Notas iniciais
Avisos: O capítulo está gigante e não me responsabilizo pelos surtos. Obrigada e bora ler!

A chuva forte em Stormbird fazia com que as ruas ficassem completamente vazias. O reino conhecido por sua animada população, parecia melancólico por conta do clima. Naquela época do ano, as chuvas não perdoavam, mas eram importantes para que tivessem uma boa colheita nos próximos meses.

Porém, apesar de não haver pessoas nas ruas, a Taverna do Corvo estava cheia. Homens e mulheres bebiam e comiam sem parar dentro do lugar. Uma pequena banda fornecia uma música animada para sua plateia alcoolizada. E mesmo sendo pequena, a taverna refletia um pouco de como eram os dias sem chuvas em Stormbird.

Mas nem todos compartilhavam daquela animação. Ellisse, caminhando pelas ruas de paralelepípedos sob a chuva, se preparava para entrar na taverna. Ela, durante os anos vivendo ali, não conseguiu acostumar-se com a felicidade da população. Eles pareciam viver num mundo onde os problemas não conseguiam alcançá-los e isso deixava Ellisse irritadiça, pois os problemas não só a alcançavam, como a devoravam internamente.

Ao chegar na frente do estabelecimento, ela retirou sua capa de couro encharcada e a pendurou num gancho ao lado da porta “vai e vem” de madeira. Noturna estava em suas costas, enrolada por uma grossa fita de linho para deixá-la coberta, e era – antes – escondida por sua capa. O coldre que encomendara não estava pronto e por isso precisou improvisar para não chamar tanto atenção.

Ellisse respirou fundo e entrou. A música invadiu seus ouvidos, além das conversas altas. A maioria das pessoas já estavam completamente alcoolizadas, outras estavam desmaiadas aqui e ali. Mas era uma visão extremamente comum na Taverna do Corvo.

A garota caminhou até o balcão do bar, sentando-se em um dos bancos altos dispostos ali. Um homem roncava ao seu lado, completamente bêbado, mas recusava a soltar o copo cheio de cerveja. Ela acomodou Noturna encostada contra o balcão, perto dela, então esperou Soyer Doug, o dono da taverna, notar sua presença.

— Pode pedir! — avisou Doug ainda de costas para Ellisse. Ele ajeitava os copos da pia e como não obteve resposta, se virou para ver quem era. — Ah! É você, criança! Voltou cedo.

— Não foi difícil de achar o seu devedor – deu de ombros antes de jogar uma bolsinha de tecido, cheia de moedas de ouro. — Precisa de mais alguma coisa?

Doug Soyer era um senhor de sessenta e oito anos, acima do peso pelo excesso de comida e bebida, cabelos e barba grisalhos, viúvo e que precisava cuidar da taverna sozinho. Seus filhos o abandonaram, dizendo que tinham sonhos maiores do que gerenciar um lugar de gente bêbada, então Ellisse acabou se disponibilizando para ajudá-lo. Não havia mais confusões ou calotes com sua ajuda. Além de ser uma excelente caçadora e nunca deixar a carne do bar acabar. Doug não podia pagar muito, mas era o suficiente para a vida simples que a garota possuía.

— Ah, eu…

O dono parou de falar ao ver duas figuras desconhecidas entrando na taverna. A luz ambiente iluminou seus rostos molhados pela chuva e coberto por cicatrizes, mas não era isso que chamou a atenção das pessoas e, sim, seus olhos lilases acesos.

A característica física que marcava os Julgadores.

Os músicos pararam de tocar ao notarem a situação e algumas pessoas menos bêbadas se afastaram das figuras arrepiantes. Ellisse achou estranho eles estarem ali, não havia ninguém morrendo ou em estado grave para que fossem recolher suas almas. Algo estava errado.

— Boa noite, Senhoras e Senhores! Queiram nos desculpar por atrapalhar sua noite, mas estamos procurando por uma pessoa – disse o mais alto, de cabelos cinzas. Ele tinha uma lança de duas pontas, com lâminas curvas e de ranhuras brancas nas costas. — Uma garota. Cabelos brancos, olhos vermelhos e carrega uma grande espada.

Para a sorte de Ellisse, Meredith havia lançado um feitiço para mudar sua aparência. Seus cabelos estavam castanhos, os olhos cinzentos e Noturna não estava tão grande assim, mas suas características na lâmina continuavam.

— Não tem ninguém assim por aqui, Senhor – disse Doug irritado.

O Julgador encarou o dono da taverna com um sorriso desafiador, caminhando pelo corredor estreito feito de mesas e cadeiras.

— Certo… É uma pena. — Ele pegou uma caneca cheia de cerveja e virou de uma vez. — A bruxa, amiga dela, disse que a encontraríamos aqui, mas acho que fomos enganados.

Ellisse cerrou os punhos e ergueu o olhar para Doug como num pedido de desculpas, então lançou Noturna contra o Julgador. A lâmina acertou em cheio a caneca e a perfurou, ficando fincada contra a parede de madeira perto do outro Julgador. Um ruivo, estatura mediana e que portava uma gládio.

O tecido que cobria Noturna aos poucos foi desfazendo, revelando suas características. Ellisse sussurrou o feitiço para anular o encantamento de Meredith (ela não era bruxa, então só podia realizar feitiços muito simples). Seus cabelos foram clareando, os olhos acendendo-se num vermelho vibrante e Noturna voltou ao tamanho normal. Doug ofegou, caminhando para trás e esbarrando-se na pia cheia de copos.

— Há! Princesa, estávamos procurando por você! — fingiu entusiasmo, então fez uma reverência. — Seu pai está preocupado e pediu para que procurássemos por você.

— Onde está Meredith? — rosnou enquanto se levantava do banco e o jogava para o lado.

O Julgador ergueu seu olhar e indicou com a cabeça o lado de fora. Ellisse caminhou em direção a porta, passando por ele sem se importar ou temer um ataque. Ela foi até Noturna, recolhendo-a num puxão simples, fazendo a caneca cair emitindo um breve som metálico, e seguiu para a parte de fora da taverna. O clima no lugar tinha mudado completamente.

A chuva ainda caía intensamente e ajoelhada no meio da rua, escoltada por mais dois Julgadores e com os braços presos nas costas, estava Meredith. Sua imagem era péssima, com arranhões e hematomas pelo corpo inteiro. O sangue era lavado pela chuva, porém manchava seu vestido bege. Ela devia ter resistido por um longo tempo para não dizer aos Julgadores sua localização.

— Podemos ir? — perguntou o Julgador de cabelos cinzas em tom de deboche, perto do seu ouvido.

Ellisse virou com toda fúria para cima dele, girando Noturna num ataque certeiro, mas o homem foi mais rápido em bloquear. Faíscas saíram pelo contato de metal contra metal. Ela rosnou, mostrando suas presas e forçando o corpo para frente.

— Vão precisar me matar. Eu não vou voltar!

Ela empurrou o Julgador para longe, fazendo-o rolar pelas pedras lisas do paralelepípedo. O ruivo avançou, assim como os outros dois que estavam perto de Meredith. Ellisse saltou lateralmente, desviando dos golpes e lâminas, pousando firme. Estava no meio dos três Julgadores, tentando prever seus movimentos, mas a chuva atrapalhava bastante.

O ruivo reagiu primeiro. Ele ameaçou atacar Ellisse de frente, porém mudou de direção no último instante para corta profundamente sua coxa. Ela rosnou com a dor, mas contra-atacou com Noturna. A pesada espada chocou-se conta a gládio, usada pelo ruivo para se defender. Ellisse aumentou o contato, forçando-o a ajoelhar-se, então esquivou para o lado e deu uma joelhada em cheio no queixo dele.

Ele caiu urrando de dor, cuspindo sangue e tonto o suficiente para não conseguir se levantar. Os outros dois avançaram juntos, seus passos contra os paralelepípedos chamou atenção de Ellisse. Ela olhou por cima do ombro, então rolou para o lado desviando do primeiro e acertando os pés do segundo, que caiu de boca no chão.

— Porra! Acabem com ela! — gritou o de cabelo cinza, voltando a se aproximar.

O ruivo levantou de repente, agarrando Ellisse pela cintura num salto, a derrubando. Noturna escorregou para longe quando ela caiu no chão. O Julgador tentou segurar seus pulsos, mas ela posicionou os joelhos em seu abdômen e o empurrou para o lado. No desespero, tentou agarrar o cabo de Noturna, mas a lança do Julgador acertou, em cheio, seu ombro direito.

— ELLIE! — berrou Meredith enquanto tentava se soltar.

Ela tentou reagir, se arrastar até Noturna, mas o Julgador era muito rápido e logo estava com o pé pressionando suas costas. Ele agarrou a lança e a girou lentamente. Ellisse berrou de dor, sentindo o ombro se deslocar dolorosamente.

— Vamos! Vamos! Mostre a esses humanos quem você é realmente, Ellisse Caunder! — gritou eufórico, girando a lança ainda mais.

Ellisse gritava de dor enquanto olhava em direção a taverna. Doug estava ao lado das portas, olhando tudo com os olhos arregalados. Algumas pessoas o seguravam, pois ele parecia querer ajudá-la. A lança afundou ainda mais em sua carne e mais um grito escapou dos seus lábios. Suas lágrimas eram mascaradas pelos grossos pingos da chuva intensa.

— Fraca.

— Kieran! Nosso Senhor não gostará se a levarmos machucada assim! — disse o ruivo com a mão na boca, deixando sua voz levemente abafada, enquanto sangue escorria entre seus dedos e queixo.

Kieran revirou os olhos e parou de girar a lança.

— Ela estará recuperada quando chegarmos ao reino, Gael. Não se preocupe.

Ellisse não conseguia reagir. A dor da lâmina Julgadora era intensa demais; ela consumia todas as suas forças e feriam verdadeiramente. Seus olhos observavam Kieran, vendo-o se aproximar cada vez mais de Doug.

— N-não. P-por favor. E-ele não tem na-ada haver co-om isso. — implorou. Ela tentava se arrastar para perto dele, ignorando o fato de estar desarmada. Só queria fazê-lo parar.

O Julgador olhou sobre o ombro. Seus cabelos molhados, grudados em seu rosto quadrado, o transformava numa figura cruel com um largo sorriso nos lábios finos.

— Bem que Selletus disse que essa raça é sua principal fraqueza, Princesa – riu debochadamente. — Você precisa aprender a não sentir pena da escória. Você precisa aprender que eles são tão descartáveis quanto lixo! Eles já infectaram e destruíram planetas inteiros! E vão continuar fazendo isso até que sejam completamente exterminados… como as pragas que são.

Kieran estendeu a mão em direção a sua lança e a mesma foi atraída, rasgando mais o ombro de Ellisse quando isso aconteceu. O Julgador aproximou-se de Doug, mas o mesmo continuava com o queixo erguido e sem demonstrar medo.

— Vou começar por você – ele girou a lança habilidosamente, dando um passo para trás e desferindo um golpe certeiro no abdômen do senhor.

O som da lâmina cortando fez Kieran sorrir abertamente. Parecia esperar por algo, talvez a deliciosa sensação, muito conhecida por Ellisse, de ter mais uma alma absorvida, mas como não sentiu isso… decidiu levantar o olhar.

As mãos da Princesa seguravam a lâmina com força o suficiente para ter as palmas das mãos rasgadas e a ponta da lança perfurava superficialmente seu abdômen. Doug havia sido jogado para trás e estava caído, sentado parcialmente, observando a cena. Parecia não entender como continuava vivo. Tudo tinha acontecido rápido demais para seus olhos conseguirem acompanhar.

— Como você… Ah! Aí está você. — O sorriso de Kieran parecia ainda maior, como se fosse rasgar os cantos da boca.

As veias negras subiam pelo pescoço da Princesa e corriam pelas bochechas até chegar abaixo dos olhos. Seus olhos pareciam brasas, queimando intensamente e alimentando sua fúria. Ali, naquele momento, não era mais Ellisse no controle e, sim, seu lado mais obscuro o qual sempre lutava contra.

— Vou matar todos vocês. Suas almas farão parte da minha coleção de outros Julgadores que ousaram me afrontar.

— Será uma honra, mas você precisa conseguir primeiro.

Ellisse, ou quem quer que fosse, sorriu e quebrou a lâmina com as próprias mãos. Não deu tempo para Kieran tentar entender e só o agarrou pelo pescoço com força. Ele tentou reagir, feri-la com a outra parte da lança que ainda possuía lâmina, porém Ellisse segurou o braço dele com a mão livre.

— Noturna.

Kieran uniu as sobrancelhas, não entendendo, até sentir algo atravessar seu peito. A lâmina negra apareceu na frente de seu olhos e o Julgador sabia que era seu fim. Seu corpo começou a convulsionar, ficar numa coloração cinza e esfarelar lentamente. A alma consumida era forte, alimentou Noturna e Ellisse de uma maneira prazerosa, mas elas queriam mais.

Muito mais.

Gael estava aterrorizado, tentava gritar para os outros dois correrem, porém era tarde demais. Ellisse apareceu na frente dos dois com Noturna apoiada no ombro. Ela cortou o braço de um e a perna de outro, desviando de golpes débeis que os dois desferiam. Por fim os decapitou de uma vez, num corte limpo e certeiro. As cabeças rolaram até os pés de Gael antes de esfarelarem também.

— Não! Por favor! Eu imploro!

Ellisse balançou a cabeça, como se lutasse para manter o controle, então caiu de joelhos ofegante. Aos poucos as veias foram retrocedendo até desaparecer e Noturna perdia o brilho intenso esverdeado.

— Saia daqui! Saia e diga para meu pai que eu não vou voltar!

Gael correu aos tropeços até pegar velocidade e desaparecer. Ela ouviu alguém se aproximar, imaginou ser outro Julgador, então apontou Noturna. A lâmina parou poucos centímetros do pescoço de Doug. No mesmo instante Ellisse soltou a espada, apoiando-se com as duas mãos no chão.

— Vocês precisam ir, criança. Os guardas de Stormbird logo chegarão e eles não serão tão compreensíveis com vocês. Mesmo se explicássemos. — ele ajudou Ellisse a se levantar.

Um dos músicos libertou Meredith e a mesma correu até a Princesa, quase escorregando por conta das pedras lisas. Ela tomou seu rosto entre as mãos, olhando em seus olhos como se pedisse perdão.

— Está tudo bem.

— Certo. Precisamos ir. — Meredith olhou para Doug. — Obrigada por tudo.

— Vocês salvaram minha vida e minha taverna. Não precisam, mesmo, agradecer. Que os deuses protejam vocês para todo o sempre.

Meredith sorriu fraco, sabendo como Ellisse reagia a aquele tipo de fé, então tomou as suas mãos.

— Ellisse. Preciso que seja forte, que use os encantamentos e tenha em mente que iremos nos encontrar cedo ou tarde.

— O que você…

— Montorium Confusus!

Foi como há anos, quando Meredith a tirou de Selletus. Ela foi sugada para uma dimensão e, então, jogada em outro lugar. Seu corpo colidiu contra uma neve fofa, assim como Noturna. Ellisse levantou-se num salto, olhando ao redor e gritando pela bruxa. Não haviam mais postes iluminados ou a taverna ou a rua de paralelepípedos. Ela estava sozinha.

Completamente sozinha com sua espada.

O grupo caminhava pelas dunas douradas do Deserto Kohaman, com o sol brilhando intensamente sobre suas cabeças. Benjamin liderava o caminho, traçando rotas sobre a areia com segurança e sempre perguntando se todas estavam bem. As roupas conseguiam refrescar seus corpos, porém ficar encarando a mesma paisagem por horas podia causar certo desconforto. Principalmente para Sarah, Amanda e Lyanna.

Era a primeira vez das meninas ali.

Kassandra olhou por cima do ombro, checando se a princesa continuava por perto. Os olhos verdes, cansados, lhe encararam intensamente até sua dona cair de joelhos. Kass, imediatamente, correu até Lyanna sem pensar duas vezes. A princesa estava tentando aguentar, mas tinha chegado ao seu limite.

— Vamos. Suba em minhas costas – resmungou, jogando os braços da humana sobre seus ombros.

Ela sentiu a princesa relutar por alguns segundos, porém estava fraca demais para protestar ou lutar contra.

— Hey! Está tudo bem?! — perguntou Benjamin preocupado, parando no ponto mais alto da duna.

— Sim! Vossa Alteza está apenas cansada, mas consigo carregá-la! — respondeu alto o bastante para que ele ouvisse.

— Não se preocupem! Há um Oásis logo a frente! Podemos descansar um pouco antes de continuar!

Kassandra apenas assentiu, voltando a caminhar e, agora, com Lyanna em suas costas. Amanda deu um sorriso reconfortante, também precisava de um descanso, assim como Sarah.

— Odeio quando me trata assim – resmungou a humana em suas costas.

— Não é assim que precisa ser? — retrucou mantendo o tom inexpressivo em sua voz e levemente abafado pelos tecidos que lhe cobriam o rosto.

— Kass, o que eu disse…

— Lyanna, você estava certa. Desde quando nos encontramos na floresta eu disse que não era uma boa pessoa, mas por um tempo achei que poderia ser. As meninas, você e até mesmo os alunos de Bhakans me fizeram achar isso. — desabafou. — Não importa. Eu sei qual é o meu lugar e isso nunca mudará.

A Princesa beliscou as bochechas de Kassandra com força, fazendo a mesma ofegar pela dor e diminuir um pouco a velocidade das passadas. Ela olhou por cima do ombro, encarando a humana de perto numa expressão irritada. Odiava ser pega de surpresa.

— Que porra foi essa?! — rosnou.

— Você não pertence ao Reino de Selletus! — falou baixo para que Benjamin não pudesse ouvir. — Olha as coisas que você já fez! As pessoas que está ajudando! Eu não me importo com seu passado ou quem você foi.

Kassandra voltou a caminhar olhando para frente.

— O que…

— Eu ouvi você e a Diretora Principal conversando sobre alguma coisa no corredor, mas fui embora antes de entender. Se você não contou ainda pra mim, então não preciso saber. — interrompeu. — Mas posso dizer, com convicção, que você não pertence a Selletus ou ao Reino dele. Sei que Julgadores possuem uma ligação forte com ele, porém isso não define quem vocês são.

É bem mais complicado para mim.

Elas permaneceram em silêncio durante o trajeto até o pequeno Oásis, localizado após a grande duna por onde caminhavam. Ele tinha um pequeno lago, alguns coqueiros e arbustos menores e restos de fogueiras (cinzas e tocos queimados). Benjamin ajudou Lyanna a descer das costas de Kassandra, enquanto Amanda e Sarah sentavam perto do lago deixando suas coisas de lado.

Cada um tinha recebido uma pequena bolsa contendo: cantil com água, Rastreador e suprimentos de emergência. Os Federais da Base de Operações Mantthur também haviam instalado Comunicadores em suas orelhas para uma comunicação discreta e segura caso precisassem pedir suporte ou ajuda. A passagem pelo deserto não era longa o suficiente para acamparem ou coisa parecida, mas era desafiador para quem nunca esteve nele e por isso as poucas provisões.

— Essa água é limpa se quiserem reabastecer os cantis – avisou Benjamin olhando para o horizonte por alguns instantes. — Não estamos longe da cidade, mas acho melhor descansarmos um pouco.

Kassandra encarou o garoto por alguns instantes. A postura dele estava diferente, parecia tenso e muito alerta. Bem diferente de como agia no colégio quando caminhava com seus amigos do grupo Mariposas.

— Está tudo bem? — perguntou para ele. — Essa rota é segura?

— Nesse horário, sim. Essa é a única rota para chegar em Riandãã, então já pode imaginar o que acontece. — Benjamin sentou perto do lago, de frente para Kassandra.

— Entendi. São traficantes das facções ou só pessoas do Mercado Fantasma?

— Durante a noite, essa rota vira um verdadeiro caos. Uma vez minha curiosidade gritou alto e vim espiar o que acontecia – ele desviou o olhar para a água. — Havia uma garotinha, de no máximo quatro anos, sendo vendida para uns homens. Ela estava presa numa gaiola grande… machucada e suja. Lembro que não consegui dormir durante muito tempo depois daquilo.

— Merda…

— Pois é… Mas quando me recuperei, jurei que estudaria e treinaria para ser um Protetor. Farei justiça em todos os lugares esquecidos pelos deuses. Sou da Facção Criadora, acredito nos deuses, mas também sei que eles abandonaram minha cidade. Que abandonaram todos nós e, depois da guerra entre eles e Selletus, desapareceram.

Aquele olhar. Kassandra conhecia bem aquele olhar, pois, um dia, já o tivera. Quando ela e seu grupo de Julgadores, cansados das atrocidades geradas por Selletus, se encontravam secretamente para planejarem formas de acabar com a tirania do deus.

— Linearth precisa de mais pessoas como você. Espero que consiga atingir seu objetivo.

— Isso foi um elogio disfarçado? — indagou confuso.

As meninas riram baixo, enquanto Benjamin a encarava com as sobrancelhas arqueadas. Parecia verdadeiramente surpreso.

— Ah, ótimo! — resmungou Kassandra. — Pense como quiser, eu não me importo. Só quero focar em terminar a missão e sair desse calor infernal.

Elas continuaram rindo, até Benjamin sorriu e parecia realmente orgulhoso por ter recebido um “elogio” da novata mais talentosa do colégio. Apesar das diferenças entre eles quando se conheceram, o garoto acabou criando um respeito por Kassandra e, talvez, uma admiração.

Kassandra buscou seu cantil dentro da mochila, querendo ignorar as piadinhas de Amanda, então ouviu um rosnado baixo. Rapidamente ergueu a cabeça procurando de onde poderia ter vindo.

— Kass? Está tudo bem? — Lyanna a encarava com as sobrancelhas unidas.

— Eu ouvi um…

Novamente o rosnado.

— Isso. Foi isso o que eu ouvi.

O grupo agora olhava para todos os lados, pois tinham ouvido também. Kass tirou os panos do rosto e inspirou o ar discretamente para tentar rastrear qualquer coisa. Um odor forte, fétido, a fez ofegar com nojo.

— Fiquem aqui. Acho que tem algum animal por perto, mas deve estar ferido ou quase morto. — ela retirou a adaga escondida abaixo de sua Hunmia., caminhando para uma área onde haviam arbustos espinhosos emaranhados uns nos outros.

Ela caminhou com cuidado. Tentou encontrar algo, mas os arbustos não ajudavam. Até que percebeu um remexer bem discreto que causou o estalo dos galhos secos. Algo magricela, de pelos castanhos pálidos, estava encolhido entre os espinhos e havia sangue seco misturado com a areia dourada. Kassandra ignorou a repulsa da imagem, começando a abrir caminho com sua faca até o que quer que fosse.

Quando conseguiu acesso até o animal, viu que se tratava, aparentemente, de um cachorro. Um grande cachorro, mas estava muito magro e ferido. Sua orelha pontuda tinha um pedaço faltando, as solas das patas estavam em carne viva – talvez pela temperatura da areia – e haviam partes de seu pelo que pareciam faltar. Como se tivesse sido arrancado por agressões ou, até mesmo, por brigas.

— Ei, garoto – um rosnado profundo a fez recuar um passo. — Garota – o animal se acalmou novamente. — Vou ajudar você.

Kassandra perdeu o fôlego quando viu a cor dos olhos da, provável, cadela. Eles eram brancos e pareciam enxergar através de seu ser. Ela ignorou o arrepio por seu corpo, se curvando para pegar a frágil criatura nos braços.

Ao voltar para onde todos estavam, Benjamin foi o primeiro a se pronunciar:

— Que merda é essa?! — exclamou saindo do caminho de Kassandra.

— Acho que uma cadela – resmungou dando de ombros e colocou o animal perto do lago.

— Cadela?! Olha o tamanho disso! Acho que é uma loba ou sei lá! Os traficantes e contrabandistas devem tê-la usado para as brigas de cães… É uma pena que não vá sobreviver.

— Ela vai. Vou carregá-la até a cidade, cuidar dela e achar um bom lugar para que fique segura. — disse sem dar chances para que qualquer um protestasse sua decisão. — Nenhum animal merece morrer desse jeito ou ser jogado fora como se fosse nada.

Com cuidado, ajudou a cadela ou loba a tomar um pouco de água. Depois limpou seus ferimentos superficialmente para que não piorassem. Kassandra tirou um dos panos e enrolou-a com cuidado, fazendo uma espécie de bolsa para que conseguisse carregar o animal em suas costas. Quando terminou, ela encarou a Princesa se lembrando do ocorrido.

— Consegue andar?

— Sim! Eu só precisava de uma pausa. Estou pronta para continuar.

— Se quiser eu posso carregá-la – Disse Benjamin de repente, olhando para a Princesa.

Kassandra deu um sorriso frio, assustador, mas apenas as meninas tinham percebido. Quando o garoto olhou em direção a novata, engoliu em seco.

— Ha-há! E-era brincadeira! Vamos indo?

Em poucos minutos o grupo já estava caminhando pelo horizonte de areia dourada novamente e, agora, com uma nova integrante.

Notas finais
Até breve ♥