Not Twins!

3 Parte III


Ele não conseguiu dormir naquela noite.

Seu confortável futon parecia forrado por um milhão de agulhas que o impossibilitaram de relaxar. Os olhos não arriscavam se fechar, temendo reviverem a cena diante do portão do Shinsengumi e que traria mais do que boas lembranças, como também a imensa culpa que se instaurou em seu peito assim que deu as costas.

Os lábios tinham a mesma textura, mas diferentes.

A língua era a mesma, mas diferente.

As mãos em seu peitoral pareciam iguais, mas diferentes.

E o beijo, que deveria ser como vários que eles já trocaram, foi definitivamente outro. Não houve arrogância ou o infinito desejo que sempre acompanhava aquela carícia, e a inexperiência de Tosshi foi mais clara do que o céu em um dia de verão. E, embora soubesse que na teoria a pessoa em seus braços era Hijikata, Gintoki sentiu que beijava outra pessoa e o pensamento era mais do que ele poderia suportar.

Eu o traí...

A ideia de infidelidade nunca lhe pareceu tão pavorosa, ainda que não fosse estranha. Há muito tempo, em seu passado obscuro, ele havia feito coisas que não se orgulhava e isso incluía sair com mulheres casadas e que queriam um descanso da mesmice do dia a dia. Porém, aquele Gintoki não existia mais, e o que restara eram memórias ruins e lições que foram devidamente compreendidas e aprendidas. Então, por que elas retornaram para assombrá-lo durante toda a noite, impossibilitando-o de dormir e, assim, esquecer-se de que o verdadeiro Hijikata eventualmente retornaria e não haveria explicação suficiente para o ocorrido?

E-Ele me beijou, nee? Tosshi-kun foi quem me beijou. Eu apenas não quis contrariar um cliente. As gotas de suor que se formavam em sua testa todas as vezes que pensava em uma desculpa eram estressantes. Hijikata era uma pessoa difícil e, apesar de nenhum deles ter imposto exclusividade desde o começo daquela relação carnal, Gintoki sabia que ele não saía por aí dormindo com outras pessoas. E o mesmo pode ser dito sobre mim. De sua parte, o desinteresse por outras camas e futons aconteceu naturalmente, mesmo que eles não se encontrassem diariamente ou com a frequência desejada. Muitas vezes, dependendo da missão em que o amante estivesse eles passariam meses afastados e o reencontro acontecia com tanta espontaneidade que até aquele dia ele não viu necessidade de questionar sua fidelidade.

Seus pensamentos naquela noite foram preenchidos com temores sobre o retorno do Vice-Comandante Demoníaco e, quando o sol brilhou em sua janela e iluminou o quarto, ele arrastou-se até o banheiro e afundou-se na banheira, esperando que parte do cansaço descesse com a água do ralo enquanto remoía o que faria com Tosshi naquele dia. Ele pode tentar me beijar novamente. Okita tinha de abrir aquela maldita boca e falar coisas desnecessárias. Lembrar-se do rapaz fez a veia em sua testa tremer, mas a raiva passou rápido e ele decidiu que deixaria para Hijikata lidar com a língua comprida de seu subordinado. De sua parte, Gintoki faria o possível para explicar a Tosshi a situação sem colocar em risco seu pseudo relacionamento.

Kagura acordou quando o café da manhã estava pronto e arrastou-se até o sofá, comendo de olhos fechados e parecendo incrivelmente preguiçosa. Depois do trabalho do dia anterior, os três membros da Yorozuya decidiram que o problema de Tosshi tinha prioridade e enquanto as coisas não retornassem ao normal eles não aceitariam novos trabalhos. A ideia partiu de Shinpachi, que parecia genuinamente apreensivo com a situação de Hijikata.

"Claro que eu estou preocupado com o bem estar de Hijikata-san," o rapaz limpava os óculos com um lenço xadrez, "mas não sou somente eu. Kondou-san está temeroso e, mesmo minha irmã negando, isso a afeta de alguma forma, já que o Gorila não sai da varanda da minha casa."

A decisão de priorizar aquele trabalho tornou-se inevitável e Gintoki não precisou fazer a sugestão, embora estivesse disposto a dar a cara para bater se a ideia não houvesse sido acatada. Shinpachi chegou alguns minutos depois do café da manhã, trazendo não somente um embrulho de peixes para o almoço como também informação.

"Tosshi-san está patrulhando com Yamazaki-san. Kondou-san disse que ele pediu para trabalhar."

"Isso é bom-aru," Kagura havia decidido permanecer de pijamas durante todo o dia, "pode ser um sinal de que o verdadeiro Hijikata está volta, nee, Gin-chan?"

"S-Sim." Gintoki sentiu o sorriso tremer e as gotas de suor retornaram à sua testa. Ele está fugindo!

Eles decidiram usar aquela manhã para sentarem e pensarem em um modo de ajudar Tosshi, e durante aquelas horas várias teorias foram compartilhadas, mas nenhuma parecia boa o suficiente para trazer Hijikata de volta. Kagura foi a que mais se aproximou de uma solução, afirmando que talvez uma situação séria de vida ou morte pudesse obrigá-lo a tomar seu corpo novamente. No entanto, se o ataque hipotético falhasse, Tosshi poderia perder a vida ou Hijikata retornaria e eles levariam uma surra de proporções gigantescas. As ideias eram acompanhadas por biscoitos de arroz e chá verde e a única pausa foi para o almoço, quando devoraram os peixes fritos. Quando a refeição terminou e Gintoki saboreava um delicioso sorvete de morangos como sobremesa, a paz foi interrompida pela chegada do "cliente".

A voz de Tosshi foi ouvida pelo corredor, contudo, quando ele surgiu na sala acompanhado por Shinpachi, o líder da Yorozuya sentiu o coração pular uma batida. O moreno vestia o uniforme do Shinsengumi e com exceção dos olhos baixos e desconfiados, e a mão esquerda segurando o braço direito, seria impossível dizer que aquele não era o Demoníaco Vice-Comandante. Esqueça as colegiais e as enfermeiras... Gintoki mordeu o sorvete com força, tentando manter-se o mais desinteressado possível. O uniforme de Hijikata era uma de suas fantasias favoritas e recordar-se de todas as vezes que fizeram sexo com aquelas roupas era incrivelmente tentador.

"O que você faz aqui, Otaku-kun? Achei que estivesse trabalhando."

"E-Eu estava," Tosshi sentou-se no sofá da frente, "mas Kondou-san disse que por enquanto eu trabalharei por meio período."

"Alguma mudança-aru?"

Tosshi ergueu a cabeça e seus olhos se encontraram com os de Gintoki por um breve instante. Aquele segundo, entretanto, foi o bastante para fazer os pelos de seus braços se arrepiarem e o beijo da noite anterior o fez esquecer o gosto do sorvete. O Gorila pode estar certo. Talvez fazendo as coisas que Hijikata costumava fazer ative alguma parte de sua memória. A ideia soava totalmente aceitável, todavia, ele sabia bem que isso não incluía certas atividades. Se Tosshi sabia da relação entre eles o beijo certamente foi uma tentativa de trazer Hijikata de volta, não havia dúvidas. O único problema era que aquele assunto não poderia ser tratado na frente de outras pessoas.

Gintoki levantou-se e fez sinal para que Shinpachi o acompanhasse até a cozinha. A mensagem foi passada de forma clara e simples, e o rapaz meneou a cabeça em positivo, ajeitando os óculos e retornando à sala. O que quer que ele havia dito a Kagura foi o suficiente para que ela corresse para trocar de roupa e ambos deixaram a casa em minutos. Nós temos de tentar tudo, de uma forma ou de outra. Ele retornou à sala e o que procurava estava recostada à parede, atrás da cadeira e embaixo da janela. A espada de madeira encaixou-se perfeitamente em seus dedos, tornando-se quase uma extensão de seu corpo.

"Se eu tentar matá-lo, existe alguma chance de ele aparecer?" Gintoki parou em frente ao cliente e apontou a espada de madeira.

"Eu temo que não." Tosshi não pareceu assustado, apenas suspirou e deu de ombros. "Okita-san tentou me matar várias vezes e nada aconteceu."

O líder da Yorozuya apertou a espada, mas a soltou no instante seguinte. A ideia de atacá-lo poderia surtir efeito, porém, teria ele coragem de machucá-lo? Se Hijikata não emergisse, Tosshi levaria o golpe e Gintoki se conhecia bem o bastante para saber que jamais se perdoaria se tal coisa acontecesse.

"Há quanto tempo você e Hijikata-san estão... juntos?"

"Quase cinco anos." A naturalidade com que a resposta deixou seus lábios o surpreendeu. Até transformar aquele tempo em palavras Gintoki não havia realmente pensado que todos aqueles anos já haviam passado.

Tosshi pareceu surpreso, pois seus belos olhos se arregalaram, ainda que houvessem se abaixado logo em seguida, privando-o de poder admirá-los um pouco mais.

"Ontem... e-eu estava apenas testando uma teoria..."

"Eu sei. E então? Alguma coisa aconteceu?"

"Se eu disser que sim nós podemos fazer de-de n-novo?"

"Você está mentindo para o Gin-san, Tosshi-kun?" Ele sentou-se ao seu lado e recostou-se melhor ao assento do sofá.

O moreno nada respondeu, encarando as mãos que estavam pousadas sobre seus joelhos e permanecendo algum tempo em silêncio. Aqueles segundos serviram unicamente para lembrá-lo de que estavam sozinhos e que se fosse o verdadeiro Hijikata a estar tão próximo ele já teria dado o primeiro passo rumo ao futon.

"Eu meio que entendo o que Hijikata-san vê em você, Gi-Gintoki."

Ouvir-se chamado pelo primeiro nome e sem honoríficos chamou totalmente sua atenção.

"Oi, oi, você deveria tomar cuidado, Tosshi-kun. Se o Vice-Comandante Demoníaco te pegar falando dessa maneira eu não sei o que acontecerá. Ele é uma das pessoas menos honestas que eu conheço."

"Talvez..." Tosshi sorriu. "Mas as coisas que ele vê em você, eu estou começando a enxergá-las também."

Os olhos se ergueram e o encararam diretamente.

Gintoki podia ouvir as batidas altas de seu coração, tentando lembrar-se da última vez que uma conversa trivial rendeu-lhe emoções tão sinceras. Sua garganta tornou-se apertada, no entanto, os lábios sorriram ao mesmo tempo em que uma de suas mãos tocou a face que lhe era tão querida. Surras jamais funcionariam. Se eu o quiser de volta terei de percorrer o caminho difícil.

O segundo beijo não o pegou de surpresa e, como da primeira vez, as bocas se encaixaram com perfeição. A inexperiência de Tosshi, contudo, era facilmente percebida. O corpo poderia lembrar-se dos movimentos, mas havia certa hesitação e um pouco de medo na maneira como sua língua acariciava a de Gintoki. Nunca pensei que sentiria falta do gosto de tabaco. O novo beijo tinha gosto de bala de cereja e não havia nenhum vestígio dos habituais cigarros. A mão que tocava a face desceu e o modo como aquele homem tremeu ao sentir sua cintura sendo apalpada foi adorável.

"E-Espere..." Tosshi corou, gaguejou e quase caiu do sofá. "Eu nunca fiz isso antes... n-nada disso."

"Isso?" O líder da Yorozuya juntou as sobrancelhas e as mãos se tornaram mais possessivas ao redor da cintura. "Você está se referindo a sexo, Tosshi-kun?"

A coloração rosada se transformou em um vermelho tão forte que por um momento ele se arrependeu da provocação. Entretanto, foi impossível não reagir àquela confirmação tão honesta. Ele não faz ideia do que eu e Hijikata já fizemos nesses anos. Imaginar uma versão imaculada de seu amante era extremamente excitante e a ideia de trazê-lo de volta à força parecia ainda mais fascinante. Se uma tentativa de assassinato por parte de Okita não era o bastante para acordar Hijikata, talvez envolvê-lo em uma noite passional conseguisse tal efeito.

Aquela solução perfeita criou raízes em sua mente enquanto retornava para casa na noite anterior após o beijo. Tosshi tinha o corpo de Hijikata, logo, não seria difícil fazer seu próprio corpo reagir à sua presença. O problema estava no campo moral e não importasse quantas vezes ele dissesse a si mesmo que aquilo seria para o bem maior, parte dele via a ideia como uma forma de traição. Não é como se fossem gêmeos. Fantasiar em possuir um virgem Tosshi soava sedutor, todavia, o mesmo não poderia ser dito quanto a olhar nos olhos do verdadeiro amante quando fizessem sexo novamente. Se é que teremos uma próxima vez...

"Eu acho que pode dar certo." Gintoki pousou as mãos sobre os ombros de Tosshi. "Mas eu quero saber se você está disposto a ir até o fim. E quando eu me refiro ao fim eu quero dizer que vou te fazer gritar tantas vezes que todo o bairro saberá meu nome!" Eu sempre quis dizer isso!!

Tosshi não o encarava diretamente, mas a tentativa de seriedade havia surtido efeito. O rosto logo ganhou o tom pálido de sempre e, mesmo que estivesse visivelmente afetado com a proposta, o brilho em seus olhos respondeu a pergunta. Ele está curioso. Hijikata é o melhor amante que eu já tive, mas Tosshi-kun tem castidade escrito na testa.

"S-Se você não se importa com alguém como eu..."

"C-Certo..." Gintoki sentiu-se hesitar. Intimamente ele esperava que sua proposta fosse repelida ou pelo menos ponderada

"Eu preciso tomar um banho antes? E-Eu tomei um antes de vir para cá por causa do trabalho, mas se for necessário eu não me importo."

"Não, está tudo bem."

Os dois se encararam e deixaram que o silêncio selasse aquele acordo.

O líder da Yorozuya precisou de algum tempo para tomar as rédeas da situação e sentia-se um adolescente mais uma vez, completamente inexperiente e sem saber ler entre as entrelinhas. Ele abriu os botões do colete negro que fazia parte do uniforme e surpreendeu-se por ver os dedos trêmulos. Aquele nervosismo não era comum, então Gintoki disse a si mesmo que aquela reação era normal e esperada, já que aquele à sua frente não era exatamente a pessoa cujas roupas, embora fossem as mesmas, ele estava acostumado a retirar. A camisa branca surgiu quando o colete foi aberto, mas ele preferiu deixar as roupas para depois. Quando eu estiver no clima elas sairão rapidamente.

"Acho melhor irmos para o quarto." Gintoki fez menção de ficar em pé, mas Tosshi o impediu, segurando-o pelo pulso.

"Ainda não."

A iniciativa para o beijo roubou qualquer linha de pensamento que ele ainda possuísse. Gintoki já havia percebido na noite anterior, mas Tosshi era muito mais assertivo do que o Hijikata original, isso quando a timidez não o dominada completamente. Havia um excessivo embaraço em sua fala e em muitas de suas atitudes, porém, para aquele tipo de ação ele parecia incrivelmente direto. Seu corpo sabia o que fazer e os locais que Hijikata gostava de ser tocado, portanto não foi surpreendente que Tosshi gemesse ao sentir as pontas dos dedos tocarem seu mamilo esquerdo. Gintoki deixou-se pender para o lado, deitando-se no pequeno sofá e o trazendo para cima.

Os corpos se encontraram e sentir a ereção contra seu baixo ventre foi nostálgico. Suas mãos deslizaram das costas para os quadris, apalpando-os e sorrindo com as reações tão honestas. Se ele fosse um pouco mais sincero quando fazemos sexo... No entanto, apesar do pensamento e a oportunidade serem incríveis, havia um grave problema. As sobrancelhas prateadas se juntaram e ele tentou afastar aquele detalhe, incentivando Tosshi a continuar esfregando-se contra seu corpo, enquanto aproveitava aquele longo e intenso beijo. A camisa branca havia sido aberta e suas mãos passeavam livremente pela pele, sentindo-a aquecer-se e arrepiar-se a cada toque. Isso é tudo o que eu sempre quis... então, por quê? Por que os Deuses são tão cruéis?

"Tosshi..." Sua voz soou rouca e suas mãos o seguraram pelos braços. "Desculpe."

O moreno sentou-se no sofá e o olhou com surpresa. Gintoki ajeitou-se em seu assento, respirando fundo e oferecendo o melhor sorriso que conseguiu para aquela situação.

"Eu não posso continuar, desculpe."

"E-Eu fiz alguma coisa errada? Se fiz, p—"

"Não, você não fez nada errado." Ele não acreditava no que estava acontecendo. Aquela era uma chance de ouro que estava sendo jogada pela janela. "O problema é que não vou conseguir ir até o fim. Me perdoe, Tosshi-kun, mas eu não consigo trair aquele idiota." Gintoki coçou a nuca e recostou a cabeça à parte alta do sofá. "Isso soa ridículo, não? Nós não estamos namorando ou temos qualquer envolvimento sério ou formal, mas o Gin-chan não consegue reagir se não for com aquele Demônio. E prometo que pensarei em outra maneira de te ajudar, uma que não envolva fazê-lo pensar que eu não dou o valor que ele merece."

Tosshi arregalou os olhos e ver aquela expressão atônica fez seu estômago dar voltas. As palavras proferidas saíram diretamente de seu coração e foram totalmente honestas. Gintoki não era muito íntimo da sinceridade, pelo menos no que dizia respeito a enunciar seus sentimentos. Desde criança, ações falavam mais do que palavras e depois de entrar na vida adulta aquela teoria se tornou mais forte, fosse com uma espada nas mãos ou movendo-se entre as pernas daquele belo e arrogante homem, cuja lembrança não saía de sua mente desde que teve seus planos cancelados tão abruptamente há algumas semanas.

Saber que Hijikata não o havia deixado na mão por capricho significou mais do que ele gostaria se assumir, mas foi Tosshi quem o fez olhar para dentro de si mesmo e se tornou impossível não admitir aquele morno sentimento que vinha sido cultivado aos poucos em todos os encontros. Os copos de sakê compartilhados, o sexo, a pouca conversa... quem disse que todos os relacionamentos deveriam ser iguais? Quem escreveu que todas as pessoas deveriam sentir da mesma maneira?

"Eu entendo."

O moreno levantou-se e se pôs a fechar os botões da camisa branca, devagar e de modo completamente desinteressado. As mãos não tremiam e em poucos segundos ele estava completamente vestido e apresentável, como se os beijos e a troca de carícias nunca houvessem acontecido.

"Tosshi-kun, eu re—"

"Não se preocupe, eu entendi perfeitamente a situação." Tosshi virou-se para encará-lo. "Mas não posso deixar de dizer que invejo Hijikata-san por ter uma pessoa tão dedicada ao seu lado." Os lábios formaram um meio sorriso e Gintoki precisou engolir seco. "Por favor, Sakata-san, continue cuidando de Hijikata-san."

As palavras foram acompanhadas por uma polida reverência e ele afastou-se, cruzando a sala e deixando a casa. O som da porta de entrada sendo arrastada soou longe e o Líder da Yorozuya se manteve imóvel por algum tempo, até deixar-se escorregar pelo sofá, deitando-se e cobrindo o rosto com um dos braços. Por quanto tempo ele permaneceu naquela mesma posição seria difícil dizer, mas fora o suficiente para que Kagura e Shinpachi retornassem.

"Nós trouxemos o jantar, Gin-chan! Você está com fome, seu inútil?" A voz animada de Kagura pareceu acordá-lo de um profundo sono.

"Sim."

"Nee? Onde está o Otaku? Você realmente deu uma surra nele-aru?"

Gintoki sentou-se no sofá, porém, seus olhos se mantiveram baixos.

Infelizmente, aquela pergunta ele não conseguiria responder.

x

Ele sentiu o dango derreter em sua boca e o sabor adocicado logo se espalhou por cada fibra de seu corpo, fazendo-o sentir aquela momentânea felicidade que somente as coisas doces eram capazes de transmitir. O chá verde em sua xícara, que repousava ao lado do prato, serviria para quebrar um pouco aquela felicidade como um mal necessário. O céu azul não continha uma única nuvem e apesar do sol brilhar a temperatura não estava quente e abafada.

Tudo naquele dia parecia perfeito.

Gintoki não havia recebido notícias do Shinsengumi desde que Tosshi deixou sua casa naquela tarde, isso há dois dias. Shinpachi não conseguiu nenhuma informação de Tae ou do Gorila-Comandante, e a única vez que Kagura tentou obter qualquer esclarecimento ela e Okita acabaram lutando no meio da rua e precisaram ser separados e segurados por terceiros. Ele cogitou ir à sede de polícia duas vezes, contudo, por duas vezes a última conversa que tiveram repetiu-se mentalmente e não houve outro caminho além da desistência.

Seu segundo palito de dangos estava entre seus dedos quando ele percebeu que tinha companhia.

"Você está comendo da maneira errada."

"Eu gosto de comer do meu jeito, obrigado."

"Aqui." Seu interlocutor colocou a mão dentro do kimono, retirando uma embalagem amarela e despejando o conteúdo sobre os últimos dangos. "De nada."

"Isso é nojento. Eu não vou comer essa porcaria."

Sua companhia nada fez, guardando a embalagem amarela e retirando em seguida um maço de cigarros. Um deles foi colocado entre os lábios, acesso e tragado com vontade. A fumaça, ainda que maléfica em vários níveis, e claramente não fazendo parte da paisagem, combinava totalmente com eles. Gintoki fechou os olhos, aspirando aquele ar não saudável e sorrindo largamente. Realmente, um dia perfeito...

"Bem-vindo de volta."

Continua...