Novamente
6 ENTRE MEMÓRIAS E CICATRIZES PT 2
— Foi nada, Mateus. Caí da bicicleta lá na ladeira.
— Bicicleta não deixa soco na costela. Olha pra mim, moleque. Eu não vou perguntar duas vezes. Quem foi o arrombado?
— Deixa pra lá, mano. O cara é maior que eu, anda com uns moleques pesados da rua de baixo...
Mateus tinha levantado do sofá num sobressalto, derrubando o controle da TV no chão. Pegou a chave da velha CG 150 em cima da estante e segurou a parte de trás do meu pescoço com uma força que me assustou.
— Luan, escuta aqui e escuta bem. Tu é meu sangue. Se qualquer filho da puta relar um dedo torto em ti de novo, eu juro por Deus... eu juro que eu acho o maluco e quebro a cara dele no meio-fio até ele esquecer o próprio nome. E eu não tô nem aí se a polícia vier me buscar depois, ou se eu perder meu emprego amanhã de manhã. Foda-se a minha vida. Ninguém encosta em ti. Ninguém.
Naquela época, na ignorância arrogante da minha juventude, eu achei que era só papo de irmão mais velho querendo botar moral. Agora, sentado na cozinha, vendo-o sorrir para o celular, eu sabia que aquela declaração não era bravata; era um espirito indomavel em prol de sua familia.
Mateus não era bandido, longe disso, mas ele tinha um senso de proteção doentio pela nossa família. No futuro original, esse mesmo senso o destruiu. Ele desistiu de ser jogador de futebol, que era o que amava e que tinha um dom extraordinario. Virou motorista de aplicativo, porém em portugal indo morar com sua futura esposa que havia conseguindo uma bolsa de estudos rodando dezoito horas por dia, perdeu a juventude, os cabelos, a saúde, ele conseguiu uma boa estabilidade depois da tempestade mas como consequencia enterrou seu maior sonho.
— E tu acha que vai ser diferente desta vez? Acha mesmo que não vai arrastar todo mundo pro fundo do oceano de novo? Teu destino é ser a pedra amarrada no pé deles. — a voz sombria cravou os dentes na minha culpa recém-lembrada.
Balancei a cabeça devagar, engolindo em seco. Ela tinha razão, não tinha? Quantas promessas íntimas de mudança eu já tinha quebrado? Quantas segundas-feiras eu disse que ia tomar rumo, só para fracassar na terça?
Desviei o olhar turvo para a Lais. Lembrei dela, na sua teimosia de adolescente que precisava amadurecer rápido. Lembrei dela me levando ao centro da cidade debaixo de um sol de trinta e oito graus, num ônibus linha 447 lotado, cheirando a suor e diesel. Ela gastou literalmente metade do suado dinheiro do mês dela na lanchonete para comprar uma calça jeans nova pra mim, só porque alguns moleques tinham jogado água com água sanitária na minha farda no pátio, e eu voltei chorando de vergonha.
— Estuda bastante, viu, moleque de doido? — ela tinha me dito na volta, dividindo um dindin de maracujá comigo, encostada na janela tremulante do ônibus. — Se o pai perguntar de onde saiu o dinheiro, tu diz que eu investi em ti. Tô plantando agora pra quando tu ficar rico, me devolver com juros, correção monetária e as taxas de administração.
O sarcasmo dela era um escudo para esconder o tamanho do coração. A lembrança me sufocava. No futuro, ela enfrentaria inúmeras humilhações naquele emprego de merda, engoliria calada assédio de chefe babaca, antes de juntar as moedas para fazer uma faculdade de analise e desenvolvimente sendo bolsista, virar programadora com vinte e três anos e, aos trinta e um, comandar a própria empresa de tecnologia do zero.
Ela lutou. Ela sangrou. Ela venceu o sistema. E eu, o grande "investimento" dela, virei um parasita crônico que destruiu a base de tudo que ela mais amava. A calça jeans que ela comprou me custou a dignidade dela, e eu não devolvi nem um centavo de orgulho em troca.
O resto do café desceu rasgando a minha garganta como cacos de vidro.
Eu podia mesmo mudar a trajetória das coisas? Eu tinha força moral para isso? Ou eu era só um vírus ambulante, um erro no código da realidade, destinado a infectar tudo de bom que tocasse?
— A resposta tu já sabe. Tu é uma praga, Luan. Tu é o câncer dessa casa.
— Para com essa merda — sussurrei entre dentes, os punhos cerrados até os nós dos dedos ficarem brancos embaixo da mesa.
— Disse alguma coisa, Luan? — Minha mãe parou de lavar os pratos, virando o pescoço.
— Nada não, mãe. É o pesadelo. Ele ainda não saiu da cabeça.
Terminei de comer em silêncio absoluto. O gosto da massa frita virou cinzas no céu da minha boca. Quando me levantei da cadeira de plástico, as pernas tremeram. Senti como se estivesse usando todas as forças para levantar do meu próprio caixão antes de ser enterrado vivo.
Na porta da cozinha, prestes a sair para o corredor, parei e olhei pra trás uma última vez. A luz poeirenta da manhã iluminava o cabelo da minha mãe debruçada na pia. Mateus estava de pé, calçando a bota pesada com biqueira de aço, reclamando de dor na lombar. Lais jogou a mochila nas costas e gritou "tchau" pra parede enquanto corria para a porta da frente.
Eles não eram super-heróis. Eles não tinham poderes, nem conhecimento do futuro, nem segundas chances. Eles eram apenas pessoas comuns, pobres, sobrevivendo dia após dia em uma cidade que te consome vivo. Como eu fui burro. Como eu fui cego por trinta e um anos para nunca ter notado o valor do sacrifício invisível e diário deles antes de perder tudo numa rua chuvosa?
— Dessa vez vai ser diferente — murmurei, o som mal saindo da boca seca, uma promessa enviada ao universo, ou talvez àquela voz maldita na minha cabeça.
— Falou de novo, menino? O que foi agora? — Jesuíta perguntou, já com a impaciência de quem tinha mais roupa para lavar.
— Eu... — Parei. Falar aquilo parecia roubar todo o ar do ambiente. — Eu te amo, mãe. Amo muito vocês.
Ela parou de ensaboar o prato. Encarou a janela por um segundo antes de virar o rosto e dar um sorriso de lado. Um sorriso que carregava uma vida inteira de luta e ceticismo.
— Amor se prova com atitude, Luan. Amor a gente mostra lavando uma louça, limpando o quintal. Falar que ama, qualquer papagaio fala. Pobre não tem tempo pra poesia. E quem ama não faz raiva pros outros, viu? Vê se não arruma confusão na rua hoje. Agora cuida, senão tu perde o portão do colégio e eu te bato.
Caminhei em direção ao meu quarto, cada passo pesando toneladas de remorso. Parei diante do espelho trincado do corredor de novo. O garoto de treze anos me encarou. Ele estava completamente assustado. Perdido no espaço e no tempo.
A verdade me atingiu na base do pescoço como um tijolo atirado de um prédio. Eu tinha pedido por isso. Eu queria estar ali, trancafiado de volta na puberdade, ter uma segunda chance mas..não carregando a mente suja de um adulto fracassado, O medo era tão vasto que eu queria deitar em posição fetal e desaparecer.
— Não importa o que aconteça — falei no espelho para o meu próprio reflexo, apoiando a mão no azulejo suado da parede. O meu olhar, antes carregado de pânico, começou a congelar numa determinação quase homicida. — Dessa vez, eu vou lutar. E se precisar sangrar, eu sangro.
— Promessas bonitas são tão fáceis... Vamos ver se tu consegue cumprir alguma sem arrastar todo mundo pro abismo e pro inferno junto.
A voz sombria deu sua última risada metálica e se calou. Ela tinha razão. Historicamente, eu era um poço de fracasso.
Mas agora eu tinha tempo. E mesmo que a Sombra estivesse certa, mesmo que eu falhasse miseravelmente de novo, mesmo que a própria realidade tentasse me esmagar e eu me quebrasse inteiro no processo... eu ia matar ou morrer antes de deixar qualquer um deles sofrer as consequências dos meus atos outra vez.
Não dessa vez. O jogo de sobrevivência tinha começado, e a primeira fase se chamava ir pro doutrinador do sistema.
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