Nove Meses
15 15 — Fairy tail - Parte 1
Notas iniciais
Depois daquilo tudo, o que consegui pensar foi que: precisava conversar. E foi em busca disso que pensei em discar o número de Levy. Cheguei a tirar celular do bolso, mas de última hora repensei. Talvez fosse melhor ficar só e refletir sobre o que deveria fazer, quais seria os próximos passos a dar.
Joguei o corpo para trás, e somente nesta ocasião vim descobrir que estava em um gramado. Eu não deveria estar deitando na grama, no entanto diferente da maioria das vezes não me preocupei com isso. Costumava fazer isso quando pequena, sair rolando pelo relvado verde sem preocupações.
Mamãe ria e Sting gritava. Ele sempre dera um de irmão super protetor e era isso que me assustava em relação ao loiro.
Ele tinha medo que eu me revelasse ao mundo ou que o mundo se revelasse a mim. Parecia querer sempre me manter por debaixo de suas asas e impedir que o exterior viesse fazer contato comigo.
Ao mesmo tempo em que gostava enchia-me de receio. Era bom saber que me amava tanto, que tentava me proteger com tanta resistência, mas essa defesa excessiva que insistia em manter não geraria bons frutos quando soubesse que não conseguira com êxito o que tanto lutava para resguardar.
Fechei os olhos e quando voltei a abrir notei a presença de duas pessoas na minha frente. Demorou um pouco até que eu viesse a criar coragem para me sentar, embora a grama possuísse alguns fiapos que incomodavam me sentia confortável naquela posição. De braços e pernas arreganhadas suspirei. Mamãe com certeza diria que aquela não era posição de moça, mas e daí? Não há muita gente por perto, não é como se fossem me sacrificar por ficar a vontade por alguns poucos minutos.
As duas pessoas eram conhecidas, eu as havia visto apenas uma vez, porém me recordava muito bem, principalmente do senhor.
— Lucy? — Chamou-me e esse fato despertou-me a atenção. Estando completamente ereta de pernas esticadas senti um leve desconforto no joelho.
Encarei o senhoril e a moça que meus olhos reconheceram imediatamente. Conheci um aconchego estranho, eu gostava da presença desse velho homem. Ele transmitia um ar puro, algo que parecia clarificar. E novamente aquele sorriso que uns dias atrás me encheu de alegria, voltou a preencher o rosto aparentemente revoltado com a vida. Uma simples curvinha que estava acima da compreensão humana.
— Atsushi? — Perguntei-lhe, embora tivesse certeza de quem era. Seu nome ficou se repetindo em minha mente, como eco em uma casa vazia onde o som se reproduz por um tempo além do normal.
Ele assentiu.
— É muito bom revê-la, menina. — Levantei-me para que pudesse cumprimentá-lo. Dei-lhe um abraço singelo e me correspondeu com a força que seus ossos cansados permitiam. Um aperto fraco. Acenei para sua filha que o segurava com delicadeza.
— O senhor vem sempre aqui? — Indaguei.
— Eu e Amaya vimos para passear às vezes. Não é continuamente que a saúde permite. — Ele apontou com o dedo trêmulo rumo a um banco semelhante ao que Natsu sentava há pouco.
— Estranho, eu nuca lhe vi por aqui. — Andávamos lado a lado. Dávamos passos pequenos e aproximamo-nos do nosso destino com lentidão. O sol estava se pondo, vez ou outra os raios batiam em minha pele, mas eram vencidos pelos galhos de árvores que interferiam no caminho.
— Provavelmente porque nossos horários nunca bateram. — Ele soltou um risinho graúdo, coçando com as pontas dos dedos a bochecha esquerda.
Chegamos ao banco. Sentei primeiro e Atsushi e Amaya fizeram o mesmo.
— Querida, deu-me uma sede agora. Poderia comprar-me uma água? — Perguntou a jovem que pelo seu semblante, não pensou nem por um segundo em negar. Ela saiu a passos ligeiros rumo a um mercadinho do outro lado da rua.
— Bem Lucy, quero saber como vai o seu romance. — Perguntou sem modéstia, de uma forma que apenas uma pessoa muito próxima a mim faria. De maneira que apenas Levy comentaria.
Eu não me importei, ao seu lado até as piores das dificuldades tornavam-se singelas, brandas.
E então disse a ele. Como diria a irritante e baixinha garota que era desde sempre minha melhor amiga.
— Bem, nós quase nos beijamos hoje. — Falei antes que pudesse me conter. Eu não deveria estar falando de um assunto tão pessoal com um estranho que pela segunda vez estava vendo, mesmo que ele parecesse tão familiar. Alguém que poderia confiar de olhos fechados.
— Você está progredindo Lucy... — Ele pegou uma rosa vermelha que por coincidência estava jogada ao seu lado. Talvez pertencesse a um casal de namorados. A flor estava começando a murchar por falta de água. Pois se a encará-la por um tempo, talvez imerso em antigos pensamentos. Algo que lembrava a sua senhora que se foi há dois meses? — Mas ainda não é o suficiente. Diga-me quantas vezes se encontra com ele ao dia?
Eu me calei. Não me parecia viável falar mais, mesmo que inexplicavelmente sentisse um profundo afeto por ele.
— Eu entendo o seu receio, não são todos os dias que aparece um velho teimoso querendo saber sobre sua vida, não é mesmo? Mas como já lhe disse uma vez, e vou voltar a repetir, eu me identifico muito com sua história. Você me lembra muito minha Luzia, a mesma determinação, força de vontade, o mesmo olhar de uma garota loucamente apaixonada. — Disse, e não pude me impedir de ficar constrangida. Talvez tocar naquele assunto pudesse ser doloroso para ele, mas se fosse este o caso, nem mesmo isto o estava impedindo de se abrir comigo.
— Eu não me importo. Na verdade sinto-me confortável em conversar com o senhor.
— Não ceda Lucy, nem por um momento pense nisto. — Olhou em linha reta, vendo a filha voltar com uma garrafa de água nas mãos. — O garoto que você está amando, também te amará um dia.
— Como sabe? Porque diz isto?
— Sou um homem vivido. E sei que assim como era impossível não amar Luzia, também é impraticável não amar você.
*
Nunca pensei que entrar na minha própria casa fosse tão complicado, mas agora eu podia sentir no coro como era pela primeira vez a incerteza de aquele continuava sendo o seu lar. De que algo estava errado com o recinto onde você sempre viveu.
— Bem, ficar parada não vai resolver nada. — Murmurei baixinho, comigo mesma. Abri a porta encontrando meu irmão estirado no chão da sala, por sorte ele não estava muito sujo, mas Sting ainda sim deveria se preocupar com sua camisa branca.
— Onde estava? — Perguntei imediatamente, com o coração na garganta. Quais seriam as chances de papai ter dito a ele? Eu não sabia o que esperar caso tivesse feito isso, um dos meus grandes temores era que eu não poderia prever qual seria a reação do meu irmão.
Sting me olhou sério, muito sério. Seus olhos azuis cintilavam e cheguei a pensar por um momento que ele talvez já soubesse. E esperava pela a dor que sentiria em meus ouvidos pelo resto da minha vida.
Ele explodiria? Ficaria mudo? Desmaiaria como aconteceu com um carinha que vi na novela? Tentaria algo contra Natsu ou até mesmo comigo?
— Yukino esteve aqui? — Perguntou.
Meu coração por um lado amoleceu de alívio, não era sobre mim que iríamos falar e sim dela. Uma pessoa que é importante para ele, pois não posso acreditar que mesmo que tenha terminado já a tenha esquecido.
Mas poderia estar tentando.
Ele ficou um bom tempo fora, quais são as chances de uma escala de 0 a 10 que uma das vadias já não tivesse começado a atacar. Sting é atualmente um garoto de coração partido, eu não diria que poderia se responsabilizar por suas ações, não as que atingem o coração. Poderia muito bem ter saído com uma garota, e o pior, talvez tivesse até mesmo um encontro.
— Como...? — Tentei perguntar, mas previa que não iria muito longe. Ele não se levantou do chão e o piso duro não parecia lhe incomodar.
— Como eu sei? Yukino me mandou uma mensagem agora a pouco dizendo que precisava conversar comigo. Não duvido que tenha vindo aqui em casa.
— E o que você disse a ela?
— Falei a verdade apesar de tudo. Que não estava em casa, mas não creio que tenha acreditado.
— Porque diz isso? — Perguntei ainda parada a porta sem me arriscar a dar um passo. Por causa da distância não falávamos tão baixo quanto deveríamos por ser um assunto tão delicado, no entanto não era como se pudesse ser ouvido por todo o quarteirão.
— Eu não sei como, mas saiu da boca de algum infeliz o boato de que estou saindo com uma nova garota. Estão dizendo que se chama Shirley, é bem provável que Yukino tenha acreditado.
Nós não vivemos sozinhos, vamos sempre precisar de ajuda em algum momento da vida. Mas um dos pontos negativos em viver em sociedade é este: As pessoas falam de mais, inventam coisas e espalham sem se importar de que alguém pode estar sendo prejudicado por isto. E nesse caso, o meu irmão era o alvo.
— Não dê moral para isto, você sabe que as pessoas adoram falar da vida dos outros, principalmente a velhota da casa ao lado.
— Isto me irrita, sabia? Será que não possuem nada melhor para fazer? — Falou estralando os dedos na falta de algo melhor para praticar.
Ouvi duas vozes vindas da cozinha em direção a sala. Ambas eram conhecidas uma mais que a outra. O cabelo loiro liso não foi uma preocupação, mas o ruivo cintilante sim. Senhor Igneel me deu um sorriso natural quando me viu e veio em minha direção oferecendo um abraço. Aceitei alisando minhas mãos por suas costas.
O choque do abranjo fez-me esquecer somente por um segundo o meu espanto por encontrá-lo na sala da minha casa.
Sting admirou-me de sobrancelha erguida, talvez estranhando a nossa intimidade.
Não queria ser indelicada, mas tinha algo dentro de mim que me fez perguntar, e como na maioria das vezes não me contive.
— O que o senhor faz aqui? — Ele negou com a cabeça, avisando-me que estava errada em algo. Notei então que usei o famoso “Senhor” Que ele mesmo me avia proibido de falar quando fosse me referir a ele. Notei um olhar feio de mamãe em minha direção. — Perdão, mas o que lhe trás a minha casa?
— Então seu irmão ainda não lhe deu a notícia? Ele vai trabalhar comigo no escritório. Sting se mostrou muito eficiente e merece. — Ele disse tudo isso com um sorriso na face, aparentemente feliz. Mas eu ainda não conseguia entender o motivo de ele estar em minha casa, isso não era motivo para estar aqui. — Além disso, vim fazer uma visita aos seus pais, há tanto tempo que não os vejo. — Eu também havia me esquecido que um dia papai trabalhou na casa do senhor Igneel como motorista, e que por isso ele e o meu atual patrão se comunicavam bastante. Dona Layla também possuía um brilho diferente no olhar, o brilho de alguém que reencontrou um amigo.
— Fico feliz em vê-lo. — Menti. Eu não estava. Se fosse outro momento a situação poderia estar invertida, pois dentro daquela casa onde trabalho ele é a pessoa mais simpatizante. Mas nestas circunstâncias, onde papai ainda está revoltado pela minha gravidez não é momento mais propício.
Exibi meu melhor sorriso, sentindo um cansaço repentino. Hoje foi um dia muito emocionante e sentia que eu e minha criança merecíamos um cochilo.
— Se vocês não se importam, eu vou para o quarto. — Eles assentiram e enquanto passava pelo não muito estreito corredor procurei papai com os olhos, não o encontrando em lugar algum. Porque as pessoas nesta casa deram para desaparecer?
Antes mesmo de entrar no quarto, tirei minha blusa rapidamente. Fechei a porta atrás de mim louca para dormir um pouco.
— É sério, eu prefiro ver um strip-tease do Gajeel. — Pronunciou e arregalei os olhos de espanto. Virei-me incerta encontrando Levy deitada na minha cama mexendo ao celular.
— Oh Deus! O que fiz para te merecer hoje em? — Perguntei reprimindo um sorriso.
— Você me ama que eu sei. — Falou digitando algo no celular. Quando terminado jogou ele sobre a cama.
Levy se esparramou sobre meu leito, buscando meu travesseiro no canto. Lançava-me um olhar que perguntava claramente “Quais são as novidades?”
— Espero que as notícias sejam boas. — Vesti minha parte de cima da roupa sabendo que nós não terminaríamos essa conversa cedo. Afinal eu teria algumas coisas interessantes para contar a ela e também gostaria de saber como vai com seu namorado Gajeel.
—Bem, que quase beijei Natsu. — Ela abriu um largo sorriso. Mas logo voltei relembrá-la porque tinha certeza que não prestou atenção nesse quase. — Eu disse quase, porque não chegou a acontecer.
— Como não? — Fechou a face irritada. Seu semblante escureceu sério. — Não acredito que aquele idiota negou um beijo seu.
— Não foi ele. — Comecei. Levy se sentou na cama sem entender. Piscou os olhos alarmados quando as coisas começarem a se ajeitar em sua mente, assim eu imaginava. — Fui eu. — Voltou a cair na cama, perplexa. Suas mãos caíram sem animo ao lado de seu corpo. Ela faz uma cara pouco amistosa.
— Juro que não sei de onde vem tanta burrice. — Acenou para mim com os dedos, chamando-me para o lado dela. Quando estava perto o suficiente com um rápido movimento pegou um travesseiro e bateu com ele na minha cabeça. Quase caí da cama, isso apenas não aconteceu porque ela segurou meu braço com a outra mão. Puxou-me para mais perto de si e gritou na minha cara. — Você sabe que foi uma completa idiota, não é mesmo? E o pior é que eu já poderia esperar algo assim se tratando de você, não sei por que ainda tinha esperanças. — Ela me soltou, virando o rosto para o lado.
— Não poderia beijá-lo sabendo que a namorada dele está a alguns bons quilômetros de nós, passando por uma barra pesada. — Falei tentando me defender. Levy não deu a mínima para as minhas palavras. — Eu prometi que iria lutar pelo seu amor, mas não desse jeito. — Murmurei de bochechas inchadas, o ar estava preso dentro delas. — Apenas pensei em como ele se sentiria ao se dar conta que traiu a namorada, noiva, não sei como dizer.
— Talvez você não esteja percebendo Lucy, mas se o seu conto com Natsu prosseguir com esse mesmo seguimento, é bem possível que ele não venha a se tornar um romance. — Olhou-me baixo, não com pena apenas compreendendo o meu destino. — Ouvi você dizer que iria lutar, mas é inocente demais para agarrá-lo e demonstrar como isso pode ser bom. É boa ao extremo para arquitetar um plano que separe os dois, ou que pelo menos que faça o idiota abrir os olhos e ver o que está perdendo. Suas alternativas não são muitas — Ela piscou, considerando-as. — A única que pode lhe salvar é a velha e luminosa amizade.
— Como? — Questionei com uma ponta de credibilidade direcionada a ela.
— A convivência de vocês dois não é muita, e agora vai se tornar ainda menor, pela volta das aulas na faculdade. — Começou, explicando-me. — Esse é um ponto desfavorável, mas você pode revertê-lo.
— O que espera que eu faça?
— Procure se encontrar com Natsu vá a lugares que ele frequenta. Faça com que esteja sempre te vendo, mas, por favor, não deixe que perceba. Vocês precisam de mais convívio para que ele venha sentir alguma paixão por você. Se é que isto não esteja acontecendo.
Olhei-a céptica, achando que endoidecera de vez.
— Pense comigo: Sabemos que Natsu muitas vezes lhe tratou mal, e consequente desta atitude se manteve longe. Talvez isso venha acontecendo porque ele sente algo diferente por ti, não estou dizendo que é amor, mas algo intrigante que ele não consegue decifrar.
— Você enlouqueceu, agora é definitivo. — Murmurei submergida.
— Lucy, Natsu pertence a uma das famílias mais importantes do Japão, ele traz de berço uma educação admirável. Mas não é isso que ele demonstra quando está contigo.
— Sou a empregada, é obvio que ele não vai ligar em ter bons modos na minha presença. — Retruquei tentando nem que um pouco ensartar algo naquela cabeça de vento. Mas Levy não mudou sua expressão. — Não faz sentido o que diz. Quando se gosta de uma pessoa, nem que seja um pouquinho, queremos o melhor para ela. Em hipótese alguma estaria no topo da lista tratá-la mal.
— Não quando esse princípio de sentimento ponha em risco o mundo em qual está acostumado a viver. — Bufou, sem paciência para explicar. — Lissana é a garota perfeita para ele Lucy, a menina que aparentemente ele ama. — Acrescentou. — E se aparece uma nova pessoa que o faz repensar nessa sua certeza, é evidente que queira se manter o mais distante possível de você.
Ela cessou e refleti comigo mesma, falando em seguida:
— Levy, depois de escutar suas palavras eu descobri o que realmente quer: Não me ver desistir. Mas não é preciso me animar com coisas impossíveis. No entanto, tem algo de resgatável em suas palavras, eu realmente gostei do negócio da convivência.
— Você é uma garota linda Lucy, mas infelizmente não percebe isso. Não é complicado uma pessoa se apaixonar por você, com a aparência que possui.— Arrostei todo o meu corpo sobre a roupa que usava. — Seios fartos, pernas torneadas e um cabelo loiro natural. Sabe como isso é difícil hoje em dia? Muitas orariam para ter suas feições.
— Aposto que muitas delas também amariam ter uma criança tão jovem, você não acha? — Perguntei abarrotada de ironia.
— A Baby foi apenas um presente no pacote. O melhor de todos... — Respirou — Ok, nós estamos desviando do foco. Vamos, o que pretende fazer quanto ao convívio?
— Como você mesma disse, visitar lugares que ele costuma frequentar. E tenho uma noção sobre onde começar. — Murmurei pensativa, mas logo me veio um pequeno detalhe na mente. — Qualquer bebida naquela porcaria custa no mínimo todo o meu salário, o que farei para entrar?
— Onde você está pensando em ir? Não faça eu me arrepender de ter lhe dado essa ideia. — Suplicou com olhos miúdos. — Diga-me Lucy, onde?
— Fairy tail. — Pronunciei e a reportagem sobre o acidente com os irmãos de Lissana me veio à cabeça.
Eu não possuía bem uma palavra para distinguir o Fairy tail, talvez um bar para ricos? Ele possuía o mesmo nome que o avião que levara uma queda e já matara catorze pessoas, ou talvez até mais, não estava acompanhando as notícias.
O ambiente foi construído muito antes de eu nascer em homenagem as cem pessoas que morreram na mesma empresa a qual a aeronave que deixara desaparecidos Mirajane e Elfman Straus. O acidente ocorrera muitos anos atrás, e foi essa uma forma que eles encontraram para as pessoas se recordarem desses indivíduos que já não estão entre nós.
— Não! Não! Não! — Levy gritou desesperadamente. O que havia com ela? Eu estava seguindo sua sugestão. — Quando disse lugares que ele frequenta, quis dizer que talvez fosse um parque, um museu ou qualquer coisa do tipo. Não aquele bar. Você está grávida, aquele ambiente fará mal a você a minha sobrinha. Eu não permitirei que faça isso.
— Estou grávida, não morrendo. Prometo que não vou beber ou me arriscar em alguma dança louca. Eu não colocaria a vida desse serzinho em perigo. Vou lá apenas para vê-lo, talvez cheguemos até a conversar um pouco.
Ela se levantou, prostrado em frente a porta, prevendo que logo eu sairia por ali.
— Eu não vou permitir que faça isso. — Abriu os braços bloqueando completamente todo o espaço da porta. Cerrou os olhos me fitando com uma notável decepção. — Eu não achei que você pudesse fazer coisas tão idiotas Lucy, me diga o que aconteceu com seu cérebro?Foi comido por alguma galinha de fundo de quintal?
Senti uma sensação forasteira de enjôo, eu não conseguia nem imaginar a cena. Ela abaixou os olhos, obviamente arrependida.
— Desculpe. — Murmurou. — Eu me esqueço às vezes que não posso fazer mais as antigas brincadeiras. Mas ainda não retiro o que disse, só pode ter algo de errado em sua cabeça.
— Nada de mal vai acontecer, posso assegurar-lhe.
Levy suspirou, abaixando os braços cansados. Ela puxou uma respiração profunda antes de dizer:
— Tudo bem, mas eu vou com você.
*
Era cerca de sete da noite, ao menos era isso que constava o relógio do meu aparelho celular. Minha amiga azulada havia ido embora, mas ela estaria aqui amanhã às oito da noite para me acompanhar ao Fairy tail.
Desde que ela saíra não tinha visto nada além das paredes do meu quarto, eu nem mesmo a levara até a porta como fazia sempre. Minha cabeça estava pesada, cansada, eu queria dormir por um ano inteirinho.
Mas as coisas nunca seriam da forma como imaginava, constatei isso ao ouvir alguém bater na porta do meu quarto.
Esperei alguns segundo antes de resolver o que fazer.
Levantei a contra gosto, no entanto me arrependi da minha cara de irritada assim que abri a porta.
Era o homem que eu gostaria de chamar de sogro algum dia, Sr. Igneel.
— Espero não estar incomodando. — Ele estava encostado na parede contraria a do meu quarto, do outro lado do corredor. Os braços cruzados abaixo do peito. Esse movimento foi desfeito quando ele se aproximou dois passos. Ele me ofereceu um sorriso puro.
— Não, de maneira alguma. — Eu estava falando a verdade. Era algo parecido com o que sentia com o senhor que por coincidência havia visto novamente. Um calor que acalmava meu coração. Eles simplesmente me faziam bem, era algo que se pedisse eu não conseguiria explicar. Não com palavras.
— Eu gostaria que conversássemos um pouco, você está disponível? — Perguntou ansioso pela resposta.
— Pode ser. — Fechei a porta atrás de mim, não o chamaria para dentro do meu dormitório. Não era algo que uma moça de respeito faria, embora não me importasse mesmo com isso. Não conseguia ver nada de mal, mas a sociedade sim. Então preferi manter uma conversa com ele no sofá da sala, onde não correria riscos de surgir boatos maldosos.
Eu sei, que mesmo que isso parecesse pouco provável, de alguma maneira os vizinhos espiavam minha casa. Isso era possível levando em conta o quanto eles saber sobre minha vida.
Sentamo-nos, cada um em uma poltrona e ele começou a falar.
— Como vai à faculdade? Está disposta a retomar novamente aquela rotina desgastante? — Inquiriu brincalhão. Sorri.
— Eu nunca estou, mas aprecio o que curso. Encontro forças para começar todas as manhãs a partir disto. — Estava aí uma grande verdade. Não era fácil a vida de uma universitária.
— Fico muito contente. Desejava tanto que Lissana fosse como você. — Ele sussurrou confiando que eu não iria escutar suas últimas palavras. Quem sabe esperando que eu ficasse chateada com isso.
— Ela tem suas qualidades. — Disse e ele abaixou a cabeça, passando suas mãos na calça escura que vestia.
— Te admiro muito Lucy. Trabalha, cursa a faculdade. Queria eu que meu filho tivesse alguém como você em sua vida.
— Você não simpatiza muito com a noiva de Natsu, não é mesmo? — Comentei o obvio.
— Lissana não está preocupada com o futuro. Acredito que ela apenas faz faculdade por não ter algo melhor pra fazer, ela crê que terá os pais para bancá-la pelo resto da vida.
Bem, isso era algo ruim. O futuro era bem improvável, não poderíamos saber se seus pais continuariam com a mesma situação econômica. E eu imaginava como seria bom ter seu próprio dinheiro, fruto do seu esforço. Entretanto eu não me importava com o que ela fazia.
— Eu não sou um dos melhores exemplos. — Argumentei sem saber o que dizer. Na maioria das vezes eu não sabia o que fazer quando as pessoas me elogiavam, porque ele estava me elogiando de alguma maneira. Deveria agradecer?
— Não compreende, não é mesmo? Você é especial Lucy, eu quero que saiba que sempre pode contar comigo. Para tudo o que precisar. — Ele apresentava um semblante verdadeiro, humilde. Eu tinha certeza que Sr. Igneel era um homem que já enfrentou muitas barreiras em sua vida. Ele não era esnobe ou tirava bom proveito de sua condição financeira, era apenas... Normal.
— Obrigada. — Murmurei.
De relance um pensamento me veio à cabeça, sem motivos, apenas me lembrei. Isso não acontecia com frequência, mas como em todos os casos tinha suas exceções.
Max havia me informado sobre um acidente que deixara algumas sequelas em Natsu, a maior dela era seu temor por carros. Gostaria de estar mais informada sobre isso. Por outro lado eu não tinha a mínima ideia de como começar um assunto sobre isso, ou se tínhamos intimidade o suficiente para conversarmos sobre isto.
— Natsu passou por alguns momentos difíceis e talvez Lissana não seja a melhor pessoa para estar ao lado dele. — Ele parou e pareceu pensar. — Oh, me desculpe Lucy. Eu não deveria estar lhe perturbando com esse tipo de coisa. Mas eu realmente me sinto confortável falando com você.
Idem. Era algo adventício, no entanto eu me sentia como se nutrisse sentimentos por ele há tempos. Talvez nós tenhamos nascido para ser sogro e nora.
— Seria estranho se eu dissesse que me sinto igual? Não me importa que queira se abrir comigo. Pode falar sobre Natsu.
Tentei me aproveitar da sua deixa. Talvez não fosse tão impossível descobrir sobre esse fato marcante no passado dele.
— Natsu perdeu pessoas importantes para si, e isso deixou marcas que nem o tempo está conseguindo apagar. Tenho esperanças que seja possível algum dia.
— O que poderia ser...?
— Vocês estão aqui. — Mamãe murmurou contente. Ela trazia uma bandeja com biscoitos e xícaras de café. Nunca pensei que algo assim passaria por minha cabeça, mas eu desejava que ela não tivesse entrado naquele momento. Quiçá os biscoitos queimassem e ela teria que refazê-los.
Sr. Igneel sorriu para ela.
— Trouxe algo para preencher o estômago, espero que estejam preparados para um lanchinho. — Eu sabia que não tinha parado por aí. Mamãe com certeza haveria de estar escondendo algum bolo, ou alguns salgados.
Certa de que não conseguiria mais informações, desisti. Apenas por hoje. Levantei sentindo que minha conversa com ele não seguiria por muito tempo. Afastei-me dando espaço a eles.
— Vou me deitar, boa noite. — Disse e Sr. Igneel virou o rosto para mim.
— Mas já? Está tão cedo. — Mamãe compreendia melhor, provavelmente esse era mais um efeito da gravidez. Ou não. Ele olhou seu relógio, formando rugas em sua testa.
— Sim, o dia foi digamos que... Tenso.
De volta pelos corredores, comecei a ligar os pontos. Natsu não gostava de carros porque obviamente sofreu um acidente que deixou marcas muito profundas. E Sr. Igneel disse que ele perdeu pessoas importantes. Estava claro como o resultado de dois mais dois.
Ele perdeu pessoas que amava neste acidente com o veículo.
*
Olhei-me no espelho conferindo os detalhes da maquiagem. Uma memória do meu dia passou sobre minha cabeça.
O domingo não teve nada além do normal. Tive um livro grosso em mãos que falava sobre o conteúdo que estudávamos antes da greve na faculdade. Ele pertencia à biblioteca da cidade, e por mais que não tivesse beijos românticos ou amassos na chuva, admiravelmente estava gostando.
Passei cerca de duas horas estudando, antes que aquelas letras já não fizessem sentido para mim.
O dia passou mais depressa que o aguardado.
Interroguei-me sobre a aparência daquele ser loiro que eu apreciava no espelho. Tinha conseguido esconder bem minha mini-barriga estufada. O vestido era preto, curto, com um bom decote, e algo totalmente inaceitável em meus dias normais.
Deveria estar mesmo muito desesperada para chegar a tal ponto.
A viagem a até o Fairy tail não foi longa. Pegamos um taxi e foi questões de poucos minutos para que estivéssemos lá.
— Certo... — Murmurei abrindo a porta do carro. — Você pode fazer isso. — Desci com as pernas sacudindo em um tremor anormal. O nervosismo era evidente em todos os poros do meu rosto, minhas mãos estavam suadas tanto que cheguei a pensar que poderiam estar pingando.
Eu iria ver Natsu. Tinha certeza que ele vinha aqui. Era o exemplo de lugar que frequentaria.
De acordo com os boatos eu poderia entrar sem pagar, desde que minha aparência fosse agradável. Seria um tipo de suborno, entretanto não estava a fim de gastar o meu dinheiro com coisas como estas.
Não quando havia outra maneira grátis de entrar, e eu poderia estar usando esse dinheiro para comprar um berço para meu bebezinho.
Teria que enfrentar três seguranças. Procurei por eles com um olhar, não vendo ninguém que se assemelhasse a homens extremamente musculosos vestidos de preto.
Caminhamos até a entrada pequena, e eu pude ouvir um som vindo de lá de dentro. Música agitada tocava.
Encarei aquele trio de criaturas a minha frente e finalmente entendi quando vi seus crachás pendurados por uma cordinha dourada no pescoço.
O primeiro homem era mais baixo que seus companheiros, no entanto não deixava de ser robusto.
Ele direcionou sua visão para mim, avaliando-me atentamente. Seu olhar vasculhava todo o meu corpo. Em certo momento seus olhos se fixaram em minhas pernas desnudas e ele lançou um olhar que dizia querer me devorar. Entretanto não fez isso, ergueu seu olhar para cima ficando sério novamente. Deu um passo para o lado abrindo passagem. Eu não tinha coragem de olhar para trás e ver Levy tendo que passar pelos olhos investigativos do primeiro rapaz.
O segundo homem que se passava por segurança, não era muito diferente do primitivo. Apenas tinha uma face mais relaxada. Como se houvesse acabado de receber a notícia de que ganhara o emprego que estava à espera por todo ano. Ele levou um pé para trás do outro, e estendeu uma mão indicando o caminho.
Finalmente o terceiro varão.
Esse possuía um olhar divertido, e até um pouco atrevido. Pediu que eu me aproximasse fazendo um sinal com dois dedos.
Assim fiz.
Estendeu uma mão e depositou na minha cintura. Seu agarro foi determinado, como um macho querendo marcar território.
— Preciso avaliar se a carne é verdadeira. — Riu provocativo.
— Seus colegas fizeram isso muito bem sem nenhum contato. — Rebati e ele riu. Afastou nossos corpos e abriu a porta para que eu pudesse entrar.
Antes de adentrar virei-me para ver Levy indo para as mãos do segundo homem, ela mordia o lábio inferior e tinha um olhar petulante no rosto. Desde que continuasse assim não teria problemas, estava cheia de graça a sua maneira.
Tentei não fazer uma varredura no local, esperando minha amiga. Mas não pude evitar caçar brevemente.
Vi Natsu sentado no balcão conversando com alguns rapazes. Todos eles muito charmosos.
Ele se virou para trás, e talvez por um toque do destino seu olhar encontrou o meu. Seus olhos se arregalaram, e por mais que eu dissesse para mim mesma que deveria desviar o olhar não conseguia.
Por fim soltou uma palavra incompreensível para o momento virando-se para frente novamente. Um de seus amigos me encarou soltando um sorrisinho malicioso.
Eu me perdi, e em meio a todo aquele alvoroço de música alta e pessoas dançando, nada mais importava, a não ser aquele ser de cabelos róseos.
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