Nove Meses
5 5 — O momento da verdade
Notas iniciais
Japão — Tóquio
Quarta-feira — 12 de setembro — 09h30min.
Os pássaros cantavam festivamente lá fora e a friagem da manhã ainda nos abraçava. Eu e Levy havíamos acabado de sair do consultório da doutora. Estava radiante por saber que tudo ocorria muito bem com a vida que crescia dentro de mim. Ouvir palavras tranquilizadoras de uma profissional era reconfortante.
Caminhávamos calmamente pelos muito corredores, Levy ao meu lado cantarolava uma música infantil enquanto arrancava o resto do esmalte que sobrava em sua unha do dedinho. Observei-a com admiração, apenas uma ligação e conseguiu me colocar no primeiro horário da Dra. Mieko.
Ela era uma mulher que deveria ter seus quarenta anos, loira assim como eu, mas desconfiei que por causa de muita tinta. Lembrei-me agora de cada detalhe de seu rosto pintado, os olhos verdes e a boca fina. Era gentil e profissional linda por dentro e por fora. Iria adorar fazer o pré-natal com ela.
Passou-me uma porrada de exames para fazer. Disse-me para ingerir bastantes vitaminas, principalmente cálcio e ferro. Então legumes, carne vermelha e frutas faziam parte da minha nova dieta. Sugeriu-me também que procurasse uma nutricionista, mas isto ainda era forçada a adiar.
Preocupava-me com os gastos, e eles tendiam a aumentar daqui por diante. As coisas estavam ficando difíceis, era muita coisa para suportar sozinha.
Nós passamos pela recepção até chegarmos à porta de saída que era também a de entrada. Joguei um sorriso para uma pequena menina que deveria ter no máximo quatro anos, ela desenhava em uma folha branca com alguns gizes de cera. Tentei avistar a mãe, mas ao que parece ela não estava por perto, tinha apenas um homem sentado ao seu lado que provavelmente deveria ser seu pai.
Ele acariciava seus cabelos delicadamente, enroscando os dedos nos cachinhos negros. Era tão bonita esta relação entre os dois. Ele demonstrava amá-la muito. Imaginei como seria se Natsu soubesse. Será que ele iria gostar de nossa criança? Iria brincar com ela? Levá-la ao parque? Dar de comida? Certamente essa seria uma tarefa apenas pra mim.
A menina devolveu o sorriso e continuou com o que fazia.
Saímos e o sol nos acolheu de bom grado. Sentia-me mais aquecida. Andávamos pelas calçadas em silêncio. Ainda por ser tão cedo não tinha muito barulho, apenas alguns gritos ao passarmos em frente a algumas casas.
Entramos em uma das ruas mais movimentadas e passamos para o outro lado do caminho. Observei algumas das lojas por quais cruzávamos.
Minha amiga parou de repente e encarou um ponto fixo. Virei-me para encará-la.
— Levy? — Ela passou por mim como um furacão e me agarrou pela mão. Entramos juntas em uma loja que notei rapidamente ser de bebês.
Afrontei-a confusa. Ela apenas me ignorou e saiu deslumbrada atrás das roupinhas. Fiquei perdida na entrada da loja, não podia mais avistar a azulada.
— Lucy! — Gritou entusiasmada. Ainda desconcertada corri até ela. — Olha que lindo! — Estendeu em frente aos meus olhos o vestido rosinha muito pequeno, acompanhando vinha uma faixa marrom que passava na cintura. — O que acha?
— É maravilhoso. — Meus olhos transbordaram diante tanta beleza. Tentei imaginar minha menina dentro dele. — Mas este também é magnífico. — Peguei próximo, um macacão masculino. Ele era azulzinho e tinha o desenho de um ursinho na frente. Meu garoto provavelmente também estaria muito bem dentro dele.
— Sim... — Levy suspirou em derrota. — Mas esse que tenho em mãos vai lhe ser mais útil.
— Pode ser que venha um menino Levy, não quero que se decepcione. — Murmurei sentindo aquela sensação ruim de tristeza voltando a aparecer.
— Não irei me decepcionar Lucy — Citou meiga. — Você acha que desmereceria a chegada do meu sobrinho? Não importa o sexo. Gosto das meninas, mas também adoro os meninos.
— Você é um amor — Lancei-lhe um olhar terno.
— Eu sei, eu sei. — Se louvaminhou e me restou apenas rir. — Podemos ficar com os dois, o que acha? — Sugeriu e achei uma ótima ideia.
— Perfeito!
Levy fez questão de me dá-los de presente. Não fiquei envergonhada, ou qualquer coisa do tipo. Porém não estava de acordo com os preços de cada um, minha criança vestia mais caro que a mãe.
Voltamos para casa juntas, ao contrario de alguns minutos atrás a conversa agora rolava solta. Nós duas falávamos sobre o enxoval, eu ainda achava muito cedo, mas Levy estava empolgada. Diria que até mais que eu.
O choque da notícia ainda me abalava, no entanto tinha a cabeça firme e esperança de que, com o tempo, tudo poderia se resolver.
*
Chegamos em casa cerca de quase dez e meia da manhã, peguei os dois palitos de picolés na mão de Levy e os levei até a lixeira no chão ao lado da pia.
Puxei a cadeira da mesa e sentei-me descansando, havíamos feito uma boa caminhada. Talvez a ideia de passar pela pracinha não tenha sido tão boa. Mas como eu poderia evitar me deliciar com os picolés do seu Jon? O calor há essa hora era angustiante. Era como se a qualquer momento eu pudesse derreter. O clima abusava da minha paciência, e também com a de muito outros cidadãos.
Levy comia um pedaço de torta que havia comprado em uma padaria próxima, o cheiro não me fez ter água na boca como antes. Será que a Dona Rita tinha perdido o dom? Ou era apenas resultado do meu estomago maluco?
Fiquei com a dúvida.
Contrariado Sting entrou pela porta com uma carranca engraçada, ele parecia muito irritado. Bufou e passou por nós, sem nos cumprimentar. Pensei em ir atrás dele, era muito raro vê-lo assim. É tão brincalhão.
Encarei Levy e ela prontamente entendeu o recado.
— Eu tenho mesmo um trabalho da faculdade para fazer. — Mentira. Não estávamos tendo aulas. Levantou-se e lavou as mãos antes de sair, mas primeiro me deixou um beijo na testa. — Te vejo a noite.
Segui meu destino rumo ao quarto do loiro e por incrível que pareça encontrei-o arrumado, mamãe deveria tê-lo posto para limpar.
— Quer conversar? — Sentei de lado na cadeira de frente para a mesa do computador. Trancei as pernas e esperei por sua resposta.
— Não. — Ele foi direto. Não me encarou, mas sabia que tinha a boca reprimida.
— Sting pode desabafar comigo, sou sua irmã.
— Não! Lucy, não! Deixe-me sozinho! — Pediu e vi que a tristeza era clara em seu ser.
— Fale comigo. — Pedi insistindo. Observei como seus cabelos estavam maiores, e o corpo mais musculoso. Caiu-me a ficha de que já não passava tanto tempo na companhia de Sting, não conversávamos, nem saíamos juntos. Tornamo-nos dois desconhecidos dentro da própria casa.
— Não quero!
— Pois não sairei daqui até que me diga o que te angustia. — Cruzei os braços deixando claro que não sairia, mesmo que me expulsasse. Nada me arrancaria dali.
Ele puxou os cabelos, irritado. Passou a mão por toda a face e por fim me encarou.
— Você não vai desistir, não é mesmo? — Vencido pela minha insistência, Sting pareceu compreender a derrota.
— Não.
Demorou alguns segundos, na verdade se passaram minutos até que ele resolvesse falar.
— Yukino terminou comigo. — Sussurrou pesaroso.
Sting namorava Yukino Aguria há seis meses, era surpreendente que tivesse demorado tanto com uma mesma mulher. Não achei que ele estivesse tão interessado nela, agora vi que sim. Realmente tinha algo a mais.
— Sinto muito meu irmão. — Levantei-me da cadeira e sentei no tapete ao lado de sua cama. — Porque ela faria algo assim?
— Disse-me que sou uma criança e tenho que crescer. Que como estou não sirvo para ela. — Oh... Que raiva dessa cadela. Como ousava falar assim do meu pobre irmão? Que só fazia de errado amá-la mais do que ela merecia. — Eu estava apenas andando de skate Lucy, há tanto tempo não fazia que acabei me empolgando.
Senti um carinho imenso por ele.
— Eu estou apaixonado, é estranho, mas eu me apeguei muito. Não quero nem pensar o que o crápula do Rogue vai fazer quando descobrir que ela não está mais comigo. Eu juro que se ele tentar algo eu o mato Lucy. Eu o mato! — Sting tinha um olhar de cólera. Seu rosto transbordava de raiva e o vi esmurrar o colchão.
— Ele não pode fazer nada, ela te ama. — Saindo do chão e sentando-me ao seu lado, agarrei seu braço direito e o enrosquei com o meu. Tentei falar o mais suavemente possível deixando que minha voz soasse doce e reconfortante.
— Eu não tenho tanta certeza. Ela é tão difícil, preciso de um livro para entendê-la. Por que ainda não publicaram um? — Sting estava indignado.
Ri. E balancei a cabeça em negativa.
— Vá atrás dela. — Sugeri e ele pareceu pensar.
— Não sei se é uma boa, ela está muito irritada. É capaz de me arrancar à cabeça e eu ainda preciso dela. — Passou a mão esquerda em volta do pescoço massageando como se sentisse dor.
— Bobo! — Soquei seu ombro entre gargalhadas. — Leve um buquê de flores. Mulheres gostam de ganhá-las.
— Será? — Iluminou-se.
— Sim, dê as que ela mais gosta, quais são?
— Amor-Perfeito. Devo levar bombons?
— Claro! — Sting retirou seu braço do meu e me abraçou pelos ombros.
— Você é uma boa irmã, sabia? — Devolvi seu abraço, dando a ele sua resposta.
Voltamos a nos entender bem, sem intrigas e xingamentos. Meu irmão agora estava de bom humor o que era muito bom.
Tudo ia muito bem, mas um grito de espanto interrompeu o ambiente agradável. Preocupei-me ao distinguir a voz de mamãe. Meu irmão e eu nos olhamos, e saímos pela porta em desespero.
Corremos para a cozinha que foi de onde o brado veio, chegamos e a encontramos de pé com a pele pálida. Ela tinha nas mãos as sacolas de roupinhas que eu e Levy compramos.
Senti meu mundo tremer. Como pude ser tão burra? Por que não me lembrei de guardar as roupinhas? Como deixei isto acontecer?
Idiota! Idiota! Idiota!
— Lucy e Sting, o que significa isso? — Mamãe respirava forte e vi que estava muito inquieta. Deus, o que farei? Contar a verdade, ou começar a pensar em uma boa desculpa? Sendo essa muito convincente, pois vi a figura de Sting na mesma situação da minha mamã. Ele me encarou procurando urgentemente uma resposta.
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