Novamente
3 LOOP INFINITO
Notas iniciais
Manaus, 2036. Dia seguinte.
Luan acordou com a cabeça afundada, como se alguém tivesse trocado o ar do quarto por chumbo. O ouvido esquerdo chiava em uma frequência fina e constante. O coração batia curto, apressado e sem firmeza, o músculo falhando.
Ele tentou levantar devagar. A visão fechou pelas bordas em um túnel escuro e abriu de novo, atrasada. Foi então que a confirmação o atingiu, fria e absoluta.
Não era apenas uma sensação de tristeza. Não era uma metáfora. O mundo havia literalmente perdido a cor.
Luan ergueu as mãos trêmulas na altura do rosto. As veias sob a pele não eram azuis nem esverdeadas; eram traços de grafite puro rasgando uma carne da cor de cimento úmido. O ventilador torto não era azul-marinho, era um bloco de carvão desbotado. O Sol que tentava invadir a janela não trazia amarelo ou calor, apenas um branco cego e estéril. A realidade estava desaturada, como se aquele universo fosse um rascunho esquecido, um esboço que Deus desistiu de pintar.
Fui até a cozinha arrastando os pés, tropeçando no próprio peso. Olhei o que tinha: o absoluto nada. Prateleira limpa. Sem arroz, sem feijão. No armário, um pacote rasgado com uma bolacha inteira e duas metades. No fundo da geladeira, um tomate tomado por fungos e uma cebola enraizada.
A fome já não era uma dor; era um buraco negro sugando seus órgãos. Raspei o que parecia "comível" do tomate. Entornei na boca. O corpo rejeitou na mesma fração de segundo. Engoli a bolacha seca, forçando as metades garganta abaixo. O gosto era de pó de gesso e mofo. A garganta arranhou.
Dois segundos depois, o estômago virou com violência.
Vomitei no tanque. O ar queimou a garganta, rasgando as cordas vocais. Tentei segurar o resto com a mão, apenas piorando a sujeira. E o que mais o apavorou não foi o cheiro ácido, mas a cor. O vômito não tinha tons de bile amarela ou vermelho de sangue. Era uma gosma cinza, um asfalto líquido e nojento. Ele estava apodrecendo em preto e branco.
Apoiei a testa no azulejo gelado. Pensei em ir para a rua pedir esmola, só para não morrer de inanição. Pensei nas minhas "qualificações": técnico em informática, edição de vídeo, noções de marketing. E, mesmo assim, a verdade subiu mais azeda que o vômito. Nunca fui especialista em nada. Sempre quis aprender tudo no modo medíocre, desleixado.
Voltei para o quarto me arrastando. Sentei na beirada do colchão, o peito arfando. A ideia veio limpa: Acaba. Sem discurso. Sem espetáculo. Eu não tinha mais energia para consertar o inquebrável.
A mão escorregou para o bolso, procurando o celular. Eu já havia desistido, mas, ao tocar na tela rachada, a luz branca acendeu. E lá estava aquele rosto que eu evitava no espelho: o meu. Olheira funda, barba torta, olhar morto. O capitão afundando com o Titanic da própria vida.
Abri o Google Fotos. O aplicativo jogou na cara aquele algoritmo sádico de lembranças: "Há 20 anos".
Entrei no álbum. Verão de 2016. Aquelas fotos eram a única coisa no universo inteiro que ainda parecia ter cor dentro da minha mente. Foto 1: Eu, Mateus e Lais comendo meu bolo de aniversário. Simples, feito de chocolate e amor maternal na cozinha apertada. Não existia "primeiro pedaço", porque éramos um organismo só. Uma família. Foto 2: Minha mãe rindo, o cabelo preso numa piranha de plástico, segurando uma panela. Foto 3: Meu pai me jogando para cima quando eu era criança, os braços estendidos esperando para me segurar no ar, o rosto dele gritando algo que a minha alma lembrava, mas os meus ouvidos haviam esquecido.
A garganta fechou num nó duro. O peito foi esmagado de fora para dentro. A mão estremeceu, o braço inteiro sofreu um espasmo pela desnutrição. O chiado no ouvido virou um apito. Eu estava pronto para deixar meu corpo desligar... mas por causa de três malditos arquivos digitais de poucos kilobytes, a lembrança me impediu de aceitar o fim pacificamente.
Respirei errado. Hiperventilei. As mãos começaram a fechar sozinhas em formato de garra — tetania. Formigamento violento no lábio, nariz dormente. Tentei contar a respiração. Quatro para entrar, seis para sair. A cabeça esvaziava, mas meu instinto mais primitivo ganhou corpo.
— Não. — A palavra rasgou a garganta seca.
Abri a porta e desci a escada cambaleando para sentir a rua. O sol bateu como um flash fotográfico, cegante, mas sem calor. Um drone municipal flutuou baixo, recitando a mensagem metálica de racionamento. Todo o mundo com suas dificuldades, mas seguindo em frente. Exceto eu.
O Corvus 36 virou a esquina. Preto, baixo, ronco limpo. No volante estava o Gabriel — colega de escola, o moleque que me emprestava caderno quando eu faltava. O carro parou no sinal. Gabriel olhou para a calçada por um segundo. Ele passou os olhos por mim, quase não me reconheceu. Quando reconheceu a carcaça encardida no qual eu havia me transformado, abriu a boca num misto de choque e repulsa.
Alguém buzinou atrás dele. Gabriel acelerou e sumiu. Doeu. Não porque ele estava bem, mas porque o olhar dele confirmou o que eu já sabia: eu não existia mais. Eu era um fantasma.
Voltei para o quarto. Fechei a porta e sentei no chão. O coração batia em pressa curta e inútil. A cabeça imersa numa névoa densa. A culpa inteira sentou do meu lado no quarto: pai, mãe, Mateus, Lais, o homem da marmita, o dono do mercadinho.
O cheiro do meu próprio vômito viajou do tanque e entrou no quarto como um predador invisível.
O estômago revirou, mas não havia nada. O corpo respondeu com o vazio: o sangue desceu das extremidades, a pressão despencou para o zero. Tentei ficar de pé, mas os joelhos cederam.
Caí com o rosto direto no piso áspero, o impacto seco estalando o osso da maçã do rosto. Não tive reflexo para amortecer. Um novo jato de vômito seco me fez engasgar no chão. O azedo queimando a mucosa do nariz.
O sangue desceu devagar pelo canto da boca cortada, misturando-se à saliva ácida, espalhando um brilho viscoso — e cinza — no piso. O corte ardeu. Na periferia da minha visão estreita, surgiram pontos negros. Pequenos, hesitantes, movendo-se no ar viciado.
Eles se multiplicaram. Um. Dois. Cinco. Um enxame silencioso. Demorei a perceber que saíam das frestas do rodapé. Baratas. As antenas tateando o chão freneticamente, patas finas produzindo um atrito asqueroso contra o piso. E, assim como tudo naquele quarto, elas não eram marrons; eram insetos cor de asfalto num purgatório esquecido.
— Mãe… Pai… Me desculpem… — murmurei para o rodapé sujo, a voz sumindo num soluço sem ar, lágrimas frias escorrendo para a poça de saliva.
Os insetos avançaram. Primeiro no resto de vômito seco, um círculo vivo e repulsivo se alimentando da minha ruína. Depois, a primeira subiu pelo meu antebraço imóvel. Atravessou os pelos colados de suor frio e chegou ao meu ombro. Senti cada pata. Uma sequência de agulhadas frias, incontáveis. O tempo perdeu o significado. Podia ser um minuto, podia ser a eternidade. Eu não tinha força para espantá-las.
Eu não queria desistir… Eu só… não consigo mais…
Uma antena espinhosa tocou o canto do meu lábio cortado. Entrou milímetros, tateou o sangue, recuou e voltou a explorar o meu rosto. Eu apenas deixei.
A respiração tornou-se rasa. Quase inexistente. O ventilador continuava rangendo, alheio. O que ficou no passado estava perdido, e o que eu julgava importante, eu mesmo havia matado. O mundo fechava as portas.
Luan fechou os olhos. A dor física sumiu, substituída pela anestesia terminal da falência múltipla de órgãos.
O coração dele, exausto de bombear sangue para um corpo sem alma, falhou pela penúltima vez. Depois, a última. Silêncio absoluto. As baratas continuaram o trabalho delas, consumindo o que a vida deixou para trás.
O quarto que testemunhara noites intermináveis de fracasso e covardia se tornava agora sua tumba monocromática. A escuridão final o engoliu com a precisão de uma guilhotina, acompanhada pelo sussurro rasgado da Sombra que sempre habitou o fundo do seu crânio:
"Você falhou."
Era o fim. Mas, enquanto o nada absoluto tentava dissolver sua consciência, a matemática do universo quebrou.
Algo extremamente violento e onírico invadiu a morte. Não era a Sombra do Luan de 31 anos. Era uma força vital bruta, primitiva, subindo pelo nervo óptico como choque elétrico.
"As suas decisões te trouxeram até aqui," uma voz diferente no vácuo. Não era sarcástica. Era afiada, jovem e carregada de uma fúria insana. "Mas as suas decisões não vão me levar junto. Nunca foi isso que eu quis pra minha vida."
Luan reconheceu a frequência daquela fúria imediatamente. Era ele mesmo. Mas não a carcaça covarde e endividada. Era a versão de si mesmo forjada antes do mundo corrompê-lo. Aos treze anos. Puro, inocente, mas com uma raiva implacável de sobrevivência. Aquele mesmo moleque que ele viu no campo de grama morta do primeiro sonho.
— Não… — a alma de Luan rugiu de volta contra a morte.
Naquele exato milissegundo, Alguma engrenagem oculta girou. O espaço-tempo engoliu a própria existência. Essa existência miserável deixou de existir, para sempre
Um estalo cósmico ensurdecedor quebrou o universo. O cinza implodiu.
Fale com o autor