Nove Meses
24 21 — A casa de campo
Notas iniciais
Era 5h30min da manhã e já estava de pé, tão animada como não acontecia a um longo tempo. Era uma situação inusitada, o fato de alguém estar tão feliz se considerássemos as horas, principalmente por ser aquela uma das raras ocasiões que eu poderia usufruir da dádiva de dormir um pouco mais que o habitual.
— Certo querida, você quer ir e não estou protestado, e nem poderia dadas as circunstâncias. Já é bem grandinha e sabe o que deve fazer. Lembre-se de ao menos ligar-me ou mandar uma mensagem quando chegar, ok? Não esqueça que sua velha mãe está à espera de notícias.
— Mãe, está tudo bem. Falarei contigo sempre que possível, fique calma é apenas um final de semana.
— Qualquer lugar que abrigue uma grande extensão de água acumulada me deixa apavorada, querida. — Ela passou seus dedos longos e frios nos cabelos mais rentes a cabeça de forma que pude sentir o frio que deles saiam. — Pegou protetor solar? Escova de dente? Repelente? — Apanhou minha bolsa e colocou-a em seu ombro.
— Sim mãe, não estou esquecendo nada. — Tentei tranquilizá-la vendo que minhas palavras não foram suficientes continuei: — Vou estar de volta antes do anoitecer de amanhã.
— Eu sei, mas não posso evitar ficar preocupada. Você entenderá melhor quanto estiver com seu bebê nos braços. Tome cuidado com a sua alimentação, não esqueça por nenhum momento desse serzinho que está aqui dentro, sim? — Assenti. Ela apertou minhas bochechas com as palmas das mãos, e em seguida deu-me um beijo na testa. — Então está tudo certo.
Nesse exato momento o carro do senhor Igneel buzinou lá fora e eu mais que depressa cheguei até a porta, quase saltitando tamanha era a felicidade. Mamãe riu um pouco e disse-me mais uma vez:
— Tome cuidado.
— Sim senhora Capitã! — Fiz reverencia a ela assim como os soldados faziam aos seus superiores. Desfiz a brincadeira ainda com um tom risonho. — Dê um beijo em papai e também em Sting por mim, fique de olho nele, mamãe. Gostaria de me despedir pessoalmente, no entanto ele tem me evitado desde que descobriu que foi eu que disse a Yukino o horário em que ela o encontraria aqui.
“— Gostaria de saber como ela soube à hora exata que eu estaria em casa. — Ele me encarou com um olhar acusador.
— Não se esqueça Sting, que há apenas uns dias ela ainda era sua namorada. — Divulguei tentando fazê-lo arrastar suas suspeitas para longe de mim.
— Mesmo assim. Meus horários mudaram muito depois que comecei a trabalhar com Igneel. A não ser que... — Ele fez suspense apenas para aumentar ainda mais o meu desconforto. — Alguém falasse para ela.
— Tudo bem, eu falei. Mas não fiz por mal, ela estava realmente ruim.
— A mãe comentou algo sobre isso. — Ele foi até o guarda roupa de onde pegara a camisa que usaria aquela noite para ir à faculdade.
— Vo...Você não falou com ela? — Questionei embora não tivesse mais dúvidas quanto a isso.
— Não. Foi minha mãe que atendeu.”
— Não se culpe Lucy, você fez o certo. Sting ainda é muito jovem, mas um dia ele entenderá que deve haver perdão em um relacionamento. Embora, nesse caso acredite que não há nada para ser perdoado. — Ela parou pensativa. — Ou talvez tenha, Yukino deve perdoá-lo se puder. Vá em paz meu amor, que eu coloco ordem nas coisas aqui. — Falou-me sorrindo.
Deixei-lhe um aceno juntamente com outro sorriso; saí encontrando minha pick-up favorita parada na porta da minha casa.
— Hey — Disse ao senhor Igneel que saiu do automóvel para me ajudar com a mochila. Ele a jogou na traseira do veículo e abriu a porta traseira para que eu entrasse. Meus olhos encontraram um cabelo vermelho amarrados no alto da cabeça. Ri surpresa.
— Você veio, achei que me deixaria sozinha. — Comentei para Virgo.
Nós já estávamos outra vez unha e carne e nossa pequena discussão na última quarta-feira não estava mais interferindo em nossa amizade. Por mais que nós fossemos assim tão diferentes, tendo objetivos dessemelhantes nessa vida, Virgo me apoiava, e não me criticou quando descobriu sobre a minha gravidez. São poucas essas pessoas.
— Sabe que eu não faria isso. Eu andei pensando, — Ela abaixou o tom de voz — Talvez o que eu esteja sentindo não seja assim tão ruim.
— Tenho certeza que não. — Falei.
Natsu que estava no banco da frente virou-se para me cumprimentar. Seus cabelos estavam molhados e eu conseguia sentir o cheiro másculo invadir minhas narinas. Seus olhos brilhavam como nunca.
— Como vai Heartfilia? — Perguntou-me.
— Muito bem Dragneel, e você? — Ele acenou em resposta e virou-se para frente.
Senhor Igneel voltou tomando novamente seu posto de motorista. Virgo abaixou o olhar tentando não encará-lo muito, ri quando percebi que sim, minha amiga de cabelos exóticos também corava.
Ele olhou para nós um segundo — Eu e Virgo — e depois para Natsu, por mais que estivéssemos alentados, um requisito de sono ainda povoava nossas faces.
— Espero que estejam animados, teremos um final de semana e tanto. — Ligou o carro juntamente com a rádio. A música soava baixinha e a voz do cantor me agradava. Eu não o conhecia, todavia poderia contar comigo quando lançasse um CD — Se já não possuísse um —.
À medida que nos locomovíamos o tempo clareava. Quando havia se passado cerca de quinze minutos o sol começou a nascer no horizonte. Fiquei paralisada observando aquele espetáculo, no minuto que me permiti olhar para meus companheiros notei que eles faziam o mesmo. Virgo observava tudo com a cabeça encostada no vidro e Natsu tinha um sorrisinho de lado. Até mesmo o Sr. Igneel desviava sua atenção às vezes até o céu para logo retornar a pista.
— É lindo, não? — Perguntei a ninguém em especial.
— É um belo espetáculo, nem mesmo os melhores artistas poderiam proporcionar outro igual. — completou o Dragneel mais velho.
Sim, era verdade. Algo com tanto vigor não poderia ser passado para uma tela e transmitir a mesma verdade. O mundo poderia ser muito belo se soubéssemos admirar. Às vezes estamos tão acometidos com tanta obscuridade e destruição que nos esquecemos de apreciar a beleza de um processo tão natural. E o pior é que nos esquecemos que ainda a mais ao nosso redor, se soubermos onde procurar. O maior encanto está onde menos esperamos.
O tempo passou depressa, cerca de duas horas depois nos havíamos chegado finalmente ao nosso destino. Senti uma estranha adrenalina percorrer-me o corpo à medida que o carro diminuía sua velocidade. Mantive meus olhos em Natsu observando sua reação, cada detalhe de seu semblante não passou despercebido por mim.
Seus olhos se mantiveram firmes, mas no fundo sabia que estavam tentando esconder algo. Seus lábios se sustentaram em um firme cerrar e suas mãos apertavam firmemente o cinto de segurança.
Já do lado de fora do automóvel pude contemplar a beleza da casa. Logo na entrada apreciei os dois coqueiros que se sobressaiam à habitação, junto com eles haviam também outras árvores. Podíamos avistar muitas portas de vidro escuro, tão negros que refletiam a água da piscina que decorava o jardim. A grama aos nossos pés estava bem cuidada e tão verde como nunca vi igual. Havia também um caminho de pedras que nos levava diretamente a entrada.
— Está tudo bem? — Perguntei quando senti Natsu parar atrás de mim. Esperamos até que Sr. Igneel retirasse uma chave do bolso para que pudéssemos finalmente entrar. Quando conseguiu Virgo seguiu-o prontamente.
Andei rumo à porta dando indícios de que entraria, entretanto ele ficou parado lá sem se mexer em nenhum momento.
— Não. — Virei-me com a sua resposta.
— É compreensível Natsu, não imagino o quanto seja difícil, mas você irá conseguir. Se não sozinho, com a ajuda daqueles que te amam.
— Você tem tanta fé em mim, é admirável. Diga-me, por quê? Eu sinceramente não consegui descobrir ainda.
— É ainda mais admirável que você nunca tenha notado. — Comentei. Ele não deu sinais de compreender do que eu estava falando. Talvez esteja enganada, e tenha mesmo aptidão para ser atriz.
Saí pisando duro, arrependendo-me de minhas palavras. Se ele viesse a desconfiar e resolvesse se afastar de mim, não sei se seria capaz de suportar. Passar por tudo de novo não é algo que eu queira simplesmente pedir de presente de aniversário.
— Uau... Isso aqui é muito foda! — A moça que possuía tão suntuosos cabelos ruivos discorreu. Ela olhava admirada as paredes belamente decoradas que nos rodeava. Percebendo finalmente o que dissera, voltou a reformular sua frase. — Desculpe, quis dizer que aqui é muito lindo.
Todos nós rimos, embora tivesse a certeza que sinceridade partia apenas dos dois ruivos que não haviam presenciado a minha conversa com Natsu.
— Natsu mostrará o seu quarto Lucy, acomode-se e desça para o café da manhã.
Nós seguimos para a escada que nos levaria ao andar superior.
— O que você está achando do lugar? — Perguntou-me aparentemente um pouco mais relaxado.
— É lindo, sem sombra de dúvidas. Não acho que alguém possa se sentir diferente em relação a isso.
— Estou me questionando como consegui viver tanto tempo longe daqui, senti saudades. — Chegamos ao topo da escada e viramos para a esquerda, entrando em um corredor com no máximo quatro portas. — Se você está gostando da casa, acredito que também vá gostar da cachoeira.
— Meu Deus, nem posso me lembrar da última vez que vi uma.
— Acredito que fique a uns vinte minutos de caminhada. Não é muito longe. — Paramos em frente à última porta daquele pequeno corredor. — Bem, chegamos ao seu quarto.
— Certo. — Abaixei o olhar para os meus dedos, evitando encará-lo.
— O que você quis dizer naquele momento Lucy? Há algo que eu deveria perceber?
— Nada. Estava apenas pensando alto. Não dê crédito as minhas palavras.
Ele assentiu, para logo me deixar sozinha. Fiquei observando qual era a próxima porta que entraria, imaginando que aquele fosse o seu quarto. Fiquei feliz ao ver ele adentrando um cômodo próximo, o que nos separava era apenas um outro aposento.
Por fim decidi entrar no dormitório destinado a mim. Ele era amplo, possuía uma cor bege que dava-me a aconchegante impressão do meio natural.
A cama ficava do lado direito do cômodo, há dois passos da parede. No lado oposto se tinha um guarda-roupa de tamanho médio e o chão era coberto por um tapete de cor branca. A cortina de mesma coloração do ambiente impedia que o sol ultrapassasse a janela instituída no centro do local.
Respirei fundo sentindo um aroma agradável. Deixei a mochila ao lado da cama e me deitei sobre ela. Substitui o tênis por um par de chinelos confortáveis e retirei a blusa de frio, ficando apenas com a que vestia por baixo. Meus cabelos antes molhados agora estavam secos facilitando meu trabalho ao prendê-los no alto da cabeça.
Sem muito mais a fazer desci as escadas a procura da cozinha. Do lado de fora a casa não parecia tão grande como realmente era. Foi fácil chegar até a sala, já que havia passado por ela uma vez, mas a cozinha, no entanto, me tomou uns bons cinco minutos. Antes de chegar até o cômodo, aproveitei o telefone quase escondido na sala e fiz uma rápida ligação à mamãe, em seguida continuei rumando ao meu destino.
Virgo e Sr. Igneel já estavam preparando a mesa, havia frutas, torradas, pães, suco natural e leite. Ambos sorriram quando me viram.
— Estava comentando com Virgo que nós poderíamos passear na cachoeira depois do almoço.
— Acho uma ótima ideia. — Falei. Ajudei-os com os copos tendo em mente que aquele final de semana nos aguardava muitas surpresas. Esperava que fossem todas satisfatórias.
*
Uma hora havia se passado desde que chegamos aquela magnífica casa de campo. Estava sentada da área da frente, balançando sobre a velha cadeira de madeira. O céu estava de um azul mais escuro acompanhado de algumas nuvens que se locomoviam lentamente abaixo dele. Observei o movimento delas, tentando extrair peculiaridades.
— Tão sozinha, me pergunto o porquê disso. — Ele se sentou em uma cadeira que estava ao meu lado. Estralou os dedos, relaxando.
— Eu gosto do silêncio, me da à oportunidade de pensar um pouco mais. Você por outro lado, não me parece ser a favor.
— Não, realmente não gosto. O silencio é muito barulhento, faz-me pensar no que não deveria. Eu prefiro manter a mente ocupada.
Ri, prendendo o cabelo atrás da orelha.
— Não tem muita coerência, silêncio e barulhento em uma mesma frase. — Ele arqueou a sobrancelha e continuei respondendo-o, pois apesar do comentário havia entendido o que dizia. — Da para imaginar.
— Não é inacreditável? Achei que nunca voltaria a esse lugar, e aqui estou eu. — Natsu me olhou de lado. — A vida é mesmo imprevisível. Não sei como consegui me manter tanto tempo longe daqui.
— Eu penso que, não há motivos para se afastar do que lhe faz bem em momento difíceis, talvez se tivesse vindo aqui antes... — Ele me interrompeu.
— Pode ser, mas não tenho certeza. Dizem que há um momento certo para tudo, acredito que esse tenha sido o adequado para retornar a esta casa.
— Sim, você tem razão.
— O que está acontecendo aqui? — Virgo surgiu da porta de entrada. — Acho que fiquei com diabete.
— Não, não acho que chegue a tanto. Talvez possamos fazer um melado e só. — Sr. Igneel completou.
Sorri para ambos, em especial para Virgo. Eles dois estavam passando muito tempo juntos. Pensar nos dois me levou o pensamento à outra pessoa: Yukiko. Ela sabia desta viagem? Estava de acordo com isso? Parecia obvio que não. Quando recebi a notícia de que viajaríamos para cá nem mesmo me lembrei dela.
— Vocês não têm nada de melhor para fazer? — Natsu interferiu.
— Sim, nós vamos começar a preparar a comida. Sintam-se a vontade para ajudar. — Respondeu ela.
— Sorry, você é a especialista nisso. — Completei. Ela me fuzilou com o olhar. Não temi, sabia que tudo não passava de uma brincadeira.
Eles saíram e eu foquei a visão no passarinho que acabara de pousar na grama. Minha vontade era de aproximar-me, mas, por ser uma ave, um animal tão arisco, ela jamais permitiria isso. Então, fiquei apenas a observá-la, atenta as suas ações.
— Conheço um lugar, gostava de ir lá quando pequeno com meu avô. Costumava ter muitos pássaros. Eu até o batizei, chamava-se Ninho dos Pássaros. — Ele riu nostálgico.
— Ninho de Pássaros?
— Não é muito comum, eu sei. Nós falávamos que lá era o ponto de encontro dessas aves. Em qualquer momento que chegasse você as encontraria ali.
— Parece lindo.
— Não é nada especial. — Virou o rosto para o lado contrário ao meu, desviando o olhar. — Podemos ir lá mais tarde.
— Não pode ser agora? — Perguntei a ele, animada com a ideia. Fiquei pensando depois se não seria muito atrevimento de minha parte.
— Bem, poderia se Igneel não estivesse ocupado. Não é possível chegarmos lá a pé e voltarmos antes do almoço.
Descansei a cabeça no encosto, pensando em possíveis maneiras que nos fizesse chegar até lá.
— Você já tirou a carteira de motorista, sim? — Ele me encarou, pelo seu semblante estava começando a tomar o fio da meada. Minhas intenções já povoavam seus pensamentos.
— Sim, meu pai me obrigou assim que completei dezoito anos. Porém, as únicas vezes que dirigi um carro foi quando estava nas aulas. Eu não consigo conduzir, acredito que saiba o motivo.
— Mas você poderia tentar. Olha, você não conseguia vir nem mesmo a essa casa de campo, e agora está aqui, se sentindo bem. Dirigir pode ser da mesma forma, se não tentar nunca vai saber.
— Eu já tentei, e acredite, sei como isso vai acabar. Nada bem, se vale a ressalva.
— Natsu...
— Já chega Heartfilia! — Ele se levantou dando-me as costas. — Eu não posso dirigir, não posso.
E então ele se foi, sem me dar a oportunidade de mais uma vez tentar convencê-lo. Natsu voltaria a dirigir, eu faria com que isso acontecesse.
*
Nas horas que se seguiram até o almoço Natsu desaparecera e fiquei por ajudar Sr. Igneel e Virgo na cozinha. Eles estavam muito próximos, ambos pareciam felizes como se o mundo de fora não lhes interessasse. Perguntei-me naquele momento se poderia estar acontecendo algo entre eles que não estivesse sabendo, embora eu duvidasse. O patrão ainda estava casado, e não deixaria que nada acontecesse com outra pessoa enquanto tivesse Yukiko como sua esposa. Ele não tinha uma índole tão baixa assim.
— Você parece triste Lucy, não está feliz com a viagem? — Ele se aproximou de mim, enquanto eu lavava as vasilhas que tínhamos sujado.
— Não é isso, é só que... Qual o sentido de seu filho tirar a carteira se não vai nunca dirigir? — Perguntei a ele, esperando por uma resposta que me convencesse. Que fosse tão boa que me fizesse parar de pensar nele naquele momento. Ninguém que estivesse são pensaria tanto em outro como acontecia comigo em relação à Natsu.
— Não diria nunca, não acredito na força dessa palavra. Nenhum de nós sabe o dia de amanhã, consequentemente não sabemos quando voltaremos a fazer determinadas coisas. Natsu ainda está traumatizado, essas consequências estão cravadas em sua alma, ele culpa-se pelo que aconteceu com os avós, apesar de sabemos que ele não foi o responsável. Não consigo enxergar ele assim. Se a uma coisa em que acredito fortemente é em destino, e se esse era o dos meus pais e de minha filha eu não vou protestar contra Deus.
— Natsu poderia estar aqui para ouvir isto, talvez mudasse a sua forma de pensar. — Comentei.
Virgo que não parecia estar entendendo muita coisa do que estávamos falando, como a minha última frase interveio.
— E ele está. — Apontou a cabeça em direção a porta, onde encostado no batente estava um rosado de olhar abaixado.
— Vocês acreditam mesmo nisso? Acham que a culpa não é completamente minha?
— Por Deus Natsu, é claro que não. Você era uma criança, não pode se culpar por isso. — Sr. Igneel sobreveio. Virgo por não saber ao que nós estávamos nos referindo, preferiu continuar se mantendo calada.
Senti que deveria dizer algo, contudo me perguntava o que se sairia melhor naquele momento. Já havia falado tanto, mas de nada adiantou as minhas palavras até agora.
— Não sei mais o que dizer Natsu, você não quer enxergar o que todos nós já estamos cansados de saber, uma criança não pode ser responsável pela morte de seus entes queridos, coloque de uma vez por todas nessa sua cabeça dura, que tudo não passou de um acidente, e seja onde estiverem, estão em um lugar melhor. — Continuou. — Também já não sei o que posso fazer por você, filho. Doe-me ver como ainda é afetado por uma fatalidade que aconteceu há tantos anos. — Terminou o Sr. Igneel.
— Você não estava lá pai, ainda posso escutar os gritos de Wendy... — Balançou a cabeça como se estivesse tentando se distrair de algo.
— Mas nós compartilhamos de uma coisa em comum, a dor da perda. Não é mais difícil pra você do que é para mim — Igneel falou, aumentando a voz. — Da mesma forma que é pra você é para todos nós. O que você enfrentou nós também enfrentamos. Mas agora Natsu, está na hora de deixar o passado para trás, se ele continuar interferindo no presente você nunca vai ter um futuro. — Desviei o olhar para Natsu e notei que ele continuava com a cabeça abaixada, apenas escutando o pai. Aquelas palavras que para muitos pareciam uma represaria era, na verdade, um incentivo oculto. — Está na hora de você aprender a conviver com isso.
— Eu tentei, estou tentando desde o dia daquele maldito acidente.
— Então tente mais. — O pai lhe respondeu. — E continue tentando até que dê certo.
Aquelas foram às palavras finais até o almoço. Natsu se calou parecendo absorvê-las com dificuldade, mas ainda sim permaneceu o tempo todo com um semblante pensativo. Virgo me olhou cobrando respostas e lhe respondi da mesma forma que ela as teria mais tarde. O clima não se amenizou, cada um (Natsu e Igneel) se manteve excluído em seu próprio canto.
Nós todos nos sentamos à mesa, assim que havíamos terminado de fazer toda aquela comida. A tensão toda foi dispersa por um comentário inconseqüente e antiético de Virgo que estava sentada ao meu lado.
— Toda essa tensão está me dando vontade de ir ao banheiro. — Ela falou baixinho, emburrada em seu canto, mexendo os talheres revirando a comida.
Uma risada gutural partiu por parte do Sr. Igneel. Virgo o olhou espantada provavelmente não esperando que nenhum de nós a ouvisse. Até mesmo Natsu, que inicialmente estava receoso, exibia um sorriso incapaz de ser copiado pelas mãos do homem. Seus dentes brancos eram capazes de refletir a felicidade do seu rosto.
Depois dessa não houve mais nenhum momento de elasticidade, o almoço se seguiu, cheio de piadas e risadas inconstantes, fugindo completamente do padrão dos almoços tradicionais, onde se tinha um silêncio constrangedor e pessoas procurando desesperadamente por algo que fosse mais interessante.
Meu olhar se encontrou com o dele por alguns segundos. Segundos que se pareceram horas, horas que se pareceram dias, e dias que nos levaria a uma eternidade juntos. Existia o desconhecido em nossos olhares, o desconhecido que descobriríamos com a companhia um do outro.
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