Nova Terra

11 Capítulo 11


Chakotay decide se livrar de seu uniforme sujo; enquanto abre o zíper de sua jaqueta, o interfone de seus aposentos toca. Ele autoriza a entrada sem se preocupar.

B’elanna entra, trazendo uma bandeja do refeitório.

— Chakotay, você precisa se alimentar. Eu tenho certeza que se ninguém lhe lembrar... — Ela se assusta com a grande mancha vermelha que toma conta da camisa cinza do uniforme do comandante. — Você se feriu, Chakotay?

— Não se preocupe, esse sangue, infelizmente, não é meu — ele responde.

— Eu trouxe algo para você comer —B’elanna entrega a bandeja para Chakotay.

— Eu não estou com fome. — Ele devolve a bandeja para ela.

— Comandante, nós não temos tempo para isso, você tem que se alimentar direito. Precisamos de você forte para comandar a nave.

— Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para cuidar da nave, neste momento, Tuvok pode...

B’elanna o interrompe:

— Tuvok? A última vez que isso aconteceu quase houve um motim! E quando a Capitão acordar, você vai dizer o que a ela?

Chakotay dá as costas para B’elanna.

— Você não acredita que ela vai acordar, é isso? Como você ousa pensar isso? Olhe para mim!

Ele não se mexe.

— Não diga a ninguém que você não acredita que ela irá acordar. Se o nosso Comandante não confia na recuperação da Capitão, como a tripulação irá confiar? Você está destruindo tudo que ela lutou para construir: nossa confiança, nossa esperança, e eu não vou deixar isso acontecer! As pessoas lá fora estão rezando por ela, lembrando-se dos momentos engraçados no holodeck. Você acha que é o único que está sofrendo, Chakotay?

B'elanna coloca a bandeja em cima da mesa.

— Tome um banho, troque esse uniforme e se recomponha, seu turno está próximo. E se quiser me mandar para detenção por insubordinação, o senhor sabe aonde é meu alojamento.

B'elanna deixa os aposentos do comandante, enraivecida.

Depois de algumas horas, Chakotay chega à ponte para começar seu turno. À espera de notícias sobre o estado da Capitão, ele tenta se distrair analisando relatórios.

Ao fim do dia de trabalho, alguns tripulantes se reúnem no holodeck, para o que se parece com uma vigília não regulamentada, sem convites, apenas a necessidade de estarem próximos. As pessoas chegam e sentam em suas cadeiras, parecendo refletir sobre tudo o que aconteceu neste longo dia.

Alguns grupos se reúnem numa tentativa de esconder suas preocupações, por mais que se soubesse de todos os perigos dessa jornada, os últimos acontecimentos deram-lhes um choque de realidade, a proximidade da morte fez com que todos parassem para pensar se realmente estão fazendo o seu melhor pela equipe, cada falha pode custar a vida de seus colegas e a responsabilidade de cada uma dessas vidas é de todos.

Chakotay entra no holodeck e senta-se, poucos segundos depois seu comunicador recebe uma mensagem:

— Aqui é o Doutor, o senhor pode me ouvir, Comandante?

— Sim Doutor.

O silêncio toma conta do recinto, todas as conversas cessam imediatamente.

— Creio que todos nós possamos ouvi-lo.

— Certo, Comandante, venho comunicar que o procedimento foi um sucesso. A Capitão não corre mais risco de vida, mas ainda precisará de alguns dias para se recuperar.

— Obrigado, Doutor.

Aos poucos, a notícia se espalha pelo holodeck. B’elanna sorri para Chakotay, que corresponde, enquanto se retira do local, em direção à enfermaria.

●●


Chakotay entra na enfermaria, e o Doutor o impede de se aproximar de Janeway.

— Comandante, a Capitão ainda não pode receber visitas. Ela ainda está sob os efeitos dos sedativos.

— Entendo. Doutor, por favor, quando a Capitão acordar, eu gostaria de ser avisado imediatamente.

O comandante abraça o Doutor que continua estático; Kes ri baixinho ao ver o rosto confuso do Doutor.

— Comandante — diz o Doutor se libertando do abraço —, creio que não seja necessário me agradecer.

— Reconhecimento sempre é necessário, Doutor — Kes responde. — Um dia você irá entender.

O Comandante sorri para Kes e deixa a enfermaria.

Chakotay segue pelos corredores até o refeitório. Neelix, ao ver o comandante chegar, deixa seus afazeres e se apressa para falar com ele antes que alguém chegue primeiro.

— Comandante, os tripulantes e eu decidimos fazer alguns presentes de melhoras para a Capitão, e nós gostaríamos que o senhor entregasse a ela quando for possível.

— Seria uma ótima surpresa! Neelix, já te disseram que você tem ótimas ideias?

— Para falar a verdade, Comandante, a maioria das vezes, todos odeiam minhas ideias.

Chakotay ri com Neelix enquanto procuram um lugar para se sentar e combinar os detalhes da surpresa para a capitão.

Alguns dias se passam até que Janeway acorde. As luzes parecem embaçadas, ela luta para manter os olhos abertos. Uma silhueta aparece em frente à luz.

— Capitão, fique calma, você está na enfermaria; a senhora passou por alguns procedimentos cirúrgicos, então, por favor, fique deitada.

Aos poucos, a Capitão relembra os acontecimentos, e uma angústia aperta seu peito. Uma pergunta inevitável precisa ser feita apesar do medo da resposta que estava por vir.

— Doutor, o senhor sabe o que eu preciso lhe perguntar...

— Desculpe, Capitão, mas, infelizmente, não havia mais nada que eu pudesse fazer.

Janeway chora copiosamente, enquanto o Doutor tenta acalmá-la.

— Capitão, o comandante havia me pedido para avisá-lo quando a senhora acordasse, mas creio que essa decisão não cabe a mim.

— Doutor, eu gostaria de terminar minha recuperação nos meus aposentos.

— O recomendável seria a senhora continuar sua recuperação aqui, mas, nessas circunstancias, eu autorizarei a sua saída da enfermaria, desde que esteja acompanhada. Caso haja qualquer piora no seu quadro, deverá voltar imediatamente para a enfermaria.

Janeway aceita as condições.

— Eu posso chamar Tuvok se a senhora preferir — diz o Doutor, preocupado.

—Não, avise Chakotay.

Chakotay levanta da cama apressadamente, após receber o chamado, veste o uniforme e ajeita o cabelo como se fosse a um encontro. Pelos corredores vazios da Voyager, Chakotay não esconde sua felicidade, a cada passo que se aproxima de sua amada mais difícil se torna esconder sua urgência de vê-la. Ao chegar à porta da enfermaria, Chakotay para por alguns segundos e respira fundo, tentando manter-se calmo. Um passo à frente e as portas da enfermaria se abrem, Chakotay entra e vê Janeway sentada em seu leito.

— Comandante Chakotay, é bom vê-lo — diz Janeway, feliz.

— Igualmente, Capitão — ele responde, tentando esconder um sorriso tímido.

— Comandante, eu acho que já passei tempo demais nessa enfermaria e adoraria ir para os meus aposentos. Eu até iria sozinha, mas o Doutor não permitiu.

— Será um prazer acompanhá-la.

Janeway se levanta ainda com um pouco de dificuldade. O Doutor entrega uma lista de recomendações a Chakotay.

— Aqui está tudo que a Capitão precisará por esses dias.

— Pode contar comigo, Doutor, eu cuidarei muito bem dela.

Chakotay carrega Janeway nos braços até a cadeira de rodas. Os dois seguem pelo corredor enquanto conversam:

— Chakotay, eu acho que antes de todos esses acontecimentos, eu fiquei lhe devendo uma resposta.

— Sim, quando achar que é o momento certo, eu estarei aqui para ouvir — ele responde sem titubear.

— O momento certo já passou, eu não posso adiar isso por mais tempo.