Not Twins!

4 Parte IV - FINAL


A última coisa que ele se lembrava era de ter deitado em seu futon e fechado os olhos para dormir.

A escuridão o envolveu aos poucos, porém, diferente do sono de todos os dias, aquela vasta treva parecia apossar-se não somente de seus pensamentos, como também de seu corpo. Seus braços se tornaram pesados, suas pernas não respondiam e seu coração passou a bater mais rápido, tomado por um estranho pavor. Eu sentia como se estivesse desaparecendo. E, então, como um estalar de dedos, a angustiante sensação passou, deixando-o completamente imóvel. O entorno deixou de existir e havia apenas a escuridão e o silêncio. Isso pode não ser de todo ruim... aqui eu não preciso pensar...

Hijikata não fazia ideia de quanto tempo havia permanecido no vazio, mas parte dele sabia que outro havia assumido seu lugar. A presença de Tosshi não era sentida e dessa vez não houve qualquer contato com o mundo exterior, com exceção da voz que ecoou por todo o nada após um longo período de solidão. Minutos, horas, dias... a noção de tempo tornou-se completamente irrelevante e o moreno permitiu-se mergulhar fundo na escuridão, esquecendo-se brevemente do que o atormentava antes daquele ocorrido. Se Tosshi seria um melhor Hijikata do que ele era totalmente dúbio, no entanto, naquele momento não houve nada que ele desejasse mais do que ficar só.

A voz inicialmente soou longe, um sussurro, ganhando força até tornar-se audível. Aquele timbre e aquela entonação jamais passariam despercebidos ainda que somente a última parte houvesse sido compreendida por completo.

"... E eu prometo que pensarei em outra maneira de te ajudar, uma que não envolva fazê-lo pensar que eu não dou o valor que ele merece."

O moreno sentiu como se abrisse os olhos e então já não estava envolto pela densa escuridão. Ao seu redor existia um mundo claro, branco, e à sua frente havia outro, como um espelho.

"É hora de voltar, Hijikata-san." Tosshi segurava os braços, como de costume, mas seus olhos estavam decididos e sua voz não vacilou. "Eu não posso mais continuar em seu lugar. Não, eu não quero mais continuar. Ser você é... difícil."

"Você não fez nada demais, não é? Quando eu voltar meu quarto não estará cheio de figures, pôsteres e DVDs de anime, hm?"

A resposta foi um olhar desviado e incerto.

"E-Eu... o beijei."

"Quem? Kondou-san?"

"N-Não, claro que não!" Tosshi indignou-se prontamente. "Eu estou me referindo ao seu amante..."

"Ele não é meu amante." Hijikata apalpou suas vestes. Ele fora dormir com seu pijama, contudo, naquele momento vestia o uniforme do Shinsengumi, assim como seu interlocutor.

"Ele disse a mesma coisa." Tosshi esboçou um meio sorriso e aquilo o irritou mais do que não encontrar o maço de cigarros em seus bolsos. "Eu achei que conseguiria ficar em seu lugar por um tempo, até que você decidisse voltar. Não foi fácil, no Shinsengumi. Seu trabalho é tedioso e viver desviando dos ataques de Okita-san é cansativo, mas nada se compara a lidar com Gintoki-san. Com ele eu falhei miseravelmente em ser você."

Hijikata desistiu de procurar seus cigarros e se pôs a ouvi-lo sem pestanejar. Tosshi endireitou-se, lutando para não acovardar-se como sempre acontecia. Não havia para onde fugir naquela imensidão branca e ambos sabiam que aquele fim precisava ser oficializado.

"Essa é a primeira vez que eu não quero abrir mão de ser você." Tosshi encarava os próprios pés.

"Você quer tanto assim ser eu?"

"Se eu disser quem sim você me deixará em seu lugar para sempre?"

"Não."

Os olhos se ergueram e Hijikata engoliu seco. Aquele à sua frente deu os cinco passos necessários para que ficassem frente a frente, erguendo os braços e o envolvendo. A sensação era extremamente incômoda, entretanto, nada se comparou ao instante em que Tosshi aproximou a face e sussurrou meia dúzia de palavras antes de simplesmente desaparecer, como se feito de névoa. O Vice-Comandante arregalou os olhos e não apenas a presença de Tosshi, mas tudo simplesmente sumiu.

Ao invés do branco ele viu seu quarto, do mesmo modo como ele se lembrava. Todavia, ao contrário da última vez que esteve ali, Hijikata estava sentado em sua mesa e com uma pilha de relatórios ao lado. O céu estava claro, os pássaros cantavam e ele nada fez além de se conservar imóvel por alguns segundos, espreguiçando-se e pegando o maço de cigarros fechado que estava em um de seus bolsos. O cigarro foi acesso, tragado e o moreno estalou os dedos antes de pegar a caneta e virar a folha do primeiro relatório.

Havia muito trabalho a ser feito.

x

Hijikata havia retornado há pouco mais de uma semana.

Absolutamente nada relevante havia mudado desde sua ausência e isso incluía os ataques diários de Okita e fiscalizar Kondou-san para que seu hábito de stalker não atrapalhasse seu trabalho. Os crimes continuavam a acontecer pelas ruas de Edo; Katsura apareceu no começo da semana, e persegui-lo roubou-lhe toda a tarde e começo da noite. Como sempre, após muita bagunça, o terrorista os deixou para trás e ele retornou ao Shinsengumi cansado, sujo e suado, implorando um longo banho de ducha. Seu desejo seria realizado, mas não antes de receber uma inusitada visita, que aparentemente não se dava ao trabalho de esconder que invadia propriedade do governo.

"Você parece cansado, Vice-Comandante-chan." A visita estava deitada no chão com um saco de batatinhas aberto e folheando um exemplar da JUMP.

"O que você está fazendo aqui?" Ele deixou os sapatos do lado de fora e apressou-se para arrastar a porta, temendo serem vistos.

"Oi, Oi por que a animosidade? Gin-san está trabalhando. Trabalhando!"

"Eu não vou perguntar novamente," a veia em sua testa tremeu.

"Eu já disse, eu estou a trabalho!" Gintoki sentou-se e fingiu indignação, batendo a mão no chão de tatame. "Eu vim entregar o seu Gorila. Ele levou uma surra e estava desacordado."

"A mulher?"

"A própria."

"Ela pagou para você entregá-lo?" Hijikata suspirou. Por que ele não estava surpreso?

"Não, a responsabilidade é de vocês." O líder da Yorozuya devorou um pouco das batatinhas e falou com a boca cheia. "Eu estou aqui esperando o pagamento."

A veia em sua testa latejou e o moreno deu um passo à frente, retirando a espada da cintura e pronto para realizar o pagamento. Sua companhia apressou-se para ficar em pé, engolindo as batatinhas e pedindo paciência com as mãos.

"Oi, oi, é assim que você agradece um favor?" Ele amassou o pacote e jogou para trás. "Já que eu sou uma boa pessoa, decidi converter o pagamento em dinheiro em outra coisa."

"Que outra coisa, maldito?"

"Um jantar..." Os olhos escarlates se desviaram e Gintoki coçou a nuca. "Comigo, na sexta..."

Hijikata engoliu seco, entendendo o rumo daquela conversa. A espada foi guardada na bainha e ele manteve-se imóvel, buscando a única palavra que poderia ser dita como resposta, mas que era tão difícil de ser proferida claramente.

"Certo, eu aceito." Seus olhos se ergueram aos poucos. "O que você vai cozinhar?"

"Gin-san? Cozinhar?" Gintoki juntou as sobrancelhas e gargalhou. "Você vai levar o jantar, Hijikata-kun. É o mínimo depois de eu ter carregado o Go—"

A ponta da espada pousou na pálida bochecha e o homem de cabelos selvagens e prateados moveu-se devagar para o lado, procurando estar o mais longe possível.

"Ok, Ok eu comprarei também o jantar." Ele suspirou e deu de ombros. "Vou mandar Kagura para a casa de Tae, portanto estarei livre durante a noite."

"Eu irei quando o trabalho estiver feito." Hijakata sentiu o déjà vu e imediatamente lembrou-se da última vez que tiveram aquela conversa.

"Se esforce para ir, está bem?" Gintoki aproximou-se e ficou ao seu lado. Ambos eram basicamente da mesma altura, porém, algumas vezes ele sentia-se muito inferior. "Eu realmente gostaria de passar algum tempo com você."

As pontas dos dedos tocaram os seus com gentileza por um breve instante. O líder da Yorozuya arrastou a porta e deixou o quarto sem medo de ser visto ou ouvido por quem quer que estivesse por perto. O Vice-Comandante fingiu não ver o pacote vazio de batatinhas jogado ao chão e fechou os olhos, suspirando e tentando ignorar o modo como seu coração havia acelerado àquele tão insignificante contato humano. Hoje ainda é segunda-feira... Ele retirou a bainha da cintura, levando-a até um canto do quarto e encarando-a diretamente. "Eu voltarei se você for descuidado." As palavras de Tosshi soaram em seus ouvidos e ele fechou os dedos em forma de punho. Dessa vez ninguém pegaria o seu lugar.

Hijikata precisou recuperar o tempo perdido durante aqueles dias.

Sua ausência causou certa confusão aos recrutas e até os membros mais antigos haviam relaxado ao longo da estadia de Tosshi. Bem, seu reinado consistiu em passar o tempo no quarto, assistindo animes e lendo mangás, ou fora do Shinsengumi para assuntos particulares. Ele não precisou pensar muito para adivinhar quais eram esses assuntos, no entanto, eventualmente confrontaria a outra parte envolvida para saber a fundo o que realmente havia acontecido.

Quando a sexta-feira chegou, o Shinsengumi parecia mais uma vez em ordem e isso envolvia Kondou, cujas escapulidas para stalkear Tae haviam diminuído consideravelmente. Okita, por outro lado, tentou assassiná-lo a cada momento e a tentativa daquele dia consistiu em uma dinamite no lugar da salsicha de seu cachorro quente. Seu almoço fora atirado para longe e explodiu no céu, fazendo chover pão e maionese por todos os lados.

"Você está estranhamente ansioso para terminarmos a ronda, Hijikata-san." A voz arrastada que vinha ao lado parecia ainda mais tediosa. "Não diga que tem um compromisso depois do expediente. Obviamente não, pois você não tem vida social."

"Você fala demais, Sougo." O moreno acendeu um cigarro e deixou que a fumaça ficasse para trás conforme aumentava o ritmo de seus passos.

"Eu apenas não entendo por que a pressa. Você pode ter certeza de que o Danna-san não ficou sozinho durante a sua ausência."

Os passos cessaram e Hijikata deu uma longa tragada antes de se virar. Okita o encarou com firmeza, contudo, vacilou ao vê-lo dar um passo em sua direção. Uma das mãos tocou os cabelos castanhos, bagunçando-os como ele faria a uma criança.

"Falando de relacionamentos como se entendesse do assunto." Um largo sorriso cruzou seus lábios. "O que o virgem sabe sobre isso?"

Os olhos castanhos se arregalaram e o sempre desdenhoso Okita Sougo corou e Hijikata sentiu que seu trabalho estava finalmente feito. Ele vai pegar pesado na próxima tentativa de assassinato, mas valeu a pena. Sua companhia não continuou a segui-lo e ele espreguiçou-se, terminando seu cigarro enquanto assistia ao céu mudar do alaranjado do fim de tarde para o azul escuro da noite. O trabalho daquele dia estava concluído, e tudo o que restava era aproveitar o começo de final de semana. Pensar em encontrar-se com Gintoki o fez juntar as sobrancelhas, ponderando se não deveria jantar antes de ir. Se eu conheço aquele poço de inutilidade ele vai servir amendoins ou qualquer porcaria... Um longo suspiro acompanhou a última tragada e Hijikata se perguntou várias vezes quando foi que encontrar-se com aquela pessoa havia se tornado tão natural.

O jantar no Shinsengumi naquela noite foi gyoza, e ele só se levantou após estar satisfeito. Todos pareciam animados, inclusive Kondou-san, que falava alto e gargalhava, anunciando para quem quisesse ouvir que naquele dia Tae o havia deixado comer as sobras do almoço. O Vice-Comandante ouvia a mesma história várias e várias vezes, sorrindo ao ver o amigo tão feliz por algo tão... pequeno. Okita esteve presente, sentado ao seu lado e tentando estragar seu jantar de maneiras diferentes, fosse com um evidente frasco de veneno ou roubando suas gyozas e devolvendo-as parcialmente mordidas. Nada disso, entretanto, foi capaz de abalar seu espírito, e Hijikata retornou para o quarto somente para pegar a espada e a carteira. Ele havia tomado um longo e demorado banho antes da refeição e sentia-se pronto para ir.

O clima estava fresco e agradável, o esperado de uma noite de primavera. As luzes de Edo pareciam combinar perfeitamente com as estrelas no céu e, enquanto percorria as ruas, o moreno tentou lembrar-se da primeira vez que foi à casa de Gintoki por livre e espontânea vontade. Foi estranho. Nós costumávamos nos encontrar em motéis por quase dois anos até ele me convidar para passar a noite em sua casa. Se eu pensar a respeito, aquele convite foi o responsável por todas as mudanças. Seus lábios sentiam-se solitários, mas ele deixaria o cigarro para mais tarde. Uma loja de conveniência no caminho chamou sua atenção e ele fez uma pequena parada, comprando um engradado de cerveja que descansava em um saco de papel para que as pessoas não o vissem comprando bebida alcoólica.

O trabalho da polícia nunca terminava.

Seu anfitrião não o fez esperar.

Gintoki cheirava a banho tomado quando arrastou a porta, e as pontas de seus cabelos estavam levemente molhadas. Aquela visão não o fez esboçar nenhuma reação, pelo menos não uma que pudesse ser vista. Seu coração bateu mais rápido e ele utilizou seu mau humor para esconder seus sentimentos.

"Aqui." O pacote de papel foi colocado nos braços livres.

"Mas e o jantar?!"

Os olhos negros se tornaram pequeninos e Gintoki apressou-se em rir e desculpar-se pela brincadeira. A casa estava silenciosa e não havia sinal da garotinha ruiva que vestia roupas chinesas. A mesinha já havia sido arrumada e um barco de sushi decorava o centro. Ele deve ter gastado um bom dinheiro nisso. Hijikata engoliu seco, arrependido de já ter jantado.

"Você já jantou, não é?" A voz o fez arregalar os olhos.

"S-Sim."

"Não se preocupe, eu também já comi alguma coisa." O líder da Yorozuya sorriu e jogou-se no sofá, abrindo uma latinha de cerveja. "O sushi é pequeno para uma refeição, e eu desconfiei que você fosse trazer a bebida, então comeremos como acompanhamento."

O Vice-Comandante sentou-se no mesmo sofá, mas deixando um espaço entre eles. Socializar com aquela pessoa sempre era um desafio, visto que quando estavam sem roupas raramente precisavam de longos diálogos. Uma lata de cerveja foi oferecida em sua direção e a estranheza inicial precisou de alguns minutos para começar a se dissipar. Gintoki se esforçava, perguntando sobre Kondou, Okita e os outros membros do Shinsengumi. As respostas eram quase sempre monossilábicas e ele teria se limitado ao "sim" e "não" se seu anfitrião não houvesse dito algo que roubou sua atenção e cuja resposta exigia mais do que meias palavras.

"Ele sabe, Hijikata." Os olhos escarlates se desviaram para o fundo da lata. "Okita sabe sobre nós."

"Eu sei." Ele poderia ter negado ou desconversado, mas para quê? Em sua opinião, eles não faziam nada de errado.

"Não que eu me importe," Gintoki sorriu e virou-se um pouco, apoiando uma das pernas sobre o sofá.

Hijikata passou a dar atenção para os sashimis, que desciam perfeitamente com aquela marca de cerveja. A conversa tornou-se banal novamente, com comentários tolos sobre acontecimentos esporádicos e velhas rixas. Há muito tempo ele não socializava daquela forma despretensiosa, visto que a maioria de seus "passeios" era com os demais membros do Shinsengumi e sempre terminavam com ele carregando um bêbado e chorão Kondou Isao, que passava o caminho todo gritando o nome da mulher amada. Dessa forma, sentar em um lugar que não era uma sala de bar, ao lado de alguém mais íntimo do que familiar, e cujo assunto não girava ao redor de mulheres soava extremamente revigorante.

"Certo, eu já bebi o suficiente para arriscar fazer essa pergunta." Ele havia aberto sua terceira latinha de cerveja. Mais da metade do barco de sushi havia desaparecido e as pontas de seus dedos começavam a ficar dormentes. "O que aconteceu entre você e o outro?"

A pergunta certamente havia passado pela cabeça de Gintoki, todavia, o modo como reagiu demonstrou que, talvez, ele achasse que aquela conversa aconteceria em outra ocasião. Seu rosto tornou-se corado, não somente pelo álcool, e a resposta ficou em sua garganta até que a latinha em sua mão fosse virada quase completamente em um único gole.

"Nada... Apenas trocamos alguns beijos. M-Mas fique sabendo que foi para tentar te trazer de volta, i-idiota!!"

O moreno pousou o hashi sobre os lábios, imediatamente arrependido de ter feito aquela pergunta. Eles estavam falando de sua outra personalidade, alguém com quem ele dividia o mesmo corpo, então por que soava como se Tosshi fosse um irmão gêmeo, uma terceira parte que poderia simplesmente bater na porta, entrar e atrapalhar aquela reunião?

"Como foi?"

"Estranho," o líder da Yorozuya pareceu ponderar se abria outra latinha, mas acabou cedendo. "Foi diferente dos seus beijos."

Qual você prefere? A pergunta martelava em sua mente, porém, não importava o nível de álcool que estivesse em seu sangue, aquilo jamais deixaria seus lábios, exatamente porque soaria como ele imaginava: duvidoso, inseguro e pedante. Eu não me importo! Hijikata bebeu dois goles da cerveja, sentindo que talvez fosse hora de acender um cigarro. A mão desceu até uma das mangas do kimono, no entanto, ele sentiu quando foi levemente puxado para o lado, não o suficiente para fazê-lo cair, apenas mover-se.

"Seus beijos são melhores," a voz entrou sussurrada por seu ouvido esquerdo, "todas as vezes que eu o beijei imaginei que fosse você."

Seu rosto tornou-se vermelho, mas ele não teve tempo de reagir ou desvencilhar-se. A bebida havia deixado seus reflexos lentos, enquanto sua companhia parecia ter ganhado mais animação e rapidez. Os braços o puxaram e toda a sua atenção foi para a latinha em sua mão e o medo de derrubá-la no chão.

"O-Oi!" Hijikata tentou soltar-se do abraço, contudo, era tarde demais. Ele estava sobre o amante, que o apertava forte em seus braços.

"Só um pouco, por favor." A voz não soava risonha ou debochada, como era de costume, mas sim abafada e séria. "Eu quero ter certeza de que é você que está aqui comigo."

Os olhos negros piscaram longamente e ele suspirou, avisando que se moveria para colocar a lata sobre a mesinha de centro. Aquele nível de movimento foi permitido, e assim que a latinha foi pousada Gintoki o abraçou mais forte, afundando o rosto em seu pescoço, como se não se vissem há anos. O moreno não se moveu, temendo escorregar e cair ao chão devido à falta de destreza, e por achar que aquele momento talvez fosse necessário.

A temperatura naquela noite estava ideal, entretanto, o contato entre os corpos não demorou a fazê-lo sentir calor e estranhos calafrios. Os lábios de Gintoki tocaram sua pele, subindo devagar até encontrar sua boca. Todavia, o beijo não aconteceu imediatamente. Por um rápido momento os amantes se estudaram e ele viu-se refletido nos belos olhos escarlates que estavam embaçados de luxúria. Sou eu. Não há mais ninguém aqui além de nós dois. O rosto abaixou-se e o inevitável beijo foi sentido por cada fibra de seu corpo.

No começo daquela relação, Hijikata estava sempre bêbado quando dividiam o futon. A negação durou meses, mesmo que o padrão de acontecimentos se repetisse todas as vezes que se viam: uma conversa, um olhar e internamente ambos sabiam que terminariam a noite juntos. Aceitar que encontrava prazer com outro homem já era difícil, mas pensar que era Gintoki que o fazia sentir-se daquela forma soaria irônico se não fosse trágico. O álcool, porém, foi sendo deixado de lado aos poucos e de modo natural. As escapulidas já não pareciam como se estivessem tendo um caso, agindo às escondidas e fugindo de esposas inexistentes. Os copos de cerveja e sakê deram lugar a jantares ou aperitivos. E, sem que percebesse, eles haviam se tornado algo tão sólido e real que o simples pensamento de vê-lo com outra pessoa fazia seu sangue ferver.

Os beijos se tornaram impróprios em pouco tempo. Parte de seu kimono havia sido aberta e deixado seu ombro esquerdo à mostra e totalmente à mercê dos lábios caprichosos de Gintoki, que pareciam dispostos a provar cada pedacinho. A faixa, no entanto, precisaria de mais do que força para ser desfeita e foi nesse momento que Hijikata sugeriu que fossem para o quarto.

"Agora não," foi a resposta dada entre os beijos, "mas eu vou precisar de ajuda com isso. Quem colocou esse cinto de castidade em você?"

O Vice-Comandante teria rido se sua primeira reação não fosse corar. Aquela era a maneira como ele vestia seus kimonos desde sempre e nunca havia tido problemas em retirá-los. Culpar a bebida seria perda de tempo, já que eles costumavam se engajar em atividades sexuais muito mais bêbados. Algo está diferente. Ele inclinou-se mais uma vez para trás, sentando-se no sofá e percebendo que tremia um pouco ao tentar desatar a faixa. Por que eu estou nervoso? As mãos que pousaram sobre as suas serviram para acalmá-lo e o pedaço de pano negro foi desfeito e deixado ao lado. Gintoki abriu o kimono, sorrindo de orelha a orelha e parecendo um garotinho que havia ganhado uma sacola de doces.

O Líder da Yorozuya moveu-se para frente e Hijikata fez o mesmo. Os corpos se encontraram no caminho e ambos se ajoelharam no sofá, retomando o beijo que dessa vez começou quente e ofegante. O kimono desceu completamente por seus braços enquanto suas mãos passaram a despi-lo com pressa. Nenhum deles era adepto a preliminares, principalmente após beberem, e naquela noite seu desejo por aquela pessoa parecia muito mais forte. A maneira como as bocas se encaixavam, as línguas se moviam e um procurava o corpo do outro era mais embriagante do que o álcool que acabaram de beber. Aquela necessidade mútua por contato o assustava e também o fascinava. Saber que alguém, naquele vasto universo, desejava-o daquela forma tão crua era extremamente lisonjeiro.

"O quarto agora seria uma boa ideia..."

Gintoki murmurou ao mesmo tempo em que eles saíam do sofá. O restante das roupas foi retirado pelo curto caminho, e isso incluía as roupas de baixo, uma negra e outra salmão com desenhos de morangos. Para não surpresa de Hijikata, o quarto já havia sido arrumado e o futon repousava no meio do cômodo. Ele pensou em tudo, maldito! As mãos apertavam seus quadris e as ereções se esbarravam com insistência. Não havia dúvida de que aquela era a pessoa que seu corpo mais desejava, e pensar que por alguns dias outro havia tentado tomar o seu lugar era enervante. Os joelhos tocaram o futon e ele levou a mão ao sexo do amante, masturbando-o com vigor e ouvindo-o gemer entre o beijo. Isso é o bastante.

"E-Eu estou pronto," o moreno o segurou pelo rosto antes de beijá-lo, "rápido."

"Você tem certeza?" Gintoki soou totalmente descrente. "Eu não quero te machucar."

"Você tem preservativo? Ele será suficiente." Hijikata virou-se ao deitar no futon, afundando o rosto no travesseiro, mas erguendo o quadril. "Eu já me preparei antes de vir para cá."

Não houve resposta por alguns segundos, até Gintoki pegar algo que estava debaixo do futon. O barulho do preservativo sendo aberto foi seguido pelo do tubo de lubrificante, e ele sabia o que aconteceria. Uma das mãos tocou seu quadril enquanto a outra posicionou o membro em sua entrada. Hijikata não mentiu quando disse que havia se preparado. Seu banho fora longo e relaxante, e por alguns minutos ele deixou-se aproveitar aqueles minutos de intimidade. Internamente, o moreno queria senti-lo o mais rápido possível e, embora as preliminares fossem necessárias, seu corpo aguentaria o desconforto inicial. O sexo o penetrou sem muita dificuldade graças ao lubrificante, e a dor sentida foi totalmente suportável. Hijikata gemeu baixo, escondendo o rosto e o sorriso que havia se formado em seus lábios.

A necessidade por aquele tipo de estímulo era obviamente mútua. Após a primeira estocada, Gintoki segurou firme em seu quadril, retirando-se e voltando a penetrá-lo, não dando tempo para eventuais represálias. O corpo recebia as investidas com naturalidade, acostumado às horas de prazer compartilhadas durante anos. Sua própria ereção estava rígida e foi preciso somente algumas estocadas para que o pré-orgasmo começasse a pingar sobre o lençol azul claro. O ritmo aumentava a cada movimento, contudo, quando seu ponto especial foi tocado, suas sobrancelhas se juntaram. Algo estava diferente.

"O-Oi..."

"D-Desculpe, podemos fazer sem?"

A pergunta foi feita com a voz rouca e baixa.

Hijikata sentiu quando o preservativo foi rompido devido ao modo como o membro deslizou dentro de seu corpo. O Líder da Yorozuya retirou-se com pressa e livrou-se do preservativo tão rápido que ele mal teve tempo de sentir-se solitário. O sexo voltou a penetrá-lo, dessa vez indo o mais fundo possível e o fazendo gemer. As estocadas retornaram e não demorou a que a voz de Gintoki começasse a ser ouvida. Aquela pessoa não tinha vergonha de demonstrar suas reações, logo, ouvi-lo durante o ato havia se tornado um costume.

Graças ao futon não havia barulho da madeira estalando ou em atrito com o chão. A janela estava aberta, mas a rua silenciosa e tranquila. Entretanto, dentro do quarto ambos não economizavam nos gemidos. O travesseiro havia sido afastado e Hijikata apoiava a testa sobre os braços, sentindo o suor escorrer por seu pescoço e costas. A mão em seu quadril apertava a pele úmida, e a vontade de masturbar-se só não era maior do que a incrível sensação de tê-lo dentro dele, movendo-se sem gentileza e gemendo daquela forma por sua causa. Tocar-se significaria chegar ao orgasmo, e seria o mesmo que colocar um fim àquele turbilhão de emoções. As mãos passaram a apertar o fino lençol, esperando que o alívio chegasse, mas sem nenhum outro estímulo além daquele que já recebia.

O clímax chegou, mas não para ele. Após algum tempo, Gintoki avisou antes de preenchê-lo. A sensação o arrepiou, imaginando que seu banho pós-sexo seria mais demorado do que o anterior. Os movimentos cessaram, e as mãos em seu quadril afrouxaram-se um pouco. Hijikata permaneceu imóvel e levemente cansado do exercício, esperando que continuassem. O membro deslizou para fora e o amante o virou, colocando-o de barriga para cima. Os olhos negros se abriram e ele teve tempo apenas de vê-lo posicionar-se novamente em sua entrada, erguendo o quadril com ambas as mãos e o penetrando com força.

A reação foi imediata.

O Vice-Comandante do Shinsengumi arqueou a nuca para trás, os lábios entreabertos e o gemido preso no fundo de sua garganta. O orgasmo morno atingiu o alto de seu peitoral, criando um caminho de sêmen até seu baixo ventre. A espera por aquele momento foi totalmente recompensada, pois, por alguns instantes, ele esqueceu-se totalmente do que acontecia, perdido naquela deliciosa sensação de contentamento e desejo. Hijikata sentiu quando Gintoki inclinou-se e suas pernas automaticamente passaram ao redor do quadril, prendendo-o e mantendo-os próximos. Sua companhia apoiou os cotovelos ao lado de sua cabeça, tocando sua orelha direita com os lábios antes de mordiscá-la.

"Eu realmente senti sua falta, Toushirou... muito mais do que eu gostaria de admitir." A voz o surpreendeu e as batidas de seu coração aumentaram. "Eu não sei, não, eu tenho certeza de que não saberia o que fazer se você desaparecesse. Por favor, não faça isso novamente."

Os olhos negros se arregalaram e Hijikata moveu as mãos com pressa, cobrindo a boca de Gintoki antes que as próximas palavras fossem declamadas. Ele sabia exatamente o que seria dito e o medo de ouvi-lo era tão forte que o fez recolher-se dentro de si, como uma ostra. Eu estava mortificado. Quando percebi que aquela relação puramente física havia se transformado em outra coisa eu fiquei apavorado.

A realização acontecera na noite anterior ao encontro marcado, há algumas semanas, e horas antes de Tosshi tomar o seu lugar. O moreno havia rolado em seu futon por mais tempo do que seria considerado normal para pegar no sono, ansioso para o dia seguinte e incomodado com o fato de que, ultimamente, os encontros entre eles eram marcados e não aconteciam esporadicamente. Eu fiquei confortável demais. Me encontrar com ele toda semana para jantar ou beber sakê, depois seguir para um hotel. Nunca, com nenhuma de minhas amantes, eu permanecia até o dia seguinte. Eu costumava aproveitar o tempo necessário para me aliviar e depois ia embora. De repente eu estava acordando ao lado de outra pessoa e isso é assustador.

"Ca-Cale a boca!" A voz soou rouca e desesperada. "Eu não quero ouvir, cale a boca!"

A pessoa que o encarava de volta não pareceu assustada ou brava, pelo contrário. Os olhos piscaram longamente e, quando voltaram a encará-lo, havia um estranho e doce brilho que serviu unicamente para aumentar seu desespero. Sua voz voltou a ecoar enquanto suas mãos tentavam empurrá-lo para que pudesse levantar-se e sair dali antes que fosse tarde demais. Gintoki parecia muito mais forte e pesado, voltando a ficar sobre ele, alheio a todos os seus protestos, escondendo o rosto ao lado do seu e dizendo claramente, ainda que na forma de um sussurro, as três palavras que Hijikata havia lutado a vida inteira para não ouvir.

Suas forças desapareceram como mágica e seu corpo relaxou completamente. Os olhos se fecharam, úmidos e cansados. As mãos, todavia, não penderam para o lado, mas subiram pelas costas nuas de seu amante, apertando-as em um abraço. O líder da Yorozuya moveu-se, penetrando-o e o fazendo tremer, unindo mais do que os corpos, como também seus corações. A sensação de pavor não havia desaparecido por completo e ele desconfiava que nunca iria, de fato, deixá-lo. Entretanto, pela primeira vez em sua vida a chama da esperança queimava mais forte do que a da incerteza. E, talvez, seria nos braços daquela pessoa que ele aprenderia a lidar com o medo de perder aqueles que amava.

x

A casa estava vazia quando Gintoki despertou, completamente zonzo na manhã seguinte.

Ele não viu, a princípio, que a mesinha de centro havia sido arrumada e que não havia sinal do que acontecera na noite anterior. Seu corpo arrastou-se até o banheiro e ele chegou a cochilar na banheira, acordando antes que se afogasse. A cabeça doía, seu estômago dava voltas, mas o restante de seu corpo parecia extremamente bem. O que uma noite de sexo não faz... A atenção para a limpeza o surpreendeu, porém, não tanto quanto o bilhete embaixo do telefone, em cima da mesa. A letra de Hijikata era estranhamente caprichada, embora houvesse somente duas linhas avisando que ele havia usado o banheiro e deixado a casa sem acordá-lo.

Gintoki encarou o bilhete por alguns segundos antes de enfiá-lo dentro do bolso da calça. O moreno havia feito um favor em tirar os vestígios da noite anterior, uma vez que seria impossível explicar para Kagura que ele havia mergulhado em um barco de sushi sem que ela soubesse. No entanto, também havia lhe poupando da ocupação durante aquela manhã de sábado, visto que a outra moradora da casa provavelmente não apareceria tão cedo e não havia nenhum prospecto de trabalho para o final de semana. E ainda é cedo para a nova JUMP. O líder da Yorozuya arrastou-se até o sofá, onde se deitou e cobriu o rosto com um dos braços, torcendo para que uma soneca fosse o remédio para aquela dor de cabeça.

O sono, contudo, não veio. Algumas cenas da noite anterior passaram por trás de seus olhos e uma, em especial, o fez virar-se no sofá, escondendo o rosto e corando absurdamente. As palavras, a confissão, o momento em que havia acontecido... tudo parecia totalmente absurdo e ele não acreditava que havia dito aquilo para alguém como Hijikata. Em quase 30 anos, aquela fora a primeira vez que Gintoki se confessou, e essa pessoa, além do fato de ser outro homem, não parecia pronta a aceitar aqueles sentimentos.

A incerteza e o medo do que aconteceria a partir daquele dia fizeram sua enxaqueca piorar e ele precisou ir até a caixa de remédios no banheiro e tomar uma aspirina. Seu corpo retornou ao sofá e dessa vez o sono não tardou a chegar. Não houve sonhos e com mais ninguém na casa para atrapalhar seu descanso, Gintoki dormiu durante todo o dia, não acordando sequer para almoçar. O sol começava a se pôr quando ele despertou confuso com a sala parcialmente escura e incrédulo ao encarar o relógio.

O sushi da noite anterior levou todo o dinheiro que ele tinha e, com a geladeira e a despensa vazias, não havia outra opção além de implorar comida aos "amigos". Depois de um segundo banho e sentindo-se totalmente acordado, o homem de cabelos prateados desceu até o bar de Otose, e foi expulso antes mesmo de terminar de arrastar a porta. A vassoura de Tama acertou seu rosto em cheio e a robô-empregada o deixou em uma viela antes de retornar para o bar. Eu não tenho alternativa, só espero que Shinpachi seja responsável pelo jantar... A caminhada até a casa de Tae foi lenta e repleta de vários bocejos preguiçosos. As luzes estavam acessas e havia vozes vindas de dentro da casa, e assim que deu a volta uma figura conhecida surgiu sentada na varanda e balançando as curtas pernas.

"Ah! Gin-chan!"

Kagura correu até ele, abraçando-o e o puxando para dentro da casa, avisando que ele havia chegado em ótima hora.

"Nós teremos pizza-aru," a garotinha parecia saltitante, "o Gorila foi comprar."

Na sala, Shinpachi terminava de colocar a mesa ao lado da irmã e ambos entenderam automaticamente o motivo de sua visita. Entretanto, Gintoki tinha um mau pressentimento sobre o jantar e tentou sair daquela situação dizendo que estava ali unicamente para saber se Kagura havia se comportado.

"Não tem necessidade para ser tão formal, Gin-san." Shinpachi aproximou-se. "Haverá pizza para todos."

"Por que as pizza?"

"Kondou-san insistiu que gostaria de levar minha irmã para jantar e depois de implorar por vários dias ela disse que não se importaria desde que fosse em casa. Kagura-chan escolheu a pizza."

"Entendo, mas talvez seja melhor eu ir. E-Eu prometi beber com... com... Hasegawa! Sim, eu e o Madao vamos ao pachinko." A mentira deixou seus lábios com dificuldade.

"Mas, Gin-san, eu disse, teremos pizza suficiente, pois Kondou-san não veio sozinho."

Ele sentiu o cheiro das pizzas antes de vê-las.

A voz alta e sonora de Kondou levou um arrepio à sua espinha e Gintoki manteve-se de costas até vê-lo passar, carregando duas caixas de papelão. O kimono daquela noite era azul-escuro e, apesar de não encará-lo diretamente, ele jamais deixaria de identificar aquele andar, aquele cheiro e, especialmente, aquela presença. Hijikata deixou as caixas sobre a mesinha de centro e foi impossível que eles não se encarassem. O moreno não esboçou nenhuma reação além de um menear de cabeça e Gintoki percebeu que sua chance de escapar daquele encontro havia passado.

A estranheza inicial só melhorou quando ele sentou-se na varanda, um prato com três fatias de pizza ao lado e esperando devorá-las o mais rápido possível para que pudesse voltar para casa. Kagura era sem dúvidas a mais animada, escolhendo os melhores pedaços e afirmando que deveriam fazer aquilo com frequência. Ouvi-los rindo e se divertindo levou um sorriso aos seus lábios, que desapareceu aos poucos ao perceber que tinha companhia. Hijikata sentou-se e a primeira coisa que perguntou foi se poderia acender um cigarro.

Nenhum deles disse nada e Gintoki comeu seus três pedaços sem ser importunado. Tae apareceu em determinado momento, perguntando se ele gostaria de mais pizza e insistindo que o Vice-Comandante deveria comer alguma coisa.

"Eu jantei antes de vir atrás de Kondou-san." Foi sua única resposta.

A anfitriã afastou-se, deixando-os a sós novamente. Não havia mais nada para ser devorado em seu prato e o silêncio começava a incomodá-lo, por não ser de sua personalidade remoer assuntos e martirizar-se antes do tempo. Eu não menti e disse exatamente o que sentia, mas e agora? Seus dedos tamborilavam em sua perna e após alguns minutos ele decidiu que era hora de ir embora.

"Você está fugindo?"

"Sim."

"Covarde."

O líder da Yorozuya fez menção de se levantar, no entanto, sentou-se mais uma vez, suspirando longamente e colocando o peso do corpo nas mãos que estavam apoiadas ao chão.

"Eu apenas não sei o que vai acontecer agora. Você está falando comigo, então o pior cenário não aconteceu."

"O pior cenário seria eu não falar mais com você? O que acha que eu sou? Uma adolescente?"

"T-Talvez..."

"Oi..."

"Você não pode me culpar, está bem? Eu nunca fiz isso antes e o momento parecia certo." Gintoki surpreendeu-se ao sentir-se corando. Quem era a adolescente agora?

"Você falou sério?" A voz de Hijikata soou baixa, mas austera. O cigarro havia terminado e ele encarava o outro lado do jardim, as árvores e a cerca de madeira.

"Mas é claro que eu falei sério." A pergunta o incomodou. "Ou você acha que eu saio por aí falando aquele tipo de coisa para todo mundo? Eu tenho sentimentos sabia? Gin-san é uma pessoa extremamente emocional!"

A resposta foi uma expressão de deboche que o fez apertar os olhos. O moreno voltou a encarar o jardim e por um momento Gintoki achou que eles retornariam à estaca zero até sentir algo tocar seus dedos. A mão de Hijikata estava quente e levemente suada, e aquele pequeno gesto foi o bastante para aplacar sua ansiedade e acalmar seu coração. Seus olhos se ergueram e foi impossível não sorrir ao vê-lo corado, ainda que tentasse esconder-se vestindo a mesma expressão séria e emburrada.

"Depois que eu entregar Kondou-san ao Shinsengumi eu estarei livre."

"Eu não tenho um centavo para um hotel ou motel. O jantar refinado de ontem à noite levou todas as minhas economias," Gintoki moveu-se um pouco para o lado, diminuindo um pouco a distância, mas sem despertar a atenção dos demais. Os dedos se entrelaçaram e palavra alguma seria capaz de definir o que aquilo o fez sentir. "Mas Kagura só deve voltar para casa amanhã ou segunda-feira."

"Eu levarei algo para comermos."

"Desculpe, mas a única coisa que eu tenho a oferecer sou eu."

O Vice-Comandante levantou-se e bateu a poeira do kimono. Sentir aquela mão se afastando o deixou um pouco solitário, contudo, o prospecto daquela noite era bom demais para desanimá-lo.

"É suficiente," Hijikata sussurrou antes de dar as costas e seguir pelo corredor, "você é mais do que suficiente."

Gintoki o ouviu entrar na sala e arrastar Kondou, desculpando-se pela intromissão daquela noite, de todas as noites que passaram e todas as que ainda aconteceriam. O líder da Yorozuya permaneceu imóvel por algum tempo, até levantar-se e despedir-se dos que estavam comendo. Kagura avisou que retornaria somente na segunda-feira depois do almoço e ele bagunçou seus cabelos antes de roubar mais uma fatia de pizza e desejar boa noite.

As ruas estavam vazias, o clima agradável e a noite bela e estrelada. Nada parecia diferente, mas nada parecia igual. Ele sabia que acordaria tarde na segunda-feira e que passariam horas procurando algum trabalho que pagasse pelo menos as refeições. Kagura e Sadaharu comeriam mais do que o dinheiro que receberiam enquanto Shinpachi tentaria incansavelmente colocá-los na linha. Aquela era a sua vida na maior parte do tempo, com uma ou outra aventura inusitada, mas que sempre retornava aos velhos e bons dias pacatos.

Entretanto, Gintoki sabia que no meio dessa rotina calma e tranquila ele encontraria aquele que virava sua vida de ponta cabeça e faria seus olhos brilharem. Os encontros não seriam constantes, mas também não tão esporádicos. Não havia um futuro certo para aquela relação, caminhadas de mãos dadas ou filhos e netos. A única certeza que ele tinha era que aquela pessoa, embora arrogante e rabugenta, era muito mais do que ele merecia e mesmo se o relacionamento que tinham parecesse errado e sem futuro, Gintoki não o trocaria por nada nesse mundo. O passado de ambos era obscuro, triste e repleto de lágrimas e arrependimentos, porém, o futuro havia começado a ser escrito há alguns anos e ele seria uma história incrível.

— FIM.

Notas finais
Notas da autora: Minha primeira longfic de Gintama chega ao fim! Eu sei, em comparação aos meus outros projetos este foi bem curtindo. Como eu já mencionei para alguns leitores, esta fanfic não estava nos meus planos e a escrevi espontaneamente. A ideia eu já vinha ruminando por algum tempo, pois sempre quis escrever o Tosshi, mas acabava colocando de lado para dar prioridade para outros fandoms. Porém, quando soube da notícia de que o mangá de Gintama entrou na última arc aquilo me deixou muito triste, mas serviu para me motivar a finalmente escrever. Gintama é uma daquelas obras mágicas que, ainda que eu soubesse que acabaria cedo ou tarde, uma parte em mim queria acreditar que esse fim estava longe. Aparentemente não está, e estou sofrendo por antecipação, mas sei que não conseguirei dar adeus a algo tão bom. Sobre a fanfic, eu quis trabalhar a mudança da relação entre o Gintoki e o Hijikata, do sexo aleatório para encontros que não envolviam somente contatos sexuais. A ideia de colocar o Tosshi foi um bônus, já que eu precisava do terceiro elemento que seria o responsável pelas mudanças. Escrevê-lo foi um pouco desafiador, por ser a primeira vez, mas a experiência foi interessante. Aos fãs do fandom, eu morro de vontade de escrever algo com a Paako e o Hijikata, então isso deve se transformar em realidade. Bem, como eu mencionei acima, a fanfic não estava nos meus planos de postagem, mas serviu para eu não entrar em hiatus de novo. Meu próximo projeto deve ser a longfic de Free!, que está me dando mais trabalho do que eu esperava. Claro, posso ter outra ideia espontânea e postar outra coisa, mas pelo menos neste momento é essa a agenda que pretendo seguir. Agradeço imensamente aos meus leitores por mais essa oportunidade de mostrar meu trabalho! Vejo vocês logo logo~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!