Novamente
1 PRÓLOGO DO FRACASSO
O sofrimento mais profundo abre espaço para a mais profunda alegria.
Mas a noite em Manaus abria portas apenas para o arrependimento. O céu era um cobertor grosso de fumaça e calor, impregnado pelo cheiro agridoce de lixo queimado, suor vencido e alguma coisa em decomposição — talvez um gato morto no bueiro da esquina, ou apenas um sonho esquecido.
Luan estava afundado num banco enferrujado, isolado entre o mato alto e o concreto rachado de uma praça no Centro. Suas mãos tremiam compulsivamente, esfregando a pele encardida na tentativa inútil de apagar a si mesmo. Os olhos vermelhos e inchados encaravam o chão, rezando para que a terra o engolisse. Não havia ninguém ali. Só o mundo, enorme, feio e indiferente, e ele, pequeno e descartável.
Trinta e um anos... jogados no lixo, pensou.
Um arame invisível apertava sua garganta. O peito queimava. Ele havia fracassado como homem. Como filho. Como tudo. Ele perdeu a família, o respeito, o dinheiro e as amizades. Perdeu até a própria fé.
A última vez que ouviu a voz do pai, as palavras vieram entrelaçadas num grito rasgado de frustração: — Olha pra mim, Luan! Eu tô cansado! Cansado de me fuder trabalhando pra te ajudar. Eu já tô velho! Tu acha que a vida vai esperar tua coragem chegar? Tu é só mais um covarde que estragou tudo o que botaram na tua mão. Tudo! Quantas vezes eu te falei? Se não tem forças, pede pra Deus. Corre atrás! Luta! Mas o que tu fez?... Olha pros teus irmãos. A gente nunca pediu nada demais pra ti.
A mãe, dias depois, murmurou com a voz oca de quem já não tinha mais lágrimas: — A gente falhou com ele... ou foi ele que escolheu se perder? Eu cansei de orar e pedir pra Deus livrar. Deus só liberta quem quer ser liberto.
Eles estavam certos. Eles morreram num acidente de avião meses depois. E a culpa não foi do clima ou de uma falha mecânica inevitável. A culpa foi do cartão de crédito estourado de Luan. Para salvar a própria fatura e economizar trezentos reais, ele comprou as passagens da companhia mais barata e sucateada que encontrou. Ele assinou a sentença de morte dos pais para economizar um dinheiro que gastaria com lixo dias depois.
Nunca mais teve que ouvir aquelas tentativas fracassadas de correção.
Luan deu um suspiro rasgado. Os olhos ardiam. Levantou-se devagar, os próprios ossos protestando contra o movimento. As vozes, as memórias e o ódio de si mesmo gritavam tão alto dentro do seu crânio que ele se desligou do mundo externo.
Ele não ouviu o motor. Não ouviu o zunido. Apenas o som agudo de pneu derrapando no asfalto. Um grito desesperado do motorista.
E o impacto.
O asfalto subiu. O ar sumiu dos pulmões. Uma dor excruciante rasgou a lateral do seu corpo. Luan caiu duro, a visão girando. Quando tentou se mover, viu o próprio braço e a perna virados num ângulo antinatural. O osso branco rasgava a pele, ensopado de sangue escuro. O motorista desceu do carro, o rosto paralisado em puro terror e culpa, mas a visão de Luan já estava escurecendo.
Era a segunda maior dor de sua vida. Mas, ironicamente, enquanto o sangue escorria para a sarjeta, ele percebeu que não queria morrer. O corpo lutava, mesmo com a alma já apodrecida.
Me perdoem. Eu deveria ter dito que amo—
Silêncio.
Não havia barulho. Nem buzina. Nem dor. Nem peso.
Apenas uma luz branca, crua e antinatural, que escorria por um campo seco. A grama era alta, morta nas pontas. O céu era de um azul estático, como plástico barato. Sem nuvens. Sem vento. Sem tempo.
Luan abriu os olhos. Estava de pé, mas não lembrava de ter se erguido. O seu corpo estava intacto.
Ao longe, uma figura vinha caminhando na sua direção.
Conforme a silhueta se aproximava, o estômago de Luan despencou. A sensação era a de encarar um espelho que cuspia verdades, não reflexos. Era ele mesmo. Aos treze anos. Magro, com a pele limpa, o olhar aceso e inocente... um corpo ainda intacto pelas tragédias da vida.
— Que porra é essa? — Luan murmurou, recuando um passo, encolhendo-se instintivamente.
O garoto sorriu. Um sorriso torto. Frio. Cruel.
— Relaxa, fracasso... Sou só você. Só que com um pouco mais de coragem — a voz infantil carregava um deboche demoníaco. — Ou talvez... o que você devia ter sido, se não fosse tão patético.
Luan olhou em volta, o peito subindo e descendo rápido. Queria correr, mas a insanidade daquele lugar pregava os seus pés ao chão. — Onde eu tô? Isso aqui é o quê? Inferno? Punição?
O garoto ignorou a pergunta. Deu mais um passo, encurtando a distância. Os olhos dele brilhavam com uma luz corrosiva, velha demais para um rosto tão jovem.
— O inferno é o lugar onde o homem que você é, conhece o homem que poderia ter sido — o garoto ditou, cada palavra soando como um martelo. — Sem segundas chances. Sem ninguém do seu lado. Somente o arrependimento te atormentando pela eternidade.
Luan estremeceu. Era exatamente isso. Ele estava olhando para o que perdeu. O próprio reflexo o destruía por dentro.
O garoto se aproximou ainda mais, inclinando a cabeça. O sorriso sumiu. — Me ouve. E presta atenção. Tinha um pássaro chamado Cedro. Ele não era o mais rápido, nem o mais bonito, nem o mais forte. Mas ele tinha algo que muitos invejavam: um ninho. Uma família. Asas que se abriam para cobrir o frio dele. Mas Cedro só via o que não tinha. Queria voar mais alto. Ter a plumagem mais brilhante. Sempre mais.
A voz do menino ecoava no campo morto. — E por isso... ele saiu do ninho. Abandonou quem o amava. Passou anos tentando ser alguém. Se perdeu em voos que não levaram a lugar nenhum. E quando caiu, ferido, ele tentou voltar. Só que já era tarde demais. O vento levou tudo. A árvore secou. A mãe morreu. E o ninho, que era o lugar mais seguro do mundo, agora só tinha espinhos. Cedro passou o resto da vida ciscando entre os mortos, achando que um dia poderia reconstruir o que jogou fora. Mas o tempo não perdoa tolos que não mudam.
Luan começou a tremer. Ele não conseguia respirar. Ele era o Cedro.
O rosto do garoto se tornou uma máscara de pedra. — E aí, Luan... — o menino disse, agora a centímetros do rosto do adulto. — Se eu te desse uma segunda chance... tu teria coragem de fazer tudo diferente? Ou ia se sabotar de novo?
Imagens inundaram o cérebro de Luan como ácido: O pai com olhos de desprezo. A mãe chorando no sofá. A demissão. O clique do mouse comprando as passagens de avião mais baratas. Os irmãos no velório com os caixões fechados, olhando para Luan como se ele fosse o verdadeiro cadáver ali.
— Quem é você? — Luan ofegou, a voz quebrando. Ajoelhou-se na grama morta, derrotado. — Deus? O demônio? E se eu fracassar de novo?
O garoto olhou para ele de cima para baixo. O desprezo era absoluto.
— Cala a boca. Perguntas, perguntas... Encontre você a resposta. Vai fracassar? Então assuma a porra da responsabilidade. Fracasse tentando. Mas dessa vez... sem mentir pra ti mesmo. Sem se esconder atrás de desculpa. Faça diferente.
O céu de plástico escureceu de uma vez só. A grama virou cinzas. O chão sob os joelhos de Luan se abriu, e ele começou a cair no escuro absoluto. Enquanto tudo derretia, uma última frase ecoou na sua mente, cravando-se na sua alma para sempre:
Dessa vez... vê se não vive como um covarde.
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