Nove Meses
27 24 — Apaixonado?
Notas iniciais
Assim que entramos no carro, notei que a tensão invadira o corpo de Natsu. Não era como se eu não esperasse por isso. Ele passara tanto tempo sem tocar em um volante e agora quando finalmente decide-se não iria simplesmente sentar no branco o motorista e dirigir caminho a fora.
— Você se lembra de como faz isso, certo? — Toquei-lhe o braço querendo transmitir-lhe um pouco de calma. Foi também uma forma de tentar descontraí-lo, senti que seus músculos deixaram de se contrair por um momento.
— Acho que sim. Não pode ser tão difícil. Se eu já fiz outras vezes porque não agora? O máximo que pode acontecer é de nós dois irmos parar sete palmos abaixo da terra.
— Sinto feliz por você ser tão otimista. — Passei o cinto de segurança em minha cintura e Natsu fez o mesmo. Ele se mexeu desconfortável, e colocou ambas as mãos no volante. Apertou-o com uma força desnecessária, e me vi outra vez tentando acalmá-lo.
— Certo. Agora preciso apenas lembrar qual é a função de cada pedal. — Ele sorriu quando eu arregalei meus olhos.
— Você está brincando, não é mesmo? Talvez seja melhor chamarmos o seu pai para ele lembrar passo a passo como se faz isso.
— Eu sei o que fazer Lucy, não se preocupe. — Ele deu um tapinha em meu ombro, mas não senti muita veracidade em suas palavras. Então, eu gostei quando percebi que estivera enganada, Natsu não tinha uma carteira de motorista a toa. Quando ele começou a dirigir, primeiro de forma lenta meus dedos quase ficaram brancos de tanto que eu os apertava contra minha blusa, conforme ele ganhava mais confiança o que fazia a velocidade aumentar um pouco. Nada comparado ao modo como Sr. Igneel dirigira, mas ao seu próprio modo, Natsu estava se superando.
Talvez o fato dele preferir ir mais devagar tenha nos feito demorar um pouco para chegar ao local, ou apenas fosse mesmo longe. Eu não conseguia prestar atenção no caminho, meus olhos estavam em meus pés e no segundo seguinte em Natsu, verificando se ele ainda estava bem.
Nós parecemos finalmente ter chegado. Quando avistei o local vi que realmente era muito belo, no entanto o que me incomodava era o fato de...
— Natsu eu não vejo muitos pássaros aqui.
— Que apressada você, Lucy. Nós não chegamos ainda, vamos seguir a pé a partir daqui, as estradas são estreitas e não quero que meu pai me olhe torto por ter arranhado seu carro.
Arqueei a sobrancelha. Claro que ninguém gostaria que isso acontecesse com o seu automóvel, mas Sr. Igneel não dava a entender que se irritaria por algo assim. Mesmo que minha opinião fosse diversa da de Natsu segui com ele sem falar nada.
Seguíamos por um caminho quase todo coberto de sombras, as árvores pendiam para os lados formando um arco sobre nós, havia muitas folhas no chão, e até o fato delas estarem secas deixava o local mais bonito.
— Estamos quase chegando. — Ele avisou.
Demos cerca de vinte passos e ele avisara que era ali. Sim, realmente havia pássaros, muitos deles. Alguns pareciam ser iguais para mim e outros completamente diferentes. Eu não entendia como aquilo acontecia, havia um aglomerado deles, tantos que meus próprios olhos se confundiam.
Quando olhávamos para cima, avistava-os melhor. Estavam por toda parte, no topo das árvores, em uma distância considerável um dos outros. Eu via ninhos, e em alguns era possível avistar os pequenos passarinhos. Era bonito de se ver.
Alguns pássaros voavam indo embora, outros apareciam descansando nos galhos.
— Eu nunca entendi também porque eles gostam tanto desse lugar. Há um riacho aqui perto, quem sabe o motivo esteja relacionado a isso. — Falou.
— Pode ser, eu não sei muito sobre aves embora goste muito delas. Podemos perguntar depois para alguém que tenha mais conhecimento sobre o assunto.
Ele assentiu. Puxou-nos até duas pedras que batiam em minhas panturrilhas e sentamos lá onde ficamos ouvindo os diferentes cantos que podíamos detectar.
— Natsu o que lhe fez mudar de ideia?
— Com o que? — Ele me lançou um olhar questionador.
— Você disse que não gostaria de dirigir, e ainda sim nós estamos aqui.
Ele demorou a responder. Inicialmente achei que me deixaria falando sozinha, no entanto me surpreendeu quando replicou.
— Eu queria dividir esse lugar com mais alguém. Estou feliz que tenha sido com você.
Senti-me honrada com sua resposta. Ele poderia trazer o pai a mãe ou qualquer outra pessoa de sua família, no entanto, quem estava ali era eu. Senti que seus dedos estavam em meu cabelo e quando virei o rosto para olhá-lo ele estava a apenas alguns centímetros de mim.
Seus lábios vieram em direção aos meus e consegui força de não sei onde para desviar.
— O que aconteceu? — Perguntou-me confuso.
— É que é estranho. — Senti as bochechas corarem. — E você ainda está noivo, não posso continuar com isso enquanto as coisas não estiverem esclarecidas com Lissana.
— Eu não estou brincando com você Lucy, se é o que está pensando. — Abaixei meus olhos vasculhando o chão à procura de algo interessante, eu não queria fazê-lo pensar assim.
— Eu sei, mas não acho certo que isso continue da maneira que vem acontecendo. Creio que nós podemos esperar mais alguns dias até a volta de Lissana, certo?
Ele sacudiu a cabeça, balançando-a para os lados. Um sorriso contido surgiu em seus lábios.
*
Natsu
“Não esperava nada menos de você, Heartfilia.” Foram palavras silenciosas que nunca disse a ela.
Eu não diria necessariamente feliz, mas não estava mal por ela conseguir fazer o que eu não tinha forças. Negar-me um beijo surpreendeu-me, mas via em suas palavras a verdade que estava tentando evitar. Aquilo se chamava traição, eu estava traindo Lissana da forma mais cruel possível, pois não estava me sentindo mal, a culpa por isso ainda não vinha cravar suas garras em mim.
Levar Lucy ali foi uma atitude impensada, mas eu me agradeci internamente por isso. Nós últimos tempos andava pensando bastante e boas atitudes não estavam fluindo desses meus pensamentos. Estava preferindo assim, o passado ficou para trás, o futuro talvez não venha e o presente era a única coisa que me importava. Eu não estava tentando enxergar nada além dele, afinal de contas, era com ele que eu devia me conciliar.
Olhei para o céu sabendo que estava parecendo uma porra de uma marica apaixonada. Frases do tipo “Estou feliz que tenha sido com você” não saíam da minha boca com freqüência.
Questionava-me se era realmente isso. Paixão, amor, atração? Era confuso saber o que estava sentindo por essa menina. Tudo que sabia que era forte o bastante para me fazer desistir de um futuro certo com Lissana para algo improvável com ela.
Suspirei em desistência. Com Lucy era assim, eu não sabia o que pensar. Tudo se misturava dentro da cabeça formado um único bolo grande o bastante para que eu fosse capaz de desfazê-lo sozinho.
Se estava pegando o caminho errado ou não, só o futuro iria me dizer. No entanto estava disposto a oferecer-lhe o meu melhor já que ela sempre tem demonstrado sua melhor parte.
— Você está disposta, Lucy? — Ela me encarou cheia de dúvidas. Continuei para que todas elas não demorassem a serem extintas. — Quando tudo estiver resolvido com Lissana, você está disposta a ter um relacionamento comigo?
Ela me encarou como se dissesse que era burro. E talvez eu fosse mesmo, pois estava dando permissão para que os meus pés ficassem descalços sobre quilômetros e quilômetros de cacos de vidros.
— Você tem dúvidas Dragneel? — Seu sorriso mostrou as covinhas profundas que aparecia todas as vezes que ela repetia aquele ato. Dois buraquinhos completamente encantadores.
Droga! Realmente eu estava virando um marica.
— Não, nenhuma. — Me divaguei em seus olhos, vendo o meu reflexo neles. Eles me encaravam tão profundamente como se quisessem me desvendar. Passei os dedos para colocar de lado a franja que ameaçava interromper o nosso contato.
Ela parecia tão inocente, uma menina que precisa de cuidados. Será que fora isso que me fizera aproximar dela? Ou o fato de ter momentos que demonstrara ter tanta força, tão mais que eu?
Estava curioso também sobre os sentimentos de Lucy, será que essa mesma desordem fazia parte dela? Ela, do mesmo modo que eu, se questionava sobre os seus sentimentos por mim? Ou era mais decidida e já tinha certeza sobre eles?
As horas passaram de forma que eu nem mesmo notei, só vim dar-me conta de que passamos tempo demais ali quando Lucy me alertou.
Quando entramos no carro não pude dirigir imediatamente, meus braços tremiam assustadoramente. Tentei controlar seus movimentos para que em nenhum momento a garota ao meu lado percebesse, acredito que não tenha conseguido. Senti parte daquele temor se esvair quando vi seus olhos apreensivos sobre mim, ao mesmo tempo que me transmitiam confiança. Ela estava confiando em mim, e eu decidi por não quebrar algo tão valioso. Girei a chave na ignição e só senti o pavor indo embora quando já dirigia cerca de dez minutos.
Tirei, receoso, uma das mãos do volante e deixei que ela caísse sobre seu braço que brincava incansavelmente com o passador de cito da calça. Por um momento meus dedos tocaram sua barriga e senti que nossos papeis haviam se invertido. Lucy se retesou no banco afastando-se alguns milímetros, nada que realmente me mantivesse longe.
— Eu a machuquei? — Seus olhos pousaram em mim desesperados e ela negou prontamente de cabeça baixa.
— Não... Eu só quero que você mantenha toda a sua atenção no caminho. Deve estar sendo no mínimo estranho para você. — Senti que não fluía total sinceridade de suas palavras, contudo decidi aceitar sua decisão. O que fosse de errado que eu tenha feito esperava ser inteligente o suficiente para descobrir sozinho.
— O que você pretende fazer quando chegar em casa? — Perguntou-me. Voltei à mão para onde estava inicialmente.
— Preciso conversar com Lissana, anseio saber quando ela volta. Ainda que pareça ser mais fácil, não acho sensato terminar três anos juntos por uma ligação.
— Como ela vai reagir a esta notícia? Lissana acabou de perder os irmãos, quando retornar para você, virá à procura de apoio. Acho que isso a surpreenderá muito. — Seus lábios se levantaram em um sorriso sem emoção. Seus olhos que depois de minutos encararam os meus havia requisitos de algo que eu bem conhecia: Culpa.
Mais uma vez me vi encantado por sua bondade, pela sua capacidade de pensar tanto em outras pessoas. Ao mesmo tempo também senti um furor pelo mesmo motivo, eu já havia notado isso quando ela mesmo depois de ser atacada pelo bêbado ainda se preocupar com ele. Sua bondade ao mesmo tempo em que simbolizava sua beleza de espírito mostrava-me também a sua derrota, o seu ponto fraco.
— Ela terá apoio Lucy, o quanto precisar. Não estou abandonando-a, apenas não acho justo continuar com algo que não seja sincero. Não se preocupe com assuntos relacionados a isto, não perturbe sua cabecinha — Passei a mão em seus cabelos bagunçando-os. Não sabia se tínhamos intimidade suficiente para uma brincadeira como aquela, mas se realmente pensávamos em ficar juntos seria bom começar a adquiri-la.
Desliguei o carro meia hora depois, quando estacionei na entrada da garagem. Fez-se ali dentro um silêncio incomodativo, que me chateara.
— O que aconteceu? — Perguntei-lhe. Ela continuou com a cabeça abaixada e não disse nada. Foi ali, naquele momento que desconfiei que algo estivesse muito errado. No dia anterior, depois do momento que tivemos na cachoeira, sua felicidade não poderia ser maior, ao menos foi o que imaginei, e agora, dentro daquele carro, parecia estar segurando para não desabar. O que poderia ter acontecido em tão pouco tempo?
— Ontem a sua mãe esteve em meu quarto. — Ela me olhou e uma única lágrima desceu pelo seu rosto. Vi que tentou segurar ao máximo, e admirei silenciosamente a sua força. Não contive o impulso que me atingiu e meus dedos foram até sua face, na tentativa falha de enxugar-lhes. Algo assim nunca havia acontecido antes, mas um estranho aperto me acometeu o coração ao ver aquela cena. — Ela não é a favor de você desmarcar o casamento.
Não pude nem mesmo imaginar o que Yukiko poderia ter dito a ela. Pois, eu melhor do que ninguém sabia o quanto suas palavras poderiam ser cruéis quando desejava. Senti o cólera surgir contra minha própria mãe, e novamente não sabia se estava errado, no entanto, não sentia culpa por isso. Além de uma conversa longa e estressante com Lissana eu teria uma também com Yukiko.
— Se tem algo que eu trouxe para mim das palavras de meu pai, o que mais se destacou foi o fato de tudo que importa é o que eu sinto. O que eles pensam não me influencia mais, talvez isso tenha acontecido muitas vezes, mas não agora. — Seus soluços vieram e ela se apoiou em meu ombro, acariciei reticente seu cabelo. — Isso não voltará se repetir, tudo bem? Eu falarei com ela.
Seus olhos se alarmaram e por um momento eu vi neles o arrependimento por ter me contado aquilo. Quando ela me encarou lembrei eu mesmo da conversa que tive com Yukiko algumas horas atrás.
— Não se preocupe Natsu, eu não contarei a Lissana nada sobre isso. Afinal, também já fui adolescente um dia e sei como é essa fase da vida.
— Eu fico feliz Yukiko, por você não contar. Eu mesmo prefiro fazer isto. — Seus olhos que pareciam tão convictos se desestabilizaram. Ela se levantou inconformada e foi quando a gritaria começou.
— Natsu, eu posso resolver isto, certo? — Suas duas mãos descansaram em meu rosto, e nunca pensei que um carinho tão simples assim pudesse fazer alguém tão feliz. Não sabia como era antes, mas agora ela teria alguém para lhe defender. — Depois que você falar com Lissana, tenho algo muito, muito importante para lhe contar. — Eu não sabia se via felicidade ou tristeza em seu rosto, talvez fosse um mesclado de ambos.
— E porque você não me conta agora? — Perguntei tentando disfarçar a curiosidade em que me encontrava. Ela sorriu e me dei conta de que não tivera muito êxito. Toquei suas mãos que estavam sobre meu rosto e não soube que merda aconteceu naquele momento. Um composto de sensações que não podiam ser entendidas, tudo que sabia é que elas não eram ruins. Aquilo que estava sentindo não poderia ser algo mal.
Eu corri para sua boca querendo mais uma vez provar do magnetismo que acontecia quando estávamos juntos. Infelizmente, tudo que eu consegui foi um roçar de lábios, pois Lucy desviou o rosto para o lado.
— Eu não acho certo que façamos isso agora, tem alguém que merece respeito, lembra-se? — Disse-me. Mas eu não era tão bom quanto ela, e quando se voltou para mim novamente, surpreendi-a de forma que não poderia escapar de mim.
Era inevitável que tentasse se desvencilhar, eu sabia que ela faria isso. E quando seus lábios se abriram para me mandar largá-la foi minha melhor oportunidade. Depois disso, nem mesmo Lucy conseguiu resistir.
— Meu Deus, eu achei que você me entendia. — Ela disse quando nos separamos. Fiquei acariciando o relevo vermelho de seu rosto que aparecia quando sorria.
— Já imaginou que casal chato faríamos se fossemos os dois certinhos?
— Você deve estar brincando comigo não é mesmo Natsu? Você na trocaria Lissana por aquela... Aquela garota. — Ela veio até mim revoltada.
— Eu não estou trocando ninguém Yukiko, estou fazendo o que acho certo. Eu não quero ter um futuro como o seu e o de meu pai, um casamento sem amor, sem cumplicidade, não é isso que quero passar para os meus filhos. Eu não quero que eles vejam o que eu vi a maior parte de minha vida, dois pais que brigaram mais do que um dia eu poderiam compreender. Diga-me, você um dia o amou? Ou casou-se com ele apenas por fazer parte de uma família respeitada na sociedade?
O som do tapa estralou em meu ouvido muito antes de eu poder senti-lo. A ardência tomou conta do meu rosto, mas ainda sim persisti em meu olhar interrogador e não desviei os olhos dela.
— Não estamos discutindo aqui o meu relacionamento com o seu pai. — O sorriso que ela vinha tendo questão de exibir por todo esse tempo, desapareceu numa fração de segundos. Seus olhos brilharam em decepção quando ela prosseguiu. — Eu não vou deixar que você continue com essa loucura.
Lucy sorriu para mim. Ela abriu a porta e eu não a impedi de sair, respirei fundo criando coragem antes de passar pela entrada. Tudo mudaria novamente ali dentro.
Meu pai e Virgo estavam outra vez na cozinha preparando o almoço. Eles estavam passando muito tempo juntos, e essa não era apenas impressão minha. Mas, conhecendo bem a sua índole, sabia que nada além de amizade poderia resultar dali, ao menos por enquanto. Meu pai era mais honesto que eu, e embora tenha atitudes que não mereça, ele respeitava muito Yukiko.
A diferença de idade também existia ali, ele poderia ser o pai e Virgo. E ainda que aquilo parecesse não importar para ela, pois era evidente que estava apaixonada por ele, para Igneel essa situação não seria tão simples assim.
Havia também a sociedade, que, se não encararia bem um relacionamento entre mim e Lucy, tudo estava ainda pior para aqueles dois. Preferi ter em mente que estava enganado, e que nada nunca surgiria entre eles.
Meu pai foi o primeiro a nos olhar, em expectativa. Seus olhos desceram para a chave em minha mão, questionadores.
— Tudo correu bem, como pode ver, não matei nenhum de nós dois.
Ele tentou reprimir, mas ainda vi o quão aliviado ficou. Em segundos pareceu vasculhar cada detalhe nosso confirmando por conta própria que estávamos bem.
— Ótimo, já que está tudo muito bem, vocês podem vir e nos ajudar. Tempere a carne Natsu, e, por favor, lembre-se que não é apenas você que irá comê-la. E você Lucy — Ele olhou ao redor procurando algo para ela fazer. — Ajude Virgo com o restante.
E, sem mesmo que eu pudesse protestar, ele me entregou uma vasilha pequena e quadrada. Não me vi com muitas outras opções que não fosse fazer o que ele pedira. Foi ali que eu fortaleci meu conceito sobre algo que não era novidade, realmente eu não era um homem que nascera para cozinhar.
Tudo se tornou mais difícil pelo fato de Lucy estar tão próxima, mas ao mesmo tempo, tão distante. Ela se movia de um lado para o outro com destreza parecendo ser experiente naquilo, fiquei observando-a por um tempo.
Sua blusa estava caída levemente para o lado e a pintinha que tinha no ombro se destacava na pele clara. Suas mãos moviam a faca em pequenos lances enquanto cortava algo que eu não sabia o que era apenas podia avistar a sua cor, tinha uma coloração verde. Seus lábios carnudos descansavam um contra o outro e as belas pérolas castanhas estavam concentradas nas ações de seus braços.
Mas o que diabos estava acontecendo? Porque até mesmo suas pequenas ações eu estava contente em admirar?
— Talvez você tenha razão Yukiko, quem sabe isso não seja uma loucura. Mas essa é uma loucura que estou disposto a viver. E se os meus sentimentos forem retribuídos e isso der certo, você terá que se acostumar com a presença de Lucy.
— Pois eu prefiro a morte a vê-lo com ela. Essa menina é uma maldita vadia aproveitadora. — Não há como negar, fiquei desestabilizado.
Yukiko, em momento algum se mostrou ser tão cruel, então quais os motivos a levaram aquilo? Apenas por Lucy? Eu não me lembro de ficar sabendo que aquela menina fizera mal a ela. Então porque a raiva?
O almoço ficara pronto depressa. Permanecemos a mesa até todos estarmos saciados. Algumas horas depois o fim da tarde se aproximava e cada um de nós seguiu ao quarto com que ficara em todo final de semana.
Minhas coisas eram poucas. Três pares de roupas e o resto dos utensílios para higiene pessoal. Joguei tudo dentro da mala formando um grande bolo e fechei-a em seguida. Deixei a mala no corredor fora do meu quarto e me dirigi ao outro bem ao lado.
Antes de entrar, quando meus dedos estavam a um centímetro de tocar a porta. Uma frase perturbadora chegou aos meus ouvidos.
— Mamãe está tão contente e ficará mais contente ainda quando tudo estiver resolvido.
Talvez o mais sensato fosse ficar ali por mais alguns segundos, seria essa a única forma de conseguir o que queria: Respostas. Mas, como em um momento assim milagrosamente faria o que fosse mais proveitoso, empurrei a porta com mais força do que pretendia e vi o exato instante em que ela se virou para mim e seus olhos me encontraram alarmados.
— Você está grávida? — Perguntei em supetão, tão alto como nunca deveria acontecer. Mas a surpresa me acometeu de tal forma que não fui capaz de controlar-me. Ninguém seria se estivesse em meu lugar. Eu não conseguia compreender a dimensão de tudo ainda, mas o que podia afirmar com toda convicção era que o fato dela estar esperando um filho de outra pessoa poderia chegar a interferir em alguns pontos em nosso relacionamento que não havia nem mesmo começado ainda.
— N... Não! — Eu vi sua tentativa de tentar colocar tanta convicção em apenas uma palavra.
— Então qual seria o motivo pelo que acabou de falar? — Perguntei sem dar oportunidade, ou melhor, tempo para que inventasse uma desculpa. Eu queria que tudo que saísse de sua boca fosse a mais pura verdade.
— Por causa disso. — Ela me mostrou de onde estava o celular em sua mão esquerda. — Eu estava lendo uma mensagem que minha mãe me mandara quando nós ainda estávamos a caminho daqui. Eu não tinha visto ainda. Acho que tem algo haver com o meu irmão
Eu não via muito sentido no que falava. Dentro de mim, tinha a impressão de que aquela não passava de uma mentira mal inventada por ela. No entanto, eu não conseguia imaginar Lucy grávida com essa idade. Quem a olhasse logo imaginaria que ela era adoradora de livros e daquelas que prefere assistir um bom filme na TV em casa a sair para as festas que normalmente jovens da nossa idade frequentava. Isso também me agradava nela, então, mesmo que aquela fosse uma mentira o certo seria eu me desculpar pela afronta que lhe fiz. Ela provavelmente deve ter tido seus motivos para o que disse.
— Entendo. Sinto muito Lucy, posso lhe assegurar que uma cena como essa não voltará a se repetir.
Ela acenou, concordando. Puxei-a para um abraço, mas senti que estava reticente. Pensei no que poderia ter causado aqui? O erro que cometi? Minha mãe?
— O que aconteceu? Está certo que queira saber das minhas escolhas, mas nunca interferiu tanto em minha vida como vem acontecendo. Não me importa mais o que pensa, são as minhas escolhas, e essa é a minha vida. Chega de tentar dar palpite em tudo que diz respeito a mim. Eu sou bem grandinho, não acha? Creio que posso tomar minhas decisões sozinho.
— É onde está enganado Natsu, eu sou sua mãe, mas essas são palavras de uma pessoa experiente que conhece a vida melhor que você. E é por isso que, sempre que for algo relacionado a ti, sem dúvida alguma, eu estarei por perto.
— É exatamente por isso, Yukiko. Pelo fato de ter vivido mais que eu e levar a vida que tem, seria motivos suficientes para você me aconselhar a ficar com a pessoa que gosto.
Meia hora depois da visita ao quarto de Lucy nós estávamos saindo, e duas horas mais tarde paramos em frente a sua casa. Meu pai esperou dentro do carro, atento aos nossos movimentos. A outra empregada, Virgo, nós já tínhamos deixado em casa.
— Ligarei para Lissana amanhã, quero ter certeza de quando voltará. — Puxei uma caneta do bolso e estendi-a em direção a ela. Aproximei minha mão dela e ficou a me encarar com as sobrancelhas erguidas. — Anote para mim o seu número.
Ela me olhou espantada, mas fez o que eu disse. Seus dedos agiam com destreza e os movimentos formaram números perfeitos. Vi-me, novamente, agitando a cabeça e espantando esse tipo de pensamento. Às vezes sentia que, me esqueceria das outras coisas por ficar tão atento em Lucy.
— Obrigado.
— Por nada, Natsu.
Fiquei observando enquanto ela se distanciava. Quando abriu a porta me lançou um último o olhar e então finalmente entrou.
— Vo...Você está apaixonado por essa moça Natsu? — Perguntou-me assustada. Só não sabia se pelas minhas últimas palavras ou pelo horror que a resposta poderia lhe causar.
— Eu não sei Yukiko,talvez esteja.

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