Nova Eternis - Vl.01

3 Capítulo 3 – O Limite Para Um Solo


Parte 1

19 de Agosto de 2030. Hoje completou um mês... Trinta dias, desde que fiquei preso neste mundo virtual.

O HUD não deixa esquecer que estou cercado de morte por todos os lados. De vez em quando sobe uma notificação em letras frias:

[21.238 sobreviventes — 901 mortos]

E a Emi entre eles.

No começo esse número me esmagava. Agora... é só mais um pop-up idiota. Não sinto nada, como se estivesse anestesiado.

A tal "cidade inicial"? Já não tem cara nem cheiro de zona segura. Muralhas tortas levantadas no improviso, lanternas acesas até de dia, tentando bancar segurança. Só uma miragem em cima da podridão.

E o jogo? Parece ter vontade própria, sabotando quem só quer se esconder. Quests rareando, respawn cada vez mais lento. Sem loot, sem progresso.

Até os recursos vendidos pelos NPCs começaram a esgotar. Comida, remédio... até pão e água. Itens que, nos primeiros dias, vinham marcados com o símbolo do infinito agora tinham limites cada vez menores de compra. O sistema queria empurrar os ociosos pra fora, obrigar os medrosos a se mover.

Mas poucos se moviam de fato. E as praças foram lotando de gente sem abrigo. Parecia aquelas cenas em que um desastre natural destrói tudo, deixando as pessoas perdidas.

Até monstros começaram a rondar a zona segura. Teve um que quase matou um cara na entrada. Só não conseguiu porque um grupo apareceu para salvar sua pele.

E como resultado: jogador solo bancando herói e morrendo rápido. Grupos mal montados tombando, aqui e ali.

Teve até mesmo quem se entregou ao horror e desespero. Pularam das torres. Enterraram lâminas nos próprios corpos... Desistiram de sentir medo.

Eu testemunhei um deles pular certa noite, quando voltava de uma loja de itens.

O baque seco ecoou — e eu escutei aquele som dentro da cabeça por uns três dias. Mas o pior foi a expressão: um sorriso de alívio, em meio à máscara da morte que tomou a feição daquele cara.

Alguns jogadores se juntaram para liberar o crematório da cidade e um pequeno terreno pra enterrar os mortos.

Passei por lá apenas uma vez — perto o bastante pra ver duas fornalhas acesas, crepitando alto, enquanto algumas garotas choravam ainda mais alto.

Os mortos ficam numa lista cinza. Epitáfios curtos, secos: "Lutou até o fim." "Não conseguiu voltar." Alguns deixam mensagem. A maioria, só o nome riscado.

Os indigentes são queimados por voluntários. Corpo virtual não apodrece, mas queimam mesmo assim. Dizem que é pra evitar contaminação. Outros juram que é só superstição.

Aquilo tudo... me lembrou da Emi. E naquela mesma noite acabei indo até o túmulo dela, nas planícies.

A dor de perder alguém, misturada ao som incessante das chamas...

Não. Eu não pretendo mais passar perto dali.

E aí surgiram os parasitas. Ladrões reais. Emboscando os fracos nas rotas de coleta. Gente que sorria no tutorial semanas atrás agora arranca espada e poção de quem não consegue reagir. Alguns foram além: mataram. O primeiro bando de assassinos de verdade desse mundo.

Há duas noites, tentaram emboscar uma menina num beco, para fazer sabe-se lá o quê. Pra sorte dela, eu sempre evitei exposição e preferi andar pelos cantos mais silenciosos. Quando passei por lá, flagrei a cena antes que o pior acontecesse. Os bandidos correram.

A garota, mal conseguiu agradecer; não sei se era porque chorava copiosamente, ou se era medo de mim também — o "solo insano e egoísta".

Não fiquei para ouvir qualquer "obrigado". Meu sangue ferveu só de imaginar o que teria acontecido com ela.

Isso não é surpresa. RPG sempre foi parquinho de monstros internos. A diferença é que aqui não tem ícone vermelho nem fama de player killer. Os ruins andam no meio dos bons, igualzinho à vida real.

Polícia? Juiz? Lei? Esquece. Aqui só tem caos.

E às vezes alguém só some, do nada. Bug, lenda urbana, tem um pouco de tudo. Boatos de que até NPC mata por conta própria. Fofoca de beco, medo que se torna história.

Dentro das muralhas, os sobreviventes ainda tentam brincar de normalidade. Mercado nas praças, comida custando os olhos da cara, mas fila que não acaba. NPCs sorrindo como se fosse mais um dia feliz. Jogador negociando às pressas, outros rindo alto em grupo pra fingir que tá tudo bem.

Espalhados por aí, há sempre um bando com copo na mão, como se fosse taberna medieval. Cada um arrumando um jeito de não pirar de vez.

Tem também os vigias: caras parados no canto, encarando o HUD como se fosse aparecer o botão de logout de volta.

Nunca aparece.

Quanto a mim? Eu sigo do meu jeito. Jogando solo, como sempre. Confiar nos outros? Carregar peso que não é meu? Nunca foi meu estilo. Agora então... esquece.

Já passei das planícies, das rotas que eu mesmo tracei. Aguentei o que deu. Me preparei durante esse mês para, finalmente, avançar até a dungeon do primeiro boss.

Ralei feito um condenado, mas o XP dessas primeiras áreas já é baixo demais — mal compensa o esforço. Depois do nível doze, upar se tornou um saco. Era como se o jogo me dissesse: "cai fora daí!"

Tô pronto. Tenho que estar.

Mas até eu sei: sozinho, talvez não role ir muito além.

Mesmo assim, os números estão aí:


[Status — Kyato Kurohane]

[Classe: Ladrão | Level: 16]

[HP: 547 / 547 | MP: 83 / 83]

[Ataque: 81 +5 | Força mágica: 20 | Defesa: 42 +5 | Agilidade: 127 | Stamina: 99 | 99]

[Atributo Especial: Furtividade 142 +2]

[Equipamento:Adagas de aço — Placa leve de aço — Capa simples de caçador]

[Habilidades de Classe: Lâmina Sombria | Gatuno]


Fora que já dominei completamente minha primeira skill, Lâmina Sombria, e a passiva — Gatuno.

Mesmo assim, não é só número na tela. Esse jogo tem um detalhe que sempre me deixa encucado: os status não sobem só pela classe, mas pelo jeito que você joga.

Bizarro, né? É tipo assim: se um mago resolvesse sair na porrada só no corpo a corpo, acabaria ficando tão forte quanto um bárbaro bombado. E um tanque, que só fugisse desesperado, talvez ganhasse agilidade tão absurda quanto a de um ladrão. É uma bagunça!

Mas, pensando bem, faz sentido. Esse mundo é o novo "real". E na vida real ninguém fica bom porque alguém escreveu numa ficha. A gente melhora naquilo em que insiste: trabalho, treino, estudo. Aqui é igual. Os status viram reflexo de quem você é... e de como você sobrevive.

De qualquer jeito, além dos números, descolei uma grana. Uns 1300 NEs. Comprei algumas poções, pão e água — só o básico pra não cair duro antes do boss.

Tudo é tão caro aqui... fico pensando que tipo de inflação maluca o desgraçado do Norikawa programou pra esse mundo.

Mas toda vez que volto pra cidade inicial é pior que enfrentar monstro. Quem me vê desvia. Alguns baixam a cabeça, lembrando da tragédia do primeiro dia, dos boatos, da treta com o Hayato.

"O louco vingador." "O solo hardcore."

Para ser sincero, havia um punhado de pessoas malucas o bastante para levar alguma fé em mim, mas eu nunca dei moral ou me aproximei. Nem mesmo daquelas duas: Tomoko e Nozomi.

Às vezes eu as vejo de longe, mas prefiro desviar o caminho. Evitar contato. Principalmente com a baixinha... Qualquer tipo de apego não seria mais que distração. E envolver pessoas boas no caminho suicida que decidi trilhar... apenas não me parece certo.

Outros só me olham de longe, tentando adivinhar se eu sou herói que vai libertar todos, ou só mais um vilão engolido pelo próprio ódio.

Mas na real... ninguém chegou tão longe. Talvez eu seja só o maluco tentando atravessar o impossível sozinho. Ou talvez eu seja o cara que vai derrubar essa porra toda.

E aquela IA maldita... ou o criador desgraçado desse inferno... nunca mais vi. Ninguém viu. Haruya Norikawa continua sendo um fantasma.

Contudo, neste exato momento, nada disso era prioridade.

Eu estava prestes a avançar, rumo à primeira dungeon, onde enfrentaria o primeiro boss do jogo.

Parte 2

A Floresta do Alvorecer.

Um labirinto verdejante, cheio de raios dourados atravessando as copas, flores silvestres e riachos cristalinos; bonito como um conto de fadas. Irônico, né? Até a beleza aqui é armadilha — parece segura até o momento em que os monstros surgem querendo tomar tua vida.

E era no fim daquele falso paraíso que se escondia a primeira dungeon, o primeiro boss. Meu objetivo era simples: eliminar o boss, zerar a primeira fase, esmagar esse mundo passo a passo.

Só que a realidade nunca foi boazinha com gatos de rua.

De acordo com o mapa, eu estava no meio do caminho. A luz dourada atravessava as folhas, mas tal beleza pouco importava quando minha vida pendia por um fio.

Quatro [Alces Bestiais – Lv. 10] me cercavam; antes deles, já tinha derrubado três, e cada vitória cobrara caro — escoriações, sangue misturado ao suor e um cansaço que pesava no corpo inteiro.

Minha última poção de cura tinha ido pro ralo minutos atrás.

Sua anta... devia ter estocado mais! Agora meu HP mal se sustentava acima do vermelho e as pernas pesavam como chumbo.

Eu podia tentar repetir o que fiz com os lobos do outro dia: ativar a Lâmina Sombria no limite, entrar no modo alucinado e cortar tudo de uma vez. Mas não dava. Já tinha queimado parte do cooldown mais cedo, enquanto atravessava a floresta.

Não esperava topar com tantos inimigos assim. Quando abati os três primeiros, esgotei mais do que pretendia; se gastasse tudo de novo agora, ficaria sem nada até chegar ao final do mapa — e ainda precisava ter fôlego pra avançar.

Os mobs me rondavam, olhos faiscando mana, presas expostas, músculos tensos. Cada passo fazia o chão vibrar e minha cabeça martelar.

E dentro de mim, alguma coisa começou a rachar. Será que é aqui que eu morro? Depois de tudo? Depois de prometer à Emi que zeraria esse jogo e enterraria essa podridão com ela?

A garganta se fechou; a culpa pesava mais do que os cascos que se aproximavam.

— Me perdoa, Emi... — arfava, sem forças. — Tô indo pra perto de você em breve.

Um dos alces avançou. Levantei a adaga no reflexo, mas o braço tremia demais.

E então, um clarão. Um feixe de luz explodiu contra as patas do monstro, forçando-o a recuar com um urro grave.

— E-eu consegui!? — a voz trêmula e feminina ecoou da mata.

Meus olhos correram até ela: vestido branco e azul de classe iniciante e longos cabelos loiros. Segurava um cajado de madeira — uma arma inicial de magos — com as duas mãos, como se fosse pesado demais. Os olhos azuis brilhavam, cheios de insegurança; o feitiço tremia junto com ela.

Antes que eu reagisse, outra figura surgiu pela lateral: cabelos ruivos, cujas mechas caíam em camadas pouco abaixo dos ombros, balançando com o giro da lança. Calça jeans escura e camisa regata branca, coberta parcialmente por uma placa de ferro.

Seu golpe atravessou a lateral do alce, espalhando sangue pela grama.

— Bom trabalho distraindo eles, loirinha! — gritou sem olhar pra trás. Em seguida, seus olhos verdes cravaram em mim. — Ali! Ele tá ali! Rápido!

As duas se jogaram à minha frente: uma ágil, postura agressiva, mas nervosa; a outra ansiosa, quase pedindo desculpa só por existir... mas que ainda assim não recuava.

— O que vocês...? — a pergunta morreu na boca. Eu tinha mil dúvidas, mas não era hora pra nenhuma delas.

Agora era sobreviver.

Um dos alces investiu contra a ruiva, chifres baixos, pronto pra atravessá-la.

— Rieli, cuidado! — a garota do cajado gritou, em pânico.

— Fica atrás, Lili! — a ruiva devolveu, girando a lança.

O cabo ricocheteou contra os chifres, forçando a fera a recuar alguns passos. O impacto vibrou forte, quase arrancando a arma das mãos dela, mas ela não recuou.

— E-eu consigo... eu consigo!

A loirinha tentou reunir coragem, mas a voz vacilou. Os dedos frágeis ergueram o cajado; um feixe de luz saiu, errou o alvo e explodiu no chão. Pelo menos cegou os monstros por segundos preciosos.

Era a abertura que eu precisava.

— Sai da frente! — gritei.

Avancei, deixando a garota loira pra trás. Segurei as adagas com força; o braço cortado ardia, mas mesmo assim acertei um golpe no flanco do monstro já ferido. Ele berrou e recuou.

Só que eu estava mais quebrado do que pensei. Mal tive reflexo pra desviar do seguinte. As presas rasparam meu ombro.

[HP: 88 → 49]

— Idiota! O que tá fazendo?! Você não aguenta sozinho! — a ruiva gritou.

E não falou à toa: num movimento rápido, fincou a lança no peito do alce que me atingira. O animal se debateu, grunhindo, até ceder ao peso da lâmina.

Restavam três, cercando-nos; olhos brilhando, vapor de mana escapando pelo focinho.

A garota do cajado ergueu as mãos outra vez, olhos marejados pela insegurança.

— Luz... por favor... — murmurou. Uma esfera instável se formou e atingiu a cabeça de um dos alces. Não teve dano nenhum, mas confundiu a criatura, que recuou.

— Boa! — comemorou a outra.

A ruiva aproveitou a brecha e avançou, girando o corpo; a lâmina atravessou a lateral do animal e sangue respingou na bochecha dela.

— Cai, maldito!

Mas o alce resistiu — a técnica não tinha sido perfeita.

Respirei fundo, avancei e cravei a adaga na testa do mesmo monstro. Ele estrebuchou até tombar sem vida e despedaçar em fragmentos luminosos.

[XP +140 | Eternis +32 | Chifre de Alce Bestial x1 | Carne de cervo x1]

Nem olhei pro sistema. Meus olhos ficaram presos nos dois que restavam. Eles hesitaram por um instante, olhos ardendo como brasas; depois dispararam de volta pra mata e sumiram entre as árvores.

Silêncio. A floresta respirava de novo.

Quanto à minha respiração... vinha em soluços. As adagas tremiam nas minhas mãos.

A ruiva apoiou-se na lança, quase tão esgotada quanto eu, embora não tivesse um arranhão sequer.

A outra mal conseguia manter o cajado erguido; os braços tremiam, drenados pelo medo e pela adrenalina.

Ficamos ali, os três, encarando o vazio de onde as criaturas tinham sumido. O silêncio depois da luta pesava mais que o barulho dos cascos.

Foi só então que reparei nos ícones pairando acima das cabeças delas: Liliani. Mayumi.

Olhei melhor.

Liliani era pequena, frágil — rosto delicado, com uma expressão que parecia pedir desculpa até por respirar. Mas havia algo na doçura dela que se recusava a sumir, mesmo quando tremia.

Mayumi era o oposto: direta, vibrante, olhos verdes afiados que quase brilhavam de intensidade. O corpo tinha curvas difíceis de ignorar, mas o que chamava atenção era a imprudência — dava a impressão de atravessar qualquer coisa só pela força da teimosia.

— Hah! E eu ainda derrubei um deles e deixei outro sangrando. — Mayumi girou a lança pra limpar o sangue. Olhou pra mim com um meio sorriso. — Você bem que roubou a minha kill no fim, hein?

Caguei pra provocação. O que me pegava era que já tinha cruzado com as duas antes.

Lembrei da praça, um mês atrás. Elas estavam lá — as únicas que tentaram se aproximar de verdade, as que quiseram ajudar depois que perdi a Emi.

Meu corpo tremeu. Tentei firmar as pernas, mas elas não obedeceram.

O chão veio devagar, HP piscando em vermelho; a vista começou a fechar.

— Ei! — ouvi Mayumi, a voz carregada de preocupação. — Rápido, Lili, lança cura nele!

— Por favor... aguenta! — Liliani se ajoelhou ao meu lado, a voz trêmula. A mão dela brilhou em verde, emanando calor leve no meu peito.

Por um segundo, achei que ia segurar.

Mas logo depois... tudo escureceu.

Parte 3

— ...Quê?

Meu corpo estava leve demais pra quem mal sabia se ficaria vivo instantes atrás. Quanto tempo será que passou?

No começo, me senti desorientado. Quando abri os olhos, o HUD piscava na minha cara de novo.

[HP restaurado]

Quase cheio. Toquei o peito, o braço — nada da dor que queimava antes. Demorei uns segundos pra entender; o sol lá fora já caía, tingindo tudo de laranja. Devia ter apagado por mais de uma hora.

Estava deitado no chão frio de pedra. Acima, vigas retorcidas rasgavam o céu como costelas quebradas. A torre era um bug ambulante: escadas que terminavam no nada, vitrais rachados mostrando manchas de código tremeluzindo onde devia ter pedra. As tochas nem eram do sistema — alguém tinha acendido; a fumaça subia até o teto quebrado.

— Ele acordou! — a voz aliviada da Liliani ecoou.

Levantei devagar.

— Que lugar é esse?

— Quase no fim da floresta — disse Mayumi atrás, sem cerimônia. — Te arrastamos pra cá. Achei melhor você não morrer estirado na grama.

O "resgate" vinha com a lança em riste e um olhar desconfiado. Levantei a sobrancelha.

— Pra garantir que você não é o jogador dos boatos. Tipo um "vilão". — Ela completou, marra na voz, mas pouca confiança no olhar.

Vilão... o nome que deram pros hostis.

— E-eu cuidei dos ferimentos. — Liliani baixou os olhos, como se tivesse feito algo errado. — Usei cura até você estabilizar.

Olhei pras duas com descrença e, adiante, a trilha: a entrada da dungeon não tava longe.

Dei um tapa leve no cabo da lança dela.

— Que besteira. Não precisava disso. Eu não pedi ajuda.

Tentei caminhar e quase caí de novo. HP cheio, mas a stamina ainda me traía.

Mayumi estendeu a lança para bloquear meu caminho.

— Não seja idiota! Você quase morreu lá fora!

Liliani, mais suave, repetiu: — Pelo menos agora você pode descansar um pouco... você precisa.

— Descansar? — ri sem humor. — Sou jogador solo. Não tenho tempo pra perder cochilando.

— Um jogador solo que quase morreu pra um bando de cervos, quase tão fofos quanto ele mesmo. — Mayumi retrucou, toda irônica.

Essa garota já tava me tirando pra otário...

— Por isso tenho que continuar evoluindo.

— Como, se estiver morto?

Fiz uma careta. Liliani deixou escapar um riso nervoso. Suspirei e encarei as duas.

— Por que ajudaram? Foi só pra bancar as heroínas? Pra evitar mais uma morte no jogo?

Liliani apertou o cajado contra o peito. — A gente te viu desde o primeiro dia... desde o que aconteceu na cidade. Não devia ter ninguém lutando ou sofrendo sozinho.

Mayumi desviou o olhar; a expressão fechou.

— A gente também se sentiu inútil naquele dia. Vendo aquela garotinha... — engoliu seco. — Não conseguimos fazer nada. Me senti culpada. Cheguei a pensar em desistir, entregar minha vida pro jogo... Mas aí vimos você.

— Você continuou, mesmo depois de tudo. — Liliani completou.

As duas trocaram um olhar rápido, assentiram ao mesmo tempo, como se buscassem coragem uma na outra, e voltaram pra mim.

Liliani foi a primeira a falar firme, pela primeira vez:

— Você foi o único que deu um passo à frente. O único que mostrou que queria zerar esse jogo de verdade. Alguns de nós também querem voltar. Nossos pais, nossos amigos... tudo que ficou lá fora. Não dá pra só desistir.

Ergui a sobrancelha. "Alguns de nós"? Sei lá, soou meio estranho.

Mayumi bateu a ponta da lança no chão.

— Queremos nos unir a você. Avançar de vez nesse jogo.

Balancei a cabeça, quase automático.

— Isso não é brincadeira. Não vou virar babá de novatas. — A voz saiu dura. — Uma mal consegue lançar magia sem tremer; a outra se joga na briga como se tivesse pressa de morrer.

Os olhos esmeraldinos da ruiva se estreitaram tanto, que achei que ela fosse me espancar ali mesmo.

— E mesmo assim você só tá respirando porque a gente apareceu.

— Você é um jogador solo incrível. — Liliani falou calma, mas firme. — Mas hoje provou que ninguém passa de certos limites sozinho.

— Eu tô preparado pra morrer a qualquer momento. E vocês? Estão prontas pra serem apagadas pra sempre? Aqui e lá fora?

O silêncio pesou por longos segundos – até ser quebrado pelo soluço contido da Liliani.

— Eu... não quero morrer. — Mordeu o lábio, as lágrimas escapando. — Mas também não posso continuar assim.

Mayumi puxou a amiga e a abraçou, sem tirar os olhos de mim.

— Aí, qual é a sua, seu delinquentezinho?! Se achando todo, com esse cabelo descolorido e esse piercing maneiro!

Ela me olhou com aquela cara de mãe que vai dar sermão. Sério, isso me deixa puto.

— Não precisa dizer essas porcarias pra gente! A gente sabe dos riscos! Mesmo que a gente pareça fraca, isso não muda que você não deu conta sozinho. Você nos deve sua vida! A gente te salvou lá atrás!

Fiquei mudo. Não quis admitir — virei o rosto.

— Tch! É zoado lidar com tantos de uma vez... admito. — Olhei pra elas de canto, teimoso, braços cruzados. — E... se não fosse por vocês, eu já era.

As palavras saíram pesadas, como se cada sílaba arrastasse alguma coisa de dentro de mim. Admitir aquilo corroía.

O silêncio ficou estranho. As duas me olhavam com uma esperança quase infantil. Soltamos o ar juntos — um alívio pequeno, mas real.

— Eu sou Liliani Aris...

Estranho. Ela parou no meio, sabe-se lá por quê.

— Liliani! M-muito prazer! — completou, com um sorriso tímido.

— Meu nome real é Mayumi Takasumi, mas eu prefiro Rieli. Só Rieli. — Estalou a língua, jogando a lança no ombro.

— Aquela IA dos infernos me forçou a usar o nome real no jogo, mas eu me recuso.

Um apelido. Um nick. A IA obrigou todo mundo a largar avatar e nome falso, mas a maioria se agarra ao que dá — um apelido velho, uma customização qualquer — só pra sentir que ainda tem controle.

Muitos ainda chamam este lugar de "jogo". Eu também. Mesmo depois de tudo.

— Rieli, então — falei casual.

Ela soltou um "hum" pelo nariz, mas a boca curvou em aprovação.

— Kyato Kurohane.

Pela primeira vez desde que botei o pé em Nova Eternis, meu nome saiu como apresentação — não como boato.

As tochas estalavam nas paredes rachadas. Eu fiquei quieto, esperando que alguém falasse. No fim, fui eu.

— E vocês duas... como sobreviveram até aqui?

Liliani e Rieli trocaram um olhar rápido. A maga respondeu primeiro:

— Ficamos juntas desde o primeiro dia. — A voz dela ainda hesitava. — Depois que você deixou a cidade inicial, a gente ficou inquieta.

Rieli resmungou algo, irritada com a lembrança, mas assentiu.

— Levou uns dois dias pra cair a ficha. Começamos como dupla. Depois tentamos uns grupos, mas quase todo mundo só queria se esconder nas cidades.

A indignação dela saía até no jeito de apertar o cinto empoeirado.

— Arrumaram mercados, casas, "rotinas": trabalhar, comprar comida, passear... como se fosse vida normal. Bando de iludidos. Andam por aí como NPCs de si mesmos, dão moedas pro sistema e fingem que não estão presos.

— Mas você já deve saber que os recursos estão acabando. As pessoas estão cada vez mais arriscando a vida pra conseguir dinheiro... ou o que comer. — Liliani complementou.

Arqueei a sobrancelha. Era exatamente o que diziam os boatos, mas ouvir ao vivo soava ainda mais estúpido.

— Absurdo. Esses noobs não têm neurônios? Não imaginam que nossos corpos reais devem estar em hospitais agora, ligados em aparelhos? Ninguém sabe por quanto tempo vão aguentar.

As duas se entreolharam. Liliani encarou o chão.

— Já pensamos nisso também... — murmurou.

— E tem mais. No primeiro dia, aquela IA invocou monstros dentro da cidade. Não existe regra que impeça de acontecer de novo, mesmo em zona segura. O que esses jogadores vão fazer se criaturas fortes surgirem no meio das ruas?

Silêncio.

— É por isso que eu acumulei experiência e dinheiro nesse tempo. Avançar sem preparo mata; ficar parado, esperando herói aparecer ou aceitando esse mundo como definitivo... isso é suicídio.

Liliani ergueu o rosto — olhos úmidos, mas firmes.

— É por isso que estamos aqui. Porque você não ficou parado. E a gente também não quer.

Rieli me apontou um dedo e exibiu aquela cara fechada, típica de tsundere clássica.

— E não vem com papo de que vai carregar a gente. Não quero pai. Não quero irmão. Quero alguém forte pra confiar. Desde que ninguém abandone o outro no meio do caminho, a gente divide forças e derruba essa dungeon.

As duas me encaravam. Senti a hesitação apertar o peito. A lembrança da Emi ardia como ferro quente. Me apegar de novo significava ter mais a perder... mas eu não consegui negar o que aconteceu hoje.

Quase como autopunição, me forcei. Cocei a nuca, sem jeito.

— Até a dungeon principal. Só até lá. E vocês seguem todos os meus comandos. Sem "mas".

— M-mas... — Rieli começou, franzindo o cenho.

Liliani pousou a mão no braço dela.

— Tá tudo bem. A gente aceita.

— L-Lili?!

— Rieli... isso já é mais do que a gente tinha antes.

Ela suspirou; os braços murcharam junto com a expressão. Não protestou mais.

Quase de imediato, uma janela de sistema se abriu diante dos meus olhos:

[Deseja formar uma party temporária com as jogadoras Liliani e Mayumi?]

[Sim] [Não]

Fiquei encarando a tela por alguns segundos, sentindo os olhos das duas cravados em mim. Parties temporárias só dividiam localização no mapa; XP, dinheiro e itens ficavam individuais, dependendo de quem desse o golpe final ou achasse o baú. Sempre dava treta. Mas eu só queria atravessar a dungeon.

Ergui o dedo devagar... e aceitei. Estava feito. Eu tinha mesmo me unido àquelas duas — minha primeira aliança neste mundo.

Liliani aplaudiu, doce, os olhos brilhando. Rieli abriu um sorriso largo e ergueu um "V" de vitória.

— Fala sério... — murmurei.

Outro suspiro escapou. Essas duas me dobraram pra valer.

A noite caiu. A gente havia dividido um pouco de pão e água — e dormido o suficiente pra recuperar HP e stamina. Coisa simples que mantém a gente vivo por mais um round.

Por volta das 20:00 horas, decidimos avançar. Podia parecer suicídio, mas deu pra sacar um padrão dessa área: diferentemente das planícies, na Floresta do Alvorecer os monstros diminuem a atividade à noite, como se o sistema fingisse uma calmaria. Minhas skills também ficam mais fortes no escuro — vantagem pra gente.

Atravessamos a clareira a céu aberto. O caminho tava estranho de tão silencioso; só os nossos passos preenchiam o ar. O vento soprava de vez em quando, fazendo a grama ondular — como se algo se escondesse por baixo.

Do outro lado, um portão de pedra colossal fechava a passagem do que parecia ser um tipo de labirinto.

— É a dungeon. — Liliani sussurrou, impressionada.

— Finalmente. — Rieli ergueu a lança, toda se achando. — O primeiro boss tá camperando aí dentro, né? A gente só tem que entrar e tocar ele pra fora na base da porrada.

Não respondi. Fiquei só encarando o portão.

Foi quando o céu estalou: um glitch azulado rasgou as nuvens e abriu fendas de luz que se fecharam num piscar.

Liliani agarrou o braço da Rieli, quase tropeçando.

— E-eu vi isso... vocês também viram, né?

— Relaxa. — Rieli claramente forçou o descaso, mas as mãos dela tremiam. — Bug idiota.

Fiquei olhando o céu estrelado, até que o portão rangeu e se abriu sozinho. As duas me encararam com os olhos arregalados; ambas engoliram em seco. Pareciam esperar que eu mandasse o "vamos", para que suas pernas se mexessem.

Encarei a escuridão atrás do portão. Primeira dungeon — primeiro boss. Finalmente ali.

Mas uma voz rançosa na minha cabeça já calculava o pior: e se elas virassem peso? Se a coisa ficasse feia de verdade?

O "eu" egoísta pesava vantagem e risco: protejo e morro com elas, ou uso como escudo e sigo vivo. Se caíssem, eu seguia. Talvez fosse até mais fácil.

Mas a lembrança da Emi cortou isso num instante: as bochechas infladas, meio brava, meio doce; o olhar que tentava ser duro e nunca conseguia; a voz insistente: "Você tem que ser bom. Tá proibido de machucar outras pessoas bondosas, viu?!"

Um sorriso torto escapou sem que eu percebesse.

Você não me perdoaria se eu fizesse isso, né, Emi?

O vento ficou mais frio. Borboletas digitais começaram a subir da trilha às nossas costas — azuis, brilhando, asas vibrando baixinho.

A visão me jogou direto pro primeiro dia: a tal borboleta pousada no dedo dela, como se tivesse escolhido a Emi.

E então veio a risada infantil, flutuando pelo campo — doce demais pra ser só alegria.

As meninas se viraram num tranco. Senti um arrepio na espinha.

Não era coincidência. Era intencional.

Ela estava ali. Observando. Escolhendo.

Noova!