Novamente

5 ENTRE MEMÓRIAS E CICATRIZES


Após sair do quarto e deixar meu pai para trás, me arrastei até o pequeno banheiro no corredor. O chão de cerâmica gasta estava gelado contra a sola dos meus pés descalços, um choque térmico bem-vindo contra a febre de ansiedade que cozinhava meus pensamentos. Eu precisava de uma prova visual de que estava realmente vivo, de que não era apenas um fantasma vagando pelos destroços de um tempo que já havia acabado. Mesmo sentindo que, de alguma forma, uma grande parte de mim continuava apodrecendo naquele quarto escuro com as baratas.

O espelho desgastado da pia, com manchas escuras de umidade oxidando as bordas, me devolveu um rosto que eu havia esquecido há quase duas décadas. Treze anos. Os olhos claros demais, brilhando com um pânico que não pertencia a uma criança. A pele lisa demais, desprovida da barba falhada e das marcas de acne mal curada que viriam depois. Tudo parecia frágil, apertado e tão absurdamente quebrável.

Passei a mão trêmula pelo rosto e pelo pescoço, tateando a ausência das rugas de estresse na testa. Procurei, instintivamente, a pequena cicatriz no queixo que eu ganharia aos vinte anos numa briga de bar que nem sequer era minha. Não estava lá. O peso que meus ombros de trinta e um anos costumavam carregar — as dívidas, o Serasa, o fracasso profissional crônico — havia sumido fisicamente, mas estava alojado na base do meu crânio, denso como urânio.

— Tu vai falhar de novo.

A voz sombria cortou o silêncio do banheiro como uma navalha enferrujada. Não foi um sussurro distante ou uma intuição; foi uma verdade fria, cruel e quase palpável sendo despejada direto no canal do meu ouvido. Sua textura era de vidro quebrado esfregando no osso. Sentir a própria voz ecoar dentro do crânio, mas distorcida e carregada de tanto desprezo, era extremamente perturbador... mas por que soava tão íntimo? Era a voz do homem que morreu no asfalto? Ou era algo mais antigo, algo que sempre esteve à espreita, apenas esperando eu fraquejar?

O cheiro de café recém-passado, aquele café forte de mercado peneirado no coador de pano, subiu pelas narinas, misturado ao chiado agressivo da fritura vindo da cozinha. Meu peito se contraiu num espasmo. A sensação crônica de asfixia, que me acompanhou desde o despertar, estava finalmente cedendo. Era como se alguém tivesse, enfim, cortado a corda de náilon amarrada aos meus pulmões. Respirar estava ficando suportável, embora o ar de Manaus às seis da manhã já prometesse o calor úmido e asfixiante do resto do dia.

Ao fundo, a voz rouca e nostálgica do locutor Valdecir Correia ecoava pela pequena rádio de pilha em cima da geladeira, intercalando notícias locais sobre o trânsito travado na Avenida Constantino Nery com sucessos de 2017. Uma trilha sonora banal, doméstica, mas que me transportou direto para memórias que eu havia afogado em álcool barato e autopiedade no meu tempo original.

Saí do banheiro pisando no piso vermelho encerado, gasto nas partes onde minha mãe costumava ficar em pé por horas a fio. O chão refletia a luz fraca e amarelada da manhã que entrava pela basculante. Sentia a cada passo que, na verdade, eu estava caminhando sobre o túmulo da minha própria vida passada. O corredor parecia um túnel do tempo claustrofóbico.

Cheguei à porta da cozinha e travei. O ar sumiu dos meus pulmões de novo, esmagado pelo nó na minha garganta.

Lá dentro, minha mãe, Jesuíta, estava de costas pro fogão, fritando bolinhos de trigo. O avental surrado amarrado na cintura, o cabelo preso de qualquer jeito para não pegar cheiro de óleo. Mas ela não estava sozinha. A mesa de vidro retangular da cozinha respirava a exaustão da nossa realidade. Era um quadro cru de uma família de classe baixa lutando contra a maré.

Mateus, com seus vinte e dois anos, estava sentado de mau jeito. Ele vestia a farda de almoxarifado amassada, o cotovelo apoiado na mesa, esfregando o rosto com uma mão enquanto usava a outra para rolar a tela trincada do celular. Ele encarava o aplicativo do banco com uma expressão de derrota silenciosa, calculando como esticaria o saLaiso até o fim do mês.

Do outro lado da mesa, Lais, com dezessete anos, engolia o café preto com uma pressa quase agressiva. Ela já estava com a blusa branca do colégio municipal, calçando um tênis gasto no calcanhar enquanto tentava prender o cabelo num rabo de cavalo. ela estava pronta para enfrentar o inferno da escola pública de manhã e o subemprego abusivo à tarde, tudo no mesmo dia.

Quando Mateus levantou o rosto pesado de sono, os olhos vermelhos cruzando com os meus, meu cérebro deu um curto-circuito violento. A realidade tremeu e se rasgou no meio.

Por um segundo aterrorizante, a física do lugar colapsou. Eu não vi meu irmão encostado na mesa de plástico da cozinha de casa. A visão piscou e me jogou, com a força de um soco no estômago, direto para o cemitério São João Batista, em 2036.

O chiado da fritura e o cheiro de bolinho frito desapareceram. O ar fedeu a terra revirada, lama e flores mortas. A luz suave do sol manauara virou uma chuva cinzenta e pesada que batia impiedosamente na madeira envernizada dos dois caixões fechados do meu pai e da minha mãe. E, do outro lado da cova aberta, cercados por guardas-chuvas pretos, Mateus e Lais me encaravam.

Não havia lágrimas no rosto deles naquele dia no futuro. O luto havia sido engolido por algo muito pior. Havia apenas ódio. Um olhar assassino, gélido, definitivo, de quem sabia que o caçula inútil da família — o adulto irresponsável que neglicenciava a própria vida — tinha matado os pais para economizar trezentos malditos reais em passagens aéreas. O olhar deles dizia: Você deveria estar lá dentro no lugar deles.

Minhas mãos começaram a tremer incontrolavelmente. Senti o gosto ácido de vomito subir rasgando pela garganta. Apoiei a mão no batente da porta para não cair de joelhos.

— Tá moscando aí na porta por quê, pirralho? Viu visagem, é? — a voz de Mateus quebrou a alucinação. Era arrastada pelo cansaço do trabalho duro, mas carregava aquele tom provocativo e protetor de irmão mais velho.

Pisquei rápido, ofegante. O cemitério sumiu como fumaça. A chuva parou. A cozinha quente e com cheiro de café voltou. Ele não me odiava. A Lais não me odiava. Ainda não. Eu ainda não havia destruído nada…

— Deixa o moleque, Mateus. Deve tá dormindo em pé ainda — Lais murmurou, jogando o caderno amassado dentro da mochila desbotada no chão, o zíper quebrado tilintando. — Senta logo, Luan. Tu vai perder a hora do colégio.

Jesuíta se virou, secando as mãos num pano de prato. O sorriso que ela me deu era pequeno, exausto pela rotina ingrata de dona de casa, mas inegavelmente real. O escudo impenetrável que ela guardava só para nós, para nos proteger da miséria lá de fora. Minha garganta fechou com tanta força que doeu fisicamente. O peso de ver aquela mulher inteira, respirando, sorrindo para mim, era quase insuportável.

— Cuida, come rápido senão tu vai se atrasar. O café tá saindo agora — ela disse, apontando a escumadeira suja de óleo para a cadeira de plástico vazia ao lado de Mateus.

Me sentei devagar, o coração martelando contra a caixa torácica como um prisioneiro tentando fugir. Observei cada movimento deles — a forma como Mateus bebia o café, como Lais conferia a passagem de ônibus no bolso — como se fosse a última vez que veria aquilo. E, no fundo, o medo me dizia que talvez fosse.

— Vai mesmo acreditar que isso é real? Que a tua vida de bosta merece uma segunda chance? O universo não recicla lixo, Luan. Tu só tá adiando o abate. — a voz sombria sussurrou de novo, rastejando pela minha espinha e envenenando o ambiente familiar.

Cala a porra da boca! CALA A PORRA DA BOCA! — resmunguei em pensamento, apertando os olhos com força, cravando as unhas nas palmas das mãos escondidas debaixo da mesa. O falar daquela voz dojenta me dava calafrios porque eu sabia que, em parte, ela era feita dos meus próprios medos.

Quando abri os olhos novamente, minha mãe estava colocando o prato com os bolinhos na mesa. O vapor subiu no ar quente, carregando o cheiro aconchegante de óleo reutilizado, farinha de trigo e açúcar. Uma comida pobre, pesada, mas feita com um amor silencioso. Por um segundo…um maldito segundo de paz, eu consegui afrouxar os ombros e fingir que era só um menino de treze anos assustado, tomando café com a família antes da escola.

— Tá com uma cara estranha, Luan... chorou, foi? — Minha mãe inclinou a cabeça, os olhos escuros apertando. O radar de preocupação operava na frequência máxima. Ela não deixava passar nada.

— Tô tranquilo, mãe. Só tô... — Engoli a seco, sentindo a saliva grossa. Como dizer para aquela mulher exausta que eu carregava o luto de dezoito anos de ruína numa espinha infantil? Como olhar na cara dela e dizer que eu a matei numa linha temporal diferente? — Tive um pesadelo ruim só. Parecia muito real.

Ela se aproximou em silêncio e tocou a base do meu pescoço. A mão dela era áspera de sabão em pó, água sanitária e anos de trabalho não remunerado, mas o toque me desarmou por completo. Precisei morder o interior da bochecha, forte o suficiente até sentir o gosto de ferro do próprio sangue, para não desabar no choro ali mesmo, na frente deles.

— Pesadelo nada, ta é pensando nos boletos e nas contas né? Riu de forma leve e natural — falou, afagando meus cabelos de forma rude antes de voltar para a pia cheia de louça. O carinho dela nunca vinha de graça; vinha sempre enrolado numa lição de sobrevivência.

Levei a xícara aos lábios. O café estava forte, amargo e absurdamente doce ao mesmo tempo.

Olhei para Mateus, que agora ria de um áudio no grupo do WhatsApp da firma, a tela do celular iluminando o rosto cansado. As memórias cruéis do que o futuro faria com ele bateram no meu peito como um soco.

Lembrei de um dia específico, no auge dos meus problemas adolescentes. Voltei da escola caminhando pelo sol do meio-dia, com a farda rasgada, o lábio sangrando e o olho roxo fechado. Um moleque mais velho do bairro vizinho tinha me encurralado. Mateus tinha seus vinte e três na época. Ele estava jogado na sala, de folga, exausto após fazer hora extra a semana inteira. Mas quando me viu entrar naquele estado, a exaustão dele evaporou.

O rosto dele não assumiu aquela raiva explosiva de "filme de ação". Foi pior. Ficou pálido, tenso, rígido como uma rocha. A mandíbula travou.

— Mano... o que foi isso? Quem fez essa fita contigo, Luan? — a voz dele saiu assustadoramente baixa, controlada, tremendo de uma fúria fria.