Nove Meses

16 16 — Fairy tail – Parte 2


Notas iniciais
Agradeço a Poya por ter recomendado a fic, muito, muito obrigada mesmo:)

Uma mocinha vestida de preto que ainda não tinha notado puxou meu braço para si. Ela trazia um pequeno carimbo com o símbolo do bar. Prensou-o contra a tinta dentro de um recipiente plano com algum tecido especial, e depois marcou minha mão. Observei o desenho intrigada, mas gostando do seu formato. A asa de uma fada. Graças aquela marca mesmo que eu saísse do estabelecimento poderia entrar novamente sem dar satisfações para os guardas. A melhor parte era esta.

Levy me alcançou segurando meus braços, a jovem fez o mesmo com ela. Agiu rápido nos levando até uma das poucas mesas vazias do local. Puxou uma cadeira sentando-se ligeiramente e me indicou outra a sua frente.

Observando-a melhor, vi que suas bochechas estavam coradas. Seus olhos cintilando fúria.

— Nunca mais voltarei a esse local. — Murmurou insinuando um bico que não era manhoso, mas de raiva.

Algo aconteceu com algum dos seguranças, e fiquei curiosa para saber. Contudo achei melhor não perguntar, porque caso quisesse falar tomaria ela mesma essa atitude.

Olhei mais uma vez para Natsu, ele estava segurando o braço do amigo que me encarou com malícia. Eles conversavam e o garoto pelo qual eu nutria sentimentos fez uma careta em um determinado momento. Ele soltou o companheiro que voltou a se sentar.

— Tudo bem, nós estamos aqui. O que pretende fazer? Ficar secando Natsu não vai adiantar de nada. — Ela cruzou os braços impaciente. Seu humor mudara apenas ao passar por aqueles homens que ficavam de vigia? O que eles fizeram com ela? Tinha medo do terceiro, ele era o mais abusado.

— É... — Suspirei encarando minhas mãos. — Eu não sei. Estava mais preocupada esse tempo todo em saber como entrar. — Constrangida, não olhei para ela, baixando minha cabeça o máximo possível.

— Oh meu Deus! Você vai virar uma solteirona. — Encantava-me com o quanto ela poderia ser estimulante às vezes. — Bem, vá lá e lasque um beijo nele. Casem-se e sejam felizes para sempre. — Ironizou com direito a um revirar de olhos.

— Você acha que meu beijo é o quê? Algum tipo de feitiço? Porque somente assim para as coisas acontecerem com diz. Nós não estamos em um conto de fadas, embora às vezes eu chegue a acreditar que estou vivendo como a cinderela, se relacionado ao meu trabalho.

— Apenas porque você quer. Já lhe disse que posso arranjar um emprego na biblioteca para ti. — Ela bufou indócil, e em outra ocasião o riso teria me domado.

Um grupo de garotos jovens, dezesseis ou dezessete anos passaram por nós. Um deles nos encarou e gritou.

“— Você não é sal, mas faz minha pressão subir.”

Eu quase me engasguei com aquilo, era realmente impressionante que em pleno século XXI ainda existissem pessoas que utilizavam aquele tipo de cantada. Era pior do que barata.

— Juro que tenho vontade de vomitar. — Levy discorreu fazendo um gesto com o polegar, colocando-o no centro da boca, como se fosse realmente jogar tudo para fora ali mesmo.

Tive vontade de fazer o mesmo.

— Preciso beber algo. — Pronunciei. A pequena garota arregalou os olhos, pronta para começar a gritar. — Relaxe, estou satisfeita com um copo de águ... — Parei de falar ao sentir alguém me apertar à cintura. Meu corpo se enrijeceu de pânico.

— Será que eu poderia ter a honra de desfrutar da companhia de duas belas damas? — Senti um sorriso no meu pescoço junto com um bafo de cerveja. Meu coração acelerou de susto. Olhei pelos cantos dos olhos o ser que estava tão próximo de mim.

Se não estivesse me equivocando era o amigo de Natsu que me olhou quando eu mal havia tocado os pés no local.

Vi com clareza o sorriso safado que exibia.

— Tem outros lugares vagos. — Murmurei tirando seus braços da minha cintura. Ele sorriu puxando a cadeira ao meu lado.

— Não fui cavalheiro suficiente? — Continuava lá, aquele sorriso idiota. O pior era que eu não poderia reclamar, estando onde estava poderia esperar de tudo, até mesmo disto.

— Ridículo. — Levy soltou indiferente. Seus olhos não estavam em mim e nem no nosso novo acompanhante, mas sim em um ponto qualquer no chão do local.

Sua palavra fez o sorriso do estranho aumentar, preenchendo boa parte de seu rosto. — Vocês duas são difíceis, e eu adoro garotas difíceis.

Não consegui falar, meus lábios nem ao menos chegaram a desgrudar um do outro. Ele estava dando em cima de nós duas?Assim, na maior cara de pau? Eu não poderia engolir isso.

— Então você é amiga de Natsu? — Os termos me calaram antes mesmo de formular uma frase. Tive a impressão de que meu queixo foi ao chão.

Encarei o forasteiro guardando para mim suas características. Ele possuía cabelos claros de um tom laranja-amarelado que brincavam por todo seu rosto. Olhos escuros profundos e sobrancelhas que combinavam com os traços de seu semblante. Possuía uma boca fina e nariz civilizadamente empinado. O corpo indicava que fazia academia, mas não mais que uns quatro meses. Ele era até que bonito, mas obviamente um mulherengo com rostinho de garoto. E que rostinho.

— Não... Não compreendo.

— Ele não ficou muito feliz quando disse que viria falar com você. — Desta vez foi mais específico. Chegou à cadeira para mais perto da minha. Estávamos pertos o suficiente para nossos braços se encontrarem. — Mas você não estaria perdendo nada, ele é desagradável. Em outras palavras, um chato! — Sua gargalhada reverberou próxima de mim, tendo brevemente a companhia de Levy.

Mesmo assim, eu não havia dado cautela suficiente para o que ele disse no final, minha atenção estava ainda presa no começo da frase. Meus olhos se fecharam, não sabia o que pensar. Minha mente estava criando hipóteses, algumas pareciam ser improváveis.

“1° Natsu teria tanta raiva de mim agora, pelo nosso quase-beijo que não aspirava ter nenhum contato comigo, nem mesmo através de um amigo.”

“2° Poderia ter trocado sua opção sexual e agora estaria apaixonado pelo garoto atraente que sentava a minha mesa.”

Não! Essa definitivamente não era. Estava mesmo mal, mas isto não era nenhuma novidade. Não estou em mim desde o momento que decidi vir ao Fairy Tail.

A minha última hipótese era a que gostaria que fosse verdade.

“3° Ele poderia estar sentindo ciúmes”

De todas as três, a mais provável era a primeira. Maravilhoso! As coisas estavam apenas melhorando para mim.

— Bem... — Não sabia qual era a melhor resposta para dar a ele.

Se Natsu não queria que o amigo viesse a minha mesa pelos motivos por quais estava desconfiada, o melhor seria dizer que não. Não o conhecia.

Minha resposta nunca chegou a ser necessária, pois o garoto demonstrava não estar mais interessado nessa questão. Ele parou uma garçonete bonita que andava com algumas garrafas de cerveja na bandeja e pegou uma delas.

— Você não vem muito aqui, né? Nunca lhe encontrei nisto. — E continuaria a não me ver se toda vez que quisesse entrar tivesse que passar por aquele trio de pervertidos que se diziam seguranças. Esperava não encontrá-los nunca mais em minha vida.

— Esse... — Parei alguns segundos para encarar Natsu, ele continuava virado para frente conversando com um colega. —... Não é um local que costumo frequentar.

— E por que...?

— Lucy. — Respondi quando percebi que ele não sabia como me chamar. Era um truque tão velho e ainda acabei por cair nele. Às vezes minha decepção comigo mesma podia aumentar. Ele sabia o meu nome, agora seria o número de telefone e depois o quê? O endereço para minha cama ou para um motel qualquer?

Não daria esperanças para um bêbado.

Como poderia responder sua pergunta sem parecer uma chata?

— Eu não estou tão familiarizada com lugares tão... — Procurei uma palavra. — Cheios.

— Entendi. Mas nós podemos mudar isso, você não acha? O que acharia de dançar um pouco? — Percebi que sua mão foi parar sobre meu ombro, compartilhando um aperto leve. Ele também tratou de se aproximar ainda mais.

Seus olhos varreram meu rosto. Eu não poderia negar, ele era realmente belo. Mas em minha mente ainda morava um rosto bronzeado e fios róseos desorganizados. Natsu agia como uma praga em meus pensamentos, mesmo que me esforçasse muito para isso, não conseguiria esquecê-lo.

Seus lábios de repente estavam próximos da minha bochecha, mas estava ciente de que não era minhas maças do rosto sua intenção. Era uma parte clara um pouco mais abaixo. Mexi-me desconfortavelmente me esquivando. Se as circunstâncias fossem diferentes, e eu não estivesse grávida e apaixonada por Natsu, não teria me subtraído. Provavelmente viraria meu rosto para facilitar o encontro de nossos lábios.

Ele sorriu e se afastou alguns poucos centímetros.

Deixei meu olhar cair em Levy e seu rosto era uma confusão total. Ao mesmo tempo em que parecia pouco empolgada com o entusiasmo do meu mais novo parceiro, estava feliz com algo que via. Percebi então que olhava para algo atrás de nós.

Ela fez um gesto com as sobrancelhas, indicando-me alguma coisa. Virei-me a tempo de ver Natsu se virando também, impedindo que nossos olhares se encontrassem.

— Preciso de ar. Acho que já está na hora de ir. — Falei aliviada por não ter mais as mãos daquele garoto sobre mim.

Uma morena de cabelos ondulados passou pela nossa mesa, sua bunda era maior que todo o seu corpo. O garoto que só agora vir perceber que não sabia o nome, quase a engoliu com os olhos. Apesar disto, ele se levantou me acompanhando, ainda encarando vez ou outra a que acabara de passar.

— Não tem nada que eu diga que a faça mudar de ideia? — Ele murmurou tendo sua atenção dividida. Ele acompanhava com olhares significativos a morena que já estava a uns bons passos à frente.

Eu não estava chateada, ou algo do tipo. Sabia que, na maioria das vezes esse era o tipo de garoto que se encontrava nestes lugares.

Sorri.

— Infelizmente não.

— Posso então saber o número do seu celular?

— Ele está quebrado. — Ouvi uma risadinha reprimida, essa era Levy. Simplesmente não entendia porque isso sempre acontecia comigo, além de não ter conseguido falar com Natsu, — na verdade não tive coragem de chegar nele — ainda por cima tinha um bêbado ao meu alcance, acabando com toda a paciência que eu tinha reservado para esta noite.

— Qual é gata, essa é velha e não cola mais.

— 090- 0005-0925 — O jovem tirou o celular do bolso anotando os dígitos.

— Então até um dia desses — Aproximou-se depositando um beijo na curva mais alta do meu rosto. Desta vez foi mais rápido e esperto segurando minhas maças com ambas as mãos. Beijou minha boca, pretendendo aprofundar o toque. Afastei-me bruscamente, estralando um tapa em seu peito.

Não deveria nem mesmo ter dado início a uma conversa entre nós.

— Vejo que é bastante violenta também. — Sorriu mal-intencionado, olhos de repente brilhando de emoção. — Eu amo garotas agitadas, são as melhores. Aliás, eu me chamo Hibiki.

E ele se foi. Um ato esperto, pois evitou ganhar dois socos nos olhos.

— Não posso acreditar que você deu seu número a ele. — Levy brigou, de pé ao meu lado.

— Você como minha melhor amiga deveria saber que eu estava mentindo. Além do mais era para ter meu contato memorizado. — Ela corou agitando a cabeça, seus cabelos vibraram para os lados.

— Você sabe que não sou boa com coisas relacionadas a isso. — Ela emburrou levantando levemente a ponta de seus beiços.

Meus olhos correram para um homem alto e de cabelos negros grandes que andava a alguns passos atrás das costas de Levy. Reconheci-o principalmente pelos piercings extravagantes que usava.

— Espero que você possa pelo menos reconhecer a face do seu namorado. — Murmurei e vi seus olhos se arregalarem.

Ela se virou e uma pergunta que eu já esperava saiu de seus lábios.

— O que ele está fazendo aqui?

— Você é mais esperta do que isso.

Gajeel era filho de uma jovem médica e um astuto advogado. Eu nãos os conhecia, Levy sim, pois visitava de vez em quando a casa deles. O moreno também trabalhava, então não seria problema algum para ele entrar neste local.

— Bem, eu vou indo. — Falei e a garota de cabelos azulados tratou logo de pronunciar sua decisão.

— Vou contigo.

— Isto não é cogente. Tenho certeza que vai apreciar melhor a companhia do Gajeel. — Encarei o moreno que não possuía uma expressão muito amistosa. Reconsiderei. Talvez ela estivesse melhor ao meu lado.

— Não posso deixá-la sozinha. — A preocupação em sua voz era perceptível.

— Eu não estou indo embora, não ainda. Irei andar um pouco aqui por perto. — Seu olhar era de dúvida, nitidamente com suspeitas sobre o que eu falava. Sua boca se abriu em uma reclamação, mas seus lábios logo cerraram quando Gajeel fechou uma de suas mãos no braço fino dela.

Ela olhou para ele, e seus olhos se fecharam acompanhando um suspiro pesado.

— Precisamos conversar. — A voz máscula e grave divulgou.

*

Sair não era difícil, pensei que teria que mais uma vez encarar aqueles seguranças, mas descobri uma saída pelos fundos antes que o fizesse.

A rua não estava completamente deserta ainda, algumas pessoas povoavam em um ou outro canto. A maioria eram casais se agarrando e alguns eu cheguei a pensar que arrancariams as roupas e transariam ali mesmo no meio da alameda.

Felizmente eles não fizeram isso.

Caminhava pela calçada, entediada o bastante para contar os meus passos. Perguntava-me se deveria seguir em frente ou voltar e encarar Natsu. Mas o que faria se voltasse? Agir como uma vadia? Esfregar minha bunda no meio de suas pernas? Porque eu não via outra forma dele me notar.

E isso cansava porque essas garotas que eu via por aí, e tanto repugnava suas atitudes conseguiam mais do que eu. Elas sempre ficavam com caras bonitos, mesmo que fosse por apenas uma noite.

Eu não queria isso para mim. Almejava um casamento, um lar agradável para criar meu bebê, ter um futuro e um emprego que me garantisse uma vida confortável. Desejava que Natsu estivesse comigo, presente em minha vida.

— Não acha que é perigoso andar sozinha a esta hora da noite? — Ele apareceu, assustando-me ao ponto de fazer-me pular do lugar onde estava. Eu não percebi que estava sendo seguida.

— Não acho que este seja o caso. — Controlei para manter minha voz normal. Haja com naturalidade Lucy, pensei comigo mesma. — Ainda é cedo.

— Ladrões costumam frequentar bastante essa parte da cidade. —Encostou-se na parede. Virei para encará-lo. — Porque disse a Hibiki que não me conhecia? — Perguntou.

Meu coração parou. Ele tinha mesmo perguntado isso?

— Na verdade eu não tive a oportunidade de responder, ele tomou as suas próprias conclusões. — Proferi encostando-me ao poste a nossa frente. Agora tínhamos uma distância de três passos entre nós. — Afinal, o que você está fazendo aqui fora?

— Faço-lhe a mesma pergunta.

— Bem, eu estava apenas querendo respirar um pouco de ar livre o que não é atribuído naquele local.

— Igualmente. — Ele respondeu. Seus lábios se curvaram em um sorriso sem pressa quando abri minha boca para retrucar. Os dentes brancos fizeram alusão de aparecer, e minha noite estava ganha se eu pudesse presenciá-los por completo.

— Você quer que eu acredite que está aqui fora para “pegar um ar”?

— Porque é tão difícil de aceitar se você está nisto para o mesmo. Por qual outro motivo eu estaria aqui?

Meu amplo e amarrotado coração havia se enchido de esperanças. Eu queria que ele estivesse cá para me ver. Por mais que eu fosse uma idiota — Eu realmente era — Quem poderia me culpar? Sou uma pessoa apaixonada, que vê esperanças em uma formiga carregando um grão de arroz.

Ok. Talvez não nisso. Mas servia de exemplo.

— E você coincidentemente me encontrou? — Perguntei encarando-o e desviou o olhar formulando uma resposta.

— Exatamente. — Respondeu.

O nosso primeiro encontro desde aquele quase-beijo — que não aconteceu por minha causa — eu precisava lembrar esse detalhe, não estava sendo tão ruim. Apesar de ter certeza que minhas bochechas estavam coradas neste momento pela lembrança, ele não me presenteou com xingamentos ou maus tratos. Estava tudo bem até então.

— Hibiki comentou que você não estava muito feliz com ele indo até nossa mesa. — Arrazoei antes mesmo que pudesse pensar em segurar essas palavras apenas comigo. Talvez eu devesse adquirir o hábito de pensar duas vezes, embora quando realmente me deparava com um momento que precisasse utilizar desse argumento, eu nem mesmo chegava a considerá-lo.

— Eu estava tentando alertá-lo.

— Por quê?

— Eu não sei se você notou, mas existe uma diferença muito grande entre as classes sociais de vocês.

— Como? — Meu coração tombou. Um ponto de partida que começou ali mesmo e arrastou a raiva por todo meu corpo até que ela atingisse o menor dedo do pé.

— Não é apenas eu que digo isso, mas as pessoas. — Vendo que eu não diria nada, continuou. — Não sei se notou que tinha outro garoto sentado ao meu lado.

Eu nunca tinha me dado conta de sua presença.

— Algum tempo atrás ele se dizia apaixonado, e pelo que consta ainda é. Possuía um futuro promissor nas empresas do pai, mas desistiu de tudo por uma garota. — Seus dedos foram para os cabelos, e comecei a acreditar que era uma mania sua. — O senhor lhe deu duas alternativas, ele é claro escolheu a que diz respeito a ela. Preferiu o amor dela.

Para alguns, uma estupidez. Para mim uma verdadeira história de amor.

— Não é como se Hibiki e eu fossemos nos prender em um relacionamento. — Esclareci sentido o furor percorrer todo o seu caminho de volta até meu órgão responsável por todos esses sofrimentos.

— Mas não seria bom ele ser visto com você, as pessoas começariam a falar.

Doía-me saber que Natsu se vinculava tanto a opiniões alheia, eu não vou dizer que elas não interferem, visto que estaria negando a realidade. Às vezes um par de palavras acaba com todo o seu dia, todavia não conseguimos viver sempre agradando a população.

Havia algo que eu não havia pensado, e que só o fiz quando dei as costas para ele sem lhe oferecer uma despedida. Percorri um espaço de três passos antes de ouvir meu nome ser pronunciado por Natsu. Mas, surpreendentemente eu consegui forças para não me virar.

Mesmo que o local fosse freqüentado por uma determinada quantidade de pessoas, talvez conhecidas entre si, estando ali dentro elas não saberiam que eu não era da mesma classe social, então não haveria problemas para Hibiki. E nós todos sabíamos que não passaria dali.

Talvez Natsu não estivesse pensado neste pequeno detalhe quando inventou aquele monte de mentiras. Sim, porque no fundo em algum lugar dentro de mim, algo gritava mais forte do que eu conseguia evitar que tudo aquilo que havia falado não passava de boas mentiras inventadas de última hora.

Mas, então porque motivo ele estaria ali fora? Não passava pela garganta os pretextos que havia discorrido.

Andei sem olhar para trás, movimentando meus pés com uma agilidade admirável. E por fim quando sabia que estava distante de Natsu, parei para respirar profundamente. Isso não deveria continuar, precisava arrumar uma maneira de acabar com tudo.

Senti duas mãos agarrarem meus braços. Meus olhos se abriram não entendendo como o rosado conseguira chegar tão rápido até mim.

Eu sabia que estava distante, muito distante.

Mas então, sou pega de surpresa. Ao virar-me para encará-lo de frente, disposta a falar-lhe umas boas verdades, encontro-me com um rosto estranho e olhos claros. Verdes para ser mais exata.

Era um homem, deveria ter seus trinta anos. Era forte e bonito. Também era um bêbado, consegui sentir pelo seu bafo que bateu contra minha face quando abriu a boca.

Outro. Eu não conseguia mais suportar isto.

— Hey, solte-me. — Ele não me ouviu como esperado. Ao reverso, avançou prendendo-me a parede. Atrás desta encontrava-se um terreno baldio ainda no início da construção de uma casa. Meu corpo entrou em alarme.

— Mas que gatinha nervosa. — Sua voz fazia jus a todo seu tamanho, eu me perguntei mentalmente o que deveria fazer. Poderia gritar por socorro, mas isso o deixaria ainda mais agitado. Ele também poderia se irritar, então me encolhi contra a divisória. Tentando proteger-me.

Quando avançou em mais uma de suas investidas, eu desencaixei meus pés dos sapatos de salto. Não parecia ser um homem ruim, entretanto estava alcoolizado. Não era responsável por muitas de suas ações. Quiçá ele nem se lembrasse do que estava acontecendo no dia seguinte.

Suas mãos agarraram minha cintura num aperto potente. Bruto. Um medo horripilante se esticou pelo meu corpo. Estiquei meus dedinhos do pé para que eles agarrassem a ponta da sandália de salto, e quando consegui distendi minha mão para que alcançasse.

— Senhor, é melhor se afastar.

— Eu tenho um quarto de motel livre, você não quer se divertir comigo? — Seus lábios foram para o meu pescoço, beijando ali. O momento em que ele experimentou me deixar uma marca, eu segurei a parte mais fina da sandália e bati com a outra ponta sobre sua cabeça.

Descobri nos segundos seguintes, que aquele foi o pior erro da noite. Seus olhos se voltaram para mim com fúria, e eu tentei mais uma vez lhe acertar. Ele segurou meu braço bem a tempo.

— Você não deveria ter feito isto. — Avisou-me.

Em um ato de desespero, levantei minha perna e acertei-a no meio das suas. Ele fraquejou, seu corpo amolecendo aos poucos. Deu meio passo para trás e eu aproveitei para catar uma de minhas sandálias — Eu precisava de alguma defesa — e fugir. Correr como nunca tinha corrido antes na minha vida.

Minhas mãos foram para minha barriga. Eu orava para que essa súbita corrida não fizesse mal para minha criança. Nada iria acontecer com meu bebê, eu não iria deixar.

Somente nessas condições eu vim perceber quão mal foi a ideia ter saído, eu não diria que não deveria ter vindo ao lugar, pois nada me parecia perigoso lá dentro — talvez um pouquinho — O problema está aqui de fora. Não, o problema está em mim mesma, nas minhas planejas estúpidas.

Eu devia esperar, imaginar ou qualquer coisa relacionada a isso. Muitas das vezes acontecia isso nos livros que eu costumava ler. Seria à hora do mocinho aparecer e salvar a mocinha. Mas advinha onde está o meu galã? Provavelmente dentro do Fairy tail, bebendo e se divertindo muito.

Virei-me para dar uma espiada e assustei-me ao ver o rosto do homem não muito atrás de mim. Desde quando bêbados corriam? Eles não deveriam estar caídos pedindo mais bebida ou vomitando a porcaria que fizeram?

Também sabia que ele não estava se esforçando como faria se estivesse lúcido. Eu nunca fora boa para correr, e mesmo estando fazendo o mais rápido que conseguia uma criança brincando de pique-pegue me alcançaria.

Ele demonstrava estar bem mais cansado que eu, todo aquele seu corpo grande e pesado estava tendo efeito sobre o álcool ingerido. Todavia eu não conseguiria continuar correndo por muito mais tempo também, os anos de sedentarismo mostravam suas consequências sobre mim.

Se eu pelo menos lembrasse as técnicas que aprendi quando frequentava as aulas de Caratê no fundamental, elas poderiam me ajudar com algo.

Senti que não poderia mais continuar com aquilo, estava sem fôlego e necessitada de um copo de água. Eu não abaixaria minha cabeça para um bêbado. Parei de repente e ele fez o mesmo, olhando-me com raiva ao mesmo tempo em que desejava me devorar. Vi em suas mãos um objeto que me fez paralisar, engolir minha própria saliva.

Uma faca de cabo branco.

Meus pés se afastaram, pisando em pedrinhas irritantes que machucavam a pele do meu calcanhar. Eu deveria gritar por ajuda, mas ele iria me atacar se o fizesse. Isso costumava irritar os bandidos, poderia ser que o mesmo acontecesse com uma pessoa embebedada.

Ele fez menção de se aproximar, e eu sem saber como me defender taquei mais uma vez a minha sandália nele. Desta vez utilizando de todas as forças dos meus músculos. Ela acertou em sua testa e o fez me encarar ainda mais irritado. No ato o objeto cortante desprendeu-se de sua mão também e caiu no chão. Quando ele se abaixou para pegá-la — Quem sabe para me atacar com ela — Meu pé foi de encontro com a sua barriga.

Ele caiu para trás zonzo batendo a cabeça no chão. O sangue começou a escorrer de um ferimento que eu não podia vislumbrar por culpa do cabelo que tampava-lhe.

Desespero se apossou de mim, e lágrimas desceram-me dos olhos. E se algo de grave tivesse acontecido com ele? Eu não suportaria ser responsável por isso.

— Lucy! — Alguém me gritou. Reconheci imediatamente a voz de Natsu. Senti um alívio me entupir, estava agradecida por não estar mais sozinha. No entanto eu não possuía o conforto que sei que teria se ele tivesse aparecido antes, e me impedisse de fazer o que fiz.

“Eu apenas me defendi.” — Coloquei isso nos meus pensamentos. Mas eu não poderia ter feito ago que não fosse isso? Algo que apenas o pararia, sem ferimentos para nenhum dos lados?

Parou ao meu lado olhando para o chão. Seus olhos cresceram espantados visualizando o corpo estendido na rua.

— Você está bem? — Perguntou-me e não fui capaz de responder. Olhei para ele submersa em horror. O sangue continuava a descer da cabeça do homem, e foi preciso que eu me aproximasse mais para que considerasse a pedra abaixo de onde sua cabeça repousava.

— Ei... — Ele tocou suavemente meus braços, parecia compreender a situação. — Você estava se defendendo. Vou ligar para a polícia.

Não consegui impedi-lo, queria dizer que deveria conectar primeiro uma ambulância. Precisávamos socorrer o másculo.

— Ele está desacordado. — Sussurrei.

— Pelo que percebo o homem está alcoolizado, isso aconteceria hora ou outra. Já me preocupei em fazer o contato, logo uma ambulância há de aparecer por aqui também.

— E se for tarde demais? — Murmurei para ele.

— Lucy, nada de grave vai acontecer. — Discorreu tranqüilizando-me.

Não era tão fácil acreditar nisto quando eu via sua situação. E ainda pior, quando era responsável pelo que aconteceu. Eu nunca deveria ter tentado bater nele, mas se eu gritasse o que ele faria? Não importa. O que eu tinha que ter feito era tentar ligar para polícia.

— Porque não gritou? Sinto muito por não ter ido atrás de você. Quando o fiz já tinha desaparecido.

— Eu... — Minhas pernas bambearam e Natsu por reflexo segurou meus braços. Olhei para ele perdida. Porque o socorro não chegava logo?

Sem me dizer nada me acolheu em seus braços. Um abraço inesperado e quiçá por pena. Eu não tinha ânimo para afastá-lo.

— Você é forte Lucy. — Sussurrou.

Eu era diferente, forte, e tinha me dado conta agora que ele também havia se desculpado. Isso significava muita coisa, não é mesmo? Entretanto pela primeira vez não me prendi a isso. Minha preocupação estava no homem que me atacou e que eu deveria abominar. Eu não queria pensar em outro assunto que não fosse esse. As palavras de Natsu sobre a diferença entre classes sociais reverberavam dentro de mim, eu sabia sobre isso e pior poderia esperar por algo assim. No entanto elas tinham feito um estrago muito grande. E mesmo que em alguns momentos eu mesma tenha dado muita atenção a isto, dinheiro não era tudo no mundo, e eu queria fazer Natsu perceber isto.

Notas finais
Hey, Eu tô meio sem o que dizer a não ser minhas desculpas pela demora. Provavelmente eu só volto a postar regularmente em agosto, justamente quando as férias acabam. Bem essa minha demora desta vez não tem nada a ver com inspiração, a questão é que eu estou muito(muito mesmo) animada com uma nova ideia para uma fanfic que veio a minha cabeça. Fica até difícil escrever outra coisa quando se está tão concentrada em algo. Mas não se preocupem, logo essa animação passa e NM volta a ser meu foco principal. Eu também estava terminando algumas fanfics esquecidas no meu computador, e pode ser que algum dia eu venha a postá-las. Peço desculpa também por não estar respondendo os comentários, e por enquanto eu não poderei respondê-los a não ser os que tenham dúvidas sobre algo. Beijinhos:)