Nova Vida como Vampira

3 Contando para as amigas


Capítulo 3 – Contando para as amigas

Márcia acabara de almoçar e estava lavando a louça. Ela achou estranho almoçar sozinha, estava acostumada a comer com a filha, que sempre chegava antes do almoço estar pronto e dava uma ajudinha para ela. Agora ela faria todas as refeições sem a filha, tinha que aceitar isto. Terminando de lavar tudo, Márcia foi para a sala assistir televisão, ela ainda tinha alguns dias de férias, então podia descansar um pouco antes de continuar o serviço de casa.

Estava passando um bom filme e a dona da casa resolvera assisti-lo. Tocou o telefone e, sem tirar os olhos da TV, a mulher esticou o braço para o lado direito alcançando o aparelho.

– Alô? – disse ela atendendo.

– Oi, é a Paula. – disse uma voz do outro lado da linha. – A Júlia está?

– Olha, Paula. – respondeu Márcia. – A Júlia ficou cansada hoje e está dormindo.

– Mas ela está bem? – perguntou a menina preocupada. – Ela faltou dois dias na escola...

– Sim, ela está bem. Assim que ela acordar peço para ela te ligar.

– Ta bom. – disse a garota mais tranqüila. – Pede pra ela entrar no MSN.

– Tudo bem. – respondeu a mulher. – Ela te conta porque faltou na escola pelo MSN.

– Tchau. Obrigada. – disse Paula antes de desligar.

“Acho melhor Júlia contar a verdade logo para as amigas, talvez seja melhor não esconder o que aconteceu com ela”. – pensou Márcia depois de colocar o aparelho no lugar.

Júlia levantou-se e foi para o banheiro. Depois de escovar os dentes, enquanto enxaguava a boca, ela, sem querer, engoliu um pouco de água e, como era de se esperar, sentiu aquela dor horrível. Depois que passou a dor ela olhou para o espelho, com a intenção de arrumar o cabelo. “Ah, tinha me esquecido”. – pensou ela não vendo seu reflexo, então passou as mãos pelo cabelo ajeitando sem ver mesmo.

A garota desceu e, ao chegar na sala, viu a mãe sentada no sofá.

– Oi, mãe. – disse ela indo para a cozinha.

A mulher olhou e respondeu, mas não teve tempo de dizer nada além do “Oi, filha”, pois a menina entrara no outro cômodo.

Júlia pegou um copo e encheu até a boca com vocês já sabem o quê. Ela tomou um gole e achou melhor ainda, pois estava bem geladinho, saiu da cozinha e foi sentar ao lado da mãe. Márcia olhou para a filha sorrindo:

– Dormiu bem? – perguntou ela.

– Muito bem. – respondeu a garota depois de outro gole. – Já estou preparada para mais uma noite.

– Sua amiga Paula ligou. – disse Márcia mudando de assunto. – Ela queria saber porque você faltou esses dois dias na escola.

Júlia olhou assustada para a mãe.

– Você não disse nada pra ela, né? – perguntou.

– Não, filha. – respondeu a mulher entendendo a preocupação da filha. – Eu prometi para você que não contar pra ninguém, não foi?

Júlia deu um sorriso e afirmou com a cabeça, então bebeu mais um pouco e, antes que dissesse algo, a mãe voltou a falar.

– Ela pediu pra você entrar no MSN e eu disse que você daria uma explicação pra ela. – disse Márcia olhando para a filha.

– Obrigada mãe. – respondeu Júlia se levantando e andando. – Vou lá teclar com ela.

– Filha! – chamou ela. Júlia virou-se para a mãe. – Acho melhor você contar logo a verdade para suas amigas, afinal vai ser difícil arrumar desculpa todos os dias para não ir à escola ou sair com elas.

– É, você tem razão mãe. – respondeu a garota prontamente. – Vou falar pra elas que agora sou vampira e não posso mais sair durante o dia. Também vou pedir para elas não contarem pra escola toda, falo para elas dizerem que eu mudei de escola. – ela tomou mais um pouco e completou. – Assim, se elas quiserem podemos continuar saindo à noite.

– Isso, filha. – respondeu Márcia concordando com a garota. – Assim será melhor.

Júlia afirmou com a cabeça e foi para a cozinha pegar mais sangue e, logo depois subiu para seu quarto a fim de falar com as amigas. Ligou o computador e, enquanto ele iniciava ela aproveitou para arrumar a cama. Terminou a tarefa e sentou-se em frente ao aparelho e, antes de conectar no MSN ela colocou para tocar sua música favorita:


Fukai fukai mori no oku ni ima mo kitto

(A densa floresta ainda)

Okizari ni shita kokoro kakushite’ru yo

(esconde um coração abandonado)

Sagasu hodo no chikara mo naku tsukarehateta

(Cansadas e sem forças para procurar)

Hitobito wa eien no yami ni kieru

(as pessoas desaparecem na eterna escuridão)

Chisai mama nara kitto ima demo mieta ka na*

(Será que conseguiríamos ver um coração tão pequeno assim?)

Abriu o MSN e cantava enquanto conectava. “Ótimo”. – pensou a garota depois que já estava conectada e viu que, além de Paula, suas outras duas melhores amigas também estavam on-line. – “Assim já conto para as três eu mesma”.

Paula estava lendo uma fic do site FF-SOL, quando viu que a amiga entrou no MSN. No mesmo instante ela abriu a janela do programa para falar com Júlia.

Paula — diz:

Oi Júlia, td bem com vc?

July-chan diz:

Oi amiga, estou bem.

July-chan diz:

Só um pouco diferente agora.

Paula – diz:

Como assim um pouco diferente?

July-chan diz:

É que eu... não, é melhor não dizer por aqui

Paula — diz:

Pq não?

July-chan diz:

É meio complicado

July-chan diz:

É melhor conversarmos pessoalmente. Vc pode vir pra cá hj?

Paula — diz:

Claro q sim, amiga.

Paula — diz:

Q horas?

Júlia olhou no relógio do computador: eram 16:30.

July-chan diz:

Ótimo. Pode ser às 18:00.

July-chan diz:

Tbm to chamando a Amanda e a Renata. Assim já falo pra vcs três.

Paula — diz:

Ok.

Paula — diz:

Estarei aí às 18:00.

July-chan diz:

Sayonara.

Paula — diz:

Tchau, amiga.

Ela se despediu das três, desconectou o MSN e, assim q terminou a música ela desligou o monitor do computador e saiu do quarto. Foi até a cozinha, lavou e guardou seu copo e voltou para a sala, sentando novamente ao lado da mãe. O filme estava no fim e as duas terminaram de assistir juntas.

– E então, filha? – perguntou Márcia assim que terminou o filme. – Contou para suas amigas?

– Eu preferi não dizer pelo MSN. – respondeu Júlia ainda olhando para a TV. – Chamei as três para virem pra cá às 18:00 horas.

– Bom, então vou preparar um lanche pra vocês. – disse a mulher levantando-se e, quando estava na porta da cozinha, virou-se e viu que a menina olhava para ela. – Quer dizer, um lanche pra elas. – corrigiu Márcia sorrindo.

– Isso aí, mãe. – disse Júlia retribuindo o sorriso e levantando-se. – Vou tomar um banho.

Júlia subiu para seu quarto, ligou novamente o monitor e colocou todas as músicas da pasta “J-Music” no tocador. Ela cantava enquanto pegava as roupas no armário e, antes de entrar no banheiro, aumentou mais o som para poder ouvir durante o banho, como fazia todos os dias. Umas cinco músicas depois, Júlia acabou o banho e abaixou o volume na hora em que sua mãe abria a porta do quarto para avisa-la que as amigas haviam chegado. A garota desceu junto com a mãe para recebe-las.

– Oi, meninas. – disse Júlia ao vê-las sentadas no sofá conversando entre si.

Tudo bem com vocês?

– Júlia! – disseram as três ao mesmo tempo e levantando.

– Você está bem, amiga? – perguntou Renata

aproximando-se. – Você parece um

pouco pálida.

– É mesmo?! – respondeu Júlia meio sem jeito. – Você acha?

– Filha, vocês vão ficar aqui na sala ou lá no seu quarto? – perguntou Márcia ao

perceber que a menina não sabia o que fazer ou falar.

– Vamos para o quarto. – respondeu Júlia recuperando-se. – Vamos meninas? –

completou ela sorrindo para as amigas e subindo as escadas.

As três começaram a subir atrás dela e, ao chegarem no quarto, ouviram a musica que vinha do computador.

– Você sempre ta ouvindo música japonesa quando venho aqui, não é July?

comentou Amanda querendo puxar assunto com a amiga.

– É. – respondeu Júlia sorrindo para ela.

Júlia estava pensando em como e o que ia contar para as amigas, desta vez a

situação era pior daquela em que ela contou para a mãe. Ela tinha uma idéia de como a mãe poderia reagir, mas ela não sabia o que as amigas achavam dessas coisas sobrenaturais. A mãe dela entrou no quarto levando suco de maracujá e sanduíches.

– Trouxe um lanchinho pra vocês, meninas. – disse ela.

Antes de sair, Márcia olhou para a filha e deu um sorriso. A garota sorriu de volta e, depois que a mulher saiu ela olhou para as amigas, que olhavam para ela ainda preocupadas.

– Por favor, sirvam-se. – disse apontando para o lanche. – Podem ficar à vontade.

– Você não vai comer com a gente, Júlia? – perguntou Renata ao perceber que só havia três copos.

– Não. – respondeu a garota. – Eu comi antes de vocês chegarem.

As três comiam e conversavam enquanto Júlia estava sentada na frente do computador. Ela já tinha uma idéia de como contar a sua situação para as amigas. “Mamãe fez bem em trazer suco de maracujá, elas vão precisar ficar calmas mesmo”. – pensou ela.

– Nunca mais irei para a escola. – disse Júlia olhando para a tela de seu

computador.

Na mesma hora as amigas pararam de comer e conversar e, sem querer acreditar no que Júlia havia dito, olharam assustadas para ela.

– É verdade isso que você disse, July? – conseguiu perguntar Renata.

– É verdade. – respondeu Júlia olhando para elas com uma expressão séria. – Não

posso mais ir para a escola.

As três ficaram olhando para ela sem dizer nada e ela continuou:

– Na verdade não posso mais ir para lugar nenhum durante o dia.

– Que isso, July? – brincou Paula. – Falando assim vamos achar que você não é

mais a Júlia que conhecemos.

– Mas é isso mesmo. – respondeu Júlia olhando para Paula. – Não sou mais

normal como vocês.

– Como assim não é mais normal? – perguntou Renata.

– Vou contar pra vocês. – disse Júlia. – Mas antes acho melhor sentarem e

tomarem mais suco de maracujá.

As três sentaram-se na cama de Júlia e ficaram esperando a amiga se explicar.

– Bem, vou ser o mais direta possível. – falou Júlia olhando para elas e, sem dizer

nada, as três concordaram com a cabeça. – Não sou mais como vocês porque... porque agora sou... – continuou Júlia ainda com um pouco de falta de coragem para falar. – É que agora eu sou... sou uma vampira. – conseguiu concluir.

Elas ficaram alguns minutos paralisadas olhando para Júlia, não podiam acreditar naquilo, não podia ser verdade. A melhor amiga delas, que sempre as ajudava nas aulas de matemática e física, virou uma vampira.

– Mesmo sendo vampira, você continuará sendo nossa amiga. – disse Amanda

levantando-se e abraçando Júlia. – Não é, meninas?

– Sim. – disseram as outras duas juntas e também foram abraçar a amiga. – Não te

abandonaremos. – completou Paula.

Júlia estava ali, sendo abraçada pelas amigas, e estava contente e aliviada por elas terem aceitado tão facilmente.

– Olha que eu posso morder vocês, hein? – brincou ela. – O seu pescoço é o mais

próximo, Renata.

As três soltaram a amiga, elas não pareciam assustadas porque sabiam que Júlia estava brincando.

– Você não faria isso conosco, não é? – perguntou Renata vendo que Júlia ainda

estava séria.

– Claro que não. – falou a garota abrindo um sorriso. – Nunca farei isso com

vocês.

As quatro ficaram conversando por um bom tempo. As amigas de Júlia insistiam em perguntar algo sobre vampiros, mas a menina não dizia nada e sempre mudava de assunto.

– Nossa como já é tarde. – falou Amanda olhando em seu relógio. – São 9:00

horas. Precisamos ir embora.

– É mesmo. – respondeu Paula. – Nossas mães devem estar preocupadas.

Júlia e Amanda pegaram as coisas da cozinha e as quatro iam saindo do quarto,

quando a vampira lembrou-se de um pedido que ia fazer para elas.

– Ah, meninas! Lembrei de algo muito importante. – as amigas viraram-se para

ela. – Quero que vocês digam pra todo mundo na escola que eu não vou mais estudar lá. Podem dizer que eu mudei de escola, ta bom?

– Pode deixar, July. – falou Renata. – Você mudou de escola.

Elas desceram e as três abraçaram Júlia novamente.

– Vamos guardar seu segredo e te ajudar no que for preciso, amiga. – disse

Amanda.

– Eu sei que posso contar com vocês. – respondeu Júlia sorrindo. – Por isso que

escolhi somente vocês três para saberem o verdadeiro motivo.

– Então amanhã nos falamos pelo MSN, July. – falou Renata.

Elas se despediram e foram embora conversando animadamente. Júlia ficou na porta observando-as até elas virarem a esquina e, assim que as amigas não eram mais vistas, a garota olhou para a árvore ao lado da sua casa. Ela não pode vê-lo, mas sabia que Cléber estava lá. “Daqui a pouco eu saio”. – pensou ela e fechou a porta voltando para dentro.

– Me sinto bem melhor agora que elas já sabem a verdade e também estão do meu

lado. – disse a garota para a mãe.

– Elas gostam muito mesmo de você, né? – disse Márcia sorrindo.

– Hai. – respondeu Júlia antes de ir para a cozinha.

Mais um capítulo encerrado, não está sendo muito difícil para Júlia essa nova vida, não é?Até que ela está conseguindo se adaptar.

* “Fukai Mori”, música da banda “Do as Infinity”. Foi usada em

uma das aberturas do anime Inu Yasha.

Espero que tenham gostado deste capítulo. Por favor, não deixem de comentar. Arigatou.

Thelef