Nove Meses
26 23 — Chantagem
— O que você está fazendo aqui? — Sr. Igneel foi o primeiro a se pronunciar. Ele tentou alguns passos em direção a ela, mas parou na metade do caminho. Coçou a parte de trás da cabeça, na nuca, e permaneceu na mesma posição que estava inicialmente, tendo os braços cruzados sobre o peito. Ele continuou assim até que Yukiko resolveu dar-lhe uma resposta.
— Vim atrás do meu filho, não posso deixar que você corrompa a cabeça do meu menino.
Sr. Igneel riu em deboche. Jamais imaginei que algo assim poderia vir dele.
— Vamos falar sério Yukiko, você não veio até aqui apenas para isso, não é mesmo? Diga-me, o que quer? — Ele andou até o sofá oposto ao dela e sentou-se ali. Havia outras três taças sobre a mesinha, pegou uma delas e encheu-a com vinho. Tomou um gole grande e rápido, de forma que até mesmo eu pude senti-lo descendo pela garganta. Pousou o cálice novamente em seu lugar deixando-o pela metade.
— Uma esposa não pode sentir falta do seu marido? Estava com saudades de você meu amor. — Natsu riu com o comentário. Ele se sentou no mesmo sofá que o pai, no entanto na ponta oposta. Eu e Virgo continuamos em pé, sem sabermos para que lado seguirmos, não sabíamos nem mesmo se deveríamos continuar ali.
— Agradeço por se preocupar tanto comigo, Yukiko. No entanto, como poder ver, estou muito bem.
— Mãe, Natsu. Porque é tão difícil me chamar assim? — Ela lhe perguntou, dirigindo o olhar apenas para ele. Nem mesmo uma bomba atômica parecia ser capaz, naquela ocasião, de desviar sua atenção do filho.
— Talvez seja porque não gostasse que ele te chamasse de mãe perto de suas amigas, você se lembra disso Yukiko? O que era? Vergonha por ter sido mãe tão nova?
— Não ponha palavras em minha boca, querido. — Ela sorriu-lhe exibindo um sorriso branco e falso. Era evidente que tudo não passava de uma provocação. Questionei-me como eles conseguiam viver daquele modo. Eles não eram felizes, até mesmo um cego perceberia isso com facilidade.
Ela se levantou e pegou a taça, mas não a sua em que inicialmente estava bebendo e sim aquela em que Sr. Igneel bebericara há instantes atrás. Tinha algo de muito estranho nela, ela era ruim, mas nunca demonstrara ser tão cínica quanto estava sendo.
— E então? Porque não dizem o que fizeram o dia todo? — Cruzou as pernas novamente. O batom vermelho em sua boca se destacou mais quando se moveram para os cantos junto com o sorrisinho que ela dera. Algo estava muito errado ali. — Oh, quanta indelicadeza nossa, sentem-se também meninas.
Virgo me olhou pelo canto do olho não muito disposta a fazer o que a Sra. dissera. Toquei-a no braço e puxei-a para duas cadeiras longes o bastante de Yukiko.
Assim que estávamos em nossos lugares, vi que minha amiga adquiriu um sorriso tão petulante quanto o de Yukiko.
— Nós fomos até a cachoeira. — Natsu respondeu-lhe a pergunta.
— E vocês se divertiram?
— Você não sabe o quanto. — Virgo redarguiu antes que qualquer outra pessoa pudesse pensar em formular uma resposta. Todos os olhares caíram sobre ela, e de forma inocente terminou seu comentário. — É um lugar muito bonito, você deve conhecer.
— Sim, conheço muito bem. Foi lá que Natsu foi gerado, lembra-se disso meu amor? Éramos apenas dois adolescentes inconseqüentes.
Bingo! Ponto para Yukiko.
E novamente nossas atenções estavam em Yukiko. Pelo semblante de Sr. Igneel ele não era muito a favor do comentário da esposa.
Percebi que se antes a nossa viagem já estava comprometida, agora ela se acabara de vez. O olhar no rosto dos três demonstrava que eles não se entendiam, que ali, naquela relação familiar, não existia amor há muito tempo.
Virgo desconversou e subiu as escadas em direção ao seu quarto, senti que deveria seguir com ela. Pois, há alguns minutos atrás ela estava comigo, me ouvindo e ao seu modo aconselhando-me.
— Porque ela teve que vir? — Gritou. Acenei para que falasse mais baixo, entretanto ela não me deu muita atenção. Agradeci pelo fato de não estar muito pra conversa, evitaria que eu tivesse que arriscar meu pescoço na tentativa de calá-la. — Eu sabia que isso estava errado, eu nunca deveria ter vindo para cá. Igneel é o maior erro que cometi.
Na hora do jantar a situação não poderia ser mais constrangedora não só pelo fato de Yukiko estar ali, mas também pelos olhares que pegava Natsu me direcionando. Eu não estava muito diferente, pois hora ou outra, eu me encontrava admirando seu belo rosto.
Seria errado se eu desejasse por um momento que o mundo inteiro não existisse? Apenas eu e ele? Sem Lissana, Yukiko, ou ninguém que eu sabia jamais apoiar um relacionamento entre nós?
Quando por fim havia terminado a refeição escovei os dentes e fui me deitar. Pelo que fiquei sabendo Yukiko iria embora pela manhã, então até lá eu evitaria ter que ficar olhando para o seu rosto.
Quando descansei a cabeça no travesseiro arrependi-me de não ter lembrado de trazer um livro, era muito difícil pegar no sono tão cedo sem a companhia de meu mais valioso amigo.
Fiquei longos minutos tentando chamar o sonolência, arrisquei-me até mesmo a contar carneirinhos.
A porta se abriu quando já tinha desistido de tentar dormir, e por ela passou uma pessoa que por muitas vezes povoara os meus devaneios.
Natsu.
Natsu Dragneel estava ali.
Ele entrou silenciosamente,escorando ao mesmo modo a porta atrás de si. Sentei-me na cama imediatamente, tentei lembrar o que havia feito no cabelo antes de deitar, todavia, estava tão alheia o tempo todo que esse detalhe por nenhum momento passou pela minha mente. Só esperava não estar com a cara amassada por causa do travesseiro ou ter alguma listra riscando-me a face.
— Nós precisamos conversar. — Ele falou, deixando claros os seus motivos para estar ali. Meu coração tremeu apenas pela menção da nossa conversa, o que poderia resultar daquilo? — eu não irei voltar atrás com o que disse, eu realmente não pretendo seguir em frente com o casamento.
— Eu não quero ser culpada pela sua infelicidade, Natsu. Espero que você tenha certeza do que está prestes a fazer.
— Eu pensei abundantemente nisso, não tomaria uma decisão dessa magnitude se não estivesse certo. As palavras de meu pai me ajudaram muito também. — Esclareceu. — Eu não sei o que está acontecendo comigo, ou o que é essa maldita confusão que estou vivendo, mas estou disposto a me arriscar e ver até onde isso vai dar.
— O que você está querendo dizer? — Perguntei embora soubesse que meus ouvidos não estivessem enganados. Mas eu esperara tanto por aquele momento, em que nós finalmente poderíamos ficar juntos que, quando ele dava indícios de que por fim aconteceria eu acabei por ficar sem reação.
— Eu não estou ouvindo isso. — Yukiko gargalhou estrondosamente. Ela ria como se não houvesse oportunidade para fazer novamente. Lembrou-me de relance os contos que lia quando pequena, ela parecia à rainha má que atormentara a branca de neve, a mesma dureza e crueldade estavam ali, tão vívido quanto o meu amor pelo Natsu. — Eu sei que está a algum tempo longe de sua noiva querido, e como é jovem e os hormônios estão a todo vapor, procura por sexo. Mas, por favor, eu sei que você não tem tanto mau gosto. Vá a uma casa de mulheres, você encontrará coisa melhor por lá. — Ela ainda ria entre uma palavra e outra, seus termos me atingiram em cheio.
— Vamos conversar fora daqui Yukiko. — Natsu se levantou virando-se para ela. Ele me deu uma piscadela que eu não soube o que significava. — E, por favor, evite palavras tão duras. Você não gostaria que elas se voltassem contra você, não é mesmo? — Yukiko abriu espaço com a porta o suficiente para que ele passasse. Quando o filho já não se encontrava dentro do cômodo seu sorriso sumiu repentinamente, e o olhar que me lançou era digno de pesadelos.
Eu estava feliz, obviamente estava. Natsu não iria se casar com Lissana e possivelmente havia chances de um provável relacionamento entre nós. Faria com que isso acontecesse, nós dois iríamos dar certo.
Por outro lado para interromper minha felicidade havia Yukiko e tinha também Lissana. A mãe de Natsu já mostrara o que pensava em relação a tudo isso e ainda tinha a sua futura ex-noiva. Eu duvidava que ela aceitasse o que estava para acontecer, eu não aceitaria se estivesse no lugar dela. Deitei novamente com os pensamentos a mil, e o inesperado aconteceu: O sono me acometeu. Dez minutos depois da visita do belo garoto estava dormindo.
*
Acordei no meio da noite, com a garganta raspando implorando por água. Liguei o celular que estava sobre o criado mudo para olhar às horas, ele constatava 03h25min da manhã. Um sorriso surgiu-me no rosto assim que lembrei de Natsu, ele não se casaria com Lissana.
Atirei a coberta para cima de forma que ela abandonasse o meu corpo. Assim que me sentei sobre o leito meus pulmões pararam de funcionar por dois segundos. O susto foi tão grande que a voz me faltou, eu teria gritado se conseguisse.
Assentada em uma cadeira que nunca esteve ali, estava Yukiko. Meus olhos lacrimejaram quando avistei o seu sorriso, ela estava exibindo-o muito em tão pouco tempo. Toda vez que meus olhos caíam sobre ela, lá estava os seus dentes brancos a mostra.
Ela não vestia a mesma roupa que chegara, agora usava uma camisola preta. Seus cabelos permaneciam soltos com a diferença de que possuíam algumas ondas.
— Me pergunto Lucy, o que meu filho faria se soubesse que você o enganou.
Eu não consegui captar com exatidão suas palavras no primeiro momento. O assombro ainda tinha suas consequências sobre mim, era difícil prestar atenção no que falava quando eu nem mesmo conseguia desviar a atenção de seu olhar. A Luz da lua que entrava pela janela iluminava o seu rosto que adquirira uma carranca séria. Quem entrasse por aquela porta e a olhasse naquele momento jamais acreditaria se eu dissesse que há alguns segundos ela exibia um sorriso.
— O que você...?
— Você não acha que eu esqueci, não é mesmo? — Ela se levantou, dando pequenos passos em volta da cadeira. Meus lhos se esbugalharam com as lembranças. — Olha só, vejo que se lembrou.
Abaixei a cabeça negando. Aquilo só poderia ser um pesadelo. Eu provavelmente acordaria logo, e veria que tudo aquilo não passava da minha imaginação.
— Talvez eu possa ligar os pontos para lhe ajudar. Aniversário do Natsu, uma confusão, você na cama dele se passando por Lissana, e eu entrando pela porta ao amanhecer. Lembrou-se menina?
— O que você quer aqui? Já não basta tudo o que me falou naquela noite? Eu sinto muito, ok? Se pudesse voltar no tempo não faria novamente. — Lembrei-me de minha criança, se houvesse algo que me levasse de volta àquela madrugada, não tenho certeza se mudaria os fatos.
— Você é uma boa garota Lucy, sei que é. E é por isso que estou aqui para lhe pedir gentilmente que se afaste do meu filho. Ele está longe de Lissana há alguns dias e isso acabou lhe confundindo, Natsu nunca ficou tanto tempo afastado dela. Eles são bastante ligados, sabe? Eles sentem amor um pelo outro. Acabe com isso enquanto ele tem ao menos uma boa impressão sobre você, não deixe que ele pense que é uma vadia. — Ela olhou as unhas, vendo algo interessante nelas.
— Você veio até aqui para me ameaçar? — Cacei com os pés os chilenos embaixo da cama e quando os achei pus-me de pé.
— Eu não faço ameaças, eu dou avisos. Se igneel é imprestável o suficiente para resolver essa situação e é necessário que eu interfira, que esse problema se resolva de vez.
— Eu...
Ela não se interessou pelo que eu tinha a dizer, foi embora quando eu mal havia começado a frase. Realmente cheguei a considerar que tudo não passasse de um pesadelo, mas conforme o tempo ia correndo e as horas seguindo percebi que aquela era a realidade. Uma terrível realidade.
Não consegui dormir o resto da noite, tudo que me vinha à mente era o que ela havia dito. Eu não podia permitir que me atrapalhasse com Natsu, logo agora, que nós começamos a nos entender.
Quando amanheceu o clima pesado continuou, eu mal conseguia olhar para Yukiko ou para Natsu. Virgo estava em seu canto, praguejando mentalmente contra a mulher do Sr. Igneel. Ela pegou sua pequena mala e piscou para mim antes de sair pela porta. Nada comparado ao que Natsu tinha me lançado outrora.
Percebi naquele momento qual era sua intenção. Ela queria estragar o nosso final de semana, e lastimosamente conseguiu. Ninguém parecia ter mais ânimo ali depois de sua visita. Eu achava que a conhecia, mas estava completamente enganada, eu não sabia quem era aquela mulher que estava indo embora. Não sabia do que seria capaz para me separar do filho ou o quanto apoiava Lissana. Se já tinha problemas antes eles se duplicaram, talvez eu não tivesse vindo a esse mundo para ter paz. Impedi que as lágrimas se derramassem, ela não as merecia, não choraria por aquela mulher. E foi com esse pensamento em mente que eu fingi que ela nunca esteve ali, e nunca fizera uma visita ao meu quarto na noite passada. Um sorriso surgiu em minha face, Yukiko não faria eu me sentir mal nem por mais um segundo. Não sabia como, contudo, resolveria aquele problema. Uma vida de mentiras não me daria um futuro, estava chegando à hora de revelar a verdade, toda a verdade.
— Pai, você está com as chaves do carro? — Perguntou Natsu. Sr. Ignnel estranhou, porém ainda sim tirou o objeto do bolso e jogou-o para o filho. Olhei para ele confusa, sem saber quais eram suas intenções. Porque pediria as chaves do automóvel se não tinha as intenções de usá-la?
— O que você acha de darmos um passeio, Lucy?
— Eu não sei em que você está pensando, mas eu não sei dirigir Natsu. Tenha isso em mente.
Ele me encarou como se por nenhum momento tivesse considerado essa hipótese, mas, eu só vim entender o que realmente queria dizer quando contrapôs-se.
— Eu jamais andarei em um carro conduzido por uma mulher, não quero que minha família pegue meu atestado de óbito antes do tempo. Você não vai dirigir Lucy, eu a levarei aquele lugar que te falei anteriormente, lembra-se?
Sim, eu me lembrava. Ao ninho de pássaros, se eu não estivesse enganada. Então ele estava realmente disposto a tentar dirigir? Senti me animada com aquilo, como mais esse passo talvez o trauma de Natsu ficasse no passado.
Sorri para ele, agora com um pouco mais de verdade, deixando claro o que achava.
Sr. Igneel sorriu pela evolução que tivera o filho e acenou com a cabeça concordando com ele. Natsu nada mais disse antes seguir os passos que a pouco a mãe fizera.
Nós nem nos lembrávamos mais que ela estivera ali.
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