Nove Meses
18 18 — Passado desvendado
Notas iniciais
Loke, quem era ele?
*
As aulas da segunda-feira haviam acabado, e nós estávamos enfim liberados. Levy tinha aparecido em cima da hora, por muito pouco não conseguiria entrar. Estava calma e muito sorridente, olhei para ela sabendo o que fez para deixá-la assim.
Gajeel novamente nos esperava, e um sorriso cúmplice foi trocando entre os dois quando se viram.
Por favor, que eles não quisessem fazer isso novamente.
No caminho de volta para casa, o moreno nos surpreendeu ao nos oferecer um sorvete. Fazia isso às vezes, mas hoje por algum motivo — que eu sabia bem — pagaria até mesmo uma pizza. Cheguei em casa alguns minutos depois, meu palpite partia de 16h e alguns poucos minutos.
Troquei de roupa bem rapidinho, peguei uma maçã e segui rumo ao ponto de ônibus. Não havia ninguém em casa a essas horas, mas eu já estava meio que acostumada. Essa era uma residência de pessoas responsáveis que trabalhava duro.
Eu mesma ri dos meus pensamentos.
A viajem no coletivo foi exaustiva, sentia-me mais esgotada nos últimos dias. Cansava-me com mais frequência, mas era algo suportável. Mamãe estava certa, isso não era mais para mim. Faltam poucos dias Lucy, poucos dias.
A mansão — como eu gostava de chamar — Estava exatamente igual, não sei por que, mas eu esperava encontrá-la diferente. O ar limpo penetrou minhas narinas causando uma sensação agradável.
Antes de começar a trabalhar carecia encontrar Natsu. Precisava saber como estava o desconhecido, se a ferida na cabeça havia progredido para algo mais grave, se ele já havia recebido alta ou precisaria ficar mais tempo. Não sabia nem se haviam conseguido encontrar a família dele.
Segui para a cozinha, mas não cheguei a entrar para encontrar Virgo. Ela veio correndo me abraçar e inicialmente minha reação foi de estranhamento. Ela não era sempre assim: cheia de carinhos.
— Lucy, eu tenho algo sério para te contar. — Seus olhos me encararam com apreensão. Oh meu bom Deus, o que haveria de ser agora? Em que problemas essa maluca se enfiou?
— Boa tarde, Virgo.
— Sério Lucy, tem algo de errado comigo. — Ela me puxou pelos braços para dentro da cozinha. Fechou a porta e aproximou uma cadeira para eu me sentar. Ajoelhou-se a minha frente segurando minhas mãos.
— Pois então diga, estou ficando preocupada.
— Lembra-se que eu estava conversando alguns dias com um cara? — Recordei-me por alto desse momento. Foi quando descobri que o casamento dos patrões não estava ocorrendo bem.
— Então, ontem depois de sairmos para jantar ele me convidou para ir ao seu apartamento.
— E você não se arriscou, não é mesmo?
— É claro que sim, ele era um gato.
Apertei suas mãos nas minhas. Ansiava que Virgo se apaixonasse por alguém. Essa vida que estava levando não faria bem a ela, algum dia ainda poderia se meter em grandes problemas. Além de que, um amor a faria melhorar. Enxergar a existência com novas cores.
— Onde está o problema? Não estou conseguindo compreender. — Pensei, mas tudo que havia dito não me permitia chegar a nenhuma conclusão definitiva ainda.
— O enigma está aí. O cara tinha pegada, beijava bem, e certamente faria outras coisas melhores ainda.
— Então você não chegou a se deitar com ele? Seja clara, por favor. — Pedi desistindo de tentar compreendê-la.
— Não, eu não consegui. Na hora “H” veio-me a mente o rosto de Igneel. Eu não estou entendendo nada, porque isso aconteceu? Eu juro que tentei, mas não conseguiria fazer nada com seu semblante povoando minha mente. Chegou a um ponto que não conseguia nem mesmo tocá-lo mais. — Ela me olhou inocentemente. Virgo poderia ser experiente nos prazeres carnais, mas seguramente não compreendia os espirituais.
Talvez o meu desejo de que ela se apaixonasse por alguém já tivesse se concretizado.
— Não posso lhe falar o que aconteceu, cabe a você mesma descobrir o motivo disso. Mas pense consigo mesma, é apenas o dinheiro do patrão que lhe interessa? Todas às vezes que alega querer conquistá-lo está pensando apenas em seu saldo bancário?
Ela se calou e me diverti com a sua confusão. Era raro vê-la assim, normalmente encontrava-se uma pessoa confiante e destemida.
— Eu... Eu não sei. Você acha que é possível eu estar me apaixonando? — Pousou ambas as mãos na face, escondendo-a. Levantou-se fazendo uma rota ao redor da mesa consecutivamente.
— Porque não? Nós não controlamos os sentimentos. — Ergui-me intrometendo a sua frente. Ela parou de se mover finalmente. — Não é ruim você sentir algo Virgo. Isso fará bem a você.
— Pensa mesmo assim?
— Claro. — Puxei-a para se sentar enquanto buscava um copo de água. — E senhor Igneel está mesmo com problemas no casamento. Não que eu deseje que se separem, no entanto por conhecê-lo sei que merece uma pessoa melhor que Yukiko.
— E você acha que pode ser eu? — Pegou um copo de vidro sobre a mesa. Ela ficou por encarar o líquido escuro por alguns segundos antes de experimentá-lo.
— Não da maneira que pensa. — Parou de beber para encarar-me. — Tente esquecer o dinheiro. Queira ficar com ele apenas pelos sentimentos.
Virgo se desligou. Vi seus olhos incapazes de digerir qualquer imagem que estivesse ao nosso redor. Ela estava de frente para mim, todavia era como se permanecesse em outro local, com a visão focada em apenas um ponto. Era claro como água que estava imersa em pensamentos, sendo esses ruins, dada a expressão que aos poucos tomava conta de seu semblante.
Grandes olhos escuros — que pela primeira vez em tempos não estavam sendo encobertos por lentes verdes — recheados de um sofrimento misterioso.
— Eu não posso me esquecer do dinheiro Lucy quando sei o que a falta dele causa. — E daqueles sofridos olhos desceram um cristalino e salgado grupo de lágrimas. Eu paralisei, jamais, jamais vira Virgo chorar. — Não me posso permitir voltar aquele tempo.
— Voltar a quê? O que aconteceu que você nunca me contou? — Não sabia qual deveria ser meu próximo passo. Eu não era muito boa em consolar as pessoas, tudo que poderia oferecer era um abraço. Era tudo que tinha.
— Pode achar que dinheiro não trás felicidade. Mas a falta dele também não, tenha certeza. — Ela se afastou e andou até a janela. Dali tinha uma vista privilegiada de boa parte do jardim. — Quando era pequena, vivia em uma cidade do interior: Shingaomi. É desconhecida por muitos, acredito que por você também. — Olhou-me de relance.
— Ha quase dois anos uma tia mudou para lá. Eu conheci a cidade através dela. — Respondi lembrando-me de tia Marly. Observei um leve tom de surpresa nas suas ações.
— Naquela época Shingaomi era uma das menores cidades que existia no Japão. Cerca de novecentas pessoas povoavam ali. Mesmo hoje ainda não é muito arraial, no entanto é mais conhecida se comparando a antigamente. Atualmente cinco mil pessoas vivem lá. — Sentei-me para ouvir sua história. Descansei naquela mesma cadeira que ela assentava, sabendo que dificilmente voltaria para ela agora. — Apesar de não termos muito, éramos felizes. — Um impreciso sorriso tomou seus lábios. — Vivíamos em uma casinha pequena, eu, mamãe, papai e minha irmã.
Irmã? Virgo tinha uma consanguínea? Nuca estive sabendo da sua existência.
— Eu não sabia. Porque nunca me contou sobre ela?
— Porque ela morreu. — Virou encostando-se a janela. — Nós não tínhamos dinheiro para comprar remédios. Ela adoeceu e antes que pudéssemos ver estava a sete palmos abaixo da terra.
— Oh Meu Deus! Sinto muito, eu...
— O único hospital que existia recusou-se a atendê-la quando descobriram que não tínhamos recursos. Era difícil de conseguir dinheiro naquele lugar. Se você acha que não recebe muito, tente pensar nos cidadãos de Shingaomi. Eles trabalhavam o dia inteiro para embolsar metade do seu salário.
“Depois da morte de Leandra, nós viemos para cá. Mas sabe Lucy, cidades grandes podem não ser muito receptivas. — Ela enxugou as lágrimas que desciam. — Não é fácil você ter tantas portas fechadas na sua cara. Ninguém estava disposto a nos dar uma oportunidade.
Eu não podia reagir. Não passava por mim que algo tão horrível já tivesse acontecido com ela. Virgo permaneceu sempre tão forte. Escondeu bem tudo que lhe ocorreu. Eu nunca imaginaria se ela não estivesse me contando.
— Muito tempo depois foi que meu pai conseguiu um emprego, minha mãe sempre foi muito boa em cozinhar, ela se virava muito bem com os alimentos que conseguíamos comprar. Mas eles nem sempre foram suficientes para comermos todos os dias. Haviam também as despesas da casa que ficava por conta do único salário que papai recebia.
“Ao contrario do que possa imagina os fatos não melhoraram. Os dias ficaram mais difíceis. É complicado não saber se terá arroz para comer no fim do dia. Mas eis que em um sábado de manha minha mãe teve a ideia de fazermos tortas para vender. Conseguimos adquirir alguns ingredientes e fizemos cerca de uma dúzia. Acordamos cedo para vender, e no primeiro dia todas foram cedidas. Nós começamos a comerciar na feira, e aquilo foi o que tampou o buraco no estômago. Você entende Lucy? Eu não posso deixar que isso volte a acontecer. Meus progenitores têm direito a vida que merecem.”
— Você já se perguntou se eles ficariam felizes com o que tem em mente? Está certo em querer dar uma vida melhor aos seus pais, acredito que seja um desejo de todo filho. Mas é o que eles realmente desejam para ti? Eles gostariam de ver a filha casada apenas pelo dinheiro? Tente pensar nisso, eu sei que acima de tudo eles querem o melhor pra você. — Meu rosto caiu para o lado e tentei expressar todo o meu carinho no olhar que dirigia a ela.
— Eu não vejo outra maneira que não seja essa.
— Mas existe. Você está fazendo faculdade não é mesmo? Logo a de terminar e poderá oferecer a seus pais algo que proveio de seu esforço.
— E se isso não for suficiente?
— Tenho certeza que será. Mas você também precisa acreditar em si mesma e tentar tirar da cabeça possíveis falhas que ainda não ocorreram. Se seguir em frente com o que tem em mente, será a maior sofredora dessa história, além de decepcionar os seus pais. Pense bem no que pretende perpetrar, eu acredito em você.
*
Pela terceira vez em um período de tempo não muito extenso, estava entrando no quarto de Natsu. Entretanto nesse momento não pretendia adentrar ali por uma questão de limpeza ou muito menos passar a noite com o dono do quarto. Minha intenção era adquirir notícias, e esperava sinceramente que fossem positivas.
O quarto admiravelmente estava arrumado. Uma pontinha de orgulho idiota surgiu no peito. O cheiro do ambiente era diferente do aroma daquele perfume que havia borrifado da última vez. Era algo natural, uma fragrância que não provinha de colônias importadas, aquele olor vinha dele mesmo, sem interferências de fora.
Não encontrei ninguém povoando o recinto, mas para meu desespero ouvi o barulho do chuveiro sendo desligado. Imediatamente deslizei em direção a porta com o pensamento de sair. No entanto, como minha sorte me abandonou ainda na infância, Natsu saiu do banheiro tendo a toalha enrolada na cintura.
Bem, talvez ela tenha voltado por alguns segundos.
Inicialmente não me avistou. Ele utilizava de outra toalha para secar os cabelos e mantinha os olhos fechados.
Ainda daria tempo de tentar sair de fininho? Quem sabe se eu prendesse a respiração e me movesse com cautela eu conseguisse sair despercebida... Mas antes mesmo que concretizasse os pensamentos, seus olhos me encontraram, a toalha que usava para secar os fios no alto da cabeça entrou em contato com o chão. Seus olhos, seu corpo, seu semblante, tudo denunciava seu espanto e constrangimento.
— O que você está fazendo aqui?
— Me desculpe... — Perdi-me nos ligamentos de seus braços. Ele era tão forte, meus dedos coçavam para fazer um contato ali. Possuía uma vontade de cuidar dele, depositar sua cabeça no meu ombro e fazer um carinho em seus cabelos.
Ele se virou a caminho do guarda roupa que ocupava uma boa parte do quarto.
— Você ainda não me respondeu. — Abriu uma das portas do lugar onde se abrigava os panos que lhe cobriam o corpo. Naquela parte avistei muitas camisas de cores diversas. Por um momento imaginei Natsu vestido em uma branca que se destacava naquele meio, por mais que houvesse muitas outras de coloração clara, aquela me atraiu os olhos.
Era essa que ele usava na noite em que tudo aconteceu.
— Eu vim saber sobre o homem de ontem à noite. Ele está bem?
— Espere um momento. — Pegou uma cueca, uma camisa de manga curta e uma bermuda de pano grosso. Livre de qualquer constrangimento que imaginei ter enxergado nele, desfilou de volta para o banheiro e minutos depois saiu completamente vestido. Natsu permanece bem em qualquer coisa.
— Ele está bem. Pelo que disso o médico o desmaio foi ocasionado pela queda, mas nada grave aconteceu. A bebedeira também teve sua parcela de culpa. — Penteou os cabelos com os próprios dedos olhando-se no espelho. — Ele já recebeu alta. Deve estar em casa com a família agora.
— Que bom. Fico feliz por saber disso. — Falei sinceramente.
— Você está mesmo sendo verdadeira, não é mesmo?
— Claro que sim, eu me importo com o que aconteceu. Eu não vou dizer que não fiquei com raiva, estaria sendo hipócrita caso fizesse, tive vontade sim de aleijá-lo e teria o feito se tivesse colocado um pouquinho mais de força, mas em nenhum momento desejei seu mal. Algo muito grave poderia ter acontecido.
Eu estava ciente também que tive uma parcela de culpa, pois pus em risco não apenas a minha segurança, mas também a do meu filho quando sai desprotegida em um horário que oferecia perigo.
— Mas não aconteceu, então esquece. Ele nem deve se lembrar do ocorrido.
— Você não sente pelo acontecido? — Perguntei. Ele desistiu dos cabelos e eu preferi assim. Aqueles fios róseos jamais poderiam ser domados. Eram livres, revoltos e assim deveriam ficar sem o empecilho de um pente tentando controlá-los.
— Com o tempo aprendi que o melhor é não sentir.
Sempre soube que palavras têm poder, mas descobri que elas também poderiam mexer com o conceito de uma pessoa. Aquela simples frase fez toda uma reviravolta dentro de mim. Natsu às vezes dava a entender ter passado por momentos difíceis. Eu começava a acreditar que muitas de suas ações eram em autodefesa.
— Por que você diz isso?
Não me respondeu, mas notei que seus olhos correram para um porta-retrato sobre a mesa de cabeceira. Da última vez que estive aqui, ele não estava lá. Percorri um caminho até ele, pegando-o antes mesmo que o garoto pensasse em protestar. Encarei curiosa as quatro pessoas ali: Natsu mais jovem, uma garota pequena de cabelos exóticos, e um casal já de idade. Eles faziam uma pose para a foto, de forma que os menores estavam na frente agachados e os senhores sentados em duas cadeiras achegadas.
— Quem são esses? — Perguntei. Nunca tinha visto nenhum deles antes. Eram da família? Nesses dois anos de trabalho jamais os vi por aqui.
Natsu esperou um momento para dar a resposta. E quando ela veio foi sussurrada, tão baixa que quase não consegui ouvir.
— Minha irmã e meus avós.
Ele tinha o olhar abaixado, a boca apertada firmemente. Virou-se de costas para mim, sentando do outro lado da cama, oposto a mim.
Meu sorriso eclodiu antes mesmo que eu pudesse fazer um ligamento entre os fatos.
— Então você tem uma irmã? Isso é maravilhoso. Eu não sabia. Porque ela nunca está aqui? Seus avós também não vieram cá ainda, não é mesmo?
— Você nunca os viu porque estão mortos. — Sibilou. Eu não podia ver qual era sua expressão, mas imaginava que não era nada agradável. Não poderia ser diante dos fatos.
Primeiro Virgo com seu passado macambúzio, ela perdeu um irmã porque não tinha condições para tratá-la. E agora Natsu que perdera a irmã e também os avós. Eu não poderia reclamar da minha vida. Havia mais sofrimento em pessoas tão próximas que eu nunca imaginara.
Timidamente sentei-me ao seu lado. Receando que ele fosse gritar e me mandar embora. Mas não, Natsu não reagiu. Ele continuava tendo a cabeça abaixada e as vistas penetradas no chão.
— Eu os matei. — Soltou, respirando pesado, como se aquilo estivesse entalado em sua garganta.
Meu mundo deu duas voltas antes de tentar se estabilizar.
— Como?
— Tinha nove anos na época. Eu, Wendy, vovô e vovó estávamos indo para a casa de campo da família. Estava sentado na frente, no passageiro, quando pedi para que meu avô me deixasse dirigir. Já havia visto na televisão outras crianças fazerem isso, e quando ele me disse que não, não conseguia enxergar os motivos para sua resposta. O volante, que naquela época eu achava um circulo muito acolhedor parecia ser fácil de controlar. Se as outras pessoas podiam fazer porque não eu? Estava disposto a provar que também poderia, então pulei sobre o colo dele, tirando suas mãos do volante e conduzindo-o por meros segundos.
“Vovô ficou irritadíssimo, distribuindo milhares de broncas pelos segundos seguintes. Eu também me zanguei, tentei abrir a porta, mas ela estava fechada e nada que fizesse poderia resolver o meu problema. Então abaixei os vidros da janela, disposto a sair por ali mesmo. Mas eu ainda não era rápido suficiente e ele me puxou pelas pernas e me colocou novamente sentado no banco. Parou o carro para passar o cinto em mim. Quando voltamos a andar, minha raiva estava ainda maior. Naquela época eu encarei aquilo como uma desconfiança que ele tinha em mim, ainda não tinha consciência que com minha idade não era permitido dirigir. Num ataque de fúria comecei a esmurrar os braços dele, vovó gritou para que eu parasse e Wendy começou a chorar. Foi nesse momento que vovô desviou a atenção da estrada para que pudesse tentar me fazer parar, foi por pouco tempo, mas o suficiente para que ele perdesse a direção e outro carro quase colidisse conosco. Ele tentou desviar jogando o carro para fora da pista e foi nesse momento que perdi os três. O carro capotou algumas vezes, até hoje não sei dizer quantas. Fiquei em coma por três meses enquanto eles perderam a vida.”
Não sabia ainda que lágrimas desciam pelo meu rosto. Só vim percebê-las quando pingaram em meus braços impotentes sobre o colo. Meus olhos estavam focados em seu rosto, sem se afastarem por nenhum momento.
Natsu finalmente me encarou, o branco de seus olhos estava avermelhado, mas ele não chorava como eu.
— Porque você está chorando? Não quero sua pena. — Um misto de confusão perambulava por sua face.
— Pena? Oh não Natsu, temo que esteja enganado. — Mais lágrimas desciam, trilhando um caminho que outras já haviam feito. — Você sempre conviveu com isso, não é mesmo? Acredita que seja sua culpa a morte deles.
— E não sou? Se eu não fosse tão idiota eles estariam aqui. Sou um assassino Lucy, assassino de pessoas que amo, isso torna tudo pior.
— Não, você não é. Ainda era uma criança e não media por seus atos. Tire isso da sua cabeça, não se martirize por isso...
— Pare! Você soa como todos, tentando esconder minha culpa. Às vezes a verdade é dolorosa Lucy, mas não podemos camuflá-la. E eu por todos esses anos venho tentando aceitá-la.
— Não! Pare você Natsu! Ninguém está tentando fazer nada. Você era criança e como qualquer outra fez um ato de rebeldia...
— Que resultou na morte de três pessoas. Crianças comuns não fazem isso, não fazem mesmo. A morte deles foi resultado das vontades de um menino mimado, que não sabia receber um “não” como resposta.
Estava sem palavras. Estava tentando desesperadamente fazê-lo entender que não deveria manter aquilo na sua cabeça. Eu não poderia compreender o quanto ele já tinha sofrido e continuava sofrendo por essa tragédia. Essa culpa poderia destroçá-lo.
— Por favor, pare de sofrer. — Segurei seu rosto entre minhas mãos, desejando que minhas palavras infiltrassem em seu cérebro. Percebi que estávamos ainda mais próximos. — Por favor... Só pare. Isso é ruim, doe.
Ele se calou, foram momentos de agonia total. Eu na sabia qual seria sua próxima reação, na realidade não sabia nem mesmo o que eu deveria fazer. Não medi minhas palavras e talvez tivesse dito mais do que devesse. Mas era uma força maior que eu, meus sentimentos por Natsu não me permitiam vê-lo sofrer de boca fechada.
Se dependesse de mim, eu sempre, sempre estaria lá para amenizar seu sofrimento.
O que aconteceu foi uma fatalidade muito triste, mas ele deveria aprender a lidar com a situação. A morte não era algo fácil, jamais seria, entretanto ela podia ser superada. Não digo que esquecida, acho que Natsu nunca se esqueceria das pessoas que faleceram naquele acidente, mas acordar todas as manhãs se culpando não o ajudaria a seguir em frente.
Ao contrario, continuaria prendendo-o ao passado. Um passado triste e doloroso.
— Doe em você me ver sofrendo? — Nada respondi, me sentindo incapaz de dizer qualquer coisa. Apertei minhas mãos ainda mais em seu rosto, tentando de alguma maneira fazê-lo mais próximo de mim.
Encarei seus olhos encontrando as pérolas de Natsu vidradas em mim. Prendi a respiração ao me dar conta do que exatamente aconteceu. Ele me revelou algo tão importante de seu passado, isso deveria estar sendo difícil para ele.
— Eu... — Não terminei, mas fiquei feliz por ter sido ele a me impedir de completar a frase.
Natsu havia acabado com a distância entre nós selando nossos lábios em um toque macio que foi aprofundado em pouco tempo para um contato tão esperado por mim. Nossas línguas se encontraram e ouve uma explosão de felicidade dentro do meu corpo. O beijo não era lento nem calmo como acontecia nos cinemas, havia uma dose de desespero, ansiedade, contentamento, por ambas as partes. Ele segurava firmemente meus cabelos e sua outra mão livre agarrava-me pela cintura trazendo-me mais para si.
Quando o ar se fez necessário nós nos afastamos por longos três segundos que logo se fizeram incomodativos. Respirávamos fortemente em busca de ar. No instante seguinte, antes que eu pudesse me dar a chance de raciocinar nossos lábios estavam outra vez se tocando. Dessa vez de forma mais intensa do que a anterior. Eu nunca havia me esquecido como eram os beijos de Natsu, era uma memória que mesmo depois de cem anos estariam vívidas em minha cabeça, mas eu tinha esquecido as sensações que eles me faziam passar. Uma loucura no estômago, um iceberg parecia ter se construído ali dentro, as mãos tremiam e o peito avisava agitação.
Quando nos separamos novamente, mantemos nossas testas coladas uma a outra.
— Porque você não se afasta? Depois de tê-la tratado tão mal você ainda está aqui, me ouvindo e sofrendo por mim. O que há de errado contigo? — Senti seus dedos passearem pelos meus cabelos. Um tom de desentendimento povoava sua voz.
— É algo que não posso dizer. Não sou corajosa o suficiente para isso.
— Mas que merda! Estou tentando te afastar Lucy. Porque você continua tão perto? Não se aproxime mais de mim. Isso não é o certo.
— Talvez não seja o mais fácil, mas não quer dizer que não seja correto. A única coisa certa em nossas vidas Natsu, é a felicidade. Lute por ela.
— Eu tenho uma noiva, nós vamos nos casar. Não me deixe mais confuso do que já estou.
Afastei-me bruscamente dele, seus termos foi uma faca no estômago. Eu chorava novamente e apesar de ter uma contribuição pelo acidente com sua família, essa última frase de Natsu era com certeza a maior culpada.
— Você não deveria se casar se está confuso. Casamento é um passo importante, era algo para ter certeza.
Eu me afastei três passos para trás. Dei mais alguns e não me importei quando esbarrei em algo que nem mesmo cheguei a compreender o que foi. Continuava afrontando-o com o olhar. Quando senti a porta atrás de mim, me virei para sair, desesperada para correr.
Abri a porta, mas antes que saísse me virei para uma última pergunta. Algo que nada tinha a ver com o momento, no entanto corria perigo de não dormir essa noite se não a fizesse. Não saberia se teria outra oportunidade para tal pergunta.
— Natsu, você gostaria de ter filhos?
Ele me olhou incrédulo, sem ter certeza que eu havia mesmo perguntado aquilo.
— Porque a pergunta?
— Só responda.
— Eu não estou entendendo. O que quer com isso?
— Por favor, só responda. — Um bolo havia se instalado na minha garganta. Era uma surpresa que eu conseguisse continuar falando. Alguns segundos depois ele respondeu:
— Sim, eu gostaria de ter filhos algum dia garota das pérolas castanhas.
Eu não havia entendido porque ele me chamara assim, mas essa não era a maior das minhas preocupações naquele momento. Tendo minha resposta fechei a porta atrás de mim. Meus dedos apertaram a trinca e me segurei para não cair no chão.
Poderia nunca deixar de amar Natsu, pois a intensidade desse sentimento parecia ser impossível de se extinguir. Mas isso não quer dizer que eu não me cansasse um dia, me cansasse de verdade, e o medo desse momento chegar me assombrava. Tinha temor do dia em que desistisse verdadeiramente dele, e não tivesse mais forças para suportar tantas humilhações. Ninguém viveria assim para sempre, correndo atrás de outra.
Afastei-me de pernas bambas, não tendo certeza se conseguiria pegar uma vassoura ou um balde com água. Trabalhar parecia agora escalar o monte Everest. A porta se abriu em um estrondo e Natsu falou:
— Você tem razão, eu não deveria me casar se não tivesse certeza. Eu nuca tive certeza de nada em minha vida, mas eu estou certo desse momento. Obrigado por estar aqui, por me ouvir e consolar.
Eu continuei andando, mesmo que tivesse vontade de encarar seus olhos. Eu não podia, não podia fraquejar. Não queria chorar em sua frente.
— Ei Lucy... — Ele gritou um pouco mais alto. — Eu não a culpo de não querer me olhar. Eu só quero dizer que sinto muito. Se for eu o responsável de estar assim, peço desculpas.
Ele se calou, talvez imaginando que eu fosse me virar. Não sei de onde tirei energias para continuar seguindo em frente.
— Eu não sou esse monstro que você deve estar idealizando.
Sim, eu sabia disso. Mas você Natsu ainda era o responsável por essa ferida aberta no peito. E não havia pontos suficientes no mundo que pudesse fechá-la.
Se eu estivesse certa, todas as suas ações até agora foram uma tentativa de me afastar. Se ele fez isso, então existe chances de também gostar de mim? Nutrir sentimentos que todo esse tempo eu sonhava que se tornasse realidade?
Tristeza. Tristeza era tudo que podia me definir naquele momento. Porém logo outra coisa surgiu dentro de mim: confusão.
Tristeza e confusão, um misto de sentimentos que eu não podia controlar.
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