Nove Meses
23 20 — Aproximação
Notas iniciais
O restante do dia passou ligeiro, depois do meu embate com Natsu algumas horas atrás eu não o tinha visto novamente, não sabia se estava agradecida ou desolada.
Algo que ainda me perturbava era a ideia de Senhor Igneel sobre a viagem, aquilo estava realmente mexendo comigo. A mesma pergunta já rondou por mim diversas vezes em um mesmo minuto, como me comportaria por tanto tempo perto de Natsu? conseguiria continuar escondendo sobre os meus sentimentos e ainda mais sobre a gravidez? A cada dia que se passava isso se tornava cada vez mais difícil.
*
Quarta feira — 19 de setembro de 2001
Iniciou-se a sétima semana de gravidez. Prestei bastante atenção nas palavras de Dra. Mieko para saber o que aconteceria com meu bebê nesse período. Ela me dissera que nós dois passaríamos por algumas mudanças, e que eu deveria estar atenta a elas.
Esse era um período em que as mudanças físicas em meu corpo ainda não estariam muito visíveis, mas interiormente elas estariam a todo vapor. Há mais sangue circulando em meu corpo, o que faz meus rins trabalharem ainda mais, o que resulta em uma vontade de urinar com maior frequência. Minha pele pode se tornar mais oleosa devido ao aumento de hormônios além de provavelmente dar-me de presente minhas arqui-inimigas espinhas. Esperava profundamente ser um caso a parte e que elas não viessem me atazanar.
Quanto ao meu embrião, ele passará por mudanças extraordinárias, a cabeça, o coração, a medula espinhal, e alguns dos vasos sanguíneos estão começando se formar. Com a criação destes vasos, o coração começa a bombear fluído por eles, e é então que surgem os primeiros glóbulos vermelhos do meu bebê. Nessa ocasião ele está medindo de 7 a 9 mm, podendo ser comparado a um caroço de feijão.
Era engraçada essa comparação, em alguns meses ele estaria em meus braços grande e forte, e seria difícil imaginar que já esteve do tamanho de um feijão.
*
No dia seguinte recebi uma surpresa assim que cheguei à faculdade. Na porta da sala, exatamente da mesma maneira que havia visto na segunda-feira estava o tal do Loke. Porém recebi uma surpresa maior ainda quando a baixinha ao meu lado gritou por ele. Ele se virou para nós exibindo um sorriso brilhante e veio caminhando em nossa direção.
— Levy. — Abraçou-a longa e demoradamente.
— Hey Loke, essa é minha amiga Lucy. — Apontou para mim. — Aquela que eu já tinha lhe falado sobre o emprego.
— Como? — Perguntei. Levy saia discorrendo coisas a meu respeito sem comentar comigo primeiro?
— Sim, o trabalho na biblioteca, você se lembra? Era o Loke que nos ajudaria com isso. — Ela riu para ele.
— Prazer em conhecê-la Lucy. — Pronunciou educadamente. — Ficarei muito feliz em ajudá-la, me diga quando e com certeza terá o trabalho.
— Ainda não tenho certeza de nada. — Senti as bochechas corarem pelo olhar intenso que dirigia a mim.
— Ela tem sim, — Levy tomou a palavra. — Lucy apenas tem algumas coisas para resolver antes, mas logo nós o procuraremos Loke. — Piscou para ele que respondeu da mesma maneira.
O professor apareceu no corredor e apressamo-nos em entrar na sala.
— Tchau meninas, nós vemos em breve.
Ele saiu em passos perfeitos, caminhando despreocupadamente. Fiquei a contemplá-lo silenciosamente.
— Ele é muito bonito, não é mesmo? — Levy cochichou assim que sentamos em nossas cadeiras.
— Parece um príncipe. — Comentei. Loke era alguém que dava luz aos olhos, era realmente um cara a se admirar.
— Uma pena que é gay. — Finalizou sorrindo da minha face de espanto.
— Sério isso? — Perguntei desconfiada.
Levy acenou em concordância. O professor entrou na sala e retomou o assunto do dia anterior. Meus pensamentos viajaram para o tal Loke. Ele era mesmo Gay? Na nossa pequena conversa não deixou transparecer isso por nenhum momento.
*
Hoje o dia na faculdade estava demorando horrores para passar, olhava o relógio de vez em quando apenas para constatar que dois segundos haviam decorrido. Quando enfim estávamos liberados, não apenas eu, mas Levy também pulou de alegria.
— Finalmente, o dia hoje estava um porre. — Ela se virou para guardar alguma coisa que tinha nas mãos dentro da bolsa que trazia de lado.
— Nem me diga.
Quando cheguei em casa mamãe não estava lá, sem muita coisa para fazer ali dentro decidi por sair mais cedo de casa, assim ainda conseguiria pegar o ônibus das 16h30min. Mas logo na porta de casa recebi uma visita completamente inesperada.
A garota apressou o passo quando me viu, chegando até mim em poucos segundos. Prendi a respiração e me perguntei mentalmente o que ela estava fazendo ali.
— Yukino? — Questionei. Ela estava abatida, fraca, o rosto tão pálido que me assustei.
— Diga-me que ele está aqui agora, por favor. — Implorou. Imediatamente soube de quem ela falava, só poderia ser de Sting.
— Meu irmão está trabalhando. Se pretende encontrá-lo não é uma boa você vir a tarde. — Eu não sabia se o que faria agora estava certo, mas dei um voto de confiança a ela. — Venha à noite antes das 7h, é um horário que ele ainda não saiu para ir à faculdade.
— Oh meu Deus, você é um anjo. Eu já não sabia mais o que fazer, desde a última vez que estive aqui Sting não atende mais minhas ligações e não responde as mensagens. Fiquei preocupada.
— Talvez ele só não queira conversar agora. — Discorri incerta.
— Eu sei, eu sei. — Ela falou abatida. — Mas não posso desistir. Não posso. — Falou como se quisesse convencer a si própria também.
— Espere um pouco, deixe o ressentimento passar. Talvez o que vocês dois precisem seja de tempo.
— Não tenho tempo Lucy, preciso de Sting agora mesmo. — Cruzou os braços sobre o peito, tentando se defender de algo que eu não sabia.
— Os dois são jovens, ainda tem todo o tempo pela frente. — Pronunciei. Com essas palavras me senti muito mais velha do que era. — Tudo foi ainda muito recente, espere um pouco mais.
Ela apertou os lábios uns contra os outros. Quando observei seus olhos mais de perto notei que eles estavam cheio de água.
— Obrigada Lucy, mas eu ainda irei voltar mais tarde. — Deteve uma única lágrima que descia pela face. — Desculpe lhe importunar.
— Não se preocupe. — Disse a ela.
Yukino se foi tão deprimida quanto chegou. Cabeça baixa corpo franzino nunca há vi tão indefesa assim. Interiormente perguntei-me o que poderia estar acontecendo com ela. Era tudo por causa de Sting? Ele lhe fazia tanta falta assim? Cocei a cabeça sem saber o que fazer, tudo ao meu redor estava uma completa bagunça.
Continuei o meu caminho até o ponto de ônibus, imersa em pensamentos. Poderia tentar fazer alguma coisa para ajudá-la, talvez se eu conversasse com Sting e tentasse fazê-lo dar a ela alguns minutos para que Yukino tivesse a oportunidade de se explicar. A história deles não tinha que acabar assim.
Quando cheguei à casa dos patrões, depois de uma longa e cansativa viagem de ônibus, fui imediatamente à procura de Virgo. Eu mal havia falado com ela no dia anterior, então não tive a oportunidade de perguntá-la se havia aceitado a proposta de Sr. Igneel. Era certo que sim, para Virgo negar somente se algo muito grave acontecesse.
— Chegou cedo hoje. — Falou-me quando deixei que a bolsa caísse sobre a mesa. Seu semblante não estava tão animador, constatei que algo não estava bem.
— Saí adiantada. — Respondi. — Senhor Igneel falou contigo sobre a viagem?
— Sim, mas falei que iria pensar primeiro, pois tinha algumas coisas pra fazer nesse fim de semana.
— O que? — Perguntei interessada. Apesar de não saber exatamente quem iria nessa viagem, eu não gostaria de fiar sozinha. Precisava de Virgo ao meu lado. — Você não me falou nada.
— Ah Meu Deus! Era mentira Lucy. — Ela me olhou por sobre os ombros, logo em seguida pronunciou em minha direção. — Você é muito lerda.
— E por quê? Pensei que ficaria feliz. — Argumentei.
— Se fosse antes, talvez sim. No entanto agora eu não tenho certeza dos meus sentimentos por Igneel, é como se hoje estivesse ainda mais confusa. Eu não sei se isso é paixão ou algo parecido, o que sei é que não quero para mim.
— Porque não? Que mal há em gostar de alguém? Você mesma me disse que o casamento dos patrões não duraria mais por muito tempo. Sr. Igneel merece uma boa pessoa ao seu lado e se estiver mesmo gostando dele não vejo mal algum em ficarem juntos.
— Você não entendeu? Eu falei que não quero nada disso. Amor só trás problemas, e olha que eu já tenho muitos para me preocupar.
Olhei para Virgo abismada. Ela estava falando como se repugnasse esse sentimento, e apesar de ser problemático não era tão ruim como estava falando.
— Também não é assim.
— Não é assim? Você mesma serve de exemplo Lucy. Morre de amores pelo Natsu e ele nem mesmo nunca a notou. O que quer? Que o mesmo aconteça comigo? Que eu fique atrás de um homem que nunca vai me dar uma oportunidade? Desculpe-me, mas eu não vou me rebaixar a esse ponto.
Doeu. Caramba, isso doeu!
— Se é assim que você pensa, não posso fazer nada. — Peguei a bolsa em cima da mesa e segui para o cômodo onde ficavam guardados os alimentos e alguns utensílios que não eram utilizados na cozinha. Antes que eu pudesse adentrar completamente o local Virgo veio até mim.
— Me desculpa Lucy, não queria ter falado nada disso. Olha, isso é tudo muito novo para mim, eu não sou muito boa com os sentimentos e hoje não está sendo um bom dia, então, por favor, perdoe-me.
Olhei para ela que me encarava realmente arrependida.
— Tudo bem. — Falei, sem muita sinceridade. Eu sabia que não ficaria muito tempo com raiva dela, mas no momento a mágoa era maior. — Vamos trabalhar, temos muito para fazer.
*
Já havia terminado a maior parte do meu trabalho, faltava apenas secar a área dos fundos. Rondei com o pano de um lado para o outro e quando me vi cansada de repetir esse mesmo processo dei o dia como encerrado.
Peguei a bolsa e me preparei para sair, rumo ao ponto de ônibus mais próximo. Porém uma visita inesperada me fez parar ainda nos portões.
— Entre. — Natsu falou do interior do veículo.
— Estou indo para casa. — Discorri um pouco mais alto para que ele ouvisse.
O motorista girou a cabeça primeiro para mim e depois para o garoto, não compreendendo muito também. Ao que parecia Natsu igualmente havia pegado-o desprevenido. Eu não o conhecia, talvez fosse alguém contratado recentemente pela família para ficar nos horários que Max não poderia.
— Entre. — Voltou a repetir. Mantive os pés no mesmo local, não estava disposta a fazer o que decretava.
— Já disse que não posso. — Dei as costas e continuei a andar. Ouvi a porta do carro ser aberta para depois ser batida sem muita delicadeza. Virei-me para ver o que estava acontecendo e encontrei Natsu bem a minha frente.
— Porque não quer entrar? — Perguntou-me.
— Não estou sempre a sua disposição. Preciso ir agora ou acabarei perdendo o ônibus. — Para conferir, olhei as horas no celular. Faltava cerca de dez minutos para o busão passar, o tempo ideal para que eu chegasse até o ponto.
Não sabia se estava dizendo o certo, mas tinha em mente que não poderia fazer sempre o que Natsu quisesse.
— Nós te levamos até em casa. Vamos, que mal a em nos acompanhar?
Suspirei cansada. A minha vontade era de ir com ele, mas não podia me render assim tão fácil.
— Lucy, vão ser apenas dez minutos.
Não.
Não Lucy.
Não mesmo.
“Pro espaço com isso.” Eu entraria dentro daquele carro e o acompanharia. Mesmo que minha cabeça dissesse para ser mais forte. Eu sabia que isso não podia continuar acontecendo, mas todas às vezes quando chegava o momento eu fraquejava.
— Vai ser rápido?
Ele acenou.
— Você nem vai ver o tempo passar.
Nós entramos no carro e Natsu disse algo para o motorista. Conforme íamos nos locomovendo soube que nunca tinha estado naquela parte da cidade. Observei tudo atenta, prestando atenção nos mínimos detalhes.
Fechei os olhos por um momento e foi quando senti o carro parar, constatei que tínhamos chegado.
Desci do veículo e observei o espaço onde estávamos, era uma praça e assim como outra qualquer havia muitas árvores e bancos. Havia pouquíssimas casas que pudessem ser avistadas, e o que enfatizava era a imensidão negra da natureza ao redor.
— Jet, fique aqui, não vamos demorar. — O motorista acenou em concordância. — Venha comigo Lucy.
Ele nos guiou por alguns minutos para um local que eu nem poderia imaginar. Nós passávamos por árvores tão grandes que não duvidava que fossem centenárias. Eu era capaz de ouvir o som magnífico da natureza à noite, o ambiente era muito bem conservado.
Natsu parou sobre uma ponte que interligava duas extremidades, abaixo dela corria um lago de águas claras que se tornavam um pouco mais escuras por causa da obscuridade. Sobre as águas via-se um reflexo de uma lua cheia que começava a tomar forma no céu. Havia também flores rosa que provavelmente havia caído da árvore logo acima de nós.
— Esse é um lugar muito bonito. — Murmurei para ele. — Você não deveria estar na faculdade?
— Na verdade sim. — Comentou. — Mas tenho bons motivos para ter faltado.
— Como...?
— Recebi uma ligação agora a pouco, eles decidiram encerrar as buscar pelas pessoas desaparecidas na fatalidade que aconteceu com o Fairy Tail. Eu já tinha em mente essa possibilidade, mas é ainda mais difícil agora que se tem certeza.
— Sinto muito. — Pensei em algumas palavras que pudessem lhe confortar, mas no momento o nervosismo não me deixou pensar em nada que fosse coerente. Então não falei nada, apenas permaneci ao seu lado, dando-lhe força.
— Tinha mira como uma irmã mais velha, ainda não consigo compreender porque algo tão desastroso aconteceria com uma pessoa tão doce. Mesmo Elfmam, que eu não era tão ligado, não merecia o que lhe aconteceu. Nunca conseguirei esquecer seus diálogos de homem. — Natsu riu sem muita emoção. Condenei-me por não ter percebido a tristeza que trazia em seu olhar.
— Eu não os conhecia muito bem, mas se você está dizendo é porque deveriam mesmo ser boas pessoas. Não posso nem mesmo falar que imagino a dor que esteja sentindo, porque sei que é bem maior.
— Não havia terra a vista, eles não tinham nem mesmo a chance de se salvar. — Ele olhou para mim por alguns instantes e depois voltou a encarar a água corrente. — Eu penso em Lissana e sua mãe é claro, mas também fico imaginado o quão ruim deve ser para todos os familiares que tiveram pessoas importantes que morreram.
— Deve ser muito difícil, tenho certeza que é. A morte é algo que mesmo depois de tantos nós seres humanos ainda não aprenderam a lidar, acho que nunca aprenderemos. Nós conseguimos superar algumas vezes, mas nunca vamos entender o motivo de determinadas coisas acontecerem. Há tantas pessoas boas que se vão, e existem tantas que mereciam ir e estão gozando de saúde. Não consigo compreender porque isso.
— Nem tudo nessa vida é pra ser compreendido. — Ele passou uma das mãos sobre o rosto, suspirando em seguida de cansaço. — Obrigado Lucy, por estar aqui.
— Eu não te entendo, às vezes me trata mal e depois quer minha companhia, ainda mais para contar sobre algo tão importante. Você é muito confuso Dragneel.
Ele riu, um riso que talvez dissesse que concordava.
— Nem mesmo eu me compreendo. É só que agora é um dos poucos momentos que me permito fazer o que tenho vontade.
Olhei para ele impressionada.
— Você não me parece que possa ser controlado, na verdade, sempre achei que fizesse tudo o que tinha vontade.
— Definitivamente não. Tenho vontade de fazer um monte de coisas que deixaria minha mãe maluca. — Seus lábios voltaram a tomar a forma de um sorriso. — Uma vez arrisquei um pulo de Bungee Jumping, nunca ouvi alguém gritar tanto comigo. — Ouvi uma pitada de humor em sua voz. Fiquei feliz por ele estar deixando a tristeza se esvair. — Já disse isso uma vez Lucy, mas acho que você não deu muita credibilidade, pois vejo quão surpresa está. Não sou esse monstro que demonstro ser na maior parte do tempo.
Sorri de lado, sabendo que sim, Natsu sentia alguma coisa por mim. E foi com um sorriso como esse que passei todo o resto da semana. Ao longo desse tempo nos encontramos algumas vezes e ele se tornara muito mais agradável. Eu não fiquei sabendo sobre a volta de Lissana, em nossos diálogos Natsu não comentara nada a respeito disso. Eu me sentia culpada, mas ainda sim eu torci, torci para que ela ficasse por mais tempo lá, pois aqui eu estava fazendo progressos.
O final de semana havia chegado e com ele a viagem que tanto me rendera pensamentos confusos.
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