Nova Terra
15 Rei do Norte
O sol apontou preguiçosamente pelas montanhas e cerros do Norte. Seus raios penetraram na imensidão branca, derretendo o gelo, mas o branco era a cor do Norte. Uma massa escura caminha do Ocidente em direção ao castelo Grifion.
–Meu Rei! –Chamou uma das sentinelas.
O Rei subiu até a torre mais alta do castelo e viu a massa escura, que gritava como aves, mover-se em direção deles.
–Mandem os arqueiros ficarem a postos. Todos os soldados devem estar com flechas. Faremos o sol desaparecer com um mar de flechas.
O Rei desceu até as muralhas, esperando pela massa escura que nunca chegava. O barulho aumentava cada vez mais, o vento ficava mais forte, mas demorou muito para que algo acontecesse.
–Meu Rei. –Disse a Rainha com uma reverencia.
–Não sei o que é. Entrará na cidadela em pouco tempo, talvez não passe de nossas muralhas, guardas estão lá embaixo, eu não sei o que está acontecendo. Várias coisas ruins passam pela minha cabeça. O Ocidente está se movendo.
O vento continuou forte como nunca.
Os grifos tomaram conta do céu, portando um arqueiro cada. Do alto, podia ter um vislumbre da cabeça de um dos gigantes de trinta metros que guardam o Sul. Eles sempre foram bem mais protegidos que o Norte. Por ser uma terra rica, nunca se preocuparam com a segurança, até que a escuridão caiu sobre o Ocidente e os ataques começaram. Já perdeu a conta de quantos Lordes perderam seus castelos.
Teve uma noite que os historiadores chamaram de Noite dos Lordes Mortos, em que os corpos choveram no quintal do castelo. Vários corpos mutilados despencavam dos céus por criaturas estranhas, com corpos esqueléticos alados.
–Os pedreiros morreram. –Disse a Rainha ao rei.
–Eu sei. Eu pedi para que meu amigo mandasse seus homens para morrer. Eu devia ter sido mais inteligente e pedido para que construíssem uma nova muralha, e depois outra para mantermos o inimigo mais longe, e agora, temos uma nova preocupação.
–Uma nova preocupação?
–Olhe isto. –Ele lhe entregou um pedaço de pergaminho que se enrolou em suas mãos.
Rei do Norte, Senhor e Protetor da terra Sempre Inverno, as ligações políticas do Sul para com vocês foram rompidas. O Rei do Sul ordenou que todas as mercadorias destinadas ao Norte sejam levadas ao Oriente, que concordou em comprá-las, e compraremos tecidos e especiarias.
Embaixador Luís Orlindo
–Mas isto...
–Eu sei. O Norte perdeu. Não terão mais canções sobre nós.
O barulho ficou mais alto, o vento continuou forte.
–Isso nos destruirá. Temos que fazer alguma coisa. –Insistiu a Rainha.
–Fazer alguma coisa? A coisa que fiz foi matar aquele menino.
–Ele entrou na floresta sem nossa permissão. Sem o consentimento do pai. Que florestas não abrigam assassinos? São os berços deles.
–Nós os matamos! –Ele disse quase gritando.
A Rainha sentou-se quieta.
–Desculpe-me.
–Não peça desculpas. Você é o Rei. Você sabe o que faz.
O silêncio que se seguiu era constrangedor. Uma ave negra voou e parou no merlão, perto do Rei.
–Temos que proteger este castelo, tudo pode piorar, mas se o castelo se mantiver, o Norte estará nos livros de histórias dos homens.
Outro corvo pousou na ameia. Um pequeno saquinho vermelho de veludo caiu do céu, de um dos grifos.
E a ave gritou. Um gritou estranho, quase humano, seus olhos são azuis como o mar. O Rei desferiu um golpe de espada, a qual rapidamente desembainhou, partindo a ave em duas. Mais corvos gritantes apareceram, voando e rodopiando. Flechas saltaram sem comando do Rei, acertando e colorindo as ruas de pedra da cidadela de preto.
Quanto mais matava, mais apareciam.
As flechas dançavam no céu, sendo disparadas primeiramente das torres e das muralhas.
–Não é educado atacar um convidado. –Alguma coisa disse.
Os corvos apareceram em número maçante, formando uma cortina. A cada flecha que matava um, dois apareciam.
–Seria mais cortês se parassem.
Mas flechas não pararam ao comando da voz. Os grifos entraram na briga, flechas dardejaram dos céus, caindo como chuva. A massa de corvos aumentava significativamente, parecendo nunca ter fim.
A cidadela do Norte foi engolida por uma escuridão de olhos azuis.
–CHEGA! –A voz gritou.
Os corvos atacaram. Voavam até os arqueiros, mordiam seus pescoços, mãos, braços, pernas. As flechas caíram e as espadas foram desembainhadas, todos dando golpes às cegas.
–Devia pedir para pararem. –Disse a voz ao Rei e ele viu um homem com roupas negras ao seu lado, com uma enorme foice na mão.
Não eram bem roupas. O capuz é de tecido preto, mas a partir dos ombros, começava a se transformar em fumaça, uma fumaça negra que cobria todo seu corpo. Seu rosto é impossível de ser visto.
–Como chegou aqui?
–Você me partiu em dois. –Os olhos brilharam. Um brilho mais dourado que o ouro.
–O que você quer?
–Que seus homens parem de me atacar. Machuca.
–PAREM! –O Rei ordenou. –O que você quer?
–Te ajudar. –A foice desapareceu.
–Como? Matando meus homens?
–Eles me atacaram.
–Atacaram os pássaros.
–E você acha que eu sou o quê?
As aves sentaram-se nos telhados das casas.
–Como vai me ajudar?
–Você está sendo atacado, sabe disso. Zoryans, Mortyans, Igulyans, Oritacuryans. Sabe disso e sabe que mais virão. Muitos mais.
–Você é o quê?
–Mirriliryans.
–Existem mais de você?
Ele balançou a cabeça em negativa.
–Como pode me ajudar?
–Guarnecendo seus portões.
–Qual é o seu pagamento?
–Eu quero dois homens. Não precisam ser musculosos e tudo. Eu só os quero.
–Para quê?
As aves começaram a voar, cobriram todas as ruas da cidadela, os jardins dos castelos, os merlões, as ameias, todo lugar tinha um corpo e começaram a crescer, se transformando em homens com roupas negras iguais a dele, exceto pelo capuz. Todos tinham os rostos cinza, olhos azuis e caninos afiados brotando para fora da boca. Suas peles são lisas e viscosas.
O Rei olhou para o Mirriliryans, que sorriu.
–Isso é uma carnificina.
–Eu não os mato. Eu os transformo. Como seus corações, e sugo seus cérebros. Assim, eles não podem pensar e nem me trair. Os corações causam a dúvida.
–Quantos matou?
–Perdi a conta em um milhão e trezentos mil.
–Há quanto tempo perdeu a conta?
–Há trezentos anos.
–Eu não... eu... eu não aceito sua ajuda.
–Morra então. Imagine todos os seus cidadãos morrendo. Você, morrendo. Quer que o Norte se torne um grande império, ou quer que fique esquecido?
–Posso ver seu rosto?
–Eu não tenho rosto. –O rei empurrou o capuz para trás e nada estava ali.
–Como os consome sem boca?
–Eu sou a escuridão. Eles se transformam ao meu tocar. –Os olhos dourados ainda brilhavam.
–Quanto precisa?
–A cada lua cheia, mandará um homem até mim.
–Se eu recusar eu...
–Se você recusar, os Zoryans, que estão mais próximos, comerão sua carne, e colocarão sua cabeça em um esporão para que todos os ocidentais possam ver.
Ele queria aceitar, mas também não queria. O Rei estava com uma questão em mãos. A salvação ou a destruição de seu reino.
–Eu aceito. –Ele disse sufocadamente.
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