Nove Meses

11 11 — Chuva


Notas iniciais
Hey, Peço desculpa pela atraso, viciei-me em "the originals", e estou atolada de trabalhos,tarefas, e para melhorar minha vida amanhã tenho duas provas. :( Quero agradecer ao Happy Wave que recomendou a fic. Muito Obrigada! Fiquei muito feliz :) Boa leitura!

Não sabia se estava preocupada ou aliviada. Um peso muito grande saiu de minhas costas, seria tudo completamente diferente agora. Poderia conversar com ela sobre minhas dúvidas, meus medos, sobre minha criança. Eu estava trilhando o caminho certo daquela encruzilhada, tudo indicava que agora as coisas entrariam nos eixos.

— Vocês estão vivas? — Sting gritou lá de fora. Mamãe riu enxugando suas lágrimas, fazendo o mesmo com as minhas.

— Não queremos que o seu irmão perceba nada ainda, não é mesmo? — Assenti. — Precisaremos de muito cuidado para conversar com ele e seu pai. Não se preocupe Lucy, eu te ajudarei. Nós duas falaremos em casa, te ampararei sempre que for preciso minha filha. Essa criança é uma dádiva. — Ela me abraçou pelos ombros, tirando de dentro da sua pequena bolsa de palha um lenço para que eu enxugasse a boca e também o rosto.

Quando saímos encontrei um olhar atento do meu irmão. Ele me revistava de cima a baixo.

— O que foi? Porque saiu correndo daquela maneira? Está com disenteria? — Riu da piadinha besta. Mamãe o acompanhou.

— Sting, seu idiota! — Briguei. Agradeci por não falar nada sobre meus olhos avermelhados, qualquer pergunta agora faria-me derramar rios.

Em todo o curso de volta para casa, mamãe não se desgrudou de mim. Meu corpo estava tenso, o que aconteceria quando chegássemos? Ela me entendia, mas eu estava certa que papai e Sting não teriam uma reação semelhante a sua.

Eles iriam me matar. Na verdade primeiro fariam isso com Natsu, e o pior é que ele não saberia nem mesmo o motivo de estar sendo morto.

— Não se preocupe. — Sussurrou em meu ouvido. Ela sorria maravilhada, descendo os olhos para minha barriga. Sua mão que rodeava minha cintura estava pousada ali, de leve.

— O que há? Querem se fundir? — Perguntou olhando-nos com as duas sobrancelhas arqueadas. Eu e a loira mais velha estávamos mais agarradas do que nunca, e se não nos afastássemos um pouco, provavelmente isso aconteceria.

— Sting... — Ela puxou-o pelo braço, pegando também em sua cintura. — Não fique com ciúmes meu querido, mamãe abraça você também. — Ele fez uma careta, emburrado, tirando as mãos dela da sua cintura.

— Mãe, olha o mico. — Alertou, e ela começou a rir escandalosamente. Sting passou a assobiar e em passos rápidos cruzou para o outro lado da rua. Devagarzinho corremos até ele, puxando-o pelos braços. Andávamos nós três de mãos grudadas, algumas pessoas olhava-nos pelos cantos dos olhos, provavelmente achavam que não éramos normais. Desta vez eu pouco me importei, não havia nada melhor que ficar com a família.

Dez minutos depois estávamos em casa, mamãe em um sussurro breve disse-me para seguir para seu quarto. Eu obedeci prontamente. Ela ficou conversando com Sting enquanto ajudava ele a passar uma camiseta que usaria para não sei o quê.

Deitada sobre sua cama de casal, apenas meu corpo ocupava-a toda. Estava de braços e pernas abertos sobre ela e com uma coberta dobrada que amparava minha cabeça. Cada barulho que ouvia no quarto levantava-me rapidamente pensando ser minha genitora, para me decepcionar vendo que não era nada. Logo descobri que esses ruídos eram frutos da minha ansiedade.

Minhas mãos suavam e meu corpo clamava por alimento.

— Lucy... — Ela apareceu depois de quase me fazer morder as unhas. — Pegue, eu trouxe para você beber. — Deu-me um copo com suco natural de laranja. O líquido alaranjado desceu rapidamente pela garganta.

— Obrigada mama. — Não conseguia encará-la nos olhos, talvez fosse pela vergonha que estava sentindo. Não vergonha de meu filho, mas da situação em que estávamos.

— Minha filha, que olhinhos são esses? — Ela sentou-se sobre a cama dobrando as pernas, pondo-as para o lado esquerdo.

— Eu queria ter lhe contado antes, mas não tive coragem. — Levei o copo até o criado-mudo ao lado de sua cama. — Eu fiquei com muito medo. Medo da sua reação, do que pensaria de mim, se continuaria me amando com a mesma intensidade. A senhora e papai sempre nos deram os melhores ensinamentos, fizeram e ainda fazem tudo por nós. Eu não queria dar-lhes este desgosto.

Funguei, segurando as lágrimas. Eu estava muito sentimental, e odiava isto.

— Eu sei que o correto seria terminar a faculdade, tornar-me independente, para depois pensar em filhos. Mas aconteceu mamãe, não é sempre o correto faz parte de nossas vidas.

Peguei suas mãos e fechei-a nas minhas.

— E mesmo sabendo o que é certo, eu não consigo ver minha criança como um erro. Eu a amo tanto, só quero protegê-la. Quero estar com ela por todos os meus dias, vê-la falar sua primeira palavra, e dar seus primeiros passos. Quero levar-lhe na escola, dizer para não comer doce antes do jantar. Ajudá-la arrancar seus dentes de leite, e fazer as atividades de matemática.

Meus olhos arderam e cerrei os lábios.

— Eu sei que sou nova e que vai ser difícil. Sei que temos uma longa jornada pela frente, e que nem sempre teremos de enfrentar apenas flores. Mas eu consigo mamãe. Consigo pelo meu bebê.

Subi meus olhos para o seus, vendo ela com água nos seus brilhantes acastanhados. Pouco a pouco o líquido cristalino passou a descer por seu rosto.

Para minha surpresa ela começou a falar.

— Eu engravidei de Sting tinha dezessete anos, era ainda mais jovem que você. Eu sei o que está passando, te entendo melhor que ninguém. — Um sorriso brotou em seu rosto. — Não tenha medo Lucy, nenhuma pessoa pode te julgar. Nenhum ser humano tem esse poder, ele pertence apenas a Deus.

Mamãe respirou fundo.

— Vai ser complicado. A sociedade dificilmente aceita o que julga não estar dentro de seus padrões. — Ela depositou sua mão sobre minha barriga. — As pessoas ferem, machucam uma as outras com palavras. Atos desnecessários. Elas se sentem superior em humilhar o próximo. — Seus dedos navegaram pelo meu ventre. — Mas não se esqueça que tem amigos, e principalmente uma mãe que lutará por você, assim como deve fazer por seu bebê.

Deixou minha barriga e pegou outra vez minhas mãos.

— Esta noite Lucy, eu e você conversaremos com seu pai. Ajudarei-te a contar, e conversarei com ele sozinha se for preciso. Vamos esperar mais um pouco para falar com Sting, seu irmão é estourado e não da pra saber qual será sua reação. Embora eu ache que quanto mais adiarmos, nós estaremos apenas dificultando o nosso trabalho. Contudo, eu concordo que devemos ter certeza do momento certo.

— Eles me enterrarão viva mãe... — Murmurei chorosa. O desespero duplicava de tamanho no meu peito.

— Estamos nos referindo ao seu pai e seu irmão, e não a dois assassinos. Somos sua família minha filha, independente do que faça nós ficaremos sempre ao seu lado.

Após suas últimas palavras não consegui mais segurar as lágrimas. Eu era uma chorona, sabia disso. Principalmente nesses dias que minhas emoções estavam desreguladas, ora estava feliz e na outra lacrimejando como se fosse encher uma represa.

Ela respirou profundamente enchendo seus pulmões de ar.

— Vou lhe fazer uma pergunta e preciso que me responda com sinceridade. Sua resposta é fundamental. Diga-me apenas um nome, querida. — Meus olhos se fecharam ao ouvir a pergunta que tanto queria evitar: — Quem é o pai de seu filho?

Abaixei a cabeça entre suas pernas chorando compulsivamente. Chorei, chorei e chorei. Eu sufocava gritos que queriam sair a todo custo. Como dizer isso a ela?

Mordi o lábio inferior.

— Do filho do patrão mamãe, eu estou grávida de Natsu Dragneel. — Seu corpo se enrijeceu, ela não estava tendo uma reação agradável a minha resposta.

— Natsu Dragneel? — Repetiu para ter certeza. Afirmei ligeiramente, ainda com o rosto colado em seu colo. — Como isso aconteceu Lucy? O que ele disse quando contou a ele? Vai assumir a paternidade deste filho? — Mamãe perguntou. Notei como falava mais alto. Você... O ama? — Terminou com um fio de voz.

— Ele não sabe. — Deixei escapar junto com um grito. Soluços amargurados saiam de meus lábios. — Eu o amo mãe, amo muito.

Por cerca de cinco minutos, apenas o som do meu choro predominou.

— E porque você não disse a ele? Natsu tem responsabilidades com esse bebê. — Falou um pouco alto demais.

— Ele não sabe mamãe. Estava bêbado quando tudo aconteceu, confundiu-me com a sua noiva.

— Oh meu Deus! — Ela pareceu finalmente compreender o tamanho de meu sofrimento. Levantei meu rosto e vi a mão direita apoiando sua cabeça, enquanto segurava um semblante que conseguia ser ao mesmo tempo entristecido e raivoso. Ela havia entendido a situação. Ao contrario dela que teve papai ao seu lado o tempo todo, para o que precisasse, apoiando-a, eu estava sozinha. Não tinha o homem que ajudou a gerar a minha criança comigo. — Quando você pretende contar a ele? — Indagou baixinho.

— Eu não sei se algum dia eu poderei contar. Ele está prestes a formar uma família, como eu me sentiria destruindo um lar? Trazendo problemas para ele e a noiva?

— E não importa você estar destruindo o seu coração, Lucy? — Perguntou entre dentes. — O sofrimento que você carrega... Esse peso, isso não importa? Deve contar a ele o mais rápido que puder. — Ordenou.

— Não. Por favor, não me peça isso! — Pedi desalentada. — Eu vou saber quando devo revelar a verdade a ele. Não me pressione.

— E quando será, Lucy? — Em meio aquele turbilhão de lágrimas eu quis rir. Não era um riso que estivesse ligado a alegria, estava mais para uma forma de tentar evitar que mais lágrimas caíssem. Eu não tinha resposta para sua pergunta, jamais saberia quando seria o momento certo. Talvez ele nunca chegasse.

— Eu não vou te pressionar, estou apenas lhe aconselhando. Mesmo que, quando aconteceu, Natsu não estivesse completamente lúcido, ele é o pai do seu filho e nada poderá mudar isso. Se você não contar, vai privar seu bebê de conhecer o pai. E vai privar ele também de conhecer o filho.

Ela fechou os olhos, massageando as pálpebras. Eu tentava me colocar em seu lugar também, não era fácil para uma mãe ver a única filha engravidar aos dezoito anos.

— Se por ventura um casal de jovens tem que enfrentar a difícil tarefa de cuidar de um bebê, eles encontrariam pela frente muitas dificuldades. Entretanto eles estariam em dois, um sendo o amparo do outro. Agora Lucy, para uma garota cuidar sozinha de uma criança, imagine como deve ser. Não estou dizendo que é impossível, mas saiba que tudo será ainda mais difícil. É por isso que estarei sempre aqui, eu serei seu parceiro, serei seu amparo. Se Natsu não estiver presente no crescimento desta criança, eu te ajudarei a educá-la minha querida.

Eu sabia que tinha muita sorte, imaginava quantas outras garotas não teriam alguém para apará-las nesse momento tão delicado.

— Obrigada mãe... Obrigada por ser tão boa comigo. — Afagou-me o rosto. Ela se levantou, recompondo-se.

— Você deve estar curiosa para saber quando descobri sobre sua gravidez, não é mesmo? — Afirmei. Fiquei tão abalada com nossa conversa que havia me esquecido.

— Eu descobri há um tempinho — Ela pegou sobre a cômoda debaixo se alguns livros, o pacote que continha o meu exame de sangue dentro. — Mas só vim ter a certeza a menos de vinte e quatro horas.

— Como?

— Eu desconfiava Lucy. Você saiu de dentro de mim, acha que eu não notaria? Não eram normais esses enjôos, essas mudanças de humor. Também já vejo diferença no seu corpo, embora sejam pequenas. Conheço-te melhor que ninguém, minha pequena.

Ela me entregou o exame.

— Levei um susto quando vi aquelas roupinhas de bebê, por isso o escândalo. Você sabe que eu não sou de fazer esse tipo de coisa. Vê-las ali, fez com que muitas de minhas dúvidas se esvaíssem e outras surgissem.

Mamãe sentou novamente na cama, desta vez na pontinha do móvel.

— Fiquei entre a cruz e a espada. Por mais que tudo indicasse que minhas suspeitas estavam certas, eu não sei, eu ainda tinha imprecisões. Você é a minha menina Lucy, tem dezoito anos, agora que entrou para a faculdade. Sempre foi tão sensata, adora ler livros. Uma gravidez nesse momento parecia algo impossível se tratando de você.

— Mas foi o que aconteceu. — Discorri chateada. No fundo eu havia lhe desapontado.

— Eu fiquei confusa, mas também muito feliz, às vezes até me pegava sorrindo para as paredes. Não queria tocar no assunto, pois você saberia quando fazê-lo. Estava disposta há esperar o tempo que fosse preciso Lucy, e olha que para meu espanto você veio falar disto hoje, no banheiro da praça.

Ajeitou sua saia, que pelo mau jeito havia subido um pouco.

— Tenho tanto orgulho de você, em como soube lidar bem com esse assunto. Quantas outras jovens não teriam pensado em abortar?! — Falou, com um fisionomia pesarosa.

Aborto... Não! Jamais passou pela minha cabeça abortar o meu bebê. Eu o amava tanto, porque pensaria em algo assim? Eu não entendia o motivo de haver mães que faziam isto. É algo horrendo, tirar uma vida, sangue do seu sangue.

— Jamais!

— Eu sei Lucy, não estou dizendo que faria. Você tem sentimentos de mãe. Estou querendo dizer que muitas jovens, e até mulheres mais velhas fazem isso. Algumas por opção outras não, o mundo é formado de coisas boas e maléficas. Nós mesmos temos esses dois lados dentro de nós, devemos apenas permitir que um deles se sobressaia. E eu sei qual foi sua escolha.

Ela me abraçou pelos ombros, e eu sabia que nossa conversa havia acabado ali. No fim tudo ocorreu bem, mamãe havia me compreendido. Restava-me apenas esperar o mesmo de papai esta noite.

— Espero que já esteja pensando em abandonar o emprego. — Avisou em meu ouvido.

Suspirei. Sim, eu já estava.

*

Meus dias eram formados por desafios, e agora eu tinha mais um pequenino: Como chegar a residência de Igneel? Era ridículo, disso eu sabia. Pedir para Sting me levar estava fora de questão, ele estava muito abalado e eu preferia que ele ficasse longe da moto e de qualquer outro automóvel.

Meu irmão não era aquele tipo de cara que faria loucuras por uma mulher, mas sendo sua irmã sabia que Yukino significava muito. Além de que, ele não a esqueceria com apenas uma noite, tinha certeza que esse seria um processo de longos e intermináveis meses.

Minha melhor opção era pegar um ônibus, no entanto para minha decepção o último havia passado em exatamente meia hora. Eu também não cogitava ir andando.

Pela janela do meu quarto avistei a bicicleta vermelha, ela ainda deveria andar. Olhei as horas, era quase uma da tarde. O tempo continuava nublado e por isso estava receosa ao fato de ter que lavar os cabelos. Decidi que deveria mesmo fazer, já que eles estavam necessitados.

Lavei-os na pia do banheiro, aproveitando para escovar os dentes. Achei o secador dentro da gaveta de peças íntimas. Veio-me a cabeça uma curiosidade: Como mamãe achou o exame? Eu havia guardado ali no fundo, escondido pelos pequenos panos. Possivelmente deve tê-lo encontrado ao vir guardar algo. Como fazia de costume.

Sequei os cabelos fazendo alguns cachos no final.

A bicicleta estava imunda, deveria ter ficado encostada naquela parede por meses. Havia até mesmo me esquecido da sua existência.

Foram longos instantes pedalando, algumas vezes eu optava por descer e ir andando. Cheguei à casa do patrão em quarenta minutos.

— Olá, Purehito. — Cumprimentei o velho vigia.

— Lucy? O que faz aqui hoje menina? Não me diga que veio trabalhar. — Ele se apoiou no enorme portão.

— Não! — Tratei logo de esclarecer a realidade para ele — Vim buscar meu aparelho celular, esqueci-o ontem aqui.

— Só você mesmo. — Riu, abrindo o portão para que eu pudesse entrar.

Se não estivesse enganada, meu celular haveria de estar no quartinho dos mantimentos. Eu o havia tirado do bolso pela última vez lá.

Achei-o sobre uma das bancadas, no meio de dois pacotes de arroz. Peguei o objeto guardando bem desta vez.

Já não tinha nada para fazer ali, fechei a porta saindo logo em seguida daquela casa. Eu não queria de maneira alguma me deparar com Yukiko, apesar de ser pouco provável que ela viesse à cozinha.

Próxima ao portão vi uma cena me fez paralisar. Happy estava preso entre os braços de Purehito, unhando-o. O homem de idade tentava de todas as maneiras afastar o gatinho de si, ao mesmo tempo em que insistia em segurá-lo.

— Ei, o que está havendo? — Gritei chamando a atenção do homem.

— Esse gato idiota. — Ele gritou de volta. Foi muito rápido, e em um momento de descuido, o felino pulou de seus braços. Seu destino era as ruas, ele passava sem nenhuma preocupação.

Sai correndo atrás dele, preocupada. Happy poderia a qualquer momento ser atropelado por um carro. Aquele gato era muito imbecil.

Gritei com ele, e fique com vontade fazer o mesmo comigo. Poderia morrer de tanto me esgoelar, e ainda assim o gatinho não me daria atenção. O felino estava se mostrando ser muito levado.

Segui-o pelas ruas o mais rápido que podia. Minhas pernas começaram a protestar e fui obrigada a diminuir a velocidade.

Avistei Happy de longe, ele pulava sobre as bancas de jornal fazendo uma algazarra enorme. O vendedor tacou-lhe o resto da fruta que comia.

Segurei o riso.

Continuei acelerando o quanto era possível, respeitando os limites do meu corpo.

Ele se distanciava cada vez mais, indo para longe. Observei que já estávamos distantes da casa do senhor Dragneel. Bem distante.

Happy parou de supetão, e não demorou que eu o alcançasse.

— Você finalmente cessou. — Comentei pegando-o no colo. — Gatinho arteiro, não faça mais isso. — Briguei pouco me importando com o fato de que talvez ele não me entendesse, embora às vezes eu me pegasse pensando nessa questão. As pessoas vivem dizendo que os animais não são capazes de compreender o ser humano, mas será mesmo que não? Minha relação com Happy era tão especial, que eu chegava a pensar que sim, ele me entendia perfeitamente. — Deveria lhe dar uns sopapos.

O pequeno miou, lambendo o corpo.

Parei para o olhar a nossa volta, estávamos em frente a um restaurante, justamente na entrada. O senhor e a senhora da mesa mais próxima que ficava pouco além da portaria, nos encarava atentos.

O gatinho em meus braços soltou mais uma vez um miado, e não demorei a descobrir o motivo. Se minhas vistas não tivessem me traindo, o casal de idosos comiam um peixe suculento.

— Posso lhe contar um segredinho? — Sai andando calmamente, distanciando-me daquele mini-restaurante. — Lá na casa do seu dono, há um monte de peixe na geladeira. Posso fazer um para você, o que acha? — Olhei para os lados vendo se ninguém me ouvia. Certamente se alguém me assistisse acharia que eu era louca por conversar com um gato. — Só não fuja mais assim. Eu sei que não gosta muito da Lissana, e eu também não. Mas ela está passando por uma situação difícil, tente ser amigável. Natsu vai precisar muito de você agora, amiguinho. Ele não pode ficar correndo atrás de você por aí. Tem que se comportar Happy.

Aconcheguei-o melhor em meus braços. Sentia um afeto tão grande por esse animalzinho.

— Ah... Não! — Disse ao ver os primeiros pingos atingirem meu cabelo. — Agora não! — Choraminguei. Passei a andar depressa, quase correndo.

O chuvisco se intensificou, açoitando minha pele. Os pingos fortes eram cada vez mais frequentes.

— Isso tudo por sua causa. — Ralhei com o gato.

À medida que avançávamos a chuva se intensificava, em poucos segundos eu estava completamente encharcada.

— Happy, eu não vou lhe dar o peixe! — Ele se contraiu em meus braços, tentando se esquivar dos pingos que também o perturbava.

Olhei para os lados a procura de algum lugar em que pudéssemos nos esconder. Não tinha nada. As pessoas evaporaram, via-se uma ou outra com um guarda chuva, entretanto já estavam afastados de nós.

Diminui a velocidade dos passos, encarando em desespero as ruas desertas ao meu lado.

Um relâmpago cruzou o céu, e soltei acidentalmente um grito de espanto. O estralo também não agradou a Happy, que unhou o meu braço.

Uma buzina soou alto atrás de mim, olhei para trás para me deparar com um carro prateado. Ele parou ao meu lado e a porta traseira foi aberta para mim.

Fiquei com receio de entrar e molhar o banco, eu iria ficar muito constrangida se algo assim acontecesse.

Entrei fechando a porta em seguida. Max olhava para mim, preocupado. Meus olhos se direcionaram para o garoto que estava ao seu lado.

— O que está fazendo no meio da rua, nessa chuva? — Perguntou o motorista.

— Vim atrás de Happy. — Mostrei o gatinho a ele. Natsu também passou a encará-lo com atenção. — Ele saiu disparado pelas ruas, fiquei preocupada e fui atrás dele. Acabou que nos distanciamos muito.

— Isso tudo por um gato? Você é maluca. — Ele riu voltando a dirigir. Não notou o olhar mortal do rosado.

Desviei minha atenção para o jovem que pegava algo do seu lado no banco. Soltei Happy de meus braços e ele se aconchegou no banco, mais calmo.

Algo leve pousou em meu colo. Levantei o olhar a tempo de ver Natsu jogando uma coberta pequena em sobre minhas pernas.

Ele me encarou nos olhos, antes de dizer:

— Considere com um agradecimento por ter salvado meu gato.

Eu iria vociferar para ele que não precisava da sua piedade, mas não foi isso que eu encontrei em seu olhar. Ele estava mesmo agradecido.

Enrolei-me no veludo sentindo-me aquentada. Encostei as costas no banco deixando minha cabeça tombar para trás. Suspirei cansada.

Natsu esticou seus braços para pegar o gatinho, vendo que ele não alcançaria levei o felino até ele. Happy estava mansinho e se aconchegou no colo quentinho do jovem homem.

Notas finais
O que acharam? Espero que tenham gostado.