Nova Terra
16 Katy
–Éter! Éter! –Chamou Katy.
–Katy? –Disse Éter, ainda sonolenta.
–Acorda a Katelyn, temos que ir às criptas.
Elas desceram as escadas com os pés descalços e foram até as criptas. Éter e Katelyn são suas criadas, presente do Lorde Azul. Um dos vários de seu pai na fronteira com o Norte.
–Senhora, não acha apropriado visitarmos as criptas durante o dia? –Perguntou Éter, amedrontada.
–Quem decide o que é apropriado? Se alguém disser que o apropriado é usar uma truta como chapéu você usaria?
Katelyn riu.
–Não. Mas estou com medo de ficar aqui embaixo.
–Você pode nos esperar lá em cima, se quiser. Não é incômodo.
Éter ficou em silêncio e continuaram a descer as escadas frias e úmidas da cripta. Tochas iluminam os caminhos tortuosos dos degraus até o Longo Corredor, onde ficam os túmulos de cada um da família real.
Quando os degraus chegaram ao fim, as tochas ondulavam e um ar quente subiu pelos pés das meninas, e foi aí que perceberam que não estavam sozinhas. Um pequeno dragão verde, do tamanho de uma carroça dormia na entrada, guarnecendo a cripta.
–Como vamos passar, Katy? –Sussurrou Katelyn.
–Pelo lado. –Sussurrou em resposta.
Passaram pelo dragão, com os corpos colados na parede de pedra gelada, e saltaram a cauda.
–Vamos. –Ela disse, sorrindo, e começou a correr. Suas criadas a acompanharam.
Quando chegaram ao fim do Longo Corredor, viram uma estátua. A única estátua da cripta, o tataravô de Katy talhado em pedra porosa, montado em um dragão de enormes asas abertas.
–É lindo, Katy. –Disse Éter passando a mão na cabeça do dragão.
–Eu sei. –Quando Katy tocou no rosto de seu tataravô, ela viu.
Viu os exércitos marchando para Myrra, o castelo do Oriente. As dunas de areia moviam-se a cada meia hora, coisa suficiente para enganar qualquer intruso.
Lanças com bandeiras azuis e brancas com rosas negras estampando-as, tanto as bandeiras das lanças, quanto estandartes e os peitos de metais das armaduras. Cavalos enterravam suas patas nas dunas, seus olhos protegidos pelos visores das testeiras. Cotas de malhas escondidas por tecidos azuis e brancos protegendo seus dorsos das costas. Logo estavam nas muralhas de Myrra. Um enorme dragão negro sobrevoou os soldados, centenas de milhares, mais do que qualquer exército já visto. E uma lança voou em direção do dragão, que com o fogo, consumiu-a, assim como o sonho. Logo via o aríete trazido pelos sulistas, de madeira com um botão de aço em formato de rosa, que se chocava contra os enormes e grossos portões. Não adiantaram de nada. Gigantes de quinze metros tentavam, sem sucesso, atingir os dragões com porretes e pedras. O dragão negro cuspiu piche incandescente no rosto de um gigante, fazendo-o desabar em agonia. Flechas dardejaram das muralhas, e das torres eram disparados arpões.
Escoras de madeira foram postas nos portões para sustentarem a violência do aríete, que batia seu botão de rosa na madeira, lascando e quebrando. Tentando incessantemente ceder o portão. Chamas verdes, azuis e vermelhas cresceram no topo do castelo, se transformando em enormes dragões serpentes que desceram serpenteando e lançando chamas multicoloridas.
Mais flechas e mais arpões.
A mesma coisa que picada de abelha: doía, mas não causava grande estrago.
–Abra os portões. –Ordenou a Rainha do Sul.
O aríete fez o portão vir abaixo e a verdadeira batalha começou, enfim.
–Katy? –Chamou Katelyn e Éter assoprando seu rosto. –Você está pálida.
–O que houve? –Ela perguntou.
–Você caiu. Fechou os olhos e caiu, ficou gelada de uma hora pra outra. Ficamos com medo que estivesse morta, mas ainda estava respirando. Mansamente, mas respirando. O que você viu? Ficava sussurrando gigantes, gigantes e dragão negro.
–Eu vi, eu vi a destruição do Oriente.
–D-destruição? –Gaguejou Éter.
–Sinto muito. Tenho que avisar meu pai.
–A esta hora ele deve estar dormindo.
–Não podemos esperar mais.
Correram escadas acima, saltando por sobre o dragão, sem medo de acordá-lo. Passaram por um guarda que ficou abobadado com o que viu, e seguiram para a Torre do Rei. Despistaram vários guardas que as seguiram e empurram outros.
–Pai! –Disse Katy abrindo a portão com um empurrão, fazendo um estrondo.
O Rei levou um susto tão grande, que caiu da cama.
–Katy, o que significa isso?
–Pai, temos um problema sério.
Katy contou tudo a seu pai. Ao chegar ao fim, o Rei caiu na risada, como já era de se esperar.
–Você é jovem, Katy. Não sabe de nada.
–Sei que o Sul planeja algo, pai. Temos que agir agora.
–Não planeja não. Katy, você está tendo alucinações, foi simplesmente um sonho.
–Não foi um sonho. –Gritou Katy.
–O Sul é nosso aliado. Temos vínculos comerciais com eles. Eles jamais iriam proclamar guerra contra nós. Isso é impossível.
–Quando tudo acontecer, não diga que eu não avisei.
Katy saiu do quarto, batendo a porta e sentindo uma raiva tão tremenda que sentia suas pernas falharem, mas forçou-as a continuarem.
Fale com o autor