Nova Eternis - Vl.01

2 Capítulo 2 - Até Aqui, Sozinho


Parte 1

É estranho… o peso dela não diminuía.

No jogo, tudo devia ser dado: cálculo, polígono — coisa que some quando você desliga. Mas Emi pesava como no mundo real: corpo mole, pele gelada, silêncio que ocupava mais espaço que qualquer mapa. Meus braços ardiam, e a cada passo eu afundava mais na trilha vazia. O sangue seco no uniforme não escorria — grudava na pele, lembrando que aquilo não era um pesadelo.

O HP ainda piscava em vermelho no canto do visor — baixo demais; qualquer criatura podia me apagar.

Poções, magias de cura — nada.

E não havia som: nenhum mob, nem ruído de cidade. Até o vento parecia ter desistido. O mundo inteiro prendia a respiração, como se me desse licença para enterrar minha irmã sem pressa.

Olhei pra frente. A estrada se estendia reta, interminável: pedra, asfalto, casas, lojas, o pôr do sol alaranjado — tudo bonito demais, falso demais. Engoli a ironia; o cenário brilhava enquanto eu me despedaçava.

Os olhos vidrados das pessoas me seguiam. Jogadores atordoados vagavam pelas ruas — alguns sentados, encarando o nada; outros gritando nomes que não iam responder. O cheiro metálico do sangue — sangue real — ainda impregnava o ar.

Havia corpos espalhados pelas praças e vielas. Também não se desfaziam em partículas como nos jogos. Eram jogadores que morreram no ataque invocado… amigos, parentes, amantes. Tinham ido embora para sempre. Aqui e lá fora também.

O contraste com os NPCs era surreal: eles continuavam com a rotina, varriam, ofereciam itens, sorriam no mesmo loop. Um mundo em colapso e eles… scripts.

Então um veio até mim: cartola, roupa preta impecável, sorriso ensaiado. A interface sobre a cabeça brilhava em dourado: [Serviços Funerários de Eterna Paz].

— Olá, jogador — disse, voz calma demais. — Posso oferecer cremação, enterro ou lápide mágica. Preços variam conforme o pacote.

A fala dividiu meu coração em dois. Ele não via um corpo; não via minha irmã. Via um item, um código.

Meu braço tremeu; a mão quis alcançar a adaga e arrancar aquele sorriso da cara dele. Mas respirei fundo e passei reto. O NPC virou e foi repetir a mesma oferta para outro infeliz.

Era isso que o jogo chamava de “condolência”: poções, equipamentos, covas. Dignidade, não vendiam.

Acelerei o passo sem olhar pra trás. As muralhas da cidade ficaram para trás e o mundo abriu-se vasto e vazio.

As planícies se estendiam, gramíneas escuras ondulando sob um vento frio demais pra ser natural. O sol já se curvava no horizonte, tingindo tudo de dourado fúnebre.

Pelo caminho, mais manchas de sangue, armas caídas, corpos imóveis. Não havia sobreviventes nas planícies — todos, provavelmente, correram de volta à cidade quando as barreiras caíram. Mal sabiam eles que apenas encontrariam mais luto.

Procurei um trecho afastado, longe do rastro de morte. Queria um lugar onde ela pudesse descansar em paz — pelo menos o que esse mundo permitia.

No meio do caminho vi uma tenda de ferramentas mágicas, lanternas azuis tremeluzindo. Sobre a bancada, uma pá encantada prometia abrir covas em segundos. Parei. Pensei. Virei o rosto. Se eu fosse enterrar minha irmã, faria do meu jeito.

Ajoelhei no gramado frio e coloquei Emi ao meu lado com cuidado, como se ela ainda pudesse sentir dor. Saquei as duas adagas. A primeira cravou fundo; a lâmina entortou quase de imediato. A terra era dura, compacta; o cheiro do barro molhado subiu pesado. Continuei. Não sei quanto tempo passou — só sei que, quando o buraco ficou fundo, minhas adagas estavam tortas e as palmas abertas em sangue.

Com esforço, deixei Emi na cova. O corpo afundou no escuro e, por um segundo, quis acreditar que aquilo não estava acontecendo.

Pensei nos nossos pais. Já teriam percebido? Talvez o console tivesse travado; talvez os nomes das vítimas fatais já estivessem circulando na TV. Vi meu pai me odiando de vez, me amaldiçoando por tê-la trazido pra cá. Vi minha mãe desabando, chorando como nunca, sem forças nem pra me defender.

“Se algo acontecer com ela, a culpa será sua!”

A frase caiu sobre mim como tsunami, esmagando tudo por dentro.

Por um instante agarrei-me à mentira: talvez Emi tivesse… deslogado. Talvez estivesse em casa, caída na minha cama, com sono, sã e salva. Talvez estivesse desesperada atrás de um jeito de me ajudar, como sempre fazia lá fora. Talvez aquele corpo fosse só um reflexo falho do jogo.

Aí a voz daquela garotinha infernal — Noova — voltou na minha cabeça, com o sorriso infantil e torto e o aviso doentio: “Aqui, quando morremos, morremos em todos os mundos.” O riso doce dela diante do desespero — não havia escapatória. A merda era real.

— Eu te amo. Sempre. — sussurrei, em despedida.

Nunca imaginei que a despedida mais importante da minha vida seria dentro de códigos programados, com o mundo inteiro em silêncio.

Meus lábios tocaram sua testa fria — um último beijo.

Levei mais um bom tempo cobrindo a cova, punhado por punhado, até sobrar só um montão de terra batida, fria e irregular. O silêncio ali perdurava — o mundo realmente havia parado para assistir ao enterro dela.

Abri o inventário; a presilha dela brilhava no slot, pequena como sempre. Pensei em usá-la pra adornar precariamente o túmulo. Encostei o dedo no ícone e congelei. No fim decidi: ia levar aquela última lembrança física de Emi comigo. Seria meu amuleto, minha lembrança… e minha punição.

Fechei o menu. Respirei fundo, tentando prender o último pedaço da presença dela junto a mim. Levantei-me tremendo — não de cansaço.

— Não é como se ela fosse morrer por causa de um jogo… — murmurei, e a maldita frase enroscou na garganta.

— Mas ela morreu. Por minha causa. Nesse maldito jogo.

O vento passou frio nas costas, como se o próprio mundo tivesse ouvido. Uma janela do sistema surgiu em cinza etéreo diante de mim:

[Deseja registrar este local como um cemitério pessoal?]

[Sim] — [Não]

Engoli seco, travei os dentes e selecionei Sim. Outra tela subiu, fria e mecânica:

[> Digite a mensagem que ficará vinculada ao túmulo.]

Os dedos tremiam. Demorei a escrever e acabei deixando só uma linha:

[> Aqui descansa Emi Kurohane. Minha irmã. Minha culpa.]

O holograma fixou-se sobre a cova — uma luz discreta flutuando no vento da planície. Simples. Direto. Fechei a janela. A quietude voltou.

Um farfalhar baixo rompeu a paz frágil: a grama se moveu. Das sombras rastejou um monstro pequeno, ridículo — um coelho selvagem com chifres curtos e olhos esbranquiçados de mana.

[Coelho Malicioso — Lv. 1]

A coisa mais banal que aquele mundo podia cuspir. Por um segundo quase ri. Depois de tudo aquilo, era esse o inimigo que o jogo me oferecia — uma caricatura. Cômico, se não fosse detestável.

A barra de HP dele brilhou sobre a cabeça. Senti o sangue subir como fogo e segurei as adagas tortas, ainda sujas de terra. Os dedos ardiam, mas não soltei.

— É isso? — murmurei, rouco. — Que seja. Você vai ser meu primeiro passo pra vingança.

O bicho grunhiu e avançou, mordendo o ar. Eu avancei junto.

Este será meu primeiro tributo a você, Emi.

Parte 2

O frio da madrugada grudava na pele, mesmo sendo um mundo virtual.

Eu estava encostado numa árvore retorcida no alto da encosta, de onde dava pra ver boa parte da planície. O corpo inteiro moído, mas sem conseguir dormir. As adagas repousavam no colo; o HP agora na faixa amarela, regenerando bem lentamente, mas não importava. O pior era dentro.

Fechei os olhos e, por um instante, achei que conseguiria ao menos cochilar. Mas a maldita frase voltou:

“Não é como se ela fosse morrer por causa de um jogo…”

A cena veio inteira outra vez — Emi sendo arrancada do chão, chorando, chutando o ar, me chamando. Depois, o corpo caindo, a carne batendo contra a pedra, o sangue digital que parecia mais real que qualquer coisa que já vi na vida.

Acordei num tranco, ofegante. A mão bateu na grama úmida com força, como se eu pudesse esmagar aquela lembrança. Nada adiantava. Eu já entendia: cada noite seria assim, cada maldito segundo em que eu fechasse os olhos, ela cairia de novo, e eu ia assistir, preso, até enlouquecer.

Ainda estava no Nível 2, impotente contra esse mundo. No bolso? Só uns 150 Eternis — “NEs”, como li alguns chamando em fóruns no pré-lançamento, tipo “e-nes”. Dinheiro que não comprava porcaria nenhuma.

Mas não ia ficar assim por muito tempo. Se eu não reagisse, ia acabar afundando no mesmo buraco que os fracos que esperavam a morte chegar. Eu não ia parar por nada.

Horas de insônia depois, o sol nasceu lento, como se zombasse de mim. A claridade não trouxe alívio — só deixou mais nítido o silêncio do vazio ao meu redor.

Levantei sem comer, sem pensar. Eu não tinha absolutamente nada, senão uma ideia batendo no crânio: caçar. Não tinha como voltar atrás, não tinha como “esperar” o jogo acabar. Ou eu me mexia agora, ou Emi teria morrido por nada.

Os primeiros inimigos eram fáceis — mobs que davam spawn aqui e ali pela área da planície: javalis digitais fuçando o chão, lobos isolados, goblins de cara idiota. Sozinhos, eram piada; caricaturas. Nada perto da Aberração de Pano que arrancou a vida da Emi. Pareciam saídos de uma mente infantilizada, tipo a daquela maldita garota IA.

Mas cada vez que os mobs avançavam contra mim, a lembrança da Aberração voltava. A lembrança me fazia cortar e chutar mais e mais forte.

Este corpo virtual ainda não era acostumado a correr tanto, mas as pernas obedeciam. Aprendi rápido a observar: um goblin sempre erguia o braço esquerdo antes de atacar, um javali raspava a pata no chão antes de disparar. Não era só sobre força — era sobre padrão, ritmo.

Claro que cometi erros no começo. Quando sofria algum dano, recuava, respirava e voltava. Nunca cheguei a correr risco de morte, mas cada batalha drenava a stamina até quase zerar. Caí na grama mais de uma vez, exausto — mas a raiva sempre me fazia levantar.

No fim da tarde, depois de destruir o último mob, o suor grudava no uniforme. Eu estava acabado, mas mais firme do que de manhã.

O sistema piscou na minha frente, uma linha verde subiu na tela cinzenta:

[Level Up! — Lv. 4]

Dois níveis... Não era muito, mas era o começo.

O estômago roncou alto.

— Certo... hora de garantir o rango.

Atravessei a planície em silêncio, com as adagas sempre preparadas pra algum encontro inesperado. A lua começava a subir, e o vento frio arrastava o cheiro de grama e ferro. Alguns ruídos se destacavam no escuro — passos leves, folhas sendo remexidas. O tipo de som que o instinto aprende rápido a reconhecer: presa.

Um javali selvagem fuçava o solo logo adiante, farejando raízes. A distância era boa demais pra desperdiçar. Ajoelhei, observando. No canto da visão, um novo ícone piscava:

[Habilidade Passiva em uso — Gatuno]

[Efeito: -30% ruído e chance reduzida de detecção à noite.]

Sorri torto. O nome soava como uma coincidência boba e cruel ao mesmo tempo.

— Gatuno, é?... Vamos testar essa ironia em forma de skill.

Abaixei o corpo até quase tocar o chão. O som dos passos sumiu, e a barra de detecção do javali despencou. Me movi devagar, medindo até a respiração. O bicho nem percebeu.

Mais um passo.

O último.

Já era, seu merda.

A lâmina brilhou só por um instante — rápido demais pra refletir a lua.

[Crítico!]

O javali caiu sem som, dissolvendo-se em fagulhas douradas.

[Drop: Carne Crua de Javali ×2 | Couro Rachado ×1 | XP +45]

Limpando as adagas na grama, murmurei:

— Eu até gosto de uma boa briga frente a frente... mas caçar nas sombras não é nada mal.

O sistema respondeu, frio e direto:

[Habilidade Furtividade — progresso +32%]

— Até o jogo sabe que é verdade. No meu caso, silêncio é poder.

Sorri, cansado.

— E quanto mais silêncio eu fizer, mais fácil fica matar.

Precisava testar essa teoria. E embora houvesse risco de maior movimentação de mobs, e minha stamina estivesse baixa, a noite estava boa demais pra desperdiçar.

Poucos metros adiante, três goblins circulavam sem rumo. Subi na árvore mais próxima, saltando devagar — o tronco úmido mal rangeu sob o peso. O HUD marcava 20% de chance de detecção. Baixo o bastante.

Esperei.

Dois entraram na zona de alcance.

Saltei.

As duas adagas baixaram em arco, direto contra os crânios.

[Crítico!] — [Furtividade em Progresso +51%]

Os corpos se dissolveram em partículas digitais antes mesmo que os gritos saíssem. O último se virou, confuso — tarde demais. Um corte seco à altura da carótida; mais fagulhas, mais XP.

No fim, restou só o som do vento varrendo as folhas e galhos.

Dei mais alguns passos, e um serzinho familiar, orelhudo, com um chifre pequeno na testa atravessou o mato à frente. Ridículo, mas comida é comida.

Apertei o passo, me tornei sombra, e o alvo nem percebeu a morte quando teve o corpo dividido ao meio ao saltar ao meu lado.

Um corte imperceptível.

[Coelho Malicioso — Lv. 2 — derrotado]

[Drop: Carne Crua ×1]

[Crítico!] — [Furtividade em Progresso +17%]

[A furtividade do jogador foi aprimorada! — Habilidade passiva — Gatuno — foi dominada]

— Deu por hoje — concluí, satisfeito.

Peguei o loot e segui em direção à encosta, já imaginando o cheiro de carne fresca assando no fogo improvisado. A primeira refeição digna desde que esse inferno começou.

Quando a noite engoliu todo o vale, feito uma lona pesada, voltei para o mesmo ponto de descanso de antes — o alto da encosta, aquela árvore torta. Por algum motivo, os monstros não gostavam de subir até esse ponto. Era o lugar mais próximo de “seguro” que encontrei.

Encostei as costas no tronco áspero, as adagas, como sempre, sobre meu colo. A barra de HP quase cheia, mas a stamina ainda em vermelho. Descobri rápido que só descansar não bastava — a recuperação natural era lenta demais. Mas quando assei e devorei os drops de carnes de javali, junto com um pouco de água, notei a diferença imediatamente.

— Então é isso... além de saciar fome, a comida acelera o regen. Não dá pra depender só de poções. — falei comigo mesmo, limpando a boca com as costas da mão. — Talvez até dê pra extrair mais se alguém souber cozinhar de verdade. Quem sabe uma sopa, um cozido, algo que dê buff temporário ou imunidade contra veneno...

Suspirei. Eu já sabia que o jogo oferecia todo tipo de experiência variada aos jogadores — não se tratava só de matar monstros e derrubar dungeons. O jogo tinha espaço pra todo tipo de função: alquimia, ferreiro, coleta, até profissões sociais. Qualquer uma delas podia ser explorada como caminho de sobrevivência. Materiais poderiam ser coletados, combinados, trocados. A gameplay era para todo tipo de gente. Pelo menos deveria ser assim, antes de se tornar uma armadilha mortal onde só os fortes sobrevivem.

Balancei a cabeça, bufando… Não tinha ninguém forte nessa bosta de mundo… Ninguém... além de mim.

— Não vou perder tempo com essas frescuras. Meu único ofício é matar. — Cruzei as adagas no colo, deixando a luz da lua refletir nelas. — Se outros quiserem brincar de cozinhar ou vender poções, ótimo. Eu compro quando precisar. O meu papel é outro.

Mastiguei devagar uma maçã que colhi de uma árvore qualquer, olhando o horizonte que já se apagava em azul-escuro.

Quando fechei os olhos, veio de novo — a frase queimando na mente, o corpinho dela despencando, ela gritando por mim.

— CHEGA! — urrei, socando o chão, acordado e suado.

A respiração falhava. Não importava quantas vezes tentasse afastar a lembrança, ela sempre estaria lá — às vezes pedindo ajuda, às vezes me culpando, sempre voltando pra me estraçalhar.

Limpei o suor da testa e respirei fundo, forçando as palavras entre os dentes:

— Não vou parar até esmagar esse mundo inteiro.

O sono fugiu. Fiquei sentado, fitando o céu falso e estrelado — uma paz ainda mais mentirosa. Remoí aquilo até o amanhecer.

Na manhã ensolarada do meu oitavo dia em Nova Eternis, atravessei os portões da cidade. O lugar não tinha desmoronado, mas o clima era outro: jogadores discutiam alto nas ruas, outros cochichavam lançando olhares desconfiados. Muitos andavam de cabeça baixa, como se a tensão dessa realidade os esmagasse a cada segundo.

— O pão da taverna tá quase acabando! — um reclamou.

— Eu não tenho moedas nem pra dormir na pousada! — outro choramingou.

— Ei, não beba toda a água! A gente mal tem pra sobreviver! — uma garota brigava com outra.

Um terceiro, magro e pálido, estendia as mãos para quem passasse:

— Por favor... só um pedaço de pão... qualquer coisa...

Ignorei. Eles procuraram aquilo. Não caçam, não lutam, não se arriscam — estão pedindo pra morrer. Se não for aqui, vai ser lá fora. Ouvia gemidos e discussões em cada esquina, mas, pra mim, era só barulho de covardia.

Foi quando ouvi o choro. Um som agudo, infantil, que destoava de todo o resto.

— Papai… mamãe… me levem pra casa… por favor… — a voz embargada vinha de uma garotinha encolhida na beira da praça, braços finos abraçando os joelhos.

A garota devia ter a idade da Emi: cabelo curto, castanho-claro, mechas mal penteadas colando no rosto molhado de lágrimas. A roupa de iniciante já parecia amassada, como se ela tivesse dormido na rua. Pequena demais para esse inferno.

O jeito como ela ansiava pelos pais me lembrou da Emi — dizendo que queria voltar pra casa, naquele dia em que tudo desabou.

— Eu quero voltar… não quero ficar sozinha aqui… — soluçou baixinho.

Antes que eu desse outro passo, uma mulher cansada correu até ela e ajoelhou-se. O nome no ícone acima dela brilhou: Tomoko. Devia ter uns trinta anos, cabelo preso num coque frouxo, olheiras fundas. A expressão era de quem já chorou demais, mas força um sorriso pra não desabar.

Ela envolveu a menina num abraço apertado.

— Nozomi… calma… eu tô aqui, não precisa chorar. Ninguém vai te abandonar, entendeu?

— Mas eu quero meus pais… — soluçou a menina, agarrada à roupa dela.

— Eu sei… eu sei… — Tomoko afagou os cabelos. — A gente vai dar um jeito. Mas você não pode desistir agora, ouviu? Você precisa ser forte e fazer sua parte. Assim, um dia poderemos voltar pra casa.

Fiquei parado, olhando por alguns segundos. A cena era deslocada e cruel: a criança chorando pelos pais, a adulta tentando colar os cacos do mundo… tudo enquanto NPCs sorriam e ofereciam bugigangas como se nada tivesse quebrado.

Virei o rosto. Este jogo não tem pena de ninguém — nem de criança. Ser fraco aqui é pedir pra morrer… e ela não é a única. Tem muitos outros assim — mais novos até.

Apertei o passo e deixei as duas pra trás. Não tinha espaço pra esse tipo de dor dentro de mim. Não mais.

Segui até a taverna improvisada, onde a movimentação era maior. Na parede, um quadro de madeira exibia folhas digitais brilhando com recompensas. NPCs circulavam com sorrisos exagerados, anunciando prêmios como feirantes de mercado barato.

[“Aventureiro! Caça aos javalis valendo moedas frescas!”]

[Missão de coleta de ervas! Uma oportunidade imperdível!]

Era ridículo, mas as recompensas eram reais. XP, dinheiro e itens não se desperdiçam. Então fui até o balcão.

Escolhi uma missão simples: caçar goblins que rondavam o rio. O NPC responsável sorriu teatral, entregando a descrição.

— Bravo, aventureiro! Tenho certeza de que vai cumprir essa missão com coragem!

Me lembro que, quando entrei no jogo, achei o realismo dos NPCs tão incrível que quase os confundi com jogadores. Mas esse já não era mais o caso.

A voz ensaiada me irritou. Se esse mundo é tão real... então vamos ver até onde vai esse realismo todo.

Arranquei a adaga do cinto e golpeei o peito dele. Um clarão azul me empurrou um passo para trás, centímetros antes de tocá-lo; o NPC piscou e voltou a sorrir, intacto.

O ícone sobre sua cabeça acendeu num holograma curto: [imortal].O HUD subiu na minha frente com um aviso:

[Infração registrada: ação ilegal — 1 de 3 — Passível a penalidades]

Me pergunto… O que aconteceria se o contador chegasse a três?

— Tanto faz. — Estalei a língua. — Tudo aqui é mentira.

Ignorei os olhares circundantes — cheios de desconfiança e estranheza — e me retirei rumo à primeira quest voluntária daquele inferno.

Deixando a cidade, segui por um caminho de terra até o rio; o mato alto balançava, escondendo movimentos. Eu já sabia o que viria.

Três [Goblins Menores — Lv. 3] saltaram do barranco, barulhentos demais pra ser uma emboscada — um com um pedaço de ferro enferrujado, outro com uma pedra, o terceiro rosnando e babando.

Sorri torto.

— É sério? É com isso que vocês querem me matar?

O da pedra veio primeiro. Dei um passo de lado e cortei a garganta dele de baixo pra cima; o grito morreu num filete de som sufocado.

Havia aprendido desde ontem a por em prática o óbvio: sempre mirar o ponto fraco. Terminar uma briga rapidamente era melhor modo de sobreviver.

O segundo ergueu a barra de ferro, desajeitado. Cruzei as adagas, aparando, e chutei o peito dele com força. O goblin caiu de costas, esperneando.

— Levanta. — Apontei a lâmina, esperando reação. — Vamos ver se tem mais do que esse teatrinho tosco.

Ele guinchou, tentou erguer a barra outra vez. Enterrei a adaga no abdômen — rápido, seco.

O terceiro parou; os olhos vermelhos tremeram. Virou as costas e correu em disparada.

— Covarde. — Respirei fundo e fui atrás. — E pensar que até mobs se borram de medo assim.

A distância era pequena. Lancei uma adaga; a lâmina atravessou as costas dele e o corpo desabou rolando na grama. O sangue virtual escorria quente como se fosse real. Recolhi a arma e a limpei na pele verde dele.

— Isso foi tipo um tutorial tosco... mas pelo menos paga as contas.

O HUD surgiu: [Quest concluída! Retorne ao contratante para receber seu prêmio]

Dinheiro fácil. Era disso que eu precisava no momento.

Agora esse seria o novo foco.

E nos dias seguintes, aquilo virou rotina: quest, treino, recompensa, solidão. De manhã eu caçava — javalis, goblins, às vezes aves e lobos dispersos. À tarde, completava alguma missão idiota de coleta ou entrega. À noite, voltava pro mesmo canto seguro onde já havia aprendido a descansar.

Cada missão cumprida — pessoal ou quest — me deixava mais rápido. Mais afiado. O corpo começou a se mover por instinto. A furtividade agora me permitia emboscar inimigos com mais facilidade. Quando aparecia o ícone [Crítico!], eu quase sorria.

Mesmo assim, a cidade fervilhava em cochichos toda vez que eu voltava registrar recompensas.

Era o décimo segundo dia quando atravessei a praça e ouvi a mesma ladainha:

— Ele pega todas as quests!

— Não sobra nada pros outros!

— Se acha melhor que todo mundo!

Andei sem parar; o desprezo escorria pelos olhos deles como chuva. Meio que já era padrão — sempre apontavam o dedo, mas ninguém fazia porra nenhuma que prestasse.

Mesmo assim, continuei obcecado por números, status e loot. No fim do décimo terceiro dia, meu HUD já marcava [Level 11]: atributos maiores, itens variados e cerca de 1.000 NEs no bolso.

A solidão, porém, não mudou. Cada madrugada vinha com os mesmos pesadelos com a Emi, sempre acompanhados daquela frase maldita. E eu continuava acordando no susto, suando frio toda vez.

— Vou te enterrar, Norikawa! — A promessa se renovava noite após noite.

Parte 3

O décimo quarto dia chegou abafado, nuvens cinzentas cobrindo a cidade inicial, ameaçando uma chuva que nunca vinha.

Voltava do quadro de missões com moedas pesando no inventário e pretendia passar numa loja de armas quando senti os olhares, mais pesados que antes, concentrados — como se todos esperassem algo.

Um cara alto subiu num caixote no meio da praça, braços abertos, voz teatral.

— Olhem ao redor! — começou, e a multidão assim fez. — Quantos de vocês estão dormindo na rua, sem teto? Quantos já ficaram sem pão por falta de dinheiro? Quantos perderam amigos tentando arriscar a vida lá fora?

O burburinho cresceu. Vi cabeças baixas, gente chorando, outros concordando com acenos. Ele tinha o público na palma da mão.

— Tudo porque as quests são limitadas! — elevou a voz. — Porque os mobs demoram a reaparecer! E porque alguém aqui decidiu pegar tudo só pra si!

O braço dele apontou direto pra mim.

— Esse aí! Kyato! Ele monopoliza tudo! Enche o bolso de grana enquanto a maioria passa fome! Esse cara não é herói nenhum. É um parasita! Um vilão!

Os olhares se fecharam sobre mim. Murmúrios viraram acusações:

— É verdade!

— Não sobra nada pra gente!

— Tá matando todo mundo de fome!

Algumas vozes tentaram defender:

— Mas ele luta lá fora quando ninguém tem coragem...

— Foi ele quem perdeu a irmãzinha no primeiro dia… Não acho que seja egoísmo.

Mas foram abafadas por vaias. A maioria já tinha me tirado pra vilão.

Fiquei parado, ombros soltos, olhos fixos nele. O orador — o ícone sobre a cabeça mostrava o nome: Hayato. Devagar, ele desceu do caixote e veio até mim, peito estufado.

— Não foi só você quem perdeu alguém, sabia? Se tiver dignidade, divide o que ganhou. Ou a gente vai tratar você como inimigo.

Ergueu o punho, achando que ia me intimidar. Continuei calado.

— Ei, tá me ouvindo, seu moleque?! Eu mandei você—

Não terminou. Em segundos ele estava no chão. Não precisei sacar as adagas; um chute seco no joelho bastou para ele desmoronar. O público mal piscou e Hayato já estava dominado.

— Argh!... V-você?!...

Segurei a gola da capa dele, punho erguido sobre o rosto.

— Se tem coragem de me atacar, tem que estar pronto pra morrer. Tá preparado?

O suor escorreu na têmpora dele. Ainda assim sorriu com deboche.

— Então resolveu mostrar quem realmente é, né?! Espero que esteja preparado pra ser inimigo de todos!

Caiu um soco. Outro. E outro. O rosto dele já começava a sangrar e inchar; o HP despencava lentamente.

— E daí?… — rosnei entre socos. — Alguém aqui tem peito pra me encarar pra valer? Acha que eu não te mataria?

Mais um soco.

— Acha que eu não mataria qualquer um aqui?

E outro.

— Qualquer um que se meta no meu caminho pra vingança vai ser enterrado junto com esse mundo.

Quando o HP dele chegou à faixa amarela, alguns na multidão gritaram:

— Já chega!

— Vai matar ele!

— Para, seu louco!

Parei porque quis, não por eles. Soltei Hayato; ele rolou no chão, ofegante, quase apagado.

— S-seu arrombado! — Hayato se arrastava pra trás, tossindo, tentando limpar o sangue com as costas das mãos. — Acha mesmo que pode sair ameaçando a gente assim?! Você é só um player solo, contra uma cidade inteira!

— Grande bosta. — Encarei ele por alguns segundos, depois virei pra multidão. — Alguém aqui tem culhão pra um PvP comigo? Alguém aqui sequer chegou ao level três?

Cuspi no chão e encarei aquele bando de sem-noção. Seus olhares se cruzaram em pânico; murmúrios abafados se espalharam.

— Já passei do nível dez. Tenho força de sobra pra arrebentar qualquer um aqui, só no tapa. E se vierem todos juntos? Posso até morrer — jurei, com a voz fria — mas levo uns duzentos comigo, fácil.

Soltei o sorriso mais perverso que consegui.

— Quem vai ser o primeiro a me encarar? Não… Quem serão os duzentos primeiros?

Silêncio absoluto; ninguém sequer respirou alto.

— Vocês não fizeram nada quando a minha irmã foi morta. Eu não devo porra nenhuma pra vocês. Querem viver? Se virem. Se não, morram de uma vez, cacete.

O silêncio pesou. Depois, começaram os cochichos.

— Ele enlouqueceu!

— Talvez essa loucura o faça zerar o jogo!

— Ou vai se matar tentando!

— Pior… vai virar um vilão de verdade!

“Vilão.” A palavra se espalhou feito um vírus — rótulo barato que, mais tarde, viraria sinônimo de assassino e bandido dentro do jogo. Por agora, era só outro apelidinho sem-noção.

— I-isso não vai ficar assim, maldito!... — a voz mais aguda e raivosa de Hayato ecoou.

Não respondi de imediato.

Herói ou vilão, esse mundo receberia a minha vingança do mesmo jeito. E só para garantir que isso ficaria bem claro:

— Kyato Kurohane… Esse é o último nome que aparecerá em seus HUDs, quando esse mundo for enterrado.

Na mesma hora, o ícone sobre minha cabeça, que até então só mostrava meu primeiro nome, adicionou o “Kurohane” ao lado. Era como se o sistema tivesse me ajudando a espalhar meu nome para todos verem, conforme eu quis.

Sem mais, virei as costas e deixei a praça pra trás. Ainda sentia os olhares me queimando, mas ignorei. Tinha coisas mais urgentes pra resolver.

As adagas do cinto pendiam tortas, cegas, rachadas demais; o ferro já não cortava direito, e a placa sobre meu peito estava quase partida ao meio, de tão gasta. Parecia sucata — um trapo. Claro: se eu quisesse sobreviver, precisava de equipamento novo.

Atravessei a rua até a loja de armas. O letreiro holográfico piscava como bug mal corrigido; dentro, prateleiras abarrotadas de espadas reluzentes, lanças alinhadas, armaduras para todo tipo de classe — um show vazio, programação vendida como salvação. A maioria, nível baixo.

O ferreiro NPC sorriu.

— Bem-vindo, jogador! Temos as melhores lâminas da região, prontas pra quem busca glória e poder!

— Cala a boca — murmurei, abrindo o menu de compra.

Troquei tudo pelo melhor que a cidade inicial tinha a oferecer. Adagas novas: lâminas de finas, de aço, com brilho azulado nas bordas — afiadas, leves e rendiam mais cinco pontos de ataque. Prontas pra perfurar e desaparecer na sombra comigo. A nova placa de aço cinza-escura me garantia mais cinco pontos de defesa. Ajustava como segunda pele: resistente, porém leve. A capa simples de caçador — azul-escura — dava um boost de mais dois na furtividade.

Me encarei no reflexo borrado da vitrine. Agora sim: mais rápido, mais afiado, melhor pra matar monstro metido a besta por aí. A durabilidade também não era nada mal.

Quando saí da loja, continuei ignorando os outros jogadores — principalmente os que tinham visto a comoção de antes. Fui rápido em direção às planícies, ansioso pra testar os equipamentos novos.

— Só mais alguns níveis, e eu exploro a primeira dungeon... Preciso ficar forte o bastante pra ir sozinho.

Fiz planos comigo mesmo. Mas a vida, claro, não costuma ser parceira de Kyato Kurohane — seja qual for o mundo.

Eu só queria atravessar rápido, mas uma voz me chamou.

— Você… é o Kyato, não é?

Parei, a mão indo instintivamente à adaga. Uma mulher se aproximava: rosto cansado, olheiras fundas, cabelo castanho preso num coque frouxo. O nome sobre a cabeça dela brilhava: Tomoko. Era a mesma que eu vira consolando a garotinha na praça, dias atrás.

— Quem quer saber? — respondi, a cara de poucos amigos.

Ela ficou a poucos passos, a respiração curta.

— Me chamo Tomoko Norashima... Por favor… preciso da sua ajuda.

— Tsc. — Virei o rosto. — Se é esmola, fala com outro.

— Não! — a voz dela tremia. — É sobre uma menina! A garota que está sob meus cuidados… ela desapareceu. Saiu sem que eu percebesse, já faz mais de três horas, e não voltou.

Soltei o ar com força.

— Ela aparece no mapa? — Tomoko assentiu com a cabeça. — Se o marcador dela não se move, ou caiu numa armadilha ou tá cercada. Em outras palavras: morta.

Os olhos dela se arregalaram, mas ela respirou fundo e abriu o menu com mãos trêmulas. Uma janela azul flutuou mostrando a foto da criança: Nozomi.

A imagem grudou na minha mente. O peito apertou. Era inevitável lembrar da Emi.

— Eu pedi pra outros jogadores… ninguém quis ir. — As lágrimas escorriam do rosto cansado de Tomoko. — Mas eu não posso… não posso perder ela também.

— E por que você não foi? Se ela é tão importante pra você.

— Eu... não sou lutadora… sequer era uma jogadora de verdade. Eu só peguei o console da minha filha por curiosidade. Queria ver o mundo que ela tanto falava… — Tomoko soltou o ar pesado, num misto de alívio e arrependimento. — Graças a Deus fui eu, não ela!...

Não respondi, mas agora ela tinha cem por cento da minha atenção; talvez alguma empatia.

— Não consegui passar dos primeiros monstros. Todos estavam com medo. Ninguém quis ajudar.

Seus olhos praticamente gritavam por minha ajuda.

— Eu sei que deveria fazer tudo ao meu alcance… Eu sou tão egoísta em não querer morrer tentando salvá-la! Mas preciso voltar para minha filha! Para meu marido!

Tomoko cobriu os olhos inchados de tanto chorar com as mãos.

E a empatia rapidamente virou raiva e subiu como ácido. Não contra ela, mas contra aqueles covardes, sempre esperando que alguém resolva seus problemas, mas nunca agindo pelos outros.

Ela não estava errada em querer sobreviver. Apenas era ingênua demais por achar que poderia fazê-lo enquanto carrega o peso de outras vidas.

No entanto, eu ainda tinha entalhado no peito o rancor que sentia desde que perdi minha irmã.

— Esquece. Não arrisco minha vida à toa. — Virei as costas.

— Eu pago! — Ela implorou, me encarando com olhos apavorados. — Dou qualquer coisa que eu tiver! Por favor!

Fechei os olhos, rangendo os dentes. Eu já tinha decidido desde o segundo em que vi a foto, mas não podia admitir — nem pra ela, nem pra mim.

Saiu por entre os dentes:

— Pagamento adiantado. Não dou um passo de graça.

Ela assentiu, frenética, abriu o menu e uma notificação saltou no canto da minha visão: [Transferência de 50 Eternis]. Aceitei.

— É tudo que tenho agora. Mas eu consigo mais! Eu dou um jeito!

Girei as adagas nos dedos.

— Se ela ainda estiver viva, eu trago. Mas se não… não espere milagre.

Tomoko enxugou o rosto.

— Obrigada...

Virei as costas e caminhei, o sangue fervendo pela raiva de mim mesmo. Eu devia ignorar, deixar todo mundo se foder. Mas não — aquela merda de resquício moralidade ainda me pegava.

Fraco! Ridículo!

E lá estava eu… o jogador solo que jurou enterrar tudo e todos, se necessário fosse — indo ao resgate de uma garotinha feito um herói shounen, ou porcaria do tipo.


Parte 4

Segui o marcador no mapa. A luz azul pulsava imóvel. Conferi mais uma vez se o nome da garota constava na lista de vítimas, mas não.

Pisei nas planícies; lobos selvagens surgiram primeiro — dois. Mal deram pro cheiro. Rasguei ambos rápido, satisfeito com o dano extra das adagas novas.

Avancei, limpando um ou outro mob no caminho. As planícies ficaram pra trás; o terreno virou colinas baixas, pedras musgosas, arbustos que escondiam sombras — o tipo de lugar que ninguém escolheria explorar cedo.

O sol caía rápido, pintando o céu de laranja e roxo.

— Tsc… se escurecer de vez, os monstros dobram. Melhor acabar logo.

A trilha me levou a uma fenda entre rochas. No fundo, encolhida e abraçando os joelhos, estava a menina — Nozomi — soluçando de tanto chorar.

Um mob rosnava e babava, enquanto tentava alcançá-la esticando a pata por entre a fenda.

— Você tinha mesmo cara de quem me daria trabalho. — rosnei baixo, mas o peito ardeu.

Ela ergueu os olhos marejados:

— M-me ajuda… por favor…

O lobo, ao notar minha presença, se afastou da garotinha. Ao todo, três lobos rondavam a fenda.

O maior — um [Lobo Selvagem Alfa — Lv. 6], pelo cinza-escuro brilhando no entardecer.

Mantinha dois [Lobo Selvagem — Lv. 4] próximos.

— Paradinhos aí... — segurei as adagas. — Seus pescoços são meus.

Avancei sem pensar: um corte seco rasgou a garganta do primeiro; o segundo tentou saltar e levou lâmina no flanco, caindo em fagulhas brilhantes.

O Alfa ergueu a cabeça e uivou — som grave, ecoando entre as pedras. No mesmo instante, feixes luminosos surgiram próximos ao bicho; vários lobos spawnavam junto ao alfa.

— Não… — estreitei os olhos — armadilha?!

Nove silhuetas surgiram da luz, olhos azuis faiscando, cercando o espaço num círculo perfeito.

— Merda! Preciso recuar!

Nozomi gritou, a voz atravessando meu peito como faca:

— Não! Por favor, não me deixe aqui!

O sangue gelou. Por um segundo era Emi me chamando — mesma voz embargada, mesmo pedido desesperado; até a mãozinha estendida lembrava minha irmã.

O que eu devia fazer? Preservar minha vida e virar um dos desgraçados que tanto desprezo, ou arriscar tudo por alguém que eu não conhecia?

O que Emi me diria?

Não… Essa pergunta era idiota demais — a resposta estava na cara.

Trinquei os dentes, apertei firme as adagas.

— Merda!… então vamos caçar!

Os lobos me cercavam em círculo, olhos faiscando no crepúsculo. O Alfa ficava atrás, só à espreita.

O primeiro avançou — corte diagonal na garganta. Antes mesmo de cair, senti as garras do segundo rasgarem minhas costas; o HP despencou. O sangue escorreu.

— Tsc… Caralho!

Chutei o corpo dele para abrir espaço, mas já havia outro vindo pelo flanco. Cruzei as adagas, aparando de raspão; o impacto quase me fez largar uma das lâminas.

Não dava pra simplesmente matar um por um, eles eram muitos. Precisava abrir corredor, quebrar o círculo.

Mirei os da direita — três lobos juntos. Avancei contra o primeiro, cortei rápido à altura da testa e empurrei o corpo morto contra os outros dois, ganhando segundos. Usei a brecha para recuar em direção à fenda onde Nozomi estava — se me afastasse muito, eles me cercariam de novo.

Um lobo avançou à minha esquerda; contra-ataquei, arrebentando meu punho contra o focinho. Outro saltou direto na minha perna, rápido demais pra reagir, e cravou as presas na panturrilha.

A ardência me arrancou um grito curto; o sangue escorreu quente. Ergui as lâminas e cravei a adaga na cabeça dele. Kill instantânea.

Mais dois vieram pela frente. Esquivei pro lado e tentei cortar um deles pela lateral, mas só acertei de raspão, só o suficiente pra afastá-lo. Precisava reduzir alvos — não podia mais gastar energia e foco errando.

A respiração falhava; cada músculo queimava. O HP agora piscava vermelho.

— Contra dois ou três seria de boa… mas tantos de uma vez?! — Cuspi sangue digital. — Impossível...

Então ouvi o grito da menina:

— Por favor, me ajuda! Eu quero voltar pra casa!

A voz atravessou meu peito. Emi. Era Emi gritando de novo.

Precisei balançar a cabeça para retomar a concentração.

O HUD brilhou diante de mim: [Lâmina Sombria disponível]

— Verdade, eu tenho isso! Essa habilidade que matou aquela Aberração!

Soltei um riso rouco, cheio de ódio.

— Nem fodendo que eu vou morrer aqui...! Eu preciso enterrar todos vocês, putos, junto com esse mundo!

Apertei as adagas até a madeirada empunhadura ranger e me lancei de volta ao círculo.

— Isso é só mais uma porra de briga pra mim! Podem vir!

O círculo fechava cada vez mais, o HP piscando no canto da visão. Mais alguns golpes e seria o fim.

Um investiu pela esquerda — esquiva curta, rente ao pelo, a adaga só raspando pra afastar. Outro veio logo atrás; saltei por cima e rolei na grama.

[Lâmina Sombria ativada]

O instinto explodiu. A primeira lâmina cortou o ar em precisão milimétrica, atravessando o pescoço do lobo que ainda girava. [Crítico!] — brilhou em vermelho.

Outro saltou antes que eu respirasse. Inclinei o corpo no último instante, sentindo o vento da mordida roçar meu cabelo.

A habilidade foi ativada novamente.

Cravei a adaga direto no peito dele — outro [Crítico!]; mais fagulhas se desfizeram no ar.

Meu corpo inteiro ardia. A stamina drenava em velocidade absurda, mas não havia escolha — ou arriscava até o fim, ou eu morria ali.

— Não interessa! vou matar todos vocês!

Outros dois lobos avançaram juntos. Desviei de um, já atravessando suas costas com um corte seco. O outro saltou — e morreu em pelo ar, quando enterrei a lâmina profundamente em seu olho. Ambos se dissolveram em partículas cintilantes.

O último tentou me pegar no recuo, mas já era tarde: girei sobre o calcanhar, as presas passando al lado do meu ombro. Veio outro [Crítico!], adaga cravada sob o maxilar.

A clareira se esvaziava de inimigos, seus corpos desaparecendo em fragmentos digitais brilhantes.

Restava só o Alfa, olhos agora brilhando em carmesim, o uivo grave ecoando como trovão.

— Pode vir, seu puto!

Ele saltou, o corpo pesado sacudindo se lançando velozmente. Esquivei jogando o corpo para o lado; o vento da mandíbula aberta passou rente ao meu rosto.

Habilidade ativada outra vez.

Minha adaga atingiu a lateral do tronco, abrindo um talho largo. Ele urrou, mas investiu de novo. Corri de encontro a ele e, no último segundo, quando saltou pra abocanhar meu pescoço, me joguei e deslizei de joelhos pela grama manchada de sangue, por baixo do corpo dele. Minhas adagas subiram, rasgando a barriga. O sistema mostrou [Ponto fraco atingido] — [Dano crítico triplicado].

— MORRE DE UMA VEZ!

A criatura estava cambaleando, mal se sustentando em pé. Girei o corpo e saltei. As duas adagas cruzaram no ar e desceram sobre o pescoço do lobo. O [CRÍTICO!] explodiu numa janela acima dele.

O Alfa congelou, o pescoço se separando do tronco. E antes de tocar o chão, todo seu corpo rachou em linhas vermelhas até se despedaçar em luz digital.

Por um instante, silêncio. Mal respirei.

— Consegui... caralho!

Ofegante, desabei de joelhos, o corpo inteiro tremendo. O HUD piscava em cascata:

[Level Up — Lv. 12]

O XP veio duplicado por derrotar o Alfa junto da matilha. Status aumentados, mais grana e materiais, como “peles e garra de lobo”.

Arfando, ainda olhava pra tela translúcida da janela do sistema quando ouvi passos pequenos e ligeiros ecoando na grama.

Nozomi correu pra fora da fenda e se atirou sobre mim, soluçando, ignorando o sangue que manchava meu uniforme e sujava seu rostinho e vestido.

— Eu sabia!… Sabia que você ia me salvar!

Por um instante, deixei os braços penderem. O HP ainda piscava em alerta, mas meus olhos só viam aquela menina.

— Qual seu problema vindo aqui sozinha?! — A voz saiu rouca, quebrada. — Podia ter morrido!

Ela ergueu os olhos vermelhos, a respiração entrecortada.

— Eu só queria ajudar a tia Tomoko… Ela precisava da água daqui… e… eu pensei que se fosse rápido…

— Tudo isso por causa da porcaria de uma água?! — Respirei fundo, afastando-a com cuidado.

Notei que ela segurava uma garrafinha com as duas mãos, pequena demais, como se fosse tesouro. O frasco tremia, quase ridículo de tão pouco diante do risco que ela tinha corrido.

— Você arrisca a vida por meia dúzia de goles — resmunguei, passando a mão no rosto. — Criança idiota.

Chamei o menu e invoquei um balde básico do inventário. O objeto caiu no chão com um brilho azulado.

— Fica aí. Vou pegar essa droga de água antes que esses caras deem respawn.

Levantei, pernas tremendo, mas as firmei. O olhar da garota me seguiu como se eu fosse a única âncora que restava no mundo.

A nascente ficava num recanto entre as pedras; a água cintilava num azul claro, como se tivesse vida própria. Gotas pairavam sobre a superfície, dissolvendo-se em fagulhas de mana. Não era difícil entender por que alguém arriscaria vir até aqui.

Abaixei-me, ainda ofegante, e mergulhei o balde. A água brilhou na borda, pulsando como se respirasse.

[Água Abençoada]— [Capaz de curar alguns status negativos + uma fração de MP]

Logo depois, ela simplesmente despareceu do recanto. Uma mensagem holográfica surgiu ali: [Tempo para nova coleta — 17:59:59]

Nozomi arregalou os olhos.

— Uau…

— Tá aí. — Empurrei o balde pra ela. — Leva logo.

— T-tá… Hnnm!..

Ela tentou erguer, mas o peso a fez vacilar; os braços frágeis quase cederam. Mordi o lábio, impaciente.

— Não precisa carregar feito mula. — Cruzei os braços. — Usa o inventário.

— Eu… eu não sei como. — Ela piscou, confusa.

Bati a mão contra a testa. Claro que não sabia!

— Olha só. — Me agachei ao lado dela e apontei. — Segura o item, pensa em armazenar e confirma no menu.

As mãos dela tremeram, mas fez o gesto. O balde sumiu num clarão discreto. Os olhos dela brilharam como se tivesse acabado de ver mágica.

— Sumiu! Mas… ainda tá comigo?

— Invoca de novo — mandei.

Ela abriu o menu, hesitou e, de repente, o balde reapareceu na frente dela, cheio até a borda, como antes. Nozomi sorriu largo, ingênuo, um sorriso bobo que não combinava em nada com aquele inferno.

— Isso é incrível! Assim eu não preciso carregar peso nenhum!

Soltei o ar devagar. Percebi tarde demais que estava sorrindo também.

— Que coisa idiota. — Virei o rosto, escondendo. — Pois é, agora já sabe. Usa isso direito e para de quase se matar por besteira.

Ela abraçou o balde como se fosse presente de aniversário, antes de armazená-lo de novo.

— Obrigada, maninho…? Qual seu nome mesmo?

Apontei para o ícone acima da minha cabeça.

— Kyato! Maninho Kyato! Obrigada. — Exibiu um sorriso doce, que começou a me desmontar de verdade.

Fingi impaciência, mas o calor no peito não sumia.

— Vê se não entende errado. Eu só vim porque me ofereceram recompensa.

Mentira mal contada. Ela sabia — o jeito como me olhava denunciava. Nozomi estendeu a mão devagar, pequena, tremida, mas firme.

— Posso…?

Olhei pra palma aberta por longos segundos. Senti um nó se formar no fundo da garganta, e a imagem de Emi estendendo a mão me veio à mente — segundos antes de ser arrancada do meu alcance.

Fechei os olhos, soltei o ar pesado. Com relutância, segurei a mão dela.

Ela sorriu pela primeira vez, singela demais pra aquele mundo.

— Vamos pra casa.

— É… Vamos.

E deixamos aquele lugar, rumo à cidade inicial.

Parte 5

A rua da cidade estava mais silenciosa à noite, quando cruzamos os portões de Aeternum, só com alguns jogadores encostados em becos ou cochichando em bancos de praça. Eu seguia ao lado da Nozomi, a mão pequena agarrada na minha.

Ela ainda parecia fascinada com o truque do inventário; de vez em quando abria o menu e fechava de novo, como se tivesse descoberto a ultimate weapon do jogo.

— Me diz uma coisa… como é que uma pirralha que nem tem noção do que é um inventário de jogo acabou presa aqui?

Ela se encolheu, desviando o olhar. Ficou alguns segundos quietinha antes de murmurar:

— Eu… não devia estar aqui.

— Nenhum de nós devia — retruquei — mas você ainda menos.

Ela respirou fundo, a voz baixinha:

— O console não era meu. Era do meu irmão. Ele se esforçou tanto para comprar… Falava nesse jogo todo dia. E eu só… eu só queria ver como era. Todo mundo na escola falava de Nova Eternis. Pensei em testar rapidinho, só pra entender.

Fiquei olhando, esperando mais.

— Ele tinha saído pra trabalhar naquela manhã, então eu liguei o console escondido — continuou. — Nem sabia se ia conseguir entrar de verdade… mas tudo se mostrou tão bonito e divertido, que mal conseguia creditar que era real.

Assenti. Reconhecia nela a mesma emoção que todos nós, jogadores, devemos ter sentido igualzinho.

— Eu ia sair antes de ele voltar… Mas quando tentei deslogar, não deu mais.

O peito dela subiu e desceu rápido, como se revivesse o pânico da hora.

— Eu nem pretendia ser jogadora oficial. Era só curiosidade. E agora… agora tô presa igual todo mundo.

Soou mais como pedido de desculpas do que confissão.

Arregalei os olhos sem querer. O console de outra pessoa… só por curiosidade… e agora ela tava no mesmo inferno que nós.

Emi… era praticamente igual ao que aconteceu com a minha irmã, a diferença era que, no caso da Emi, eu fui o culpado diretamente.

Suspirei, coçando a nuca.

— Então você tá aqui só porque quis brincar um pouco.

Ela assentiu, cabisbaixa.

— Acho que meu irmão vai me odiar pra sempre.

Fiquei quieto um instante, mastigando as palavras. Apertei a mão dela, firme.

— Odiar não. Aposto que ele desejava estar em seu lugar agora mesmo. Deve estar desesperado, rezando pra te ter outra vez junto a ele. Viva. E pra isso, vai se comportar daqui em diante.

Os olhos dela tremeram, marejados, mas ela assentiu.

— Sim, maninho Kyato…

Na rua principal, os olhares vieram na nossa direção com surpresa, desconfiança e rancor.

— É ele… com uma criança? — murmurou alguém.

— Aposto que foi culpa dele ela ter sumido… — Outro cuspiu.

Estalei a língua, mas segui o caminho. Nozomi notou os olhares e apertou minha mão mais forte.

— Não liga pra eles, maninho Kyato. — A voz saiu baixa, firme. — Eu sei a verdade. Você me salvou.

Fingi indiferença:

— Não me importo com o que dizem. Mas dá pra cortar esse lance de “maninho”?

Ela riu delicadamente. Senti o calor daquela mão miúda; por um instante a raiva dentro de mim deu um tranco e diminuiu.

Continuamos caminhando em direção à pensão onde ela ficava com Tomoko. Quebrei o silêncio:

— E a mulher que cuida de você? O que faz pra se manter, já que não curte linha de frente?

— A tia Tomoko? — Nozomi sorriu leve. — Ela tentou ser como você. Disse que a gente precisava ser forte, fazer a nossa parte. Tentou explorar o mapa, mas era difícil evitar os monstros… Foi quando achou a nascente.

Ela chutou uma pedrinha no chão, reflexiva.

— Ela começou a coletar e vender a água abençoada. Ajudava muita gente, vendendo baratinho. Também dava pra quem não tinha nada. Por isso conseguimos ficar na pensão até agora.

Assenti devagar.

— Pelo menos ela tentou.

— Huhum! Mas o dinheiro tava acabando… e da última vez a tia se machucou… quase não voltou. Ela queria voltar lá, mas tava ferida. Então eu fui no lugar dela. Achei que podia ajudar, fazer minha parte também. Mas… os lobos apareceram do nada.

Noova. Só podia ser coisa daquela maldita IA sádica — uma armadilha covarde. Me perguntava por que aquela fedelha odeia tanto garotinhas. Ou talvez quem odiasse fosse o psicopata do criador dela.

Parei e segurei firme o ombro de Nozomi.

— Não faça isso nunca mais. Não é brincadeira de pirralha. Esse mundo vai te matar sem pensar duas vezes.

— E-entendi.

— É sério. Não tenho estômago pra ver criancinha morrendo. E você vai fazer a Tomoko chorar… Você promete parar de ser cabeça-dura?

Ela assentiu, séria.

— Prometo, maninho...

Meus ombros relaxaram pela primeira vez em horas. Depois, querendo quebrar o tom, ela arriscou:

— Você também tem alguém pra cuidar, maninho?

O ar fugiu dos pulmões.

— Tinha. — hesitei — Minha irmã mais nova.

Os olhos dela brilharam:

— Ela tá bem, né? Ela tá aqui no jogo também?

— Não... ela não tá. — Engoli em seco.

— Que alívio. Sei que você vai conseguir voltar pra ela, maninho — disse com a inocência que não pude contrariar. — Aposto que ela é tão bonita e gentil quanto você.

Prendi a respiração; os olhos ardiam. Forcei a voz:

— Sem chance de comparação comigo. Mas ela sim... ela é mesmo tudo isso.

Quando nos aproximamos da pensão, as luzes aqueciam a entrada. Tomoko já estava na porta, nervosa, andando de um lado pro outro — ainda não nos tinha visto.

Parei no meio do caminho.

— Daqui você vai sozinha.

— Mas… — Nozomi me olhou, confusa. — Vem comigo. A tia vai querer agradecer. Você disse que ia ganhar recompensa, né?

— Não gosto dessas cenas de reencontro e tal. — Balancei a cabeça. — Tô fora.

Ela hesitou e, de repente, me abraçou forte.

— Obrigada, maninho Kyato.

O coração vacilou; senti meu corpo tremendo de leve. A mão subiu sozinha, quase pousando na cabeça dela — hesitei e deixei cair.

— Ei… pega isso.

Abri o inventário, tirei um saco de pano dourado atado com cordinha e entreguei.

— Dá isso direto pra sua amiga. E fica viva.

Os olhos dela brilharam de curiosidade; um sorriso largo iluminou o rosto cansado.

— Agora vai — apontei pra pensão.

— Tá bom! Vou ficar esperando você me visitar, maninho! E sei que você e seus amigos vão zerar o jogo e salvar todo mundo!

Revirei os olhos, fingindo tédio:

— Amigos…

Mas quando virei as costas, um sorriso idiota insistia em aparecer.

Fiquei uns passos na esquina logo ao lado, encostado na parede pra dar um tempo. Quis confirmar que Nozomi ficaria bem — dei uma espiada.

— Nozomi! — o grito de Tomoko cortou a noite. Ela correu e se atirou em cima da menina. — Graças a Deus você tá viva! Eu fiquei com tanto medo!

— Ele me salvou! — Nozomi soluçava. — O maninho Kyato!

— Sua arteira! Nunca mais faz isso, entendeu?! Nunca mais sai sozinha! Nunca mais me deixa assim!

Tomoko chorou, abraçando a menina, que agora chorava junto.

Eu estava me preparando para ir embora, quando Nozomi mostrou o saquinho para Tomoko, que parou, surpresa.

— O maninho Kyato disse pra dar isso pra você.

— Pra mim?... Ele disse isso?

Ela pegou e abriu o saco. As moedas brilharam; uma janela rápida do sistema saltou pra Tomoko.

— Quê?! Impossível!... Mais de trezentos NEs?!... — a voz saiu embargada — isso vai nos sustentar por muito tempo! Mas por quê? Onde ele tá, afinal?

— Ele foi embora, tia. Mas sei que ele volta pra me visitar um dia.

A inocência da menina quase me fez rir. Quase. Tomoko abraçou Nozomi mais forte.

— Viu só como ele é bom? Um verdadeiro herói, né? — Nozomi sorriu, convicção pura.

— Ele é mesmo… Obrigada, Kyato — Tomoko sussurrou.

Fechei os olhos e balancei a cabeça, irritado.

— Idiotas… não sou herói de ninguém…

Tentei negar a boa ação. Pensei também que deixar o dinheiro parado seria burrice; ninguém venderia a água se essas duas caíssem. Talvez só uma desculpa que inventei pra mim mesmo.

Ainda assim, o calor no peito não sumia. O sorriso não saiu. Caminhei de volta pra escuridão.

Meu objetivo não mudara: eu teria minha vingança contra Norikawa e esse mundo todo.

Mas só por hoje, um jogador solo sentiu que tinha alguém pra proteger de novo.

Só não esperem que eu me acostume com isso.