O enjoo foi inevitável. A cada cinco minutos, Sor corria para a proa e vomitava no mar salgado e o anão se limitava a rir. Depois de viajarem pelos mares e não serem parados por nenhum navio nortenho – nem se quer viram algum –, finalmente atracaram nas praias sulistas de areias brancas e mares calmos. Vários pescadores estavam ou em suas jangadas feitas de palmeiras e beira-mar, ou então de canoas de timbuavas, jogando suas redes na imensidão molhada esperando pegar algum peixe.

–Ora, ora meu amigo, não morremos afinal. –Ironizou o anão. –Conseguimos chegar ao Sul e quero falar com seu... –Suas palavras se esvaíram quando viu um gigante de quinze metros bocejando. –Isto não é dos deuses.

–Não sei o que está pensando, mas é melhor se habituar com aqui. Existem muitos gigantes como estes, mas somente existem três maiores, que alcançam trinta metros.

–E onde estes estão, que não consigo ver?

–Estão vigiando o castelo. Ele é perto do mar, mas fica a uma légua daqui.

–Uma légua, meu amigo? Demorará muito para chegarmos até lá.

–Ora, não desanime pequenino, já chegamos até aqui. Mais do meio do caminho.

–E iremos a pé ou em seu montante?

–Iremos em meu garanhão, ora. Ou prefere ir a pé?

–Prefiro ir de carruagem, o que acha?

–Carruagem demora muito e faz muito barulho. Existem tigres brancos nestas florestas.

O anão fez beicinho. Seus criados, Lizzy, Izzy, Mizzy, Uzzy, ficaram para cuidar dos navios. Os três capitães e os marinheiros foram com certeza para algum bordel gastar suas moedas com meretrizes. Gandril logo chegou com a carruagem de madeira vermelha combinando com o garanhão. Um belo cavalo forte de pelugem vermelha e de olhos bem negros.

–Vamos tomar caminho. –E lá se foram, o anão ficou bem quieto durante toda a viagem. Caso que causou estranhamento em Vitoriano, nunca o tinha visto tanto tempo em silêncio.

Quando a noite veio, estava tão frio que o anão batia o queixo.

–Até o mar é mais quente.

–Deveria estar acostumado. O Oriente consegue se igualar ao Norte à noite.

Uma fogueira pequena foi acesa pelo Gandril, ainda mostrando utilidade, segundo Sor. Pescou alguns peixes em um riacho. Peixes tão pequeninos, que somente depois de comer cinco, acalmaram a fome do Sor, diferente do pequeno Lorde, que depois de sete peixes, ainda estava esfomeado e foi motivo de reclamação até que dormiu.

A manhã veio com uma brisa quente do Sul. A fogueira tinha se apagado e Gandril sumido, mas, com certeza, ele não fora muito longe, já que a carruagem e os cavalos ainda estavam ali.

–Volte a dormir, pequeno amigo. Talvez ele demore a voltar.

–Quando aquele abestalhado chegar, me avise, vou dar-lhe um corretivo.

–Não será necessário, talvez ele tenha ido procurar algo para comermos, afinal de contas, você estava tão faminto quanto um urso-dourado das colinas do Oriente.

O anão deitou a cabeça em seu travesseiro e se aconchegou na carruagem. Vitoriano saltou para fora e foi escovar os pelos de seu cavalo. Os curtos pelos castanhos brilhavam mesmo depois de um dia de viagem, não estava tão cansando quanto da última vez. Sor lembrou-se da última vez que se desmontou do cavalo, as marcas de ferida em suas costas, e podia ver em seu olhar que os machucados faziam-no triste. Nem todos sumiram, mas já tinham criado cascas resistentes. De dentro de sua bolsa, tirou uma linda maçã vermelha, suculenta, que fez até mesmo Vitoriano encher a boca d’água.

–Vamos lá, meu amigo. –Sua mão acariciava o musculoso pescoço do bicho. –Coma, está uma delícia. –Levou a maçã à boca do cavalo que a abocanhou inteira. –Nossa, que fome!

Mas algo fez o animal se assustar. Logo já estava agitado, e nem mesmo Vitoriano conseguia acalmá-lo.

–Hey, hey, calma! –Levou as mãos ao alto, tentando acariciá-lo, mas sentiu a dor da carne se rasgando.

O golpe foi tão forte que o atirou no chão em agonia. Quando conseguiu se levantar, vacilante, não conseguia ver nada.

–Quem está aí?

Mas sua pergunta não obteve uma resposta. O sangue lhe escorria. O golpe foi certeiro, pareciam garras, que desenharam riscos desde suas costas até as costelas. Vitoriano caminhou até a carruagem para ver se tudo estava certo, e um relincho que mais parecia um grito de socorro, assim como um grito de adeus, veio de seu garanhão. Vitoriano viu um Tigre Albino, montado no animal, com suas garras dianteiras no pescoço musculoso do mesmo, e suas garras traseiras em suas costelas.

O animal é tão grande que quase deu o tamanho de um cavalo inteiro. Suas longas presas, as quais mais parecem lanças, penetraram no pescoço do cavalo e, com uma mordida potente, rasgou a carne, derrubando o animal no mesmo instante.

–Não! –Sor Vitoriano desembainhou sua longa espada de aço reluzente com botão de flor, e a desferiu contra o tigre, que saltou em evasiva, desenhando na terra clara. A espada se enterrou na pata do cavalo, que já estava morto e ainda se esvaia em sangue.

O tigre rugiu e saltou em um ataque que, com toda certeza, teria matado o Sor, se não fosse por sua espada, a qual estava pronta para atacar e se enterrou no peito do animal, entre as patas. Mas, o peso foi tanto, que o tigre derrubou-o mesmo assim.

–Mas que merda está acont... –O anão se silenciou. –Mas, o que houve?

–O que acha? –Disse o Sor, empurrando o corpo da fera para o lado e se levantando. –Pelo menos teremos carne para o jantar. –Ironizou, mas sentia a tristeza em seu coração. –Minhas costas ardem.

–Oh, deixe-me ver.

O Sor tirou a camisa fina de linho, revelando as marcas em suas costas.

–Precisamos limpar isto aí. Espere um minuto. –O anão correu para dentro de sua carruagem e voltou com uma caixa preta. –É melhor ajoelhar, não alcanço.

O Sor obedeceu. O anão espalhou por suas costas algum tipo de unguento verde que ardeu-lhe até a alma.

–Você quer me matar?

–Morrerá se não ficar quieto.

Começou a enrolar algum tecido branco e grosso por todo o abdômen do Sor, ainda molhado pelo unguento.

–Sinto muito, meu amigo, mas o calor não vai te ajudar muito. Olha só quem finalmente apareceu! –Disse enraivecido, fechando a caixa com força. –Onde é que esteve? –Gandril não respondeu, somente ergueu várias cordas com peixes pendurados pelos rabos. –Pelo menos teremos carne para o jantar.

–Vamos voltar para a estrada, estamos chegando ao castelo. Gandril, você poderia cortar e separar nossas carnes e colocar sal para conservá-las?

Ele assentiu. Sor e o anão voltaram para a carruagem. Suas costas estavam pegando fogo.

–Aquele tigre é bem grande. Os do Oriente são lindamente alaranjados, mas de um tom muito intenso.

–Eu já vi um.

–Pois é. Lindos não?

E ele não respondeu. Seguiram caminho e passaram por um vale que parecia não ter fim. Quando finalmente começaram a sair dele, conseguiram avistar o topo do castelo e, assim, a cabeça de um dos gigantes.

–Estamos chegando, pequeno Lorde.

–Não sou um Lorde.

–Não deixem que saibam disto, senão ficarão muito decepcionados com você, pequeno Lorde.

O resto da viagem foi silenciosa. As costas do Sor ainda ardiam em chamas e suas mãos começaram a tremer.

–Quando chegarmos lá, terá sacerdotes.

–Mestres, meu amigo. Aqui no Sul se chamam Mestres.

–Por que Mestres?

–Porque todos são velhos e barbudos.

–Com as bolas se arrastando no chão.

–É melhor controlar sua pequena língua. Aqui eles gostam de educação, e uma palavra errada, você pode acabar sendo o primeiro, depois de doze anos, a ser guilhotinado.

–Só quero chegar logo e deitar em uma cama de penas de ganso. Quero uma refeição quente e uma mulher para se deitar comigo. É pedir muito? Acha que seus Reis ficarão ofendidos com isto?

–Rei. Aqui também é como no Oriente.

–São muitas as diferenças, assim como são muitas as semelhanças.

–Nunca deixe se enganar: as semelhanças às vezes são a diferença entre a vida e a morte, e assim como no Oriente, você sempre deve se ajoelhar perante o Rei.