganada, fique de olho em tudo o que acontece. Você e Natsu não podem acabar assim...
— Não existe algo para acabar, por que na verdade nada nunca começou.
E como se meu dia não pudesse ficar pior, vi quando ela apareceu bem diante de nós.
Escorei na cadeira em desistência. Eu não precisava de Yukiko para deixar meu dia ainda pior. Notei que Virgo respirou fundo, tentando preservar a paciência que lhe restava. Eu tinha que aplaudir de pé, porque realmente não é fácil suportá-la.
— Você nunca acreditou que ficaria com meu filho, não é mesmo Lucy? — Não lhe respondi, e diante do meu silêncio ela tomou suas próprias conclusões. — Oh não... Você acreditou. Acha mesmo que ele iria levar adiante uma relação com você?
— Meça suas palavras Yukiko, você sabe do estado dela. — Defendeu-me Virgo.
— Um grande infortúnio. — Ela olhou por sobre os ombros, e encarou minha amiga de cima a baixo. — E você vá colocar mais sal na comida.
Oh meu Deus! Os olhos de Virgo brilharam sombrios e eu sabia que aquilo não poderia resultar em boa coisa.
— Quer saber, eu tentei, juro que tentei, mas que se dane as boas maneiras.
Eu demorei algum tempo para captar a cena que surgiu diante de mim. Virgo pulou sobre Yukiko, literalmente pulou. Ambas caíram no chão, mas como esperado minha amiga caiu por cima. O primeiro tapa veio com a menção do grito de Yukiko, não posso negar o prazer que senti ao ver Virgo desferir aquela bofetada. A mãe de Natsu revidou, e com um pouco menos de sorte acertou apenas o queixo da rosada. Virgo prendeu-lhes os cabelos entre os dedos e gritou em sua cara:
— Juro que esperava um pouco mais de você!
Eu não sabia, mas aquele era apenas o início. Uma seqüência de tapas e puxões de cabelos aconteceu. Voltei a mim e percebi a gravidade da situação. Levantei da cadeira e tentei tirar a garota de cima de Yukiko, juntando todas as minhas forças para afastá-la. Sorri minimamente ao ver que havia levado mais danos. Virgo tinha nas mãos pedaços da blusa cara que a “patroa” usava.
— Você está no olho da rua vadiazinha! Eu mesma vou me assegurar que nunca mais consiga outro emprego!
Merda! Virgo se soltou de mim, e mais uma vez foi em direção aquela mulher. Eu nunca a tinha visto tão agressiva, ódio lhe exalava pelos poros, olhos quase que assassinos encaravam Yukiko.
— Vadia é essa sua cara cheia de plásticas.
— Virgo! — Puxei-a quando socou a cara de Yukiko. Onde tudo isso iria parar? Era quase um milagre que ninguém tenha aparecido depois desses gritos.
— Considere isso, patroinha, uma amostra grátis do que pode lhe acontecer caso continue a insultar a mim e a Lucy.
— Você... — Os olhos vermelhos de Yukiko beiravam a loucura, eu jurava que ela seria capaz de matar naquele momento. — Sua vida acabou aqui garota. Você morrerá de fome, frio e sede, não lhe contrataram nem mesmo para limpar privada de presidiários.
— Claro que não, você estará lá para limpá-las em meu lugar. Eu só sairei daqui quando o homem que paga meu salário me mandar embora. Enquanto isso sinto muito lhe dizer, mas será obrigada a me engolir.
Yukiko sorriu, o sorriso mais forçado que já fui capaz de presenciar. Tenho certeza que se pudesse arrancaria a cabeça de Virgo com os dentes.
— Pode ter certeza que isso não demorará acontecer. Vou ter prazer de ver Igneel lhe chutando para fora desta casa.
— Eu acho ótimo que ele venha falar comigo. Aí eu finalmente poderei lhe contar que sua esposa vem destratando e ameaçando a mãe de seu neto. Vamos ver o que ele me diz sobre isso. O que está esperando Yukiko? Chame ele. Pode ser agora mesmo, estarei bem aqui esperando.
Bem, lembra aquele pontinho que Yukiko havia marcado lá atrás quando ainda estávamos na casa de campo? Pois bem, Virgo acabou de empatá-lo.
*
Alguns dias depois...
A vida às vezes nos surpreende de tal maneira que até mesmo uma cartomante iria se assombrar. Quando soube que Lisanna estava grávida, foi como se mil flechas houvessem me acertado. No momento em que descobri que sua gravidez era de risco, outras mil foram atiradas. Sua gestação estava de acordo com a minha, o que quer dizer que se tudo ocorresse bem nossas crianças nasceriam juntas. Com uma enorme diferença entre elas, é claro.
Eu preferia não pensar em Natsu, mesmo que isso não fosse possível na maior parte do tempo. Ele estava em todos os lugares e momento, eu já não sabia o que era realidade ou ficção. Às vezes pensava que poderia ser minha mente me pregando peças, estava começando a pensar que pudesse ficar louca.
E quando acontecia de eu passar dois segundos sem pensar nele, ele fazia questão de me lembrar. Foi o que aconteceu ontem, eu estava no intervalo de uma das aulas quando me ligou. Era uma ligação de número desconhecido, na maioria das vezes eu não costumava atender, mas talvez o destino, ou quem sabe uma força monstruosa do além, me fez receber.
“ — Oi...
— Lucy? — Quando reconheci a voz, meu primeiro movimento foi para encerrar a ligação, e como se tivesse previsto ele me pediu: — Por favor, não desligue. Nós precisamos conversar.
— Não Natsu, não acho que temos nada para discutir.
— Eu não queria que as coisas fossem assim. Por favor, entenda o meu lado. — Ele silenciou, talvez esperando que eu dissesse algo. Não fui capaz, eu sabia que as coisas não estavam fáceis para ele, a situação em que estava Lisanna, mas daí continuar casamento com uma pessoa que ele não gostava? Como seria dali pra frente? — Deixe-me então apenas ouvir a sua voz... Fale comigo Lucy.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Mesmo assim, não desisti,encerrei a ligação.
Talvez eu estivesse sendo cruel, isso me matava por dentro, mas se eu desistisse, tudo pioraria terrivelmente para nós dois.
Quando cheguei em casa, uma hora mais cedo do que o previsto, por causa de uma de nossas “adoráveis” professoras, que se disse indisposta o suficiente para dar aula hoje, segui diretamente para o meu quarto.
Ouvi mamãe fazendo barulho na cozinha, provavelmente preparando alguma coisa. Preferi não vê-la, ultimamente estava evitando todo mundo. Porque eu sei, que quando me perguntassem o que estava acontecendo, eu não conseguiria suportar e tudo que estava fazendo até agora iria por água abaixo.
E isso não aconteceria mais uma vez.
Consegui passar pelo corredor da cozinha sem que mamãe me notasse. Quando pensei que conseguiria o feito na sala, me deparei com Sting e um monte de papeis em seu colo.
— Lucy? — Ele olhou em seu relógio de pulso. — Vai trabalhar mais cedo hoje?
— Não, felizmente só à noite. — Tentei passar reto, mas ele fez sinal com o indicador para que eu fosse até ele. — E você?
— Igneel nos liberou mais cedo. Ele me entregou um convite, e pediu para que fossemos.
Estranho, ele não sabia que eu iria trabalhar?
— Fica pra uma próxima então. — Fiz menção de me afastar, mas Sting me puxou para o seu colo. Ele prendeu seus braços a minha volta, e me restringi, temendo que notasse a elevação do meu ventre.
Meu irmão parou de se mover, e então se cenho franziu.
Meu Deus! Ele não faria a pergunta, não faria. Eu não queria chorar em seu colo.
— Lucy... — Fechei os olhos, tentando desviar o pensamento. — Você engordou... Também, comendo como uma vaca.
De início eu não compreendi. Logo depois, uma gargalhada me subiu na garganta e não tentei segurá-la. Ri de Sting e dei-lhe uns sopapos na cabeça. Ele sorriu, senti inveja dele, mesmo pelo que estava passando, com o câncer de Yukino atormentando-o todos os dias, perturbando suas noites, ele ainda conseguia ser feliz.
Acariciei seu rosto, admirando seus olhos azuis. Tão claros e tão bonitos.
Abracei-o, descansando minha cabeça em seu pescoço. Ouvi uma nova risadinha, e olhei para trás. Mamãe estava na porta, observando a nós dois.
— Nem comece Mãe, não venha me dizer como isso a deixa feliz e blá blá blá. Não somos mais crianças.
— Eu sou mãe Sting. — Ela andou até nós, e sentou-se no sofá, logo ao nosso lado. Dentro daquelas calças largas ela parecia ainda menor do que era. — E uma mãe nunca vai se cansar de dizer isso. Todos podem nos abandonar um dia, mas as pessoas em que mais podemos confiar são na família. Quero que estejam sempre unidos, pois não há ninguém que vá ajudá-los mais do que vocês mesmos.
Ela se levantou e deixou um beijo em nossas testas.
— Eu amo vocês crianças.
— Nós também te amamos mãe, muito. — Respondi. Sorri e ela acariciou-me o rosto. Ainda sentada no colo de Sting ele segurou a minha mão.
— Nós não somos mais crianças Dona Layla. — Comentou desviando o olhar para a parede.
— Mãe Sting. Não foi essa a educação que eu te dei, olha os modos menino.
Eu não consegui segurar e novamente mesmo com toda a tensão que me rodeava eu ri com a cara de brava de mamãe e o bico de Sting. Velhas manias nunca mudam.
Ele se levantou de uma vez e por muito pouco eu não fui parar no chão. Mamãe lhe bateu no braço e me ajudou a sentar.
— O que foi? — Ele perguntou de sobrancelhas franzidas. — Desse jeito eu vou ficar com ciúmes dessa proteção excessiva que a Lucy recebe.
Olhei-o profundamente, e ele sorriu. Seguiu para o seu quarto em seguida. Fiquei pensando se tudo aquilo era verdade, aquele momento que tivemos. Depois que descobrimos sobre Yukino, ele parecia sempre retraído em seu próprio canto. Pensei também se aquele não era apenas um disfarce para nos esconder o que realmente estava sentindo.
*
Duas Horas. Malditas duas horas faltavam para aquele casamento.
Eu olhava o jardim da casa decorado em branco e marrom, e meus olhos brilharam. Eu não podia imaginar nada mais bonito que aquilo. Tantas flores que eu nem conhecia enfeitavam o lugar.
Vendo tudo aquilo eu me perguntava de onde tiraria forças para conseguir suportar aquela situação. Era difícil de acreditar, porque eu ainda tinha a esperança que de última hora Natsu desistiria desse casamento. Na hora do bendito sim ele não conseguiria falar.
Eu esperava que não.
Continuei andando, rumo ao depósito que é onde estariam todos os nossos uniformes. Yukiko fizera questão que eu e os outros empregados da casa que fossem trabalhar usassem os mesmo uniformes que os garçons do buffet contratado.
Esperei encontrar a chave na trinca da porta, como era o de costume mas quando cheguei não a avistei. Procurei no chão, embaixo do tapete e nada.
— Está comigo Lucy. — Tentei pensar que fosse um pesadelo, eu não precisava vê-lo apenas algumas horas antes de estar prometido a outra mulher.
— O que você quer Natsu? — Perguntei, ainda de costas para ele.
— Quero poder conversar com você. — Comecei a retrucar, mas logo suas palavras me calaram. — Não desse jeito, preciso olhar em seus olhos, esclarecer as coisas. Desde que descobriu da gravidez de Lisanna você me olha como se não o quisesse. Eu pensei que o que sinto por você fosse recíproco.
— E o que você quer que eu faça?!! Que eu diga que gosto de você? Sim Natsu Dragneel eu estou apaixonada por você, mais do que um dia eu achei ser possível. Eu sempre te amei, amei desde o dia em que te vi pela primeira vez saindo de dentro daquela piscina. — Gritei, porque já não era capaz de reprimir aquilo dentro de mim. — Mas desde que nos conhecemos não há um momento sequer que não me faça sofrer. Primeiro com sua arrogância, me olhando como se eu fosse um nada. E depois me fez acreditar que nós poderíamos ter algo juntos, me deu esperança quando eu não mais pensava que ela pudesse existir. Mas logo em seguida você jogou tudo pelos ares. — Senti que algumas poucas lágrimas deslizaram pelo meu rosto, e mais que ligeiramente enxuguei-as grotescamente. — Mas mesmo como tudo isso, sabe qual é o meu maior medo? Que toda essa dor mate aos poucos esse amor que sinto por você. Eu venho tentando fazer você me amar, mas às vezes penso que o que você sente por mim não pode ser comparado aos seus sentimentos por ela, porque no fundo eu sei que se a situação fosse inversa você ainda sim a escolheria. Sempre vai escolhê-la.
Ele não me permitiu que terminasse, seus lábios estavam nos meus antes que conseguisse raciocinar. Bati em seu peito, transtornada. Afastei-o de mim empurrando-o para longe.
— No entanto o que mais eu poderia esperar de um cara que está para se casar e tem coragem de beijar outra bem ao lado do cômodo em que sua futura esposa está?
Se fui cruel? Sim talvez.
Se não estava compreendendo a situação? Provavelmente.
Mas é só que, eu não desejava que ninguém esperasse nada de mim naquele momento. Lisanna tinha os seus problemas, mas eu também tinha os meus. Era triste dizer, mas eu nunca fui perfeita. No fim não sou capaz de entender uma situação como essa.
*
12 de outubro de 2001
19h: 05min
Sting
Bosta! Quando passei os olhos pelo relógio vi o quão atrasado eu estava.
Olhei-me no espelho, tentando ajeitar o terno que vestia, não queria ir aquele casamento, nem sequer conhecia o merdinha que estava se casando. Até onde sei, é o filho do patrão, Natsu Dragneel, um garotinho que até hoje não saiu debaixo das asas da mamãe. Estava fazendo todo aquele esforço por causa do Sr. Igneel, o único que valia algo ali.
Depois da terceira tentativa desisti de tentar dar um nó descente na gravata. Não gostava nem um pouco daquilo, dava-me a sensação de não estar respirando direito. Não queria, mas, o único jeito seria recorrer a minha mãe.
Quando sai do quarto, segui rumo ao cômodo de onde saiam vozes. Não demorei a perceber que eram da cozinha. A porta estava razoavelmente escorada, deixando uma fresta de mais ou menos um palmo aberta.
A primeira voz reconheci ser de meu pai.
— Por quanto tempo vocês acham que vão esconder isso dele? Sting logo vai descobrir. Ele é o irmão dela Layla, se tem alguém que tem de saber de tudo isso é ele.
Parei diante da declaração. Não podia sequer imaginar do que ambos estavam falando. Da última vez em que tinham me escondido algo, as notícias foram devastadoras. O resultado tinha sido a bomba do câncer de Yukino, o qual eu não tinha me recuperado até hoje.
— E você quer que eu faça o que Jude? Quem tem que dizer isso a ele é Lucy, ela me pediu para que esperasse o momento certo. Só estou fazendo o que ela quer.
Senti o coração bater mais forte. O que aquela desmiolada da Lucy tinha feito?
— Jude, eu não posso chegar nele e falar isso, quer que eu diga o que? Sting tenho que lhe informar que sua irmã está grávida.
Sting tenho que lhe informar que sua irmã está grávida.
Sua irmã está grávida.
Irmã... Grávida.
Bosta! Eu tinha que ter ouvido errado.
— Como? — Nem mesmo sei quando foi que eu abri a porta por completo, e meus pais me perceberam ali. — A Lucy está... Grávida?
— Filho? — Mamãe disse perplexa. — Não é iss...
— Eu fiz uma pergunta mãe! — Droga! Sabia que estava indo contra todos os meus princípios, eu nunca pensei que faltaria com respeito com eles novamente. E aqui estou eu, pouco me importando com isso nesse momento. — O que Diabos foi isso que ouvi agora?
Ela apertou as mãos, e me olhou como se tivesse espantada demais para conseguir continuar a falar. Seu olhar nublou, e eu quase me dei um soco. Havia apenas três mulheres nessa vida, que eu não conseguia suportar quando choravam. Mamãe era uma delas.
— A Lucy está realmente esperando um filho. — Ela respirou fundo, quando olhou pra mim ela se encolheu. — E...
— Quem é o pai?
— É... é... Natsu Dragneel.
Seria pouco falar que uma fúria anormal tomou conta de mim. Talvez esse fosse meu maior defeito, um excesso de proteção. Alguns diriam que não há mal nenhum uma garota de dezoito anos estar grávida, acontecia muito isso por aí, não? Mas era normal também o pai da criança estar para se casar com outra? O que seria da minha irmã? Ela amava esse idiota? Ele a usou, se divertiu e depois a abandonou?
Só conseguia pensar em coisas horríveis que esse galinha poderia ter feito com ela.
Dei as costas para os meus pais, eles gritaram algo acho, mas meus ouvidos pareciam estar tampados. Peguei as chaves em cima da mesa da cozinha, e saí porta a fora.
Quando liguei a moto, primeiro fiquei sem direção, depois soube exatamente onde deveria ir.
Não era justo que Lucy estivesse enfrentando tudo aquilo, essa noite ela serviria o pai de seu filho. Enquanto ele sorria para a esposa ela seria obrigada a passar por isso. Eu seria capaz de acabar com aquele casamento se fosse necessário. Mandaria todos para o espaço para tirá-la dali, mas não antes de arrastar a cara do desgraçado pelo asfalto.
Se ele achava que Lucy não tinha quem a protegesse, descobriria que mexeu com a última pessoa na face da terra que deveria importunar.
Três quarteirões me separavam da mansão Dragneel. E apenas raiva nublava meus pensamentos.
Estacionei a moto no canto da grama. Ouvi barulhos lá dentro, provavelmente o casamento já havia começado. Esperava que os noivos ainda não tivessem trocado as alianças.
Havia seguranças do lado de fora, e eles me olhavam de forma assustadora.
Dane-se eles. Eu chutaria a bunda de todos se fosse necessário.
Puxei o convite de dentro do bolso e joguei na cara deles, literalmente joguei. Abri os portões do jardim e lá estavam todos. A noiva parecia radiante, bonita, mas muito mimada para o meu gosto. Natsu parecia nervoso, olhava para Lissana ao mesmo tempo que seu olhar seguia a outro rumo. Quando o segui, vi quem encarava: Lucy!
Os olhos da minha irmã estavam nublados, eu sabia o que aquilo significava.
Aquele idiota havia brincado com ela. Engravidou-a e depois a largou para se casar com uma mais rica.
O público não percebeu minha presença, impressionados demais com o que acontecia logo à frente.
Primeiro um passo, depois outro, mais alguns quando finalmente comecei a correr. Não liguei para o que poderia acontecer, as conseqüências que viriam, só sei que, quando cheguei perto o suficiente de Natsu,desferi-lhe um soco no rosto. Ali mesmo, na frente de todos, eu adoraria ver seu nariz sangrando na frente dos seus tão amáveis convidados.
Nesse momento eu já era o centro das atenções, Senhor Igneel me olhava espantado, a noiva estava catatônica, mas a única pessoa que me importava era Lucy. Oh sim, Lucy chorava. Lagrimas que expressavam dor caiam pelos seus olhos, e eu soube naquele momento, que ela sabia que eu descobrira sobre o seu filho.
Autora:
Alguns minutos atrás...
O homem olhara abismado para o que acabara de ouvir, não compreendia totalmente o que aquilo poderia significar, mas tudo que soube é que não poderia manter aquele segredo apenas para si, não quando significava tanto e envolvia tantas pessoas.
Dera dois passos para trás, a fim de se afastar silenciosamente, e ao se virar, alguns passos a frente no corredor encontrara quem mais desejava naquele momento.
— Sr. Igneel. — Dissera, mal acreditando em tamanha coincidência.
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