Novamente

4 O PESO DA COR


No princípio, Deus criou os céus e a terra; no meu princípio, não havia céu nem chão.

Um peso cravado no meu ombro me mantinha imóvel enquanto a escuridão tentava me engolir inteiro. A "terra" do meu corpo era sem forma e vazia; Luan, dissolvido em águas profundas, boiava num abismo com o próprio nome. Sem dor. Sem prazer. Apenas a ausência total.

De repente, uma pressão gelada agarrou meu ombro como dedos de ferro afundando na pele. Meu coração disparou no escuro enquanto eu tentava me virar, encontrando apenas uma figura sombria, indefinida, com olhos fundos que brilhavam com uma crueldade doente.

Antes que eu pudesse gritar, uma voz rastejou nos meus ouvidos, carregada de uma frieza familiar: — Não adianta fugir agora. Tu sempre soube que acabaria assim. Sempre fudeu tudo, desde moleque. Foi engraçado te ver todos esses anos sendo exatamente o fracasso que esperavam...

Um terror visceral invadiu meus ossos. Tentei me libertar, mas garras invisíveis me mantinham pregado à escuridão sufocante. Sons distantes começaram a ressoar — inicialmente chiados fracos de estática, depois ganhando força até se transformarem na voz distorcida de um locutor de rádio: — ...Ele não resistiu aos ferimentos e morreu!...

Cada palavra me atravessou como uma lança afiada. Uma náusea violenta subiu pela garganta enquanto o cheiro metálico de sangue e óleo queimado de motor se misturava ao suor frio que escorria pela minha testa. Lutei para me mexer, mas meu corpo parecia feito de concreto. Essa é a sensação de morrer? Pensei, lutando contra o pânico absoluto. Sonho maldito... eu pensei que ainda poderia mudar algo. Ridículo...

Manaus, 2017.

O ar entrou nos pulmões com a violência de um vidro estilhaçado.

Luan arqueou as costas no colchão, os olhos arregalados, as mãos voando instintivamente para a própria garganta. Ele tentou tossir o vômito ácido. Tentou arrancar as baratas fantasmas que ainda sentia subindo pelo pescoço. Seus dedos cravaram na pele, mas não encontraram insetos. Encontraram apenas carne seca e quente.

Ele rolou para o lado e despencou da cama, o ombro batendo com força no piso de cerâmica fria. O impacto roubou o pouco oxigênio que ele havia engolido. Ficou de joelhos, arfando como um animal abatido, o suor frio escorrendo pela ponta do nariz.

O coração não batia fraco como nos seus últimos momentos de consciência. Socava as costelas como um motor desregulado, bombeando sangue com uma força que quase doía. O pânico cego, ansioso e desorientado dominava sua mente de trinta e um anos. Eu morri. Eu tenho certeza de que meu coração parou. Onde eu tô? Que inferno é esse agora?

Ele piscou, tentando forçar a visão. Tudo estava embaçado, coberto por um véu espesso de cinza. O quarto não tinha nitidez, os móveis eram apenas sombras de grafite. O terror o paralisou. O teto não tinha rachaduras e o ventilador não era o mesmo daquele quarto imundo, mas a ausência absurda de cor o fez acreditar que ainda estava preso no escuro. A mente girava em falso, incapaz de entender o que os olhos tentavam mostrar.

Mas então, um som o atingiu. Não era o silêncio esterilizado da morte. Era o caos agressivo da vida. O barulho de uma moto cortando giro numa rua de asfalto desgastado lá fora. O som metálico de panelas batendo na cozinha. Um cachorro latindo no quintal vizinho. O cheiro denso e inconfundível de café passado na hora, misturado com a umidade da manhã de Manaus, invadiu suas narinas.

Ainda de joelhos, ele ergueu as mãos, tremendo violentamente. A visão embaçada em tons de cinza revelou algo impossível. Não eram as mãos ossudas de um homem adulto quebrado. Eram mãos pequenas, lisas, sem calos. O corpo de um garoto.

— O asfalto... não... a passagem... — um sussurro rasgado e confuso ecoou no fundo do crânio de Luan. Era a sua própria voz, mais velha, distante. Parecia trêmula, como alguém tentando desesperadamente processar uma realidade onde o sangue não havia sido derramado.

Antes que Luan pudesse entrar em colapso tentando entender que delírio macabro era aquele, passos pesados e familiares ecoaram no corredor. A maçaneta girou. A porta abriu.

A luz do corredor invadiu o quarto cinza. E, no batente da porta, estava a silhueta de um homem. Camisa de firma levemente amassada, o cabelo começando a rarear, os ombros de quem sustenta uma casa inteira com o suor do próprio rosto.

Seu Raimundo. O pai dele. Inteiro. Sem nenhum arranhão do acidente aéreo. Respirando. Forte e saudavel.

E foi nesse exato milissegundo que a dor atingiu os olhos de Luan. Um formigamento agudo rasgou seus nervos ópticos. O choque de ver aquele homem pareceu estraçalhar a névoa que prendia sua mente. O cinza que cobria a visão de Luan trincou como vidro. A camisa do pai não era um tom de sombra; era de um azul-marinho tão profundo que machucava. A luz do sol que entrava pela fresta da janela bateu na retina não como branco, mas como um amarelo tão vivo, tão absurdamente saturado, que pareceu queimar a pupila.

Luan soltou um grunhido rasgado e apertou os olhos com as mãos, lágrimas escorrendo instantaneamente. Quando ele abriu de novo, a cor não estava apenas presente; ela pesava. Ela confirmava que o mundo era real.

Seu Raimundo estava vivo.

Luan parou de respirar. Toda a muralha de defesa, todo o cinismo, o peso esmagador de ter assinado a sentença de morte daquele homem no futuro... tudo desabou de uma vez só, deixando apenas um desespero infantil. Isso é uma ilusão. Uma punição da minha própria cabeça.

— Luan? — a voz de Seu Raimundo soou grave, mas carregada de um susto imediato. A toalha de rosto que ele segurava caiu no ombro. A feição cansada do trabalhador sumiu, dando lugar a um alerta puro e paterno.

O moleque estava de joelhos no chão, pálido como cera, tremendo incontrolavelmente, com o rosto banhado em lágrimas e suor, olhando para ele como se estivesse vendo uma assombração.

— Filho, o que foi?! — Seu Raimundo deu um passo largo e apressado para dentro do quarto. — Tá passando mal? Se machucou caindo da cama?

Luan quis falar. Quis dizer me perdoa, a culpa foi minha. Quis gritar que eles não deveriam entrar naquele avião no futuro. Mas a garganta fechou. A confusão e o medo o estrangulavam. Ele não era um adulto calculista; era um filho que havia acabado de recuperar o mundo inteiro.

Ele não respondeu. Apenas agiu com o instinto mais primitivo que lhe restava.

Luan se jogou para frente, agarrando a cintura do pai com uma força desesperada. Ele afundou o rosto no tecido áspero da camisa azul, sentindo o calor do corpo, ouvindo o coração bater rápido no peito de Seu Raimundo. Os dedos de Luan se cravaram no tecido, se segurando como se a sua própria alma dependesse daquilo.

Um soluço feio, gutural e rasgado, impossível de ser contido, escapou de sua garganta. Ele chorou. Um choro de desespero cego, de um luto gigantesco que estava sendo revertido, e de um terror profundo de que, a qualquer segundo, aquele homem fosse sumir.

Seu Raimundo não hesitou. O instinto de pai engoliu qualquer confusão. Ele se ajoelhou no piso frio da cerâmica e puxou o filho para um abraço de urso, envolvendo o corpo pequeno e trêmulo do garoto com seus braços largos e quentes. A mão grossa e calejada afagou a cabeça de Luan, apertando-o contra o peito com uma força protetora.

— Calma... Ei, o pai tá aqui. — Seu Raimundo falou perto do ouvido dele, a voz assumindo aquele tom de âncora, firme e carinhoso, que Luan não ouvia há quase duas décadas. — Calma, filho. Respira. Foi só um pesadelo ruim. Passou.

Pesadelo, Luan pensou, esmagando o rosto contra o peito do pai, inalando fundo o cheiro de sabonete barato e afeto que definia o porto seguro da sua infância.

A morte. O vazio absoluto. Seu Raimundo não fazia ideia. O mundo inteiro não fazia ideia. Luan não conseguia entender como, por quê, ou se estava ficando louco. Mas a maciez daquele abraço, o calor daquela mão na sua nuca e as cores ardendo nos seus olhos provavam uma única coisa: ele estava ali. No passado. E Seu Raimundo o estava segurando.

— É... — Luan finalmente conseguiu balbuciar, a voz abafada contra o peito do pai e quebrada pela emoção. Ele agarrou a mentira com todas as forças. — Foi só um pesadelo, pai.

Seu Raimundo suspirou pesado, aliviado, continuando a afagar os cabelos dele com cuidado. Beijou o topo da cabeça do filho antes de afastar Luan apenas o suficiente para olhar nos olhos avermelhados do garoto. — Acabou. O pai tá aqui. Vai lavar esse rosto que a tua mãe tá terminando o café e o teu irmão já tá comendo. Anda, se não tu atrasa pra escola.

Luan continuou agarrado a ele por mais três longos segundos, apertando o abraço com os olhos fechados, gravando aquela textura na própria alma, antes de soltar devagar. O coração de Seu Raimundo batia forte. Ele estava ali. Eles estavam todos ali.

Enquanto Seu Raimundo se levantava e saía do quarto, a luz amarela do Sol continuava a queimar as paredes com a intensidade da vida. A sua nova vida havia começado num silêncio confuso e barulhento ao mesmo tempo. E Luan, tremendo dos pés à cabeça, ainda de joelhos no chão, limpou as lágrimas com as costas das mãos pequenas.

Se essa merda não for um sonho... ele jurou em sussurro para o quarto vazio, o peito apertado de medo, mas os olhos cravados na porta por onde o pai havia saído. Eu... eu não vou cometer os mesmos erros. Novamente.