–Éter! Éter! –Chamou Katy.

–Katy? –Disse Éter, ainda sonolenta.

–Acorda a Katelyn, temos que ir às criptas.

Elas desceram as escadas com os pés descalços e foram até as criptas. Éter e Katelyn são suas criadas, presente do Lorde Azul. Um dos vários de seu pai na fronteira com o Norte.

–Senhora, não acha apropriado visitarmos as criptas durante o dia? –Perguntou Éter, amedrontada.

–Quem decide o que é apropriado? Se alguém disser que o apropriado é usar uma truta como chapéu você usaria?

Katelyn riu.

–Não. Mas estou com medo de ficar aqui embaixo.

–Você pode nos esperar lá em cima, se quiser. Não é incômodo.

Éter ficou em silêncio e continuaram a descer as escadas frias e úmidas da cripta. Tochas iluminam os caminhos tortuosos dos degraus até o Longo Corredor, onde ficam os túmulos de cada um da família real.

Quando os degraus chegaram ao fim, as tochas ondulavam e um ar quente subiu pelos pés das meninas, e foi aí que perceberam que não estavam sozinhas. Um pequeno dragão verde, do tamanho de uma carroça dormia na entrada, guarnecendo a cripta.

–Como vamos passar, Katy? –Sussurrou Katelyn.

–Pelo lado. –Sussurrou em resposta.

Passaram pelo dragão, com os corpos colados na parede de pedra gelada, e saltaram a cauda.

–Vamos. –Ela disse, sorrindo, e começou a correr. Suas criadas a acompanharam.

Quando chegaram ao fim do Longo Corredor, viram uma estátua. A única estátua da cripta, o tataravô de Katy talhado em pedra porosa, montado em um dragão de enormes asas abertas.

–É lindo, Katy. –Disse Éter passando a mão na cabeça do dragão.

–Eu sei. –Quando Katy tocou no rosto de seu tataravô, ela viu.

Viu os exércitos marchando para Myrra, o castelo do Oriente. As dunas de areia moviam-se a cada meia hora, coisa suficiente para enganar qualquer intruso.

Lanças com bandeiras azuis e brancas com rosas negras estampando-as, tanto as bandeiras das lanças, quanto estandartes e os peitos de metais das armaduras. Cavalos enterravam suas patas nas dunas, seus olhos protegidos pelos visores das testeiras. Cotas de malhas escondidas por tecidos azuis e brancos protegendo seus dorsos das costas. Logo estavam nas muralhas de Myrra. Um enorme dragão negro sobrevoou os soldados, centenas de milhares, mais do que qualquer exército já visto. E uma lança voou em direção do dragão, que com o fogo, consumiu-a, assim como o sonho. Logo via o aríete trazido pelos sulistas, de madeira com um botão de aço em formato de rosa, que se chocava contra os enormes e grossos portões. Não adiantaram de nada. Gigantes de quinze metros tentavam, sem sucesso, atingir os dragões com porretes e pedras. O dragão negro cuspiu piche incandescente no rosto de um gigante, fazendo-o desabar em agonia. Flechas dardejaram das muralhas, e das torres eram disparados arpões.

Escoras de madeira foram postas nos portões para sustentarem a violência do aríete, que batia seu botão de rosa na madeira, lascando e quebrando. Tentando incessantemente ceder o portão. Chamas verdes, azuis e vermelhas cresceram no topo do castelo, se transformando em enormes dragões serpentes que desceram serpenteando e lançando chamas multicoloridas.

Mais flechas e mais arpões.

A mesma coisa que picada de abelha: doía, mas não causava grande estrago.

–Abra os portões. –Ordenou a Rainha do Sul.

O aríete fez o portão vir abaixo e a verdadeira batalha começou, enfim.

–Katy? –Chamou Katelyn e Éter assoprando seu rosto. –Você está pálida.

–O que houve? –Ela perguntou.

–Você caiu. Fechou os olhos e caiu, ficou gelada de uma hora pra outra. Ficamos com medo que estivesse morta, mas ainda estava respirando. Mansamente, mas respirando. O que você viu? Ficava sussurrando gigantes, gigantes e dragão negro.

–Eu vi, eu vi a destruição do Oriente.

–D-destruição? –Gaguejou Éter.

–Sinto muito. Tenho que avisar meu pai.

–A esta hora ele deve estar dormindo.

–Não podemos esperar mais.

Correram escadas acima, saltando por sobre o dragão, sem medo de acordá-lo. Passaram por um guarda que ficou abobadado com o que viu, e seguiram para a Torre do Rei. Despistaram vários guardas que as seguiram e empurram outros.

–Pai! –Disse Katy abrindo a portão com um empurrão, fazendo um estrondo.

O Rei levou um susto tão grande, que caiu da cama.

–Katy, o que significa isso?

–Pai, temos um problema sério.

Katy contou tudo a seu pai. Ao chegar ao fim, o Rei caiu na risada, como já era de se esperar.

–Você é jovem, Katy. Não sabe de nada.

–Sei que o Sul planeja algo, pai. Temos que agir agora.

–Não planeja não. Katy, você está tendo alucinações, foi simplesmente um sonho.

–Não foi um sonho. –Gritou Katy.

–O Sul é nosso aliado. Temos vínculos comerciais com eles. Eles jamais iriam proclamar guerra contra nós. Isso é impossível.

–Quando tudo acontecer, não diga que eu não avisei.

Katy saiu do quarto, batendo a porta e sentindo uma raiva tão tremenda que sentia suas pernas falharem, mas forçou-as a continuarem.