Notas iniciais
De novo, agradecendo a Lele Marques que além de betar o capítulo, tem que escutar meus surtos sobre dieta na fila do supermercado! =D

Sabia que estava sonhando.

Afinal de contas, eu estava no conforto de minha casa, depois de passar a tarde assistindo meu filho rebater bolas durante seu treino de baseball. Sabia que Edward tinha viajado há três dias para Nova Iorque por conta de negócios e só iria voltar no próximo final de semana; sete dias inteiros longe da presença da minha outra metade. Quanto à Richie, agora ele estava dormindo na minha cama, como fazia todas as raras vezes as quais o pai precisava viajar.

"Vim pra cá pra te proteger mamãe. Sou o homem da casa agora, lembra?" ele se justificava sempre com essa mesma desculpa no alto de seus seis anos.

Porém, por mais que eu soubesse que era apenas um sonho; algum tipo de realidade alternativa que de fato nunca poderia existir, eu não pude deixar de me assustar. De sentir como se estivesse sendo sufocada devido à imagem que minha imaginação criara.

Era um dia estranho para Forks, o sol estava alto e brilhante em um céu límpido e azul. Edward e Richard estavam brincando juntos em um balanço que eu reconhecia muito bem. Aqueles dois balanços pertenciam ao único parque não-florestal da cidade. Alice e eu costumávamos passar as tardes depois do colégio ali, sempre que ela não queria brincar com suas bonecas.

Pai e filho continuavam rindo alto, curtindo o embalo leve do brinquedo enquanto eu me aproximava. O que estávamos fazendo em Washington? Teria acontecido algo a alguém? Ou será que tínhamos nos mudado como Edward sempre cogitou?

Ansiando remover todas essas perguntas da minha mente, eu chamei baixinho, esperando que ele respondesse. – Edward?

Ele continuou balançando até que conseguiu frear o impulso do balanço com suas mãos e se agachou para sussurrar algo para nosso menino. Richie sorriu amplamente e pulou do brinquedo, vindo correndo em minha direção.

Seus pezinhos batiam rápidos contra o chão e meu instinto maternal clamou para que eu pedisse para que ele não corresse. Porém, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a velocidade de seus passos o deixou cada vez mais próximo a mim. Agachei-me e por puro hábito abri meus braços esperando o impacto de seu corpinho rechonchudo contra o meu.

Qual foi minha surpresa, quando ele passou direto e seguiu apressado em direção às primeiras árvores do denso bosque, nem sequer me reconhecendo. Levantei e chamei por ele, que pareceu ignorar totalmente meu pedido. – Richard você quer se perder? Volte aqui, agora! – Clamei pelo que foi aparentemente em vão.

Que tipo de maluco você é, Edward? Como pode mandar uma criança do tamanho dele sozinha para lá? Precisamos ir atrás dele agora! Você está me ouvindo? – inquiri exasperada pela aparente tranquilidade dele.

Por mais que eu estivesse além de revoltada com seu posicionamento, não pude deixar de notar sua beleza sob a luz amarela do dia ensolarado. Seu cabelo estava mais dourado do que o ruivo habitual, vestindo calça jeans e uma pólo cinza-claro, completamente diferente dos ternos que ele sempre usava para o trabalho. Ele olhava fixo algum ponto no céu, com um sorriso tristonho nos lábios.

Ao me aproximar dele, pedi outra vez. – Vamos logo, Edward! Richie é esperto, mas ainda é apenas uma criança! Se demorarmos mais ele pode se perder, por favor!

Ao abaixar seu rosto, notei suas orbes nadando em umidade até que ele piscou e uma lágrima solitária desceu pela sua face. Meu coração se apertou com a cena, porque a única vez que o tinha visto assim foi quando seus pais faleceram há anos atrás. – Por Deus, Edward! O que está acontecendo? – perguntei erguendo minhas mãos para enxugar seu rosto.

Entretanto, antes que eu pudesse fazer isso, a mão esquerda dele fez o movimento que eu queria, mostrando que ali agora ele ostentava dois anéis.

A minha aliança e a dele.

Acordei assustada no meio da noite com aquela sensação horrível de embrulho no estômago. Sem nem pensar duas vezes, pulei da cama e corri direto para o banheiro, onde esvaziei com revulsão todo o meu jantar. Lágrimas corriam pela minha face e eu me sentia exausta por ter mais uma noite mal dormida.

Depois de alguns momentos para me recompor, consegui me levantar e me olhei o espelho do banheiro. Meu cabelo estava um emaranhando devido ao fato de segura-lo enquanto eu vomitava, minha pele estava mais pálida do que o normal. As olheiras que pareciam nunca desaparecer completamente estavam mais pronunciadas, e gotas de suor se acumulavam no canto da testa. Liguei a torneira e lavei meu rosto e escovei os dentes duas vezes, retirando aquele gosto repugnante da boca.

Apaguei a luz do banheiro e abri a porta do quarto para encontrar o abajur aceso e Richard sentado na ponta da cama, esfregando seus olhinhos. Olhei de relance para o alarme no criado-mudo que me mostrou que não eram nem sequer cinco da manhã ainda. Aproximei-me do meu garoto, nos deitando e apertando-o forte contra o peito. – Eu acordei você, docinho?

Ele ergueu seu rosto e replicou com uma pergunta. – Você acordou dodói de novo, mãe?

– Sim, mas não se preocupe. Deve ter sido a pizza que eu comi quando fiquei sozinha no sábado – respondi, beijando levemente seus cabelos.

Na noite em que Edward tinha voado para Nova Iorque, Richie tinha uma festa do pijama com todos os meninos do baseball, em comemoração a vitória que eles obtiveram contra o time do outro bairro naquele mesmo dia. Como Rosalie e Emmett poderiam suportar 14 meninos entre seis e oito anos por uma noite inteira ainda era um fato que gostaria de entender.

Por um momento, achei que meu filho já tinha caído de volta no sono quando ele por fim me questionou – Mamãe?

– Sim?

– Você não vai morrer, né? Que nem o vovô e a vovó Masen?

Meu coração deu uma batida descompassada. Primeiro o sonho e agora essa, tudo na mesma noite. Como responder isso?

Richie mal tinha completado três anos quando seus avôs paternos faleceram, no entanto, esse fato marcou bastante a vida de meu pequeno, tanto que em plenos atuais seis anos, já entendia completamente o conceito da morte

Ergui seu rosto com carinho, fitando cuidadosamente seus olhos verdes. – Não, amor. Eu não vou morrer – afirmei, acariciando seu cabelo espesso. – É apenas meu estômago que está ruim, igualzinho ao que aconteceu com você e seu pai quando foram ver o jogo do Sox e comeram cachorro-quente velho, lembra?

Richie abriu um sorriso e falou com orgulho. – Aquele dia foi muiiito legal! Eu senti um pedacinho da salsicha sair pelo meu nariz!

Minha barriga deu outra guinada, mas consegui evitar que a bile subisse novamente pelo meu esôfago. – Ok, Richie por que você não deita só mais um pouquinho, huh? Daqui a pouco você terá que ir pra escola e irá ficar reclamando o dia inteiro porque você não dormiu nadinha.

Ele bufou, no entanto, se aconchegou melhor em meus braços. – Eu não devia ir pra escola quando o papai viaja... Você vai ficar em casa abandonada...

Não pude deixar de rir com a teoria dele. Richie apesar de ainda muito novo, adorava usar "novos termos" em suas frases. Abandonar, parecia ser a palavra da vez durante essa semana. – Docinho, eu fico em casa sozinha todos os dias. Seu pai vai para o trabalho diariamente, não é? E além do mais, a tia Alice chegará hoje. Eu não vou ficar abandonada, garotão.

Seu pescoço se ergueu levemente, e o sorriso que agora mostrava um dentinho maior que o outro se ampliou. – Tia Allie? De que horas ela chega? Ela vai dormir aqui em casa? Ela vai trazer presente?

– Epa, epa, epa, mocinho! Eu vou pega-la no aeroporto enquanto você estiver no colégio. E nada de esperar presentes das pessoas assim. É feio! Agora, chega de perguntas. Boa noite, Richie.

– Mas já tá de manhã!

– Bom dia, Richie.

Ele riu, finalmente fechando os olhos. – Bom dia, mamãe.

Fiquei acariciando suas ondas castanhas – a única característica minha que havia herdado, enquanto aos poucos, ele se rendia a letargia outra vez. Quanto a mim, não consegui nem sequer fechar os olhos. O enjôo tão cedo pareceu me despertar completamente, e assim, fiquei velando o sono de meu filho, já que ainda era muito cedo para começar o dia.

Ao assistira face serena de Richie e seu peito subir e descer tranquilamente, não pude deixar de questionar minha decisão ao dizer que nunca iria morrer. Tudo bem que agora, tinha sido apenas um mal-estar. Persistente, mais ainda assim, nada grave. Contudo, o que aconteceria se algo ocorresses comigo ou com Edward? O quanto tudo isso afetaria meu garotinho?

Refleti sobre isso durante um bom tempo. Afinal, eu nunca fui muito de me apegar aos sonhos. Renée, com todas as suas filosofias alternativas, era quem sempre dizia que havia um significado oculto por cada um deles. Mas, qual seria o sentido ao ver Edward obviamente viúvo e Richie correndo, prestes a se perder no meio de uma mata densa? Havia nesse cenário alguma mensagem que meu subconsciente tentava avisar?

Fechei os olhos e tentei parar de pensar. Foi apenas um pesadelo como qualquer outro dentre os milhares que já tive na vida. Ficar me apegando a essa cena, só faria mal a mim mesma. Assim como veio, sem razão alguma, eu devia relevá-lo completamente antes que acabasse criando um caso por uma simples besteira. Provavelmente, isso tudo tinha acontecido devido aos meus hormônios começarem a dar o ar da graça.

Em cinco semanas sem tomar pílula, eu já podia sentir os efeitos que o descontrole hormonal causava em mim. Estava inchada, irritadiça, emocional... tudo ao extremo como sempre foram minhas crises de TPM. Os remédios ajudavam extremamente nisso, e agora com a falta deles, nunca pensei que chegaria ao ponto de dizer que estava ansiosa para que minha menstruação viesse, finalmente.

Sorri comigo mesma por um momento; se eu não engravidasse logo nos próximos seis meses, tenho certeza que meu marido seria o primeiro a marcar uma consulta com minha ginecologista para que eu voltasse com as pílulas o quanto antes.

O som do despertador tocando, acabou me trazendo de volta dos meus devaneios. Finalmente eram seis e meia, e era a hora do dia começar finalmente na casa dos Masen. Estiquei meu braço para interromper o bipe irritante, para depois afrontar a maratona que era ré-acordar Richie.

[…]

– Mãe, posso fazer meu cereal? Posso, por favor?

Richie parece ter entrado naquela fase de querer fazer tudo sozinho. Ir tomar banho e deixar o chuveiro ligado por minutos para depois continuar sujo mesmo assim; Querer por si próprio ler as estórias antes de dormir ou tentar amarrar seus cadarços. Só em momentos como esse eu tinha noção do quanto meu garoto estava crescendo rápido.

– Tudo bem, Richie. Mas nada de fazer sujeira, ok?

– Tá bom, mãe – ele respondeu levemente exasperado.

Sinceramente, eu não tinha a menor vontade de comer. Abri a geladeira e fiquei encarando o nada. Só a ideia de comida fazia meu interior se agitar outra vez. Talvez eu comece alguma coisa um pouco mais tarde, antes de pegar Alice no aeroporto. Ingerir qualquer coisa agora estaria fora de cogitação.

– Mãe – Richie chamou, saindo da cadeira onde estava, vindo até mim –, acho que caiu algum bichinho no meu cereal, olha só – ele respondeu, erguendo sua tigela ao meu rosto.

Bastou simplesmente olhar para a mistura repugnante que eram os flocos misturados ao cheiro enjoado do leite para que a ânsia de vomito voltasse com força total. Afastei bruscamente meu filho para o lado e corri até a lavanderia, onde despejei o pouco que havia no meu estômago outra vez.

Tinha me esforçado tanto fazendo isto ao ponto de minha garganta arder. Joguei um pouco de água no rosto, buscando me recompor um pouco. Tinha absoluta certeza de que acabei assustando Richard outra vez, depois de toda essa cena. Tomei algumas respirações profundas, esperando melhorar um pouco minha aparência para poder não amedrontar mais ainda meu pobre garoto.

Quando voltei pra cozinha, encontrei o cereal esquecido na pia e Richie no telefone, com uma ruguinha entre as sobrancelhas. – Não. Agora ela já tá aqui – ele respondeu, me avaliando com concentração. – Tá bom... Eu também te amo, papai.

Richard esticou o aparelho em minha direção. Peguei-o, mas antes de falar, cobri o bocal e lhe perguntei. – Você ligou para o seu pai, Richard?

Ele revirou os olhos, e retrucou enquanto mordia um sanduíche. – Claro que não, né? O telefone tocou e eu atendi!

Bufei irritada, pois não teria como reprimi-lo, pelo menos por ora já que Edward estava do outro lado da linha. – Oi, amor.

– O fato de Richie não ter ligado antes significa que eu deveria ter deixado o número do hotel ou meu celular no lado do aparelho. Você está bem?

– Edward, não é nada. Só um enjoo, nada demais.

– Ele disse que você está assim desde ontem e que passou a madrugada toda no banheiro também.

Encarei Richard que comia tranquilamente seu café-da-manhã, ignorando completamente meu olhar enfezado. – Não é nada. E você sabe que ele tem tendência para exagerar, exatamente como o pai dele.

– Bella, eu estou falando sério aqui.

Eu também, Edward.

Escutei um suspiro pesado e eu quase podia vê-lo segurando a ponte do nariz. – Tem certeza de que você está bem? Se quiser eu posso cancelar algumas coisas aqui e voltar pra casa o quant...

– Edward –eu comecei, – por mais que esteja morrendo de saudade de você, eu não quero te ver em casa antes de sábado, ok? Vou tomar algum remédio e tudo isso vai passar logo, juro.

– O que me deixa menos preocupado é que Alice está chegando hoje.

Apoiei o telefone no ombro, à medida que pegava uma maça e alguns biscoitos para guardá-los nas lancheira de Richie. – Eu não estou inválida, Edward. Eu posso muito bem cuidar de mim e do meu filho sozinha. Não preciso de babás! – sibilei duramente.

– Eu sei, baby. Mas eu não posso deixar de me preocupar. Principalmente quando minha mulher está doente e tendo que cuidar do nosso filho, sozinha – ele se justificou e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Edward continuou. – Eu tenho que ir, minha reunião começa em cinco minutos.

Olhei de relance para o relógio e vi que já passavam das sete e meia da manhã. Como Nova Iorque estava uma hora à frente de Chicago, presumi que ele já devia estar prestes a encontrar alguns clientes. – Tudo bem, só não se preocupe, ok? Você vai acabar ficando com cabelos brancos.

Ele finalmente riu. – Você gostou dos poucos que encontrou. Cuide-se por que eu amo você.

– Eu também te amo. Nos falamos mais tarde?

– Assim que eu chegar de volta ao hotel.

Despedimo-nos e subi rapidamente a escada, para me trocar e me certificar que Richie se arrumasse antes de partirmos para a escola. Abri a porta de seu quarto e falei – Não se esqueça de escovar os dentes, mocinho!

Ele voltou seu rosto para mim, mostrando o pequeno dente incisivo desnivelado dos outros. – Eu já fiz isso, mamãe – ele falou a medida que arrumava sua mochila. – Agora, é sua vez, né?

Revirei os olhos e retruquei. – Eu vou fazer isso agora, espertinho. Só vá lá pra baixo e me espere, ok? – pedi enquanto me afastava e ia apressada até meu quarto para me trocar. Entre o enjoo e a conversa com Edward, acabei perdendo mais tempo do que imaginava.

Depois de alguns minutos perdidos ao tentar parecer um pouco mais decente, sem aparentar tanto aquela cara de doente terminal cujo eu estava esses dias, peguei as chaves do SUV que eu geralmente dirigia e parti com meu filho para o trânsito frenético de Chicago esses dias. Por mais que morássemos no subúrbio, Edward insistiu em matricular Richie na mesma escola particular que ele frequentou, perto do centro da cidade. Isso me custava uns bons 15 minutos diários, se o tráfego estivesse bom. Algumas vezes na semana, Edward se dava o direito de chegar um pouco atrasado no trabalho, só para levar nosso filho até a St. Therese School, curtindo alguns minutos a mais do lado dele.

No início, eu relutei muito contra a ideia de Richie entrar em um colégio privado. Eu mesma tinha passado minha vida inteira estudando em colégios públicos e nem por isso me considerava alguém frívolo ou ignorante. Sem contar em todo estereótipo que existia para aqueles que estudavam em colégios pagos: fúteis, inconsequentes e mimados; nenhuma característica que eu desejava que meu filho tivesse. Entretanto, Edward fazia questão de prover ao Richard a mesma educação que sua família vinha tendo a gerações, e sinceramente, não sabia como lutar contra esse argumento tão tradicionalista dele.

Quando chegamos à escola, podia ver as últimas crianças cruzando o portão de entrada. Por sorte, consegui achar rápido uma vaga, provavelmente de algum outro pai que tinha acabado de deixar seu filho ali também. Desci rapidamente do carro e dei a volta para ajudar Richie a sair de seu assento.

– Comporte-se, docinho – pedi-lhe, arrumando alguns fios rebeldes em seu cabelo.

Ele olhou além da entrada do colégio e abriu um enorme sorriso para alguém. – Eu vou sim. Posso ir agora? – perguntou ansioso.

– Não ganho nem um beijinho? – perguntei, fingindo estar magoada.

Ele deixou um beijo estalado em minha bochecha e saiu em disparada com suas perninhas roliças até a entrada do prédio. – Tchau, mamãe!

– Não tão rápido, filho! Amo você!

Ele me ignorou completamente e continuou a correr em direção à Paul – seu melhor amigo da semana. Os dois meninos bateram seus punhos e atravessaram o imponente portão de madeira trabalhada, onde eles ficariam pelas próximas seis horas.

Ainda tinha algumas horas até que chegasse a hora de pegar Alice no aeroporto, e sinceramente, não estava com vontade de dirigir para casa e passar esse tempo sozinha. De repente, lembrei que não tinha comido nada no café da manhã e meu estômago pareceu criar vida própria depois disso. Sabendo que havia uma nova Starbucks há duas quadras de distância dali, peguei minha bolsa, tranquei o carro e resolvi fazer uma breve caminhada até lá.

Durante o caminho, parei em um jornaleiro e comprei o jornal do dia e algumas revistas. Odiava me sentir fútil, sem saber nada do que acontecia em minha volta. Desde a adolescência eu gostava de me sentir informada e tinha uma grande admiração pelo mundo dos negócios. Acho que teria me tornado uma boa publicitária se eu tivesse concluído a faculdade. No entanto, não era por isso que eu me tornaria alguém que nunca mais buscaria atualização no que ocorria no mercado. Sem contar que provavelmente a leitura me manteria entretida enquanto esperava minha vez na fila.

Ao chegar na cafeteria, o que me surpreendeu não foi a quantidade de pessoas esperando para tomar suas doses de cafeína superfaturada, e sim como o cheiro quente de grãos recém moídos me deram água na boca. Confesso que nunca fui muito adepta do café, no entanto, ao sentir aquele cheiro, tudo o que eu podia pensar era no gosto daquele líquido quente, cremoso e saboroso. Pedi um Caramel Macchiato e um cupcake de mirtilo que aparentemente estava divino e encontrei um lugar vazio, onde eu podia passar tranquilamente os próximos minutos até a chegada de minha melhor amiga.

Queda nas Bolsa de Valores, especulação imobiliária, crise econômica... Alguns dos temas chamaram minha atenção pelo tom sempre pessimistas dos colunistas, contudo o que chamou mais minha atenção foi uma pequena nota na sessão de Esportes – algo que eu mal dava atenção, comumente. A pequena nota quase passaria despercebida por mim se não fosse a imagem daquele garoto.

Na foto, estampando um sorriso enorme em seu rosto estava o mesmo garoto que eu encontrara outro dia no supermercado. O mesmo corpo crescido de um homem, porém com o sorriso inocente de uma eterna criança. Na fotografia em preto e branco, Jamie encontrava-se no alto de um pódio, vestindo uma sunga e ostentando no peito uma medalha.

Jovem Excepcional de Chicago Ganha Campeonato Nacional de Natação na Categoria.

Não sabia dizer que tipo de emoção eu sentia a encarar a foto feliz dele no jornal. Era tudo confuso: eu tinha feito um pré-julgamento daquele garoto, e agora o via estampado o jornal – mesmo que sendo somente uma nota de rodapé – demonstrando que ele poderia sim encher de orgulho os seus pais, como a provável vitória teria feito. Entretanto, não podia deixar de questionar também se tudo isso seria suficiente; afinal de contas, por mais que se superasse a cada dia, ele seria sempre dependente de alguém. Será que valia a pena tanto sacrifício? Horas de terapia, prováveis remédios, gastos físicos e emocionais por alguém que nunca chegaria a realmente aprender?

Parei imediatamente de questionar isso. Quem era eu para julgar algo assim?

Olhando de relance pro relógio em meu pulso, notei que seria um bom momento para ir até o aeroporto. Ainda tinha uma boa caminhada de volta para o carro e junto com a relativa distância do centro até o O´Hare, tinha certeza de que chegaria antes que minha melhor amiga desembarcasse. Paguei por meu café-da-manhã improvisado e segui meu trajeto dali por diante.

Como imaginei, acabei encarando um grande engarrafamento, já que a cidade estava em pleno horário comercial. Pela janela, conseguia ver homens correndo para todos os lados, suando dentro de seus ternos, prova de que o verão desse ano viria impiedoso como nunca. Ao assisti-los não pude evitar de pensar em meu marido. Provavelmente à essa altura do dia, ele já devia estar ao ponto de desatar no nó da gravata e sugerir alguma tipo pausa. Eu quase podia vê-lo passando a mão na bagunça de seus cabelos e soltando um suspiro alto devido ao estresse.

Acho que ele tinha razão em levarmos a vida com um pouco menos de pressa. Tudo estava acontecendo tão rápido que parece ter sido ontem que nos reencontramos no meu primeiro dia de faculdade. Nosso filho estava crescendo rápido demais, e nossa juventude parece ter ido embora com a mesma velocidade. Sem contar que quanto mais ele se comprometia com a empresa que seu pai lhe deixou, mais difícil era para que nós dois tivéssemos nosso tempo em família, e até mesmo como casal.

Algo dentro de em mim, enfatizava ainda mais a ideia dele de seguirmos com O Plano, como ele mesmo costumava dizer. Voltar para casa, curtir o que restava da infância do nosso filho, onde Edward voltaria a advogar causas trabalhistas comuns, e não ser um mega-empresário que lucrava com os divórcios alheios como sempre quis. Onde eu finalmente teria meus pais por perto, sem me resumir apenas em vê-los durante os feriados de Ação de Graças e Natal. E quem sabe, ter a tiracolo mais uma miniatura de meu marido em meus braços.

Assim que ele voltasse no próximo sábado, conversaria com ele.

Se eu tinha alguma duvida que me impedisse de seguir em frente, elas haviam sumido a partir de agora.

Quando cheguei ao aeroporto, percebi que o voo de Alice estava no horário e que em 10 minutos estaria pousando em Chicago. Resolvi matar esse tempo, indo a pequena livraria de que havia no local. Depois de alguns minutos na loja, já estava muito entretida lendo a contracapa de algum best-seller que vinha sendo muito bem recomendado pelos críticos especializados. Foi aí que senti o cheiro.

Era doce demais, espesso, forte e enjoado. E mesmo com todas essas características, o dono do perfume – um velhote, gorducho com cara de mafioso – fez questão de que sua presença fosse registrada há quilômetros de distância. Senti-me tonta outra vez e aquela sensação horrível de ter que procurar o banheiro mais perto dominou meu corpo inteiro. Joguei de qualquer jeito o livro na pilha cuidadosamente arrumada e sai em disparada ao sanitário mais próximo, que por sorte minha ficava apenas um corredor depois da livraria.

Assim que abaixei meu rosto em direção à privada, senti meu belo desjejum de 10 dólares e 35 centavos vir com força total garganta abaixo. Outra vez, não consegui evitar as lágrimas de meus olhos e tenho certeza que assustei as duas velhinhas que usavam o mesmo toalete.

Depois de corar intensamente, pedir milhares de desculpas e assegurar pela enésima vez que eu estava bem, consegui saí de lá. Olhando pro painel de voos domésticos, notei que o voo vindo de Seattle já havia aterrissado há 20 minutos.

– Merda – murmurei comigo mesma, cavando meu celular dentro da bolsa. Quando o peguei notei que já havia três ligações dela e uma mensagem de texto.

Já estava prestes a retornar o chamado quando ouvi alguém chamando meu nome. Ao me virar ao som, encontrei Alice há uns trinta metros de distância, arrastando duas malas pelo saguão do aeroporto.

– Pensei que tivesse esquecido de mim – ela retrucou baixinho enquanto me abraçava forte. Retribui o aperto na mesma intensidade. Havia meses desde que nos vimos pela última vez no Natal. – Fazendo alguma dieta que não me contou? Você está tão magrinha!

Revirei os olhos, ajudando-a ao pegar uma das malas. – Se você considerar uma bulimia induzida por uma indisposição alimentar como uma nova técnica de dieta alimentar, então a resposta é sim – sibilei sarcasticamente. – Eu tinha ido ao banheiro quando seu voo chegou. Não estou me sentindo bem ultimamente.

Ela empoleirou seus óculos de grau no alto no nariz, como se quisesse dar uma melhor analisada em meu rosto. – Não tinha percebido – ela murmurou. – Você está magra, porém a cara está péssima. Você está bem?

– Obrigada pela gentileza, Allie. E sim, como eu disse. É somente uma indisposição – respondi-lhe, enquanto pagava o estacionamento.

– Você devia ter me avisado. Eu poderia ter pegado um táxi. Não é como se eu não soubesse o endereço de sua casa.

– Não é nada, Alice. Sério – respondi, logo depois que peguei o troco, já caminhando de volta para a vaga onde tinha parado o carro. – Tanto é que já me sinto bem, melhor. Como foi seu voo?

– Super tranquilo. Passei a maior parte da viagem dormindo. Tanto é que não me sinto nenhum pouco cansada – ela respondeu sorridente.

– Sinto inveja de você. Minha noite foi péssima. Tive alguns sonhos estranhos que não me deixaram descansar direito...

– Sonho estranho? – Alice franziu o cenho, curiosa. – Tipo pesadelos?

– Mais ou menos – respondi rapidamente, jogando seus pertences no porta-malas. – Só não quero falar sobre eles agora. Pronta pra comer alguma coisa? Eu estou morrendo de fome! – repliquei trocando de assunto.

Alice enrugou suas sobrancelhas. – Fome? Bella, não são nem onze da manhã ainda aqui em Chicago. – Ela contestou, averiguando seu relógio.

– Qual é, Alice? Você deve ter saído de seu apartamento às sete da manhã. E eu te conheço por tempo suficiente para saber que você não deve ter comido nada até agora.

Ela sorriu, mostrando sua covinha na bochecha. – Bem, quando você analisa desse jeito... E já que estamos em Chicago. – Ela começou entrando no lado do passageiro. – Nada como uma boa e tradicional pizza de Illinois!

– Urgh, Allie! Não me fale em pizzas! Estou assim por causa de uma que comi quando fiquei sozinha em casa no sábado! – murmurei, dando partida no carro e nos dirigindo para o tráfego pesado da terceira maior cidade do país. – Tudo menos pizza, por favor.

– Bem, já que você é a única faminta, o que você sugere.

– Que tal algum grelhado? Rosbife, talvez? Mas malpassado. Muito, mas muito malpassado. Com bastante molho barbecue – respondi automaticamente, já imaginando o cheiro e o sabor forte que me davam vontade de salivar

Alice virou o rosto em minha direção, me encarando como se tivesse acabado de nascer um terceiro olho em minha face. – Bella, desde quando você é tão carnívora, assim? Pelo que eu me lembre, a minha amiga costumava repudiar qualquer coisa desse tipo.

– Eu não faço ideia – me justifiquei. – Sei lá, mas me deu uma vontade louca de carne vermelha agora...

– Isabella Masen, às vezes eu tenho medo de você – Alice comentou ao trocar seus óculos de grau por um sol. – Bem, agora me diga? Como está meu fofo?

[…]

Uma hora depois estávamos nós duas sentadas em um restaurante perto de casa, com o rosbife quase cru que eu tinha pedido praticamente intacto. Por incrível que pareça, duas garfadas depois foram suficientes para que não achasse o gosto tão apetitoso quanto eu pensei. Cutucando algumas folhas de alface no prato, escutei pela enésima vez Alice me contando como ela fugia do compromisso do altar ao lado do eterno noivo Jasper.

– Sério, Bella! Eu não entendo porque essa fixação dele por querer "compromisso sério" – ela disse, dando ênfase a afirmação. – Nós nos conhecemos desde a faculdade, moramos juntos há mais de um ano... caramba, até a porcaria de uma conta conjunta nós temos! Por que diabos ele vive me infernizando, falando por entrelinhas sobre casamento?

– O Jazz é um cavalheiro, Allie. Ele só quer fazer as coisas da melhor forma possível. E eu acho também que ele quer dar alguma satisfação para as famílias de vocês, talvez – respondi calmamente.

Ela tomou um grande gole do seu refrigerante e rebateu. – Em time que está ganhando não se mexe, Bella. Estamos muito bem desse jeito e sinceramente eu temo que isso mude as coisas entre nós. Meus pais não se importam com esse tipo de formalidade, e a mãe dele me odeia.

Eu sorri com isso. – Ela não te odeia, Allie. Ninguém em sã consciência pode fazer isso.

Alice pegou uma grande garfada de sua Ceasar Salad e retrucou com a boca cheia. – Eu sempre achei aquela velha caipira maluca mesmo. Por mais que eu ame o Jasper, nunca vou querer aquela desgraçada como sogra.

Nós duas rimos depois dessa. – Mal dá pra acreditar que você é a mesma menina que vivia planejando se casar com algum príncipe aos sete anos.

Ela revirou os olhos e rebateu. – Bem, eu cresci e descobri que casamento não é pra mim. – O sorriso dela se ampliou, os olhos brilhando com algum tipo de piada interna. – Pelo menos, você acabou se casando com alguém que sempre quis.

– Às vezes nem eu mesma acredito nisso. – Suspirei, empurrando o prato de lado.

– Sem fome?

Dei de ombros, tomando um pouco do chá gelado que tinha pedido – Isso é tão estranho... Eu estava louca pra devorar esse rosbife... No entanto, logo depois da primeira garfada, eu notei que ele não estava tão apetitoso como imaginei.

Alice continuou a cavar sua salada, dizendo casualmente. – Enjoos, sonhos estranhos, desejos repentinos... Se eu não te conhecesse tão bem, diria que você está grávida.

O copo que eu estava segurando escorregou, caindo em cima da mesa e molhando a blusa branca que eu estava vestindo. Quando Alice comentava daquele jeito, tudo pareceu fazer sentido.

Como diabos eu não pensei nisso? Perguntei a mim mesma enquanto lembrava todas as observações que minha melhor amiga, em menos de três horas juntas, tinha conseguido reunir.

– Bella, você não estaria... não é?

– Edward e eu conversamos... eu parei de tomar minhas pílulas no mês passado. Só que isso é impossível, só faz algumas semanas... eu li que isso pode demorar e-

Alice jogou os garfos na mesa, chamando um pouco a atenção dos clientes que estavam ao nosso lado. – Leu onde, Isabella? No Wikipedia? Pelo amor de Deus, garota! Se você para de tomar o anticoncepcional e tem uma vida sexualmente ativa, é obvio que você irá engravidar! Nós aprendemos isso no ginásio, caramba!

Senti minhas bochechas esquentarem ao notar algumas pessoas nos encarando como se fossemos alguma espécie de reality show. – Você poderia ser só mais um pouquinho discreta, por favor? – sibilei duramente. – Eu não quero que todo mundo nesse restaurante sabia o que faço ou deixo de fazer com minha vida!

Alice sinalizou pro nosso garçom, pedindo a conta. – Vamos, temos que passar em uma farmácia e comprar alguns testes. Quando antes você souber, melhor.

– Alice, eu... não posso... tenho que pegar Richie daqui a pouco – murmurei rapidamente, ainda desorientada pela possibilidade de estar grávida tão rápido assim.

Ela assobiou alto, não só chamando atenção do garçom lerdo como também de todos ali presentes que nos olhavam com cara feia. – Então teremos que fazer isso o mais rápido possível. – Ela jogou duas notas de cinquenta dólares na mesa e me arrastou pelo braço. – Vamos dar o fora daqui .

Aturdida, deixei com que Alice conduzisse meus passos. Sentia-me uma idiota por não ter pensado nas consequências de meus atos, e me deixado levar pelo impulso de momento. Um outro filho... caso eu estivesse mesmo esperando um. Nunca imaginei que isso pudesse chegar tão rápido.

– Você não devia estar tão surpresa assim, Bella – Alice comentou, roubando a chave do carro das minhas mãos. – Se eu bem me lembre, Richie veio por conta de dois ou três comprimidos que você deixou de tomar... Estou começando a achar que meu primo tem um super-esperma ou algo assim.

Entrei no lado do passageiro ainda em estado de torpor. De repente, eu não me sentia mais tão segura como estava no mês passado, ou até há algumas horas atrás. Outro filho, outra responsabilidade, outro ser pelo qual Edward e eu teríamos que cuidar, educar, ensinar e amar. Instintivamente levei minhas mãos ao meu ventre; não precisava de prova alguma, pois já podia sentir ele ali.

Lágrimas escorriam pela minha face, mas só notei-as depois que Alice estendeu uma mão do volante para afagar meu rosto. – Bells, fique calma. Vamos logo descobrir isso.

Respirei fundo e meneei levemente minha cabeça. Em poucos minutos eu teria a prova concreta daquilo que minha mente já sabia: de que alguém viria se juntar à nossa pequena família.

Só esperava que mesmo com as minhas inseguranças, essa pessoinha viesse trazendo boas mudanças para todos nós.

Isso era tudo o que eu mais queria.

Notas finais
Oi meninas!Caaaaaaaaran, vocês especulam demais! E eu adoro isso! *-* Me deixa tão feliz o fato de que NCGYD tá sendo tão bem recebida. Cada review nova me faz querer mais e mais me dedicar a isso aqui, e colocar mais um pedacinho de mim mesma nessa estória.Bem, eu não serei tão malvada dessa vez e vou acabar liberando um spoilerzinho para aquelas que quiserem saber. Basta lembrar de no final da review deixar um smile, =]. Para os comentários anônimos, não esquecer de deixar o e-mail também na mesma forma do exemplo. fulano(arroba)detal(.)com(.)brAcho que é isso. Um ótimo final de semana!Line