Novamente

2 CONSEQUÊNCIAS


Notas iniciais
Talvez você fique com raiva do prota, mas será breve...

Manaus, 2036.

Luan voltou da escuridão rasgando a garganta, como quem é puxado pelos cabelos debaixo d’água.

O corpo não obedecia. As mãos formigavam brutalmente. O maxilar estava travado com tanta força que os dentes estalavam. Um zumbido fino, elétrico, perfurava seus tímpanos. O coração socava a base do pescoço, e a visão estreitou até sobrar apenas um túnel escuro. Suor frio. Falta de ar. Ele ficou paralisado no colchão, os dedos cravados no lençol encardido, tentando contar a própria respiração e falhando.

O quarto só entrou em foco depois de longos e agonizantes segundos.

— Porra… foi só um sonho…? — a voz saiu fraca, rouca de não uso.

Ele olhou para o próprio braço. Estava inteiro. A perna não tinha ossos expostos. Não havia sangue. Mas, no fundo do cérebro, a dor do impacto do asfalto ainda latejava, como uma amputação fantasma.

O ventilador torto no canto do quarto rangia, mas o ar não parecia se mover. Manchas de mofo negro formavam mapas no teto. O colchão estava ensopado de suor nas costas. Luan sentou-se devagar. O estômago deu um solavanco, vazio e ácido. O corpo inteiro continuava em estado de alerta máximo, os músculos contraídos esperando um golpe que não vinha.

O sonho não o soltava. O pneu cantando. O sangue no asfalto. Aquele campo de grama morta e céu de plástico. O garoto de treze anos com o sorriso cruel. A fábula do Cedro... Tudo estava nítido demais. Gravado como ferro quente na parte de trás dos olhos.

"Dessa vez… vê se não vive como um covarde."

A frase atravessou sua cabeça com a nitidez de alguém sussurrando dentro da orelha. Luan apertou o rosto com as duas mãos, cavando os dedos no couro cabeludo, tentando espremer o pânico para fora do crânio. Ficou assim até o tremor diminuir.

Levantou. As pernas pareciam feitas de chumbo.

Abriu a geladeira. Um bafo azedo e morno atingiu seu rosto. A luz amarela piscou. Havia um copo d’água pela metade, uma cebola murcha soltando raízes brancas e um tomate tomado por fungos. Nada além. Ele pegou o copo, bebeu a água em um gole só. Desceu rasgando, mas não tinha gosto de nada. Fechou a porta devagar.

Caminhou até a janela. O Centro de Manaus rugia o seu caos diário. Painéis digitais piscavam na esquina avisando: Qualidade do ar: RUIM. Racionamento de água às 19h. Dois drones de vigilância do comitê municipal cruzaram a rua no nível dos postes, a luz azul piscando, repetindo a mensagem metálica de “coleta e ordem”. Ônibus velhos vomitavam fumaça preta no céu cinza. Um carro de som anunciava cortes de energia no bairro vizinho.

A rua parecia normal. Mas, para Luan, o mundo estava apagado. Era como olhar para uma televisão com o contraste no mínimo. Sobrava apenas o cinza.

Eu tô vivo por milagre… pensou, apoiando a testa no vidro sujo da janela. Mas não adianta porra nenhuma. Eu matei meus pais por trezentos reais. Não tem desculpa.

O eco da demissão invadiu a mente dele, uma humilhação reprisada em loop.

A sala gelada. O cheiro de café expresso caro e carpete limpo. O ex-chefe atrás do notebook, a postura reta, o olhar de quem encara um inseto no para-brisa. — Vendi os três — Luan havia dito na época, a voz carregada de uma esperança patética. — Dez mil cada um. — E? — E… a comissão? O chefe suspirou, finalmente erguendo os olhos da tela. — Comissão? A sua experiência de três meses acabou, Luan. Você não serve pra gente. Sinceramente, se eu encontrar alguém pior que você no mercado, eu te ligo. Você não tem ambição, não tem lábia, não tem postura. — Eu trouxe os clientes. Eu negociei, expliquei as configurações... — Você atendeu quem já ia fechar — o chefe o interrompeu, a voz neutra e letal. — Os sorrisos que eles te deram foram de pena. Você não tem o nível da empresa. Foi um milagre não terem cancelado a compra depois de olhar pra você. Eu não quero alguém sem ambição na minha equipe. Eu não ligo se a sua família morreu. Aqui, o lucro não tem luto.

O chefe empurrou uma folha impressa pelo tampo de vidro da mesa. — Você não é registrado. Comissão é pra quem tem futuro. Assina o termo de não-processo e vaza da minha sala.

E Luan assinou. Entregou a dignidade por medo de não conseguir pagar o aluguel no dia seguinte, aluguel que, de qualquer forma, estava atrasado agora.

No presente, ele encarou o próprio reflexo no vidro da janela: a barba rala e falhada, a pele sem cor, olheiras fundas como hematomas. Os olhos opacos de quem já havia morrido antes de parar de respirar.

— Onde foi que eu errei? — murmurou para o vidro.

A resposta veio seca, ecoando não no quarto, mas dentro da própria cabeça: Você foi fraco.

Cedeu ao que era fácil. Ignorou conselhos. Sabotou o ninho. Agora devia trinta mil reais. Serasa. Banco. O agiota do bairro. E a fome, uma garra física apertando o estômago.

Vestiu uma camisa amassada do chão e desceu as escadas do prédio. A rua o atingiu com uma parede de calor sólido e cheiro de peixe cru, fritura velha e diesel. Começou a andar em direção ao mercadinho.

A cada passo, o asfalto parecia ceder um milímetro a mais que o normal. E então, a voz do garoto do campo de grama morta voltou, vibrando nos ossos do crânio: "O inferno é o lugar onde o homem que você é, conhece o homem que poderia ter sido."

Ele acelerou o passo, fechando os olhos por um segundo, tentando fugir do próprio cérebro.

Mercadinho do Naldo. Três clientes encostados no balcão de fórmica, um menino sujo escolhendo bala. A TV de tubo presa na parede passava notícias de racionamento. Naldo limpou a mão no avental encardido, a caneta Bic presa na orelha, e olhou para Luan. O olhar de Naldo não tinha raiva. Tinha pena e fastio.

— Naldo… quebra essa pra mim? — Luan apoiou os cotovelos no balcão, a voz baixa para não ser ouvido pelos outros. — Dois pães, um leite e um café pequeno. Te pago sexta. Tô procurando trabalho.

Naldo suspirou, sem pressa. — Tu ficou devendo quinhentos reais da última vez, Luan. E da última vez, tu também disse "sexta". — Eu pago. Eu tô correndo atrás, juro por Deus. — Promessa não enche prateleira — Naldo respondeu, a voz plana. — Aqui é simples: quem não paga, perde a palavra. Quem perde a palavra, perde a vergonha. Hoje, não. Quando tu trouxer dinheiro de verdade, eu separo o pão pra ti.

Uma risadinha curta e escarnecedora veio de trás da ilha do freezer, de um dos clientes que ouvia a conversa. O som bateu no rosto de Luan como um tapa. O sangue subiu, o rosto queimou. Fome, raiva e uma vergonha absolutamente indescritível se misturaram na garganta.

— Tá. Desculpa aí — Luan recuou, quebrado.

Virou as costas. Quando pisou na calçada, quase trombou com um morador de rua. O homem usava um boné desbotado do Flamengo e roupas rasgadas, mas segurava duas marmitas de isopor. Uma delas ainda estava lacrada, o plástico suado pelo calor da comida.

Luan reconheceu o rosto sob a sujeira. Dois anos atrás, quando ainda tinha dinheiro da recisão de um emprego antigo e um pingo de esperança, Luan havia levado aquele exato homem e mais dois para almoçar picanha num restaurante. Pagou corte de cabelo, deu roupas de brechó. A vida rodou, e agora o abismo havia engolido Luan.

— Ei, irmão… — a voz do homem veio calma, rasposa. Ele estendeu a marmita lacrada. — Come isso. Eu já comi a minha. Essa aqui sobra pra ti.

Luan parou. Um. Dois. Três segundos. O cheiro de feijão quente e arroz invadiu as narinas dele. A fome urrou no estômago, uma dor aguda e animalesca. A mão direita dele tremeu, quase se erguendo para pegar o isopor.

Mas ele travou. O orgulho, aquela casca podre que restou do seu ego, falou mais alto que a sobrevivência. Aceitar comida da rua era a admissão final de que ele não era mais um homem. Era um vira-lata.

— Tá de sacanagem, né? — a voz de Luan saiu venenosa, uma defesa desesperada. — Fica com a tua sobra. Enfia essa merda no cu e some da minha frente.

Ele bateu no ombro do morador de rua e acelerou o passo, fugindo. Não olhou para trás. O homem ficou parado na calçada, a mão estendida no ar, a marmita brilhando sob o sol cinza.

Assim que virou a esquina, o arrependimento o atingiu como um soco no fígado. Me perdoa... pensou, os olhos marejando de raiva. Se eu aceitasse, tu ia comer o quê à noite? No fim das contas, debaixo dessa sujeira, tu é mais limpo e honrado do que eu jamais fui, a medi calote no naldo…até roubei uma bolacha dele, sou lamentável cara…

Luan engoliu a bile e continuou andando. No meio do quarteirão, parou perto de um muro pichado. Havia um saco de lixo preto rasgado por cachorros. Um cheiro azedo de chorume subia dali. Restos de arroz misturados com terra, uma casca de banana preta, um osso de frango roído.

Ele olhou para a rua vazia. Agachou devagar. As mãos tremiam quando ele abriu a fenda no plástico com dois dedos, olhando para o osso sujo. Ficou ali um segundo a mais do que a dignidade permitiria. O instinto animal brigando com o resto de humanidade. Ele soltou o plástico.

— Eu não quero morrer como um covarde... — sussurrou para o lixo, a voz embargada. — Mas como caralhos eu vivo? É impossível... eu tô afundado.

O desespero começou a desenhar soluções macabras na mente dele. Traficar. Me vender pra algum doente. Meter golpe na internet. Tem gente que tem muito mais do que deveria, roubar deles não seria pecado...

A lembrança da mãe cortou o pensamento pela raiz: "Tudo o que você planta, você colhe, meu filho." Ele plantou a arrogância no passado. Plantou a negligência naquelas passagens de avião. E o universo estava servindo a colheita no lixo da esquina. A vida era justa até demais.

Luan levantou, zonzo, e voltou para o prédio sem olhar para os lados.

Subiu os lances de escada tropeçando nos próprios pés. Quando entrou no quarto, o ventilador ainda girava no mesmo compasso inútil. O ar não resfriava. A água no estômago parecia chumbo. Ele havia chegado ao limite absoluto da corda. Não era só a fome. Era a constatação de que a sua alma já estava apodrecendo dentro de um corpo que teimava em bater o coração.

Soltou um grito cego e furioso, girou o tronco e cravou o punho direito na parede de alvenaria. O som seco do osso do nó do dedo trincando ecoou pelo quarto.

Uma dor aguda e elétrica subiu até o cotovelo.

No mesmo instante, um estrondo veio do outro lado da parede. — Vai quebrar a casa inteira mesmo, zebuceta?! — o vizinho berrou, a voz abafada. — Vai se fuder! Cuida da tua vida! — Luan gritou de volta, os dentes trincados, segurando a mão machucada contra o peito.

Ele encostou as costas na parede e escorregou até sentar no chão. Arfava. A dor nos nós dos dedos latejava em sincronia com o coração. Mas, bizarramente, aquela dor aguda serviu como âncora. Fez ele sentir que a carne ainda era real.

Eu não tenho dinheiro. Não tenho família. Não tenho honra, ele pensou, olhando para o sangue escorrendo pelos nós dos dedos trincados. A única porra que me sobrou no mundo é a capacidade de aguentar a dor sem morrer.

O mundo lá fora seguia em preto e branco.