Novamente

7 OS ERROS NÃO DESAPARECEM


Me afastei do espelho com as próprias palavras ainda queimando na garganta. "Dessa vez, eu vou lutar." A promessa tinha saído com uma determinação que eu não sabia que ainda existia em mim, mas agora, caminhando pelo corredor estreito da casa, meu estômago se contorcia em nós apertados. As mãos tremiam ligeiramente enquanto peguei a mochila velha — daquelas de lona barata que minha mãe comprava na feira do Mutirão — e me preparei para enfrentar mais um dia na Escola municipal.

— Promessas são tão fáceis, merdinha, — a Sombra sussurrou, a voz rastejando pela minha nuca enquanto eu checava os cadernos com dedos nervosos. — Vamos ver se tu consegue cumprir alguma sem arrastar todo mundo pro inferno de novo.

O caminho até a escola parecia fisicamente o mesmo, mas meu corpo reagia como se cada passo me levasse para uma execução em praça pública. As mesmas ruas esburacadas de Manaus. Os mesmos bueiros com as tampas de concreto quebradas, vomitando esgoto pela falta crônica de infraestrutura. O sol das sete da manhã já começava a grudar a farda na minha pele como uma segunda camada de suor, e o cheiro doce de podridão urbana misturado com fumaça de lixo queimado definia o ar do bairro Novo Aleixo.

Mas eu sabia: nada ali era igual. Aquilo não era uma simples volta à rotina. Era o início de um ciclo que eu já havia falhado em vencer.

O Novo Aleixo respirava do mesmo jeito de sempre: donas de casa varriam as calçadas esburacadas com movimentos mecânicos, homens de chinelo lavavam suas motos financiadas como se fossem altares particulares, crianças corriam para a escola com mochilas maiores que elas, rindo alto, estupidamente despreocupadas. Elas pareciam felizes. Eu não conseguia entender como. Aquela normalidade era uma ilusão frágil que perfurava meu peito como estilhaços de vidro.

Eu andava torto, sem o controle do meu corpo, me sentindo completamente desproporcional, mas também como um fantasma pelas ruas que conhecia de cor. Por dentro... por dentro, a mente de um homem de trinta e um anos era um triturador de raiva, vergonha e pânico constante. O universo havia me dado uma segunda chance, mas o pedágio foi me mandar de volta com todos os demônios da primeira bagagem. Eu ainda sentia a dor da fratura no asfalto. Ainda ouvia as baratas no quarto cinza.

Foi quando eu senti.

Havia algo estranho no fundo do bolso da minha calça jeans surrada. Algo áspero que arranhou meus dedos. Algo que, pela lógica do espaço-tempo, não deveria estar ali. Meu coração errou uma batida, tropeçando no próprio ritmo.

Parei num beco estreito a dois quarteirões da escola — um corredor apertado e sem asfalto entre duas casas de tijolo aparente, que fedia a mijo de cachorro de rua e óleo queimado de motor. Minha respiração ficou curta e errática. O suor frio escorreu pela minha espinha como um inseto descendo pelas costas.

Com dedos trêmulos, puxei lentamente o objeto do bolso. Era uma folha de caderno pautada, dobrada ao meio. O papel estava amarelado, com manchas secas nas bordas. Eu não fazia ideia de como aquilo fora parar na minha farda recém-lavada, mas o simples toque físico na celulose provocou um arrepio que paralisou minha base da coluna. Tinha a textura de algo em decomposição.

— Não abre, — a Sombra sussurrou. O tom de deboche sumiu por um segundo, substituído por um aviso genuinamente sádico. — Tu não tem estômago e nem é homem pra ler isso.

Mas minhas mãos já estavam desdobrando o papel, movidas por uma compulsão masoquista que eu não conseguia frear. Meus olhos correram pelas letras tortas, borradas e angustiadas.

Minha própria caligrafia. A caligrafia da minha versão adulta.

"Querida mãe, Eu sinto tanto a sua falta... mas eu falhei. Eu não me tornei o homem que você queria. Nem o filho que o papai esperava, nem o irmão caçula com potencial que o Mateus e a Lais acreditavam que eu era. Sou fraco, covarde e cronicamente incapaz. Não tenho motivos para me orgulhar e não me restou energia para tentar mudar algo. Eu perdi tudo. Eu daria qualquer coisa por mais um segundo com vocês. Só queria entender o sacrifício de vocês... mas a verdade é que eu sou o erro. Esta carta é tudo o que sobrou. É o meu adeus."

O chão desapareceu debaixo dos meus pés.

Meu corpo inteiro começou a tremer de forma violenta e descontrolada, como se tivesse sido ligado à rede de alta tensão. O sangue subiu fervendo à cabeça, fazendo meus ouvidos zunirem e minha visão escurecer nas bordas. Cada palavra daquela carta me consumia como ácido sulfúrico derramado numa ferida cirúrgica aberta. A dor não era poética; era uma lâmina real rasgando minha psique de dentro para fora, raspando no osso da minha dignidade.

Meu estômago deu um solavanco brutal. Dobrei para frente, apoiando a mão na parede chapiscada do beco, e engasguei. Cuspi saliva grossa no chão de terra, lutando contra o reflexo de vômito.

O papel cheirava. O maldito papel exalava, de forma impossível, o cheiro de cachaça barata e lágrimas salgadas. O odor exato da noite em que eu o escrevi.

Era real. A Anomalia era física. Aquilo era o meu atestado de óbito moral. A carta de suicídio que eu escrevi, bêbado e destruído, numa madrugada sufocante em 2036, quando o buraco se tornou intransponível. A carta que eu escrevi antes de não ter coragem de me enforcar, escolhendo, em vez disso, morrer atropelado como um cachorro de rua.

A carta que eu nunca tive para quem entregar. O meu desabafo jogado no vácuo, agora segurado pelas minhas mãos de treze anos em 2017.

— Ah... agora tu lembra, né? — a Sombra riu, uma gargalhada metálica, venenosa e asfixiante dentro do meu crânio. — Lembra da noite em que tu escreveu isso? Tremendo de nojo de si mesmo. Chorando de ranho no nariz feito um verme. Isso aqui é um lembrete, Luan: tu pode mudar de corpo, mas a tua alma continua sendo a mesma poça de mijo. Tu nunca mudou.

Eu me lembrava. Deus, como eu me lembrava da textura daquela noite. A garrafa de 51 pela metade na mesa bamba. A caneta falhando nas lágrimas que caiam no papel. A corda de náilon amarrada no caibro do teto. O desespero solitário de ser um nada.

Minhas mãos infantis tremiam tanto que o papel balançava ruidosamente no ar. Senti a náusea subir de novo. Dobrei a carta às pressas, escondendo-a no fundo da mochila como quem esconde uma arma de fogo manchada de sangue. O ódio por mim mesmo queimava no meu peito como alcatrão fervente. Ódio do fracasso. Ódio da segunda chance que eu claramente não merecia.

O resto do caminho até a escola passou num apagão dissociativo.

Ao chegar no portão da Escola Municipal Guimarães, a sensação de déjà vu foi um tijolo no peito. O portão azul descascado rangeu ao ser empurrado pelos alunos, soltando um gemido metálico que pareceu ecoar nas minhas costelas.

O cheiro daquele inferno particular me atingiu em cheio: o mofo crônico das paredes suadas, o cheiro de suor de centenas de adolescentes, misturado com o sabão barato industrial que as tias da limpeza usavam no cimento queimado. E, por baixo de tudo, aquele odor doce e enjoativo de maconha vagabunda que impregnava os banheiros e já fazia parte da própria alvenaria do colégio.

Na sala de aula, o ventilador de teto girava preguiçosamente, apenas misturando o ar morto e quente que nos sufocava. O barulho metálico do motor velho (tec-tec-tec) martelava o fundo do meu crânio. A professora de Português falava sobre predicado nominal com a voz monocórdica de quem há muito desistiu de salvar vidas, mas eu não conseguia registrar uma única palavra.

Porque o verdadeiro problema não estava na lousa. Estava sentado três fileiras atrás.

Rafael.

O simples nome dele, acompanhado do barulho da caneta que ele batia na mesa, ativou um alerta vermelho no meu sistema nervoso. Suor frio escorreu pela minha nuca.

Eu tinha trinta e um anos de idade mental. Eu já havia passado fome, assinado demissão e morrido. Mas a biologia do meu corpo de treze anos ainda respondia ao trauma primitivo escolar. O Rafael era a besta do meu passado.

O sinal do recreio bateu como uma sirene de prisão. Tentei sair por último. Rafael passou por mim, batendo o ombro propositalmente na minha clavícula com uma força brutal e desnecessária. O cheiro dele — cigarro barato roubado do pai e suor azedo — me atingiu como um gás tóxico.

— Tá no caminho, mongoloide — ele murmurou sem nem olhar na minha cara, um sorriso sádico e debochado desenhando o perfil do rosto cheio de espinhas.

Cerrei os punhos, sentindo as unhas cortarem a palma das mãos. A humilhação de ser um adulto intimidado por um pirralho ignorante esquentou o sangue nas minhas veias. A mandíbula travou, mas eu engoli a raiva. Não ali. Não agora.

— Uma vez covarde, sempre covarde, — a Sombra sussurrou com deleite. — Baixa a cabeça pro teu dono, vai.

O intervalo não foi um descanso. Foi uma caçada.

Tentei me isolar. Eu não queria confusão. A mente de um adulto sabe que não há glória em brigar na oitava série. Tentei me esconder no fundo da biblioteca abafada, cercado por estantes de livros didáticos esfolados, mas não adiantou. O instinto predatório deles era afiado.

Rafael e dois dos seus cães de guarda me encurralaram no corredor e me arrastaram pelo ombro até a lateral do pátio, perto dos banheiros. O vigia da escola apenas virou o rosto para o outro lado, como sempre fazia. A omissão institucional era a regra do jogo. O gosto de humilhação do passado estava se repetindo perfeitamente, nota por nota.

Os olhares dos outros alunos no pátio se voltaram para nós. Alguns riam abertamente. Outros sussurravam apostas. Os mais novos apenas abaixavam a cabeça e passavam rápido. Ninguém ia intervir.

— Vamos ver o que o autista trouxe de lanche pra gente hoje — Rafael disse, dando um empurrão no meu ombro que me fez bater as costas na parede chapiscada.

Ele puxou a minha mochila pelos braços e começou a vasculhar os bolsos violentamente. Meus olhos se arregalaram. Meu coração falhou a batida.

— Não mexe aí — minha voz saiu espremida, apavorada.

Mas era tarde. As mãos sujas de Rafael puxaram a folha de papel amarelada, dobrada ao meio.

O meu mundo implodiu.

Uma onda de náusea violenta, muito pior que a do beco, subiu queimando a minha traqueia. A adrenalina explodiu nas minhas veias como gasolina no fogo, mas não trouxe força; trouxe apenas um pânico animalesco.

Rafael desdobrou o papel. Os olhos dele, vermelhos de maconha e malícia, correram pelas linhas. O sorriso zombeteiro cresceu até mostrar os dentes tortos.

— Mas que porra é essa? — ele riu alto, chamando a atenção de mais curiosos ao redor. — É cartinha de amor, esquisito? Deixa eu ver...

— Devolve isso! — Eu dei um passo para frente, a voz falhando, mas um dos lacaios dele me empurrou pelos peitos contra a parede com força bruta, tirando meu fôlego.

— "Querida mãe..." — Rafael começou a ler, em voz alta, teatral, projetando a voz pelo pátio, garantindo que a roda de alunos ao redor escutasse.

Cada sílaba que saía da boca daquele pirralho fedia a enxofre. Meu rosto entrou em combustão de vergonha. Suor frio brotava e descia pela minha testa.

— "Eu sinto tanto a sua falta... mas eu falhei..." — Rafael forçou uma vozinha de choro, arrancando risadas altas dos garotos em volta.

O pátio ficou em silêncio de morte para ouvir o resto. Eu era um verme esticado numa mesa de dissecação. O meu fracasso existencial de trinta e um anos de idade. A minha dor de não conseguir pagar a própria comida, de ver minha família sofrer. A minha nota de suicídio... estava sendo lida como uma piada de intervalo por adolescentes que não sabiam limpar a própria bunda.

— "Eu não me tornei o homem que você queria... Sou fraco... sou covarde... e incapaz..." — Ele pausou, rindo até cuspir saliva, olhando pros amigos. — Caralho, maluco! Tu é mais patético do que eu pensava! Escrevendo diáriozinho dizendo que é um bosta!

A minha alma inteira foi arrastada pelada pelo asfalto quente. Não era raiva adolescente o que subiu pela minha espinha. Era uma fúria sombria, primitiva, letal. A fúria de um homem adulto que não tinha mais nada a perder porque já havia perdido a própria vida. A visão periférica escureceu. Tudo ficou manchado de um vermelho escuro.

E então, o pino da granada estourou na minha cabeça.

Eu não reagi com técnica ou bravura. Reagi como um animal infectado pela raiva. Num impulso irracional que partiu do meu próprio ódio encubado, avancei.

Ignorando o braço do garoto que me segurava, joguei meu peso para frente, os dentes trincados de forma tão violenta que o osso do meu maxilar estalou. Meus dedos agarraram o papel na mão de Rafael como garras, arrancando-o da mão dele com tanta força que um dos dedos dele sangrou no atrito da folha.

Rafael tropeçou para trás, assustado não pela minha força física, mas pelos meus olhos. Eles não eram olhos de um menino de oitava série sendo zoado. Eram os olhos de um homem absolutamente perturbado.

Com movimentos desesperados, comecei a rasgar a carta. Rasguei no meio. Juntei as metades e rasguei de novo. E de novo. Destruindo a prova da minha vergonha, meus músculos tremendo, o peito arfando como um cachorro louco, até que pedaços minúsculos de papel amarelado caíssem pelo pátio como uma neve macabra.

O pátio inteiro emudeceu. As risadas morreram na garganta de todos. O silêncio era pesado, carregado pela loucura palpável que irradiava de mim.

— Qual é a tua, zebuceta?! — Rafael gritou, tentando recuperar a pose, cruzando o espaço de volta com os punhos cerrados. — Tá ficando doidioé, seu mungoloide? Se botar a mão ni mim de novo eu vou te quebrar na porrada aqui mesmo!

Eu não recuei. Meu peito subia e descia violentamente. Olhei no fundo dos olhos dele. Não havia medo em mim naquele milissegundo. Havia apenas um vácuo niilista que assusta qualquer ser humano saudável.

— Toca em mim de novo, Rafael, — minha voz saiu irreconhecível. Não foi um grito. Foi um sussurro gutural, rasgado nas beiradas, carregado com o peso da morte que eu já conhecia muito bem. — Só mais uma vez... se eu voltar pro inferno, eu não vou sozinho.

A ameaça pairou no ar estagnado do colégio. Não era uma bravata de recreio ("Vou te bater lá fora"). Era a promessa fria e desequilibrada de um psicopata em potencial.

Rafael congelou. Os instintos básicos de sobrevivência dele apitaram. Pela primeira vez na vida, o valentão não viu uma vítima. Ele viu alguém que estava disposto a cruzar a linha que separa a porrada escolar do noticiário policial.

Ele engoliu a seco, deu um passo para trás e tentou rir, mas o som foi quebrado e nervoso. Antes que ele pudesse responder e salvar seu ego, o apito estridente da pedagoga cortou o corredor, dispersando a roda de alunos aos gritos.

Quando o pátio esvaziou, me deixaram sozinho na lateral do bloco.

A adrenalina baixou com a velocidade de uma âncora sendo jogada no mar. Meus joelhos cederam. Eu me agachei lentamente, o corpo inteiro tremendo como se eu estivesse com hipotermia, e comecei a catar os micro pedaços rasgados da minha nota de suicídio do chão de cimento sujo.

— Nossa, que machão... — a Sombra sussurrou, a risada pingando sarcasmo puro e destilado, sem nenhum pingo de respeito. — Tu ameaçou de morte um menino com espinha na cara porque ele leu o quanto tu é um fracassado de merda. Parabéns, Luan. Teu cérebro de trinta e um anos deve estar muito orgulhoso.

Ela tinha razão. Não havia vitória ali. Não havia heroísmo. Guardei os fragmentos molhados de suor no fundo do bolso. O papel ainda fedia a cachaça velha e luto. Eu havia sobrevivido ao primeiro intervalo, mas não me sentia forte. Me sentia sujo. Tão sujo quanto no dia em que escrevi aquilo no meu quarto escuro.

A promessa do espelho estava sendo testada, e o inferno, pelo visto, não tinha ficado no futuro. Ele usava farda e estudava na oitava série.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.