Nove Meses

17 17 — Loke


Os ruídos da ambulância fizeram-me afastar de Natsu, e mesmo que isto tenha acontecido nós ainda permanecíamos muito próximos um do outro. Acredito que nunca me senti tão aliviada por algo como estava agora. Duas pessoas desceram da assistência trazendo uma maca de tom azul. Outra veio até nós enquanto que seus companheiros cuidavam do homem caído no chão.

— Estamos bem, nada aconteceu. — Falei. — Precisamos comunicar a família dele. — Pensei. Poderia ter alguém preocupado, esperando por ele em casa. Talvez uma mulher e filhos. Não sabíamos o motivo de o homem estar em um bar, quem sabe fosse apenas um bêbado. No entanto algo em sua aparência me dizia que ele não era assim.

— Vamos cuidar disto, não se preocupe. — E então observei ele se afastar.

Olhei em volta avistando um ou dois curiosos. Faceto que agora as pessoas resolvessem aparecer, onde estavam elas sete minutos atrás?

— Vou acompanhá-lo, poderia fazer-me o favor de avisar Levy? Vai ser fácil encontrá-la, é a única de cabelos azuis ali dentro. — Discorri para Natsu, apontando para o estabelecimento barulhento. Ele me encarou com uma face que propunha não estar esperando por isso. Eu diria que espantado.

— Esse cara lhe atacou, poderia ter te feito muito mal, e você ainda vai segui-lo até o hospital? — Suas sobrancelhas se arquearam e sua testa franziu.

— Sim, não podemos nos esquecer de que fui responsável pelo estado dele. — Abaixei meus olhos para o senhor. Nunca quis que ele se machucasse, minha intenção era apenas pará-lo e mesmo assim graças a mim ele tinha se ferido. E não sabíamos se era grave.

— Não acredito que seja possível tamanha benevolência. — Sim, ele definitivamente estava chocado, embora eu não soubesse o motivo.

— Se fosse você em meu lugar faria algo diferente? — Perguntei.

— Pode ter certeza que sim loira. — Passou as mãos nos cabelos, eu agora tinha certeza que era uma mania sua. — Não acho que seja bom você acompanhá-lo depois do susto que passou. Vamos, vou te levar para casa. — Acenou para seu carro que estava bastante distante.

— Não posso deixá-lo chegar sozinho. — Alertei. Ele que havia dado dois passos parou para me olhar. Também tinha o fato de que não poderia ir sem avisar Levy. Conhecendo-a, sabia que arrancaria muitos de seus fios azulados ao ficar sem notícias, e cometeria o mesmo comigo quando me encontrasse. Eu tinha mesmo muito cabelo, talvez não fosse um problema. Ou sim, pois isso doía pra caramba.

Natsu suspirou balançando a cabeça em desistência. Seus olhos me encaravam intrigantes, nós melhores dos casos querendo desvendar algo. Ele ficou por me avaliar por longos e intermináveis segundos.

— Não consigo te compreender. — Descansou as pálpebras por alguns segundos e depois voltou a abri-las — Levo-te para casa e depois sigo para o hospital. — Algo estava errado. Não conseguia compreender a sua insistência em me induzir até o local onde vivia. Natsu não era nenhum estuprador, não é mesmo? Esse não devia ser uma hipótese, visto que, ele não conseguia dirigir e nós estaríamos provavelmente acompanhados de Max.

— Eu não posso sair sem avisar Levy. — Insisti.

— Puxa vida! Que garota complicada. — Ele voltou a coçar a cabeça. — Você é sempre destarte? Passa o tempo pensando nas pessoas e esquece-se de si mesma? — Minhas bochechas esquentaram, adquirindo uma nuança rósea. — Você passou por momentos turbulentos, e mesmo assim a única coisa que faz é pensar no melhor para um bastardo que poderia ter te machucado e em uma garota que há essas horas certamente está bem ocupada com o namorado.

O espanto foi evidente. Meus olhos se levantaram e minha boca questionou por um líquido. A água que eu estava sentindo falta a momentos atrás.

— Você conhece Levy? — Inquiri, mas Natsu não redarguiu. Ele foi até a ambulância que sairia nos próximos instantes e falou com um dos homens que cuidava do senhor machucado. Eles conversaram baixo, assim eu acreditava, pois não conseguia escutá-los. Voltei à mão para minha barriga, quem sabe fosse melhor fazer uma visita para Dra. Mieko antes da data prevista. Eu precisava saber se esse ocorrido não encadeara nada de mal ao feto.

A bagunça de fios róseos voltou, em passos lentos e calculados.

— Tudo resolvido. Está pronta agora?

— Ainda não falei com...

— Você liga para ela no caminho, ok? — Perquiriu sem resignação. Ficamos parados olhando-nos enquanto eu me decidia.

— Não quero incomodar.

— Eu não estaria lhe chamando se fosse um incômodo. — Interrompeu.

Meus olhos se nublaram de vermelho e palavras saíram de dentro de mim, antes que eu ousasse pensar.

— Escuta aqui. Nunca te ensinaram o que é educação? — Acusei. Meu indicador estava se preparando para embocar na cara dele.

— Que engraçado, fala a pessoa que possivelmente não sabe nem mesmo o significado desta palavra. Mas porque me surpreendo? Eu deveria mesmo esperar por isso. — Revidou. Estava com raiva, seu semblante fechado e olhos escurecidos demonstravam o meu palpite.

— Em todos os nossos momentos de convivência eu demonstrei ser bem mais educada do que você. O que pensa? Que eu não tenho pais ou nunca frequentei uma escola? Educação não tem a ver com classe social, que sei que é o que você pensa. Isso vem de berço Dragneel. Não é uma instituição cara que vai lhe dar de presente caráter e dignidade, ensinar-te a ser uma pessoa que merece ser respeitada. Se tem um pingo de raciocínio deveria saber disto.

Pronto! Discorri um pouquinho do que ele merecia ouvir. Não confiava que fosse eu que o faria mudar, mas poderia fazê-lo repensar no que perpetrava da própria vida. Natsu precisava saber que nem tudo viria sempre em suas mãos de forma fácil e ágil como sua mãe o tem ensinado desde pequeno. Infelizmente ninguém poderia mudá-lo, apenas ele mesmo. Do mesmo modo que nenhuma pessoa faria um viciado largar a podridão se não sua própria força de vontade. A determinação em querem mudar. Essa aspiração também teria que partir de Natsu.

— Entre no carro Heartfilia. Antes que eu desista de tentar ajudá-la. — Apontou para o negrume de seu veículo. Andei até o automóvel não por ser uma ordem sua, pois descobri a poucos segundos que estava começando a abrir os olhos e não fazer tudo que Natsu desejava. Até mesmo porque era o melhor para ele. Mas passei pelas portas escuras por ser minha única carona no momento. Levy iria embora com Gajeel e eu não queria me infiltrar no clima estranho que assolaria os dois.

O moreno era um dos caras que poderia ser reconhecido também por seus ciúmes. Pelo seu semblante de surpresa embutido na irritação, minha amiga não havia falado com ele. E essa sua atitude certamente o irritou.

— Olá Lucy. — Max me recebeu com um sorriso. — Não esperava lhe ver hoje.

— O mesmo. — Respondi e ele ligeiramente percebeu que essa não era uma boa noite. — Desculpe. Estou feliz em te ver.

Natsu abriu a porta do passageiro e sentou, batendo-a de forma violenta. Seus olhos grudaram no vidro frontal do carro e ele não desviou o olhar quando falou:

— Max você sabe o endereço da Heartfilia não é mesmo? — Recordei quando ele me levou em casa e Happy acabara por vir junto. — Siga para lá.

O meu colega motorista acenou. Tive vontade de perguntar por que ele estava trabalhando, há essas horas seu turno já havia acabado mesmo que não estivéssemos em um pleno domingo.

— Gajeel e eu frequentamos a mesma faculdade. Um amigo meu também o conhece a uma longa data. Amizade de infância, se não me engano. Estamos no mesmo grupo de pessoas nos intervalos, e embora seja bastante fechado, ele fala da namorada algumas vezes. E não é como se a metade da população de Tóquio tivesse cabelos tão exóticos, e dadas as características físicas presumi que poderia ser ela. — Meus olhos deram duas piscadas rápidas. — Esse é o motivo de saber sobre ela. Eu não tinha consciência, entretanto, que vocês se conheciam. — Em seguida ele se calou.

Tentei desviar minha atenção dele, para que não ficasse tão obvio. Questionava-me se as palavras que havia despejado sobre ele atrapalharia ainda mais meus planos em conquistá-lo. Foda-se tudo. Não tinha conseguido nada mais que um abraço, era mesmo péssima nisto. Eu estava me cansando. A única vontade que residia em mim era de deitar na minha cama e dormir, adormecer para o resto da minha vida. Pois apenas dormindo parecia descansar.

Observei o caminho sabendo que nada o que dissesse agora melhoraria o astral. O melhor era me manter quietinha e encolhida no meu cantinho. Essa noite tinha sido uma droga, nada saíra como o planejado. Encostei a cabeça no vidro, sentindo os tremores incomodativos. Mas que no momento nem os percebia muito bem.

Minha mente viajou, como quando acontecia quando eu lia um livro. Saia da órbita do planeta.

Passávamos por casas e prédios, alguns tão bonitos que vinha-me a vontade de pedir para parar o carro e ficar a admirá-los. Olhando a beleza da cidade, imagina-se um mar de rosas aqui dentro. Sem crimes, sem pessoas morando nas ruas, sem sofrimento. Tudo parecia perfeito ao ver uma construção tão iluminada e chamativa ou mesmo a praça no fim da rua construída tão belamente. As pessoas vêem um sorriso no rosto de outra pela manhã e acredita estar tudo primoroso, nós não sabemos é que muitas vezes estamos sendo enganados por um sorriso falso, sem emoção, sem verdade.

Era o que eu faria amanhã, quando visse minha família ou qualquer outra pessoa. Deixaria que um sorriso se estampasse em meu rosto e esqueceria essa noite que deveria ser boa. Nada existiria no dia seguinte, pois eu mais uma vez tinha retomado a minha esperança de que seria um dia melhor. E quiçá ele nem fosse.

Peguei o celular e escrevi uma mensagem para Levy contando resumidamente o que aconteceu. Deixando submerso o fato do homem que me atacara, contei-lhe que encontrei Natsu de fora do Fairy Tail, nós conversamos e ele me oferecera uma carona, e estava tudo bem. Ela não me respondeu, e torcia para que estivesse correndo bem sua conversa com o namorado.

O carro diminuiu a velocidade aos poucos, e constatei que já tínhamos chegado. Esperei que ele parasse por completo, e quando enfim aconteceu coloquei minhas mãos na porta do carro.

— Obrigada. — Murmurei sem saber para quem, se para Natsu ou para Max. Eu nem ao menos conseguia encará-los nos olhos. Saí e surpreendentemente o rosado também despontou. Rodeamos os dois até que paramos em frente às portas de minha casa.

Max nos observava atentamente, seus olhos atentos captando tudo. O jovem a minha frente lhe direcionou um olhar sério e ele virou a face, fazendo uma careta. Fingindo prestar atenção no volante.

— Sinto muito por tudo que falei. — Na verdade não sentia, pois Natsu merecia escutar tudo que disse. No entanto ele ter que ouvir não me dava o direito de dizer. — Estou agradecida também pela carona.

— Escute — Seus olhos estavam pequenos, semicerrados. — Fiz isso por meu pai.

— Como?

— Ele fala a todo o momento de você e aquela outra empregada de cabelos pintados. Por algum motivo vocês duas são especiais para ele. — Me encarou. O Natsu do começo havia voltado. Aquele que havia cedido o lugar a um menos ignorante. Onde estava aquele garoto que havia me abraçado? — Só não quero que ele venha a mim, reclamando do que eu poderia ter feito.

— Você está assim pelo que disse, não é mesmo? — Afastei dois passos. Incontestavelmente que sim. Seu orgulho estava ferido, pois até mesmo ele dava razão as minhas palavras.

— Não, claro que não. — Seus olhos se desviaram, encarando a parede. — Mas não posso negar que você é corajosa. Poucos teriam audácia para falar o que disse a mim.

Cingiu o carro e entrou novamente. Segundos depois o veículo voltou a se locomover. Merda! Ele não havia nem mesmo me dado chance de responder.

*

Deitei na cama, exausta.

— Lucy... — Mamãe entrou. Ela trazia uma caixinha rosa bebê em mãos. — Gostaria de lhe entregar algo. — Sorriu. Sentei-me na cama para que pudéssemos conversar. — Eu sei que está cansada, e prometo que não vou tirar muito do seu tempo.

— Tudo bem, mama.

— Olhe. — Entregou-me o que tinha nas palmas. Abri com cuidado, vendo dentro da caixa um saquinho e ainda no seu centro um vidrinho médio de óleo. Era cheiroso, eu tinha amado. — Trouxe para você.

— Para mim?

— Usei quando estava grávida. — Explicou-me. Puxou a coberta para que tampasse as minhas pernas. — Também irei comprar alguns cremes hidratantes para ti.

— Para que? — Perguntei, não entendendo muita coisa.

— Eles ajudam a evitar as estrias. Embora nada possa pará-las quando resolvem atacar, esse óleo é um dos nossos bons amigos.

— Isso não faria mal ao bebê? — Indaguei, sentindo-me uma idiota por isso. Mamãe nunca iria sugerir algo que fizesse mal ao seu netinho. Era meio irônico também, eu preocupada que um lubrificante fosse ruim para minha criança enquanto que eu estava-a expondo a riscos com essas minhas aventuras. Definitivamente pararia com isso. — Desculpe, eu não desconfio da senhora.

— Eu entendo minha menina. Essas preocupações são normais para todas as mamães, principalmente aquelas de primeira viajem. — Ela sorriu. — Levy me contou que vocês foram a uma obstetra. Eu gostaria de ir com você da próxima vez. Seria bom que perguntasse a Dra. também sobre o óleo, poderia lhe explicar melhor.

— Nem sei o que dizer, obrigada. — Eu queria chorar, era tão fofo o que ela estava fazendo. Tinha tanto amor ali.

— Não é errado se cuidar Lucy. — Ela deslizou para o meu lado. Sentou-se e bateu sobre o colo, e eu de prontidão encostei minha cabeça ali, no quentinho de suas pernas. — Você é tão jovem, bonita, tem muito futuro pela frente. E estrias é um saco, foram criadas para guerrearem com nós mulheres. — Eu ri disso.

— Você tem razão. Eu não quero cobrinhas em minha barriga. — Passei a mão ali, eu já tinha feito muito isto hoje. Mas era bom eu fazer um carinho naquela região, era como se estivesse ainda mais próximo do bebê.

— E você está se preocupando em passar protetor solar? — Perguntou, adentrando os dedos nos meus fios loiros. Fiquei com vergonha de respondê-la, pois não tinha me ligado a isto. Eu passava creme e achava que estava bom. Dra Mieko tinha comentado algo sobre isso, entretanto não havia prestado muita atenção nessa parte da conversa. Não quando estava preocupada com a quantidade de exames que tinha passado. Outro erro meu, me certificaria de na próxima vez ficar mais atenta.

— Esqueci-me desse detalhe.

— Lucy — Ralhou, seu rosto endurecendo. — Você não pode deixar que isso aconteça mais, tudo bem? Amanhã se você tiver um tempinho nós iremos à farmácia. Também espero que não continue trabalhando muito tempo naquela casa. O serviço é muito pesado, principalmente agora que é uma fase delicada da gravidez. — Concordei, eu também já pensei nisso. Mas faltava pouco para o casamento de Natsu e depois disso eu mesma farei questão de pedir demissão. — Está cuidado bem da sua saúde?

— Sim, estou seguindo as indicações da Dra. Principalmente depois do incidente nada legal com aqueles pastéis.

— Os meus pastéis? — Ela me olhou inquiridora.

— Sim, mamãe. Eles são maravilhosos, mas não combinam com mulheres grávidas. Fiquei um bom tempo no banheiro colocando tudo para fora.

Mexi meus dedos, estralando-os.

— Fica pior com o período, não se preocupe. — Ela riu, batendo a mão na minha testa. Olhei feio para ela, e essa apenas se permitiu cair em uma gargalhada profunda, alegre.

— Mas daqui a um bom par de meses gostaria de prová-los outra vez.

— Farei com muito gosto. Podemos também fazer um bolo de chocolate bem molhado com aquela cobertura de granulados que você gosta.

Minha boca salivou. Adoraria experimentá-lo agora. A imagem de uma fatia bem pretinha em um prato com uma parte indo de encontro a minha boca encheu-me de entusiasmo.

— Eu não acho que me faria mal um agora. Mãe você gostaria de ver a felicidade de sua filha fazendo um deles pra mim? Do modo que apenas a senhora conhece?

— Mas agora Lucy?

— A senhora já teve filhos, sabe o que é isto que estou sentindo.

Mamãe suspirou pesado, mas levantou-se. Sabia que ela o faria para mim. Esbanjei meu melhor sorriso.

— Não sorria ainda, vou conferir se temos todos os ingredientes.

*

06h00min

Ao abrir a porta senti aquele friozinho irritante que sempre me deparava em todas às vezes que saia do banho, com exceção de quando me lavava com água gelada. Era agradecida por estar vestindo um roupão, ele ajudava a me aquecer.

Cacei dentro do guarda roupa uma blusa soltinha. Encontrei pendurada no cabide uma que já não usava algum tempo. Era da cor cinza claro, folgadinha e sem estampas. Possuía também alguns babados que complementavam sua beleza.

Agora eu tinha um novo desafio: encontrar algo que pudesse cobrir a parte de baixo do meu corpo. Todas as minhas calças estavam dentro de duas gavetas. Na inferior continha dobrada aquelas que eu usava no trabalho, e na superior as que havia comprado a menos de seis meses que só usava em ocasiões especiais, gostava de chamá-las de novas. Todavia eu não teria tantas assim, então nessa mesma gaveta havia outras calças que eu aproveitava para ir à faculdade. Não eram tão novas, porém conservadas. Eram aquelas calças que ficavam no fundo do guarda roupa e só depois que virei universitária percebi que elas eram úteis.

Cacei por algo mais largo que não apertasse a barriga. Peguei uma calça clara na gaveta de cima, vesti vendo-a ficar muito bem no meu corpo.

Segurei meus fios loiros no alto da cabeça, pensando no que fazer com eles. Deixaria solto? Ou faria uma trança? Decidi-me por soltá-los. Isso me pouparia tempo. Peguei a escova na pia do banheiro e a deslizei por todo meu cabelo, eles não estavam tão embaraçados, os nós decidiram não pelejarem comigo hoje.

Para proteger meus pés utilizaria uma sapatilha azul. Era confortável, e por esse motivo estava entre as minhas preferidas.

— Bem... — Passei a mão no cabelo, arrumando-o melhor — Acho que é isso. — Murmurei comigo mesma.

Peguei a bolsa jogada sobre a cama, as coisas estavam espalhadas sobre ela. Enfiei tudo ali dentro, um caderno, canetas, lápis, borracha, calculadora científica, tabela periódica, dinheiro, celular, e alguns itens de higiene feminina. O jaleco dobrado cuidadosamente sobre a cama eu passei em meus braços, atenciosamente. Deixaria para vestir na faculdade.

Passei a bolsa nos ombros saindo do quarto logo em seguida.

Levy me esperava na sala deitada no sofá, ela desenhava em seu caderno algo que não fazia sentido. Aquilo era... Um foguete? Era o que mais se assemelhava.

— Já estou pronta. — Peguei-a de surpresa falando perto de seu ouvido. Ela deu um pulo se levantando do sofá pousando a mão no peito. Não ficou irritada com a minha brincadeira, acabou que saímos nós duas rindo do seu ataque.

Do outro lado da rua, um carro negro nos esperava. E eu conhecia quem estava no comando: Gajell. Isso quer dizer então que eles se acertaram. O olhar que lançava em nossa direção faria qualquer um borrar nas calças. Mas isso era somente à primeira vista, no fundo era um carinha Legal. Verdade que aqueles piercings metia medo em todos, tanto que a minha amiga azulada já até tentara fazê-lo retirar um pouco daqueles metais do rosto, mas ele obviamente a ignorou. O moreno gostava disto e sobrava a ela apenas aceitar. Claro que o mesmo não aconteceu com dona Hana, à mãe de Levy sempre teve problemas com ele. Eles tinham uma árdua tarefa de fazê-la aceitá-lo.

— Oi Gajeel. — Sorri para ele. Levy entrou no banco da frente e como aconteceu ontem no carro de Natsu, tive que ficar no banco de traz.

De todo modo eu não me importava com isso, e estava também feliz por vê-lo mais calmo. Ontem a tensão era tanta que nós nem mesmo havíamos nos cumprimentado.

— Loirinha. — Esse era o apelido que ele designara para mim. Quando perguntei por que não me chamava de loira, ele afirmou que deveria ser no diminutivo pelo meu tamanho. Eu então deveria chamá-lo no aumentativo, Gajeel era um monstro. Era realmente um daqueles casos que Virgo ofereceria um banquinho para sacanear. Mas para isso existiam os braços daquele brutamonte, tinham a mesma função. Se ele não a pegasse no colo, Levy enfrentaria verdadeiros problemas para beijá-lo.

Ri sozinha com isso, eles pareceram não notar.

— Citaram o nome, ou melhor, sobrenome da namorada do filho de seu patrão agora a pouco em uma reportagem de um desses jornais da manhã. Infelizmente só peguei o final, e não sei o que aconteceu. Porque não nos conta o que houve loirinha? Adoraria ter um motivo para chatear o Dragneel. — Gajeel sorriu malicioso.

Ele conhece Natsu da faculdade, recordei. Ambos frequentavam a mesma. No entanto Natsu não tinha me falado que os seus genes não batiam. O que poderia esperar? São duas pessoas difíceis de lidar que certamente não deveriam frequentar o mesmo lugar.

Levy se virou para mim, vendo a minha reação. Suspirei, era melhor dizer a verdade. Se não por mim logo ele saberia de outra maneira, até mesmo me surpreendia que ainda não soubesse. Caso não existisse desastre com as torres gêmeas essa seria a notícia do ano. Do tipo que nem depois de dois anos os repórteres esqueceriam.

— Quanto tempo faz que você viu?

— Cerca de dez minutos — Ele levou uma mão ao colo de Levy pegando uma balinha que ela terminava de abrir. Pois-a na boca, para no momento seguinte jogá-la pela janela, fazendo uma careta feia.

— Maracujá — Murmurou constrangida a menina.

— Os irmãos dela estão envolvidos em um acidente de avião, e até o momento permanecem desaparecidos.

— Babou tudo. Não posso fazer nada com isso. — Gajeel pisou no freio parando em frente à faculdade. Saí do carro rapidamente, não estava a fim de ver o que aconteceria em seguida. Assistir aqueles dois se pegando em uma espécie de despedida matinal não estava no meu roteiro. Vi o carro se mover um pouquinho parando alguns metros à frente e o vidro escuro subiu impedindo que alguém pudesse ver através deles.

Entrei pelos portões, e por incrível que pareça, por dois segundos, apenas por dois segundos senti falta de tudo isso.

Caminhando pelos corredores, reconheci alguns rostos. Cumprimentavam-me, mas não passava disto. Apenas Juvia, a segunda azulada daquela faculdade veio puxar assunto. Ela era um doce de pessoa, e assim como eu, sofria de um amor platônico. Era apaixonada pelo melhor amigo, ainda que ele não soubesse disto.

— Lucy. — Ela gritou. Algumas pessoas — que desfilavam de jaleco — olharam para nós. Juvia virou o rosto colocando a mão nos lábios, envergonhada. — Desculpa. — Murmurou baixinho.

Ela se aproximou timidamente, já estava vestida adequadamente para o início das aulas.

— Estava com saudades. — Murmurei para ela.

Nós conversamos e aprontei-me para a primeira aula. Levy ainda não tinha surgido, pelo jeito a coisa tinha esquentado dentro do carro e se ela não se apressasse não poderia entrar no nosso primeiro horário.

Parei em frente à sala de Juvia, e acenei em despedida. Seguindo para o meu próprio âmbito, percebi um garoto escorado a porta. Tampava toda a entrada com o braço.

— Poderia me dar licença? — Pedi, tentado ser educada. Ele me olhou e abriu passagem. Palavras nenhumas foram trocadas entre nós, mas por um bom tempo meus olhos ficaram sobre ele. Sentei em uma cadeira qualquer, encarando a lousa.

Ele não frequentava aqui, provavelmente estava apenas acompanhando alguém. Ouvi alguma pessoa gritando uma denominação e olhando pelo canto do olho percebi que era daquele estranho. Ele ajeitou os óculos e saiu, no entanto seu nome ficou gravado em minha cabeça:

Loke.

Notas finais
Hey, Deixe-me saber o que acharam, ok? A próxima postagem será provavelmente só em agosto, mais tarde estarei indo para casa do meu pai e ficarei lá até o fim do mês. Vou ficar sem internet nesse tempo. Beijinhos e fiquem com Deus.