Nove Meses

25 22 — Péssima Visita


O início da tarde se deu com uma aquietada do sol. Nós aproveitamos para colocarmos algumas roupas dentro de uma malinha e partirmos em seguida para a cachoeira

No caminho Sr. Igneel colocou um CD de músicas variadas, eram todas bastante conhecidas. Isso deixou evidente que ele era um homem que se mantinha na atualidade. Nós nos arriscamos a alguns minutos de cantores, mas naquele momento ficou claro que não tínhamos mesmo muita vocação para essa profissão.

Meus olhos brilharam quando avistaram a paisagem que eles chamavam de cachoeira. Nós nem mesmo tínhamos descido do automóvel ainda e já estava esticando meu pescoço para fora do carro.

Sim, havia uma cachoeira que com certeza enchia de orgulho o Sr. Igneel por ser dono do local, todavia, a paisagem ao redor não deixava a desejar. Havia tantas árvores que, enumerá-las seria impossível. Tantas cores, tatos tons, tantas canções que soavam ao mesmo tempo. Fechei meus olhos e me deixei levar pela magnitude que era a natureza, estava embebedada com aquela vista.

— Sabia que você iria gostar. — O patrão comunicou-me, orgulhoso. Virgo, que permanecia sempre tão dura, parecia ter sido tomada pelo sentimentalismo do lugar. Seus olhos brilhavam por cada detalhe diferente que encontrava. E por fim, teve Natsu, que provavelmente já vira aquele cenário, mas o tempo deve tê-lo feito se esquecer. Uma cara amarrada, lábios comprimidos, mas um sorriso encantador transbordava-lhe nos olhos.

Não havia como se manter rígido frente a tudo aquilo.

Acompanhei a água que descia da cachoeira e se encontrava com o rio e seguia seu caminho por dentro da floresta. Ela era de cor tão cristalina que nos permitia avistar as pedras que havia no fundo.

Sr. Igneel foi o primeiro a pular, e todos nós que estávamos por perto acabamos molhado. Eu, que já viera vestida com a roupa para nadar, acompanhei-o num pulo menos potente. Nós rimos quando Virgo fez o mesmo e gritou por causa da temperatura da água.

Um olhar inquisitivo foi lançado a Natsu, faltava apenas ele. Esse foi o mais calmo de nós, e entrou com um mergulho. Naquele momento viramos crianças outra vez, fazendo brincadeiras e dando risadas por coisas bobas. Nós nos arriscamos até mesmo a jogar água um no outro.

Duas horas mais tarde resolvemos descansar por alguns minutos, embaixo de uma das muitas árvores. Nós pegamos a vasilha de doces que tínhamos trazido e repartimos entre todos. Cada qual encontrou seu próprio lugar que achasse confortável, improvisando um escorador.

Rimos a maior parte do tempo e quando olhei para o rosto do Sr. Igneel dei total razão a ele. Eu estava incrivelmente relaxada e me divertindo apesar das circunstâncias. Nunca imaginei que apenas algumas horas junto com aquelas três pessoas poderiam me proporcionar isto. Pensei em mamãe, papai, meu irmão e Levy, eles também deveriam estar felizes se estivessem aqui.

— Lucy, eu convidei seu irmão para vir conosco. Tem ideia do motivo de ele não querer vir? Sting não me deu respostas muito concretas quando o chamei. — Perguntou-me o ruivo.

Oh... Eu não sabia disso. Quais seriam os motivos de Sting? Ele não perderia diversão se não fosse algo realmente forte. Peguei-me com o que muitos chamam de pulga atrás da orelha. Mas na verdade, tudo se resumia em uma palavra: dúvida.

— Eu não sei. Meu irmão sempre foi muito fechado, seria uma surpresa se me contasse sobre isso. — Ri um pouco quando imaginei sua face aborrecida. — Ele dever ter suas razões.

— Entendo. Quem sabe da próxima vez, não é mesmo? — Completou, descontraído.

— Não sabia que tinha um irmão. — Natsu interveio. Espantei-me com seu comentário, Sr. Igneel nunca havia lhe contado sobre Sting?

— Ele é dois anos mais velhos que eu... — O garoto de cabelos exóticos franziu a sobrancelha.

— E muito chato. — Virgo finalizou por mim. Dei-lhe um olhar feio pelo modo como se referia a Sting, e ela reformulou sua frase. — Ele é muito ciumento, não vejo necessidade para tanto.

Sr. Igneel deu uma gargalhada que pôde ser ouvida abertamente pelos que estavam ao seu redor.

— Ele só quer proteger a irmãzinha. — Disse ele.

— Chamo isso de cuidado. — Defendi-o, não era justo estarmos falando dele sem que estivesse aqui para se ajudar.

— Tanto a ponto de ameaçar seu primeiro namorado? Ele é muito cuidadoso então. — Discorreu Virgo. Minhas bochechas provavelmente entraram em combustão, tive vontade de esbofeteá-la. Ela não precisava falar sobre isso aqui.

Havia contado para ela há muito tempo sobre essa história. Tudo se resumia em um garoto que conheci quando ainda estava no fundamental e achara estar apaixonada por ele. Levei-o para que mamãe e papai conhecessem-no, mas Sting assustara o coitado antes disso acontecer. No fim, ele não voltou a olhar para mim depois de ter conhecido meu irmão.

— Ele não é mais assim, posso te garantir...

— Droga...! — Encarei o ruivo assustada, era a primeira vez que o vira xingar. A primeira coisa que avistei foi o líquido vermelho saindo de um corte em sua mão. Ele parecia ser grande, e a faca afiada não ajudava em nada.

Virgo foi a primeira a se levantar, andando rapidamente em direção a ele. Vasculhava sua mão, compreendendo o tamanho do corte.

— Posso fazer um curativo, tem algumas coisas dentro da minha bolsa.

— Eu posso ajudar. — Levantei-me e observei a movimentação de Natsu também. No entanto, Virgo negou com um aceno de cabeça. Piscou para mim, com um sorriso de lado. Percebi que queria que eu os deixasse a sós. Sentei de volta no meu lugar, degustando o que sobrava do meu doce.

Um silêncio constrangedor se instalara ali, parei de encarar a face de Natsu e passei a olhar as folhas caídas no chão. É impressionante que quando queremos fugir de algo até mesmo uma folha seca em decomposição se torna atraente.

— Então o seu irmão é mesmo ciumento? — Perguntou-me.

— Um pouco. Acho que tem haver com o fato de eu ser sua única irmã, ele sempre se saiu como um irmão-pai. Creio que esse cuidado obsessivo seja porque ele tem medo que algo venha a nos afastar.

— Isso não é possível. — Falou Natsu. — Nada pode interferir em um amor fraternal. Por outro lado, eu o entendo. Acredito que sentiria o mesmo em relação à Wendy se ela estivesse aqui.

Não. Não. Não. Voltar a esse assunto novamente estragaria todo o nosso passeio, enquanto Natsu não soubesse lidar como seus sentimentos isso sempre seria um perigo. Mas, ao mesmo tempo me encontrava duvidosa quanto a isso, fugir do problema também não faria com que ele deixasse de existir.

Ele sorriu de lado, e como se lesse meus pensamentos falou-me:

— Não se preocupe, eu estou bem. As palavras de meu pai mais cedo me fizeram perceber uma coisa.

— E o que é? — Perguntei curiosa.

— Que eu não estou sozinho.

Ele se levantou e voltou para o lago, dessa vez imitando-nos há algumas horas mais cedo pulando de uma só vez.

Passei a mão no ventre, acariciando-o. Antes mesmo que conseguisse me conter peguei-me falando:

— Talvez seu pai não fique tão decepcionado de saber de sua existência. — Falei com meu bebê.

Com esse pensamento na cabeça entrei no rio também, deliciando-me com o contato da água com meu corpo. Achei que não podia melhorar, mas não sabia eu o quanto estava enganada.

Senti algo roçar em meus calcanhares e inicialmente pensei ser uma cobra, mas logo lembrei que Natsu também estava ali, submerso nas águas. Ele emergiu na minha frente, e assim que sua cabeça não estava mais dentro d´água falou-me o que esperaria ouvir apenas em meus melhores sonhos:

— Eu pretendo cancelar o casamento. Você estava certa quando me disse que não deveria prosseguir com algo tão importante se estivesse com dúvidas.

Seus olhos se encontraram com os meus e eu não soube como, mas nós nos aproximamos consideravelmente.

— Não quero ser responsável pelo fim do seu relacionamento. Não poderia conviver comigo mesma.

— E você não é, Lucy. Eu sou o responsável. Achei que amava Lissana, mas não tenho tanta certeza disso agora.

E foi assim, tendo suas últimas palavras como o pilar para sua motivação, que nós nos beijamos. Ali mesmo, tendo os poucos raios de sol que conseguiam vencer as copas das árvores refletindo na água ao nosso redor. A natureza era nossa única testemunha.

Foi emoção, sinceridade, foi confusão. Foi um misto de sentimentos que não mais importava naquele momento. Estávamos tão entregues ao momento, que não percebemos as duas pessoas que se aproximaram. O suspiro de espanto de Sr. Igneel foi o que nos separou. Ambos, eu e Natsu olhamos para ele sem sabermos como nos explicar.

— Eu poderia ficar feliz, mas não consigo, não quando sei que há uma pessoa esperando no mínimo respeito de você, Natsu.

Abaixei meus olhos, temendo o que o patrão diria para mim. Meu corpo todo tremia e não era por causa da água gelada que fazia contato com a minha pele.

— Também não posso inocentá-la, Lucy. Você sabe que Natsu tem uma noiva.

— Pretendo cancelar o casamento e também irei terminar meu relacionamento com Lissana. — O garoto ao meu lado interveio. Mas o que me chamou a atenção foi o espanto de Virgo, que foi rapidamente substituído por um sorriso descarado. Ela piscou novamente para mim o olho direito. — Eu não posso mais me casar com Lissana.

Dois segundos de silêncio e voz de Sr. Igneel foi a única a ser ouvida novamente.

— Eu não posso fazer nada quanto a sua decisão. Jamais faria isso, você é maior e tem total responsabilidade sobre seus atos, se tem certeza sobre isso, só posso lhe apoiar. — Natsu desviou o olhar do pai, eu acreditava que ele não esperava uma reação como aquela. Lembrei-me de uma conversa que tive com o patrão uma vez onde ele deixou claro que não estava muito feliz com o relacionamento do filho, e mesmo assim, nunca foi contra. Confiou fielmente nas resoluções de Natsu.

Saí da água incapaz de continuar ali, meu constrangimento era tanto que não duvidava que ser capaz de estar par a par com ao extensão do espaço. Peguei a mão de Virgo arrastando-a comigo para dentro da imensidão das árvores.

Andei, andei, andei. Andei até os meus pés se cansarem e Virgo obrigatoriamente nos fazer parar ao puxar a blusa que eu usava.

— Hey, se for apenas para conversarmos, tenho certeza que daqui eles não iriam nos ouvir.

Desabei no chão com uma cara de poucos amigos. Abaixei meu rosto sobre as mãos escondendo-o das risadinhas de Virgo. Quando criei coragem levantei o olhar em sua direção e semicerrei os olhos para ela, mas o que me impressionou foi o fato de que nem mesmo com isso ela parou de se divertir.

— O que foi? Não pode negar que foi muito engraçado. Não sei qual de vocês dois estava mais apavorado. — Ela parou por um minuto para explicar melhor a situação. — O olhar de pânico foi uma cena digna de Oscar.

— Você não está levando a sério, não é mesmo?

— Não é pra tanto, Lucy. Foi apenas um beijinho, que mal a nisso?

— O senhor Igneel deve estar achando que sou uma vadia. Eu não posso nem mesmo imaginar qual deve ser a conversa entre pai e filho que eles devem estar tendo agora.

— Provavelmente é algo do tipo: “Mandou bem filhão, você tem bom gosto.” — Ela engrossou um pouco a voz em suas últimas palavras imitando o ruivo.

— Por favor, eu preciso de um conselho, me diga o que devo fazer.

— Pare de se sentir culpada Lucy — Ela finalmente pareceu levar a sério. — Enquanto você está aqui se condenando por um beijo, a garota por qual, como disse Igneel, vocês dois “devem respeito”, está lá fora, aproveitando a boa pinta dos argentinos.

— Ela pode ter perdido os irmãos, não acho que esteja com cabeça para isso.

— Se há uma coisa que conheço mais que homens Lucy, são mulheres. Estou apta para dizer que Lissana não faz o tipo “sofredora”. Enquanto você está se remoendo por nada, ela está treinando fazer filhinhos com algum gatito.

Ri, sem muita emoção.

— Às vezes acho que não há jeito para você.

— Desencane um pouco, a vida não precisa ser tão pacata e sem graça como você a faz se tornar. Agora, levante a bunda daí para voltarmos, a senhorita nos fez andar tanto que não sei onde estamos. Não sei nem mesmo como vamos retornar.

— Não é difícil achar o caminho de volta quando estamos seguindo uma trilha, inteligência. — Disse a ela. A garota de cabelos exóticos notou o detalhe que deixara passar e retrucou de volta:

— Não havia como notar isso, com você me puxando o tempo todo. — Ela pegou minha mão quando a estendi para ela, num pedido mudo de ajuda. — E por quais motivos eu iria ficar olhando para o chão se você estava escolhendo a caminho? Hoje é um dia bonito se quer saber, o céu está mais interessante.

— Posso dizer uma coisa?

— À vontade.

— Eu não acho que não tenha mais jeito para você, tenho certeza. — Ambas rimos, pois era evidente que tudo aquilo não passava de uma brincadeira. — Já li livros demais para saber o que acontece com a mocinha quando ela entra no meio de uma mata desconhecida. Acaba com uma chuva violenta e ela e o mocinho dentro de uma cabana dividindo um cobertor.

— Lembrando que eu não sou um mocinho. — Virgo esclareceu.

— Por isso mesmo me preocupei em tomar tanto cuidado. E, antes eu me esqueça, os argentinos não são “boa pinta”.

Outra sessão de risadas. Não demorou a que encontrássemos a trilha de volta, ela estava a alguns passos atrás de nós. Seguimos por ela até chegarmos ao local pretendido. Por todo o caminho Virgo veio tagarelando o que me obrigou a tampar-lhe a boca quando estávamos a alguns metros de Sr. Igneel e Natsu. Escondemo-nos atrás de uma árvore, e ficamos por ouvir a conversa. “Tudo acontecera pelo fato de eu escutar o meu nome nela, por outro motivo jamais faria isso,” — tentava me convencer.

— Você gosta dela Natsu?

— Eu não sei, está tudo uma maldita confusão dentro de mim. — Observei que ambos estavam sentados sobre a grama que encobria as bordas do rio. — Antes nem mesmo a notava, e quando finalmente estou de casamento marcado ela simplesmente entra em minha vida e causa todo esse alvoroço dentro de mim. — Virgo apertou meu ombro quando ouviu essas palavras, eu não sabia exatamente o que significava aquele aperto. Não tinha ideia se o que Natsu dizia era algo bom ou não.

— Talvez Lucy tenha entrado em sua vida no momento em que mais precisasse. Quem sabe, ela não esteja evitando um erro que você estava prestes a cometer.

— Você achava um erro... O meu casamento?

— Não importa o que eu ache meu filho, o importante é o que você quer.

— Eu não tenho certeza se amei Lissana, tudo o que sei foi que senti algo forte que está sendo substituído por algo mais forte ainda. — Ele disse com um suspiro pesado. Lágrimas me vieram aos olhos com a sua declaração para o pai, então Natsu realmente sentia algo por mim.

— Porque você não diz a ela sobre seus sentimentos?

— Não é tão fácil quanto parece, quando chego perto dela tudo parece diferente. Eu fico nervoso pai, embora tente não demonstrar. Não tenho certeza também se Lucy é a pessoa certa, não sei se é porque Yukiko sempre fez parecer que Lissana é a garota ideal.

— Esqueça sua mãe, ela não está aqui. Não depende dela Natsu, isso tem a ver como você. É a sua felicidade, o seu futuro.

— O que você faria se estivesse em meu lugar? — Meu coração palpitou pela espera da resposta do Sr. Igneel. Natsu pegou um graveto que estava jogado ao seu lado e passou a riscar o chão com ele.

— O que o meu coração me dissesse para fazer. Cometi um erro há muito tempo atrás, quando me casei com sua mãe. Todavia não digo que tenha sido de todo mal, pois teve uma época que realmente fomos felizes, mas se realmente fosse amor o que sentíamos um pelo outro naquela época nosso casamento não estaria se desfazendo nesse momento. Não se deixe levar pelo o que Yukiko ou qualquer outra pessoa ache o certo, faça o que sente, o que realmente sente.

Foi tudo que ouvimos. Puxei Virgo comigo contendo as lágrimas dentro de mim. A conversa entre pai e filho acabou ali. Nosso destino foi o carro, não havia mais disposição para continuarmos naquele local que não merecia ser contaminado pelos nossos problemas. A tarde já estava se acabando em breve o sol iria se por e estava chegando à hora de nós todos descansarmos também.Esperava que o dia seguinte fosse diferente e que algo de bom me esperasse nele.

Quando chegamos à casa de campo observei que algo de estranho estava acontecendo ali. Havia outro carro na garagem, um preto e deslumbrante. O espanto acometeu todos nós, e quando entramos pela porta da frente que dava a sala nossas expectativas em fim se acabaram. Ela estava ali, com seus médios cabelos castanhos tão lisos como sempre pareceram, estava sentada tão ereta quanto uma verdadeira dama. Virgo murchou ao meu lado e soltou um suspiro de reclamação. Ela largou a taça com o que eu distingui tendo vinho sobre a mesinha e sorriu.

Quem estava ali era Yukiko.

Notas finais
Hey, uma semanda depois e temos mais um capítulo de Nove Meses. :) Tentarei postar o próximo até o fim do dia. Beijinhos