Nove Meses
19 A garota das pérolas castanhas
Notas iniciais
Nove Meses — Pov. Natsu
— Vovô me deixa dirigir?
— Esse não é um bom plano garoto. — Ele sorriu, exibindo os dentes amarelados. Na verdade sua expressão demonstrava jamais ter estimado a ideia.
— Sei que posso fazer isso. Já vi outras crianças dirigindo na Tv. Também posso conseguir. — Ele deu duas batidinhas leves na minha cabeça, o que serviu para apenas aumentar a aversão. Por que outras crianças podiam fazer e eu não?
— Não confie no que vê em todos esses canais, menino. A maior parte do que dizem é mentira. — Puxou meu nariz, e a contrario do que ele achava que ocorreria daquela vez não sorri. Estava começando a ficar irritado por ser contrariado.
— Você não confia em mim?
— Não é isso Natsu, você ainda não pode... — Não deixei que terminasse, porque sabia que ele tinha um ótimo poder de persuasão e acabaria por me convencer ao contrário. Deveria provar que poderia conseguir.
Foi então que desatei o cinto de segurança e pulei sobre seu colo, o ato pegou ele desprevenido, e consegui manter o domínio sobre aquele círculo curioso por somente segundos.
— Natsu! — Gritou me empurrando de volta para o banco. — Não faça mais isso. Você irá ficar sem seus carrinhos pelo que fez. Não tem ideia de como isso é perigoso menino? Você poderia se machucar e também a todos nós. Terei que conversar com os seus pais sobre essa desobediência.
Zanguei-me. Papai me tiraria todos os brinquedos e também não permitiria que fosse aquele parque que há meses estava pedindo que me levasse. Adeus montanha-russa ou carinho de bate-bate.
Meus dedos foram para a porta do carro e forcei, tentando abri-la. Alieno que não conseguiria abaixei os vidros do automóvel. Outra vez desatei o cinto de segurança, e pulei no espaço que me juntaria à mata ao lado da pista. Mas antes que os planos se concretizassem senti uma mão agarrar forte a camiseta que usava, voltei obrigatoriamente para o banco.
— Garoto o que está acontecendo com você? — Senti que o carro parava de se locomover. Vovô passou o cinto de segurança novamente por minha cintura. — Acho que devemos voltar, marcamos outro dia para vir à casa de campo. — Notando que seus olhos ainda estavam sobre mim, mostrei a língua para ele.
Quando voltou a movimentar o carro discorri uma série de murros em seu braço, não queria voltar para casa quando estávamos tão próximos do meu anseio desde as últimas férias de início de ano.
— Natsu, pare!
— Querido, quando chegarmos em casa podemos comprar um carro bem grandão para você dirigir. O que acha daquele que vimos na loja de brinquedos aquele dia?
— Não. Não quero um carro que não seja de verdade.
Ouvi Wendy chorar, minha irmãzinha de apenas seis anos havia acordado. Seus berros me fizeram vacilar, mas ainda sim não parei.
— Já chega menino. — Ele se virou no banco, tirando minhas mãos de seu braço. Foi nesse momento que a buzina preencheu nossos ouvidos. Outro carro que vinha logo a frente tomou minhas vistas. Vovô tentou desviar, jogando o carro para o lado. Senti que tudo sacudiu e depois a escuridão me aguardava.
Acordei em sobressalto, mais uma vez aquele maldito dia viera a me assombrar em sonhos. Odiava acordar no meio da madrugada, pois agora era quase certo que talvez não conseguisse voltar a descansar. Se pregasse os palpebras novamente lá estariam os berros de Wendy, as broncas de vovô, e as palavras de vovó.
Espremi os olhos tentando desaparecer com todos os pensamentos que tivessem relação com a ilusão. Mesmo depois de anos do ocorrido, horas e horas no psicólogo conseguia lembrar em detalhes dos acontecimentos daquela tarde. Cada palavra, suspiro, detalhe voltava todas as noites para me alarmar.
Eram esses fatos, que deixaram uma marca profunda que nem mesmo o tempo conseguiu apagar.
A culpa. A culpa plantava fundo suas raízes, principalmente em mim.
*
Foi na mesma manhã que descobri sobre o atentado ao Word Trade Center que aceitei a proposta de Yukiko, nós dois iríamos outra vez aquela mesma mulher que há um ano não consultava. A única razão para conseguir suportá-la era o corpo bonito que possuía. Não era muito difícil ficar ali quando se tinha uma visão privilegiada de seus seios fartos, comprimidos por aquela blusinha rosa escondida por um casaquinho de botões abertos.
O horário havia ficado marcado para o turno vespertino. Entretanto ainda no fim da manhã recebi a notícia de que Lissana viria passar a noite comigo. No mesmo instante liguei para Yukiko pedindo para que ela providenciasse algumas coisas que estavam necessitadas naquele local.
Segurei a visão no ambiente que me rodeava. O quarto que um dia fora bonito estava uma zona. Pouco me importava com isso, na verdade poderia rir, pois credito que sou uma das poucas pessoas que deixaria isso chegar a tal situação. Mas isso com certeza afetaria Lissana. Ainda tinha Yukiko que ficaria realmente zangada se visse as coisas aqui dentro.
Precisava que alguém organizasse a alcova, não tínhamos ninguém que o fizesse desde que aquela velha gorda pedira demissão. Problemas de saúde, acredito. Com aquela idade isso não me surpreendia.
Saí do quarto, pretendendo encontrar alguma empregada. Aposto que oferecendo uma boa quantia faria o serviço de bom grado.
Onde estavam elas quando se precisava? A primeira que encontrei foi uma loira, ela trabalhava a algum tempo na residência, mas que, no entanto se mantinha mais jovem que eu. Seu rosto parecia de menina, transmitindo uma inocência angelical.
A garota estava abaixada, com o caudilho encostado no chão. Assemelhava-se a uma pessoa fraca da cabeça. Quem em sã consciência ficaria assim, jogado no plano? Observei a escova de solo em uma de suas mãos e os foninhos jogados para fora da camiseta.
Ela não havia me percebido, mantinha-se na mesma posição. O que mais me chamou a atenção foram os lábios cheios entreabertos, eram rosados e combinavam bem com sua pele. Tinha beleza, mas ainda sim era apenas uma empregada.
— O que faz aí garota? — Perguntei. Ressalvei que ela apoiou as mãos no chão, como se todo o resto do corpo já não fosse apoio suficiente. — Vamos responda!
Instantes se passaram e ela não obtemperou. Ficava apenas por me olhar aparentemente imersa em pensamentos.
— Você pode falar? — Foi uma pergunta estúpida que me arrependi de fazer. Aquilo não soara nada educado, era mais um pensamento que deveria manter comigo. A gôndola acenou respondendo a minha resposta. — Então porque não responde? — O tom da voz me assustou um pouco, mas era assim que deveria soar, era a única forma de evitar que as pessoas se aproximassem de mim.
— Eu estava apenas l-limpando. — Gaguejou e foi à deixa para que soubesse que estava mentindo.
— Com as orelhas? — Chutei o balde a sua frente para o lado. Ela se assustou, porém manteve o olhar fixo na água que escorria pelos degraus. Aquela expressão fez com que quisesse sorrir por alguns instantes. Ela parecia... Indefesa.
— Eu apenas me abaixei para pegar o brinco que caiu. — Rumei as vistas a sua orelha e notei que ela não as tinha furado. Minha vontade de sorrir voltou outra vez, mas controlei para não deixar transparecer nada que me revelasse, ela estava tão desconcertada que não media as próprias palavras.
— Por isso mesmo, eu o trazia em mãos, ele se perdeu em meio a tanta espuma quando caiu, apenas abaixei-me para procurá-lo. — Poderia existir uma probabilidade pequena de estar enganado, entretanto mesmo assim lhe lancei um olhar desconfiado.
— E você o encontrou?
— Não, mas não é tão importante assim.
Passei a encará-la, a menina estava com a roupa molhada, alguns pontos a mais que outros, deixando em algumas partes a traje colado ao seu corpo. Como havia pensado anteriormente: ela era bonita.
— Preciso que faça uma faxina. — Pedi, recordando-me de Lissana.
— Claro, assim que terminar seguirei com o senhor.
Vendo que ela não percebeu, repeti de forma mais atrevida.
— Acho que não entendeu, preciso para agora mesmo.
— Desculpe-me, mas tenho que terminar a limpeza nas escadas, ordens de sua mãe.
— Deixe que eu me entenda com Yukiko, apenas faça o que lhe pedi.
— Sim senhor.
— Vamos para o meu quarto. — Pronunciei. Notei um tom rubro tomar suas bochechas que certamente ela não deveria ter percebido.
— S-seu q-quarto?
— Claro, preciso que organize, está uma bagunça. Algum problema?
— Não.
Levou alguns minutos para que estivéssemos dentro do quarto e no caminho até o recinto desviei rapidamente o olhar para ela em alguns momentos, tendo em primeiro lugar a precaução para que em nenhum instante me notasse, aqueles seus olhos não me deixavam esquecer dela. Já na acomodação notei que haviam algumas coisas que não estavam ali quando eu saíra.
— Quero que forre a cama com aqueles lençóis. — Mostrei a ela uma fileira de panos dobrados sobre o divã. Nem mesmo sabia para que serviam todos eles.— Distribua as lâmpadas douradas pelas luminárias inclusive as de mesa. E quanto ao perfume quero que borrife quando estiver de saída, para que o cheiro não fique tão forte. Preciso desse quarto limpo as oito. Entendeu? — Perguntei.
— Sim estará tudo pronto a tempo.
— Assim espero. Se fizer seu trabalho corretamente dar-lhe-ei uma boa gratificação, sei que a limpeza dos quartos não fica sob sua responsabilidade, mas eu não disponho de tempo.
— Não é necessário. — Não posso negar que sua resposta foi uma grande surpresa para mim. Uma que eu não esperava. Porque seria idiota ao ponto de não aceitar dinheiro? Ela precisava dele, não é mesmo? Dada a sua condição econômica.
Poderia se considerar também que ela estava sendo honesta. Limpando o meu quarto estaria deixando de fazer todas as outras atividades por quais era responsável.
— Seja da forma que quiser, apenas cumpra os afazeres. — Sai deixando-a sozinha lá dentro.
Alguns passos depois ainda no corredor me deparei com Lissana, um sorriso grande estava estampado em sua face. Ela se aproximou cumprimentando-me com um selinho demorado. Apertei minhas mãos seguramente em sua cintura, tendo uma tentativa falha de arraigar o contato.
— Meu Deus, posso saber o motivo de tanta felicidade?
— Sua mãe acaba de me mostrar o convite de nosso casamento. Está lindo. — Desconfiei que aquela sua alegria pudesse ser contagiosa, pois estava começando a me sentir um pouco mais animado.
Mas então, de repente, ela contraiu um semblante fechado como se houvesse acabado de se lembrar de algo desagradável.
— Vi você e aquela empregadinha loira conversando, sobre o que vocês estavam falando? — Um tom sarcástico soou. Ela afastou nossos corpos para que tivesse uma vista melhor dos meus olhos. Estava fora de cogitação contar a ela o motivo da minha conversa com a menina de pérolas castanhas.
— Não era nada de importante. Estava falando para ela não vacilar no trabalho.
— Vacilar Natsu? Desde quando você acrescentou “vacilar” no seu vocabulário? —Ralhou, com olhos acusadores. — Não preciso me preocupar com ela não é mesmo?
Uma gargalhada desabrochou. Ri de uma forma natural que há muito tempo não fazia.
— Não me diga que passa pela sua cabeça que eu tenha algo com a empregada. Como você pode deixar algo assim preencher seus pensamentos? Ela é apenas a serviçal Lissana, jamais trocaria você por ela. — Discorri entre uma risada e outra.
Ergueu as sobrancelhas e toquei seus lábios. Manteve-se imbatível inicialmente, mas não resistiu por muito tempo e se entregou, aprofundando o beijo.
— Acharia que você estaria louco se fizesse isso. Acho que talvez eu esteja mal, sei que sou a única mulher da sua vida Natsu. — Não deixei que terminasse, prendi seu corpo na parede e nós nos separamos apenas quando ela disse que precisava ir.
Isso aconteceu vinte minutos depois quando contara-me que tinha hora marcada no cabeleireiro. Olhei o relógio constatando que já estava na hora de ir a tal psicóloga. Parti atrás de Yukiko, onde fosse que ela estivesse. Não demorou muito para que a localizasse. Estava caída aos pés da escada com a bunda em contato com o chão, completamente encharcada. Desde que a garota saíra para arrumar o quarto nenhuma outra empregada havia surgido para finalizar seu serviço.
— Onde está à idiota daquela empregada que não terminou a ocupação? Vou despedi-la agora mesmo. — Ela gritou. Estiquei meus braços para que pudesse ajudá-la a se levantar.
— A culpa não foi garota Yukiko, pedi para que organizasse minha acomodação.
Pela sua expressão o que eu disse poderia ser comparado a um quilo de ofensas direcionadas a ela.
— Natsu, no que pensava quando chamou-a para entrar em seu quarto? Não lhe passou em nenhum momento que ela pudesse lhe roubar?
— Yukiko não há nada de valor visível no aposento, está tudo guardado no cofre. Também não acredito que ela possa pegar algo, meu pai não colocaria alguém que não fosse de confiança trabalhando dentro de casa. Não há preocupação se o assunto é este. — Ela se levantou tentando manter-se firme sobre os saltos finos. — Poderíamos agora ir aquele consultório que a tanto me perturbou para que fossemos?
— Desde quando fala assim com a sua mãe, Natsu? O que está acontecendo com você? — Ela me encarou nos olhos, deixando a mostra todo o seu descontentamento. Revirei os olhos, e virei às costas para ela. Ouvi seu suspiro arrebatado, mas não retornei a encará-la. Era melhor dormir e ter sonhos eróticos.
Suas voz preencheu o ambiente e parei imediatamente.
— Espere um momento, vou apenas me trocar.
*
Não sabia as horas, tampouco me preocupava com isso. Meu interesse estava no corpo formoso que contorcia-se em meus braços. Lissana e eu não esperamos para entrar no quarto e iniciamos nossa noite ali mesmo, no corredor.
Quando adentramos o aposento percebi de relance que as luzes estavam acesas. Um perfume aromático adentrou pelas narinas, mas minha maior surpresa foi encontrar o ambiente completamente organizado. A loirinha tinha cumprido bem o seu trabalho, se eu fosse um pouco mais sociável daria os parabéns pessoalmente.
Ouvi a porta bater atrás de nós no momento em que Lissana pulou cruzando as pernas na minha cintura. Minhas mãos instantaneamente voaram para suas cochas.
Estávamos rumo à cama quando senti que embolava os pés em algo. Tropecei e nós dois caímos desajeitadamente sobre o colchão. Lissana gritou ao sentir seu braço bater contra a quina da cama. Sentamo-nos e ouvi um gemido mais profundo provindo da minha noiva.
Direcionei o olhar para ela puxando seu braço para que pudesse verificá-lo e quando constatei que nada grave havia acontecido olhei para o objeto causador do acidente
Um balde? Um balde ocasionou nossa queda?
Caí de costas na cama, cobrindo os olhos com a mão. Sabia que minha noite com Lissana acabara e ouvi um grunhido sair da garganta. Mas ao final de acabei sorrindo.
Aquilo só poderia ser obra da garota das perolas castanhas. Admirei sua audácia, não conhecia os motivos pelos quais ela deixou-o ali, mas com certeza tinha coragem. Foi a primeira pessoa que teve seiva de desafiar Natsu Dragneel, outra teria voltado e resgatado o objeto antes que eu chegasse.
Uma pergunta surgiu perambulando meus pensamentos:
Como ela se chamava?
Mas logo foi esquecida quando Lissana acertou o punho no meu braço.
— Natsu!
— O que foi?
— Vamos arrumar algo melhor para fazer.
— Existe coisa melhor que sexo selvagem?
Gargalhou, acertando-me novamente.
— Meu braço está dolorido, vamos procurar por gelo. — Pulou da cama, saindo do quarto. Permaneci deitado por mais alguns segundos.
Eu gostaria de algum dia ter a resposta para minha pergunta.
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