Not Ready 2 Die
1 Traída
Notas iniciais
A história vai ser pequena por que eu não consigo ter criatividade pra escrever bastante coisa saoiudhjtro acho que uns 20 capítulos ou menos.
É só isso mesmo, espero que gostem.
Escrevi ouvindo Disturbed - Down With The Sickness (http://www.youtube.com/watch?v=09LTT0xwdfw&ob=av3e) e é uma das minhas músicas favoritas, então espero que ouçam durante o capítulo, flw vcs
Rachel enrolou uma mecha de cabelo nos dedos enquanto observava os Estados Unidos através da pequena janela do jato executivo. As nuvens claras cobriam os céus, o que a impossibilitava ver a paisagem e os prédios pequenos por conta da grande altura. Bufou, ainda sem se conformar com sua viagem repentina para a Califórnia, e se ajeitou melhor na poltrona macia. O Kansas era o lugar em que ela mais gostava de ficar e agora ela estava a caminho da Universidade Stanford para cursar Direito, tudo por causa do seu avô que resolveu contar para a familia que seu último desejo era poder ver a neta administrar os bens da familia. Charles Koch, presidente da Koch Industries — a segunda maior empresa privada dos Estados Unidos — era o avô que todas as garotas do Kansas queriam ter. Ou pelo menos, até a mãe de Rachel casar-se com James Andrews, um "pseudo-empresário" que transformou Charles em uma máquina de fazer dinheiro e deu-lhe a arrogância e a crueldade que ele nunca havia tido. Rachel sentiu uma leve vertigem ao perceber o declive do jato antes de pousar e fechou os olhos, preparando-se para o pequeno impacto da aeronave com o chão do aeroporto. Assim que o pouso foi feito com sucesso, ela suspirou e abriu os olhos. Odiava andar de avião; sabia que se algo quebrasse, a aeronave iria cair e todos iriam morrer. Seria muito mais fácil se ela fosse navio, pelo menos poderia ficar descansando em uma luxuosa cabine caso o navio quebrasse. Esperou pacientemente enquanto observava pela janela os seguranças altos descerem do avião e verificarem a segurança do local. Lembrou-se de como gostava de se sentir protegida por eles quando ainda era criança. Agora, Rachel praguejava todos os dias contra aqueles homens que teimavam em seguí-la para todos os lugares que ela ia. Ela queria experimentar novas coisas, queria viver tudas as experiências que havia sido privada, queria ser livre. Queria esquecer-se, por um segundo, quem ela realmente era e transformar-se em uma jovem de vinte e um anos que ainda não sabia o que fazer no futuro. Soltou o cinto de segurança e levantou-se do banco de couro claro. Observou um dos seguranças voltar para o interior da aeronave e fazer um sinal positivo para que a garota descesse. Ela olhou os olhos verdes dele e sorriu. Apesar de tudo, ela era agradecida por todo o esforço que faziam para mantê-la em segurança. Ela sabia que não era fácil; não era facil viver esperando por um ataque a qualquer hora, não era fácil responsabilizar-se pela vida que vale o futuro de uma empresa de cem bilhões de dólares.
Desceu da aeronave e foi guiada pelos seguranças até um corredor claro e vazio que, provavelmente, dava acesso à saída dos fundos do aeroporto. Rachel nunca passava pela porta da frente. Era a única neta e herdeira da Koch Industries e, exatamente por isso, recebia os cuidados equivalentes aos cuidados que uma rainha recebe. Atravessou o corredor rapidamente enquanto Elizabeth — a assessora de seu avô — falava com alguém enquanto um pequeno fone estava preso em um dos seus ouvidos. Rachel observou o céu da Califórnia e, apesar do azul intenso, ele se pareceu sombrio e sem cor. Exatamente como ela sentia a sua alma; envolta por uma sombra de dúvidas e arrependimentos. Ela era especialista em sentir pena de si mesma e em não conseguir enxergar tudo o que havia obtido em sua curta e dolorosa vida. Deus alguns passos e pôde observar o luxuoso carro negro que a esperava. Katherine a empurrou rapidamente enquanto um homem alto abria a porta do carro, e ela sentiu seu corpo ser jogado cuidadosamente em cima do banco escuro. Inalou o cheiro do couro e sentiu a necessidade de abrir o vidro, mas foi alertada por um dos seguranças assim que pousou a mão em cima dos botões.
"Não faça isso, senhorita" um homem negro falou ao seu lado.
Rachel sorriu fraco e voltou sua mão para o colo, juntando-se à outra e misturando-se em um aperto nervoso e suado. Observou a paisagem que passava rapidamente pela janela. Os prédios eram tão altos que davam a impressão de tocarem o sol brilhante. As pessoas caminhavam despreocupadas, como se a Califórnia fosse o lugar perfeito para a felicidade eterna. A paisagem urbana foi substituída pelas árvores verdes e os coqueiros altos que beiravam a estrada vazia e reta. O caminho até Stanford foi curto e logo Rachel observou o grande aglomerado de prédios antigos que formavam a universidade. O tom pastel das paredes contrastava com o marrom avermelhado das telhas antigas, mostrando o perfeccionismo e ruralidade do lugar. Algumas paredes de tijolos davam a impressão de terem transportado a garota para algum ano antes de Cristo. A arquitetura trabalhada da torre antiga relembrava a arquitetura românica antes da evolução para o estilo gótico. O lugar parecia um campo de batalha com seus muros altos e suas janelas minúsculas. Apesar de tudo, o belo jardim trazia a calma e a simplicidade que a construção ao redor não possuía. Pequenas flores vermelhas e brancas formavam o símbolo da universidade e Rachel pensou na bela visão que teria se pudesse sobrevoar a área em um helicóptero. A jovem foi acordada de seus pensamentos assim que observou uma mulher alta e um senhor de meia idade passarem por baixo de um dos arcos na entrada do prédio principal e seguirem na direção de Rachel. Os dois possuíam belos sorrisos enjoativos e orgulhosos estampados nos rostos carimbados pelas marcas de expressão. A garota sorriu involuntariamente; já estava acostumada a sorrir automaticamente sempre que via alguém se aproximar.
"Rachel de Ganahl Koch", o senhor falou animado, como se quisesse anunciar para todos a presença da jovem. "Me chamo Richard Stanford, sou o reitor da universidade. Seja bem vinda à Universidade Stanford. Espero que nossos orientadores atendam suas expectativas." ele continuou enquanto apertava fortemente a mão de Rachel.
"Com certeza irão." respondeu simpática enquanto acariciava disfarçadamente a mão.
"Essa é a Senhora Wilkinson", ele apontou para a senhora bem vestida ao seu lado. "Ela irá apresentá-la ao interior dos prédios e também irá levá-la até sua residência".
A Sra. Wilkinson sorriu e Rachel pôde notar os fios negros e ensebados presos em um coque alto e bem feito. Sentiu-se enojada ao imaginar a quantidade de laquê que havia sido colocado ali. A mulher estava vestida com um terno cinza e uma saia no mesmo tom que ia um pouco abaixo dos joelhos. As pulseiras de ouro refletiam o sol e faziam um barulho irritante quando a mulher mexia os braços. Os lábios estavam pintados com um batom rosa que se misturava com o tom rosado da pele dela. Rachel podia ver os poros cobertos pelo pó e por quilos de base. Os cílios estavam cobertos por grossas camadas de rímel, que os permitiam quase bater nas lentes grossas dos óculos de grau.
"(...) Steve Jobs antes de sua morte, e foi uma experiência inesquecível e incalculável para os formandos da época. Também trabalhamos com o protótipo de um site de pesquisas, que anos depois se tornou o Google, e também (...)"
Rachel não conseguia prestar atenção nas palavras que a Sra. Wilkinson proferia enquanto as duas andavam pelos corredores de aparência antiga. Já havia perdido a conta de quantos arcos largos havia encontrado enfeitando o teto limpo e claro. Os raios de sol atravessavam as colunas e refletiam nos vidros grandes que formavam as janelas, criando um zigue-zague luminoso e bonito. As plantas verdes e brilhantes estavam por toda a parte; no chão, enfeitando as paredes e até mesmo penduradas em pequenos vasos no teto.
"(...) E então, Rachel?" a pergunta da Sra. Wilkinson acordou a jovem de seus pensamentos.
"Eu... Desculpe, eu não consegui prestar atenção." a garota respondeu sentindo seu rosto queimar em vergonha.
"Sem problemas, querida", a senhora respondeu terna. "Imagino como deve estar cansada depois da longa viagem. Vou levá-la até o Arco Oeste, onde ficam os alojamentos. Você poderá descansar e então retomamos nosso tour quando você quiser, está bem?" Wilkinson finalizou sorrindo.
Rachel assentiu com a cabeça enquanto pressionava os lábios. Realmente, o seu sobrenome garantia grandes responsabilidades, mas também a livrava de grandes repreensões. Seguiu a Sra. pelo grande gramado verde, até chegarem à uma espécie de muralha de tijolos onde um grande arco dava passagem aos alojamentos. Ela observou os desenhos que estavam esculpidos na parede e passou por baixo da muralha, chegando em uma comprida rua beirada por jardins bem cuidados. Os prédios baixos e compridos também eram de tijolos e Rachel se sentiu dentro de uma cidade antiga. As estátuas de bronze e de metal escuro decoravam e assustavam ao mesmo tempo. A Sra. Wilkinson guiou Rachel até virarem a esquerda e passarem por baixo do vão criado por outro arco peraltado. A arquitetura do lugar lembrava as construções da Babilônia e da Grécia antiga. A mulher tirou uma pequena chave do bolso do paletó cinza e abriu a porta de madeira, revelando o belo quarto que se escondia dentro do cômodo.
"A senhorita poderá descansar aqui até que terminemos de arrumar a sua residência." a mulher explicou enquanto dava passagem para Rachel entrar no quarto.
Observou a bela cama de casal e um pequeno frigobar que enfeitavam uma das paredes do quarto. As cores eram claras, como todo o exterior dos prédios que formavam o complexo universitário. A televisão de LCD estava pendurada na parede e um pequeno móvel de madeira exibia um moderno aparelho de DVD e um rádio portátil. Notou uma pequena porta de madeira branca e julgou ser a entrada para o banheiro da suíte.
"Residência?" ela perguntou, terminando de assimilar as palavras da senhora.
"Sim. Os alunos mudam-se para as residências após o primeiro semestre de estudos.", Wilkinson respondeu ainda do lado de fora do quarto. "Vou deixá-la sozinha. Seu material de estudo já está na reitoria, a senhorita poderá pegá-lo antes de começarem as aulas."
"Mas eu não sei..." Rachel virou-se, mas parou de falar ao perceber a mulher se afastar do quarto e voltar a caminhar pela rua.
Suspirou e fechou a porta atrás de si. Observou a grande mala rosa encostada no canto do quarto e agradeceu por suas bagagens terem chegado tão rapidamente. Pegou a mala com dificuldade por causa do peso e a jogou bruscamente em cima da cama grande. A abriu e pegou uma calça jeans e uma blusa qualquer. Não demorou muito para pegar seus objetos de higiene pessoal e seguir até o banheiro, desejando um banho quente como se aquele fosse o primeiro de sua vida inteira. Abriu a porta branca com cuidado e deparou-se com as paredes forradas pelo azulejo cor de pérola. A grande banheira clara ocupava metade do cômodo, o que fez Rachel deleitar-se ao imaginar quanto tempo poderia passar ali dentro. A larga pedra de mármore negro acompanhava uma cuba redonda e um gigante espelho cercado por luzes claras. Havia um vaso sanitário de louça, mas Rachel não preocupou-se em observá-lo.
"Se isso é somente o dormitório..." ela falou sorrindo enquanto pendurava as roupas atrás da porta e colocavas os objetos de higiene na beirada da banheira.
Mergulhou na água quente e pôde sentir seus músculos relaxarem pouco a pouco. Fechou os olhos e sentiu-se novamente em casa, como se isso pudesse amenizar a ansiedade e o medo que ainda habitavam seu coração. Ela não sabia o que fazer; durante a sua vida inteira, sempre existiram pessoas que faziam tudo para ela, desde dobrar suas roupas até fazer seus trabalhos escolares. Rachel nunca havia andado com as próprias pernas. Nunca havia caído e levantado sozinha. Nunca havia tido a experiência contida no ato de perder e o prazer causado pela vitória. Mas apesar de tudo, Rachel era uma garota normal. Possuía medos, arrependimentos, saudades, paixões e todo aquele turbulhão de sentimentos que atingem uma pessoa com vinte e um anos. Também tinha todas as dúvidas e todos os receios causados pela responsabilidade da vida adulta. Era uma criança em um corpo de uma mulher. Se sentia desprotegida e solitária enquanto era jogada em um abismo. Não soube exatamente quanto tempo permaneceu imergida na água quente até o sinal estridente ecoar pelo campus da universidade. Tratou de sair rapidamente da banheira e colocar suas roupas. Passou as mãos levemente pelos cabelos ondulados e pegou sua bolsa em cima da enorme cama. Ao sair do quarto, pôde observar a multidão de pessoas seguindo pela estreita rua e passando por baixo do arco na parede de tijolos. Todos os alunos seguiam com seus montes de livros e suas cabeças cheias de informação. Sentiu-se deslocada e resolveu seguir a multidão, procurando por alguém que pudesse lhe explicar onde ficava a sala da reitoria. Estava tão ocupada dividindo-se entre seguir as pessoas e procurar por algum rosto conhecido, que acabou esbarrando em um jovem e fazendo com que os livros grossos que ele segurava fossem ao chão. Ela desculpou-se com um sussurro atrapalhado e saiu correndo, sem saber o que fazer. Não olhou para trás, apenas continuou caminhando enquanto sua mente a avisava que, provavelmente, xingos e reclamações estavam saindo da boca do garoto enquanto ele se abaixava para pegar os livros caídos. Culpou-se mentalmente por sua desastreza e entrou em um dos prédios antigos, sem nem ao menos ler a placa de informações que estava presa em uma das paredes da entrada. Encostou-se e respirou fundo, enquanto ajeitava uma mecha de cabelo atrás da orelha. Sentia-se cansada como se tivesse participado de uma maratona ou como se fosse um morcego fugindo do inferno.
"Perdida?" uma voz rouca foi ouvida ao seu lado.
Ao virar-se, Rachel pôde observar o jovem alto e forte que estava parado ao seu lado. Os olhos castanho-avelã a olhavam com uma curiosidade que fez Rachel sentir-se envergonhada e praguejar pela vermelhidão em suas bochechas. Os cabelos negros e compridos estavam bagunçados no rosto, dando um ar rebelde e sedutor ao jovem que ainda a observava. Os olhos caídos estavam delineados com um risco negro e fraco, o que a fez sorrir internamente e perguntar-se o motivo de tanta excentricidade. Ele sorriu de canto e ergueu uma sobrancelha, o que aumentou consideravelmente a temperatura corporal dela.
"E-Estou." ela respondeu amaldiçoando sua voz falhada.
"Meu nome é Brian" ele falou enquanto esticava a mão na direção da jovem.
Ela sorriu fraco e apertou a mão dele, sentindo os dedos finos queimarem sua pele por conta do calor. Estranhou.
"Me chamo Rachel" ela soltou a mão dele.
"Rachel Koch?", ele sorriu. "Eu ouvi falar sobre você, mas...", ele a olhou dos pés à cabeça, a fazendo corar novamente. "... achei que fosse mentira."
"E por que seria?" ela ergueu uma sobrancelha com um ar desafiador.
"Não sei... Acho que aqui é o último lugar onde uma pessoa como você gostaria de ir." ele respondeu passando a mão na nuca e sorrindo de canto.
"Como assim... 'uma pessoa como eu'?" franziu o cenho enquanto repetia com desdém as palavras dele.
"Você entendeu." ele respondeu, não gostando do jeito dramático e desentendido dela.
"Eu sou igual a todo mundo aqui." ela respondeu com birra.
"Bom...", ele se aproximou. "... hoje vai ter uma festa em uma das residências. Quero ver se você irá aparecer lá." ele terminou em um sussurro quente, que arrepiou os pelos da nuca dela.
Ela tentou se recompôr enquanto ele se afastava sorrindo. Sorriu para si mesma, aceitando e gostando do desafio proposto por ele. Seguiu seu caminho relembrando as palavras sendo sussurradas em seu ouvido por aquela voz rouca. Suspirou e balançou levemente a cabeça, tentando afastar os pensamentos sórdidos para que ela pudesse chegar até a reitoria para pegar seus livros. Ela caminhava como se estivesse andando em nuvens; seu sorriso largo poderia ser mal interpretado por qualquer pessoa que o visse. Sua mente teimava em viajar para longe e ela era obrigada a fazer um esforço quase sobrehumano para concentrar-se no caminho. As paredes e os prédios eram iguais, o que a fez sentir-se perdida entre tantos tijolos e arcos. Olhou para trás e pôde observar o corredor vazio, sem lembrar-se de como havia chegado até ele. Passou a mão na testa, secando o suor frio que já teimava em escorrer, e voltou pelo corredor dando passos largos. Estava tão distraída que, ao virar na esquina, acabou batendo bruscamente seu corpo contra um corpo forte e quente. Ergueu os olhos e pôde observar novamente o sorriso no canto dos lábios.
"Perdida?" ele perguntou com um tom de deboche.
"Onde é a reitoria?" ela perguntou tentando ignorar sua imensa vontade de olhar eternamente para aqueles lábios finos que exibiam um sorriso perverso.
"Eu posso te levar até lá..." ele respondeu olhando a paisagem através de um dos arcos enquanto um sorriso arteiro aparecia em seu rosto.
"O que quer em troca?" ela perguntou bufando.
"Minha resposta" ele voltou seus olhos castanhos para a jovem.
"Resposta?" ela franziu o cenho.
"Sobre a festa." ele respondeu em um tom óbvio.
"Eu não sei... Não sei se você merece..." ela fez charme.
"Você que sabe... Eu posso te deixar rodando por esses corredores durante o dia inteiro..." ele deu de ombros.
"Tudo bem", ela suspirou. "Eu vou."
"Comigo?" ele ergueu uma sobrancelha.
"Por que faz tanta questão?" ela perguntou, deliciando-se com a impertinência dele.
"Não tenho motivos." ele deu de ombros e torceu os lábios.
"Eu vou com você." ela respondeu como se estivesse fazendo um favor à ele.
"Ótimo. A reitoria é no final desse corredor. Só ir reto." ele sorriu.
"Mas... O que? Eu ia achar sozinha!" ela respondeu indignada enquanto apoiava as mãos na cintura.
Ele sorriu divertido e deu de ombros enquanto cruzava as mãos atrás das costas.
"Vejo você de noite." ele falou antes de virar-se e sumir no corredor.
Rachel ficou parada por um tempo até assimilar a conversa dos dois e voltar à realidade. Riu sozinha e balançou a cabeça, divertindo-se com tudo o que havia acontecido. Seguiu pelo corredor e encontrou um pequeno prédio cercado por um jardim tão bem cuidado quanto todos os outros por ali. Assim que deu leves batidas na porta, a Sra. Wilkinson apareceu.
"Olá, Rachel. Achei que não iria aparecer. Entre." a senhora falou enquanto dava passagem para a jovem atravessar a porta de madeira.
"Eu tive problemas para achar o prédio..." respondeu sincera.
A Sra. Wilkinson sorriu enquanto entregava três livros ainda embalados para Rachel, que os olhou com espanto e voltou os olhos para a mulher sorridente.
"Só isso?"
"Por enquanto.", ela respondeu guiando Rachel até a saída. "Aqui está o papel com suas informações sobre o curso." ela falou enquanto estendia uma folha escrita para a jovem.
Rachel pegou a folha e colocou entre os livros. Sorriu em agradecimento e seguiu até a saída. Assim que a porta de madeira foi fechada, ela voltou pelo mesmo corredor por onde havia chegado e saiu do prédio antigo. Observou o arco que dava acesso aos dormitórios e pensou duas vezes antes de decidir ir para a sala, já que seu corpo implorava por horas de descanso. As quatro horas de aulas passaram rapidamente. Tão rapidamente que ela nem se lembrava das palavras que os professores haviam proferido na frente dos vinte alunos de sua sala. Sua mente estava concentrada em algo que havia acontecido um pouco antes dela entrar na reitoria. Sua mente estava concentrada, mais precisamente, no sorriso maléfico e nos olhos misteriosos de Brian. Ela ainda se lembrava da voz rouca como se fosse capaz de ouví-la a todo o momento. E era; a voz ficava ecoando em sua mente como se ela possuísse um gravador embutido no cérebro. Os arrepios na nuca se repetiam toda vez que ela lembrava-se da proximidade dele e do ar quente batendo em seu pescoço. Quando voltou à realidade, viu-se parada em frente a porta do seu dormitório. Não fazia ideia de como havia chegado ali, era como se estivesse bêbada e tivesse sido carregada por alguém. Como se algum espírito tivesse entrado em seu corpo. Riu de si mesma e abriu a porta, deparando-se com a enorme cama de casal. Ela teve que fazer um enorme esforço para lutar contra a mortal vontade de deitar no colchão macio, mas depois do esforço surgiu a recompensa; ela abriu a mala e observou seu belo vestido negro e brilhante. Ele era curto, o que possibilitava a visão de suas belas pernas grossas e torneadas. Prendeu o cabelo em um coque alto e imergiu novamente na água quente que enchia a banheira. Os músculos não precisavam mais de relaxamento; ela estava completamente calma e somente a ansiedade tomava seu corpo. Mas não a ansiedade de antes, aquela que a destruía e apodrecia o seu coração. Era uma ansiedade boa, uma ansiedade que causava borboletas no estômago e um frio na espinha. Assim que terminou de colocar o vestido, sentiu seu corpo tremer como se a temperatura do cômodo fosse menor que zero. Sorriu feliz. Não lembrava-se de como era boa a sensação de parecer uma adolescente prestes a ter seu primeiro encontro. Percebeu como a sua vida havia sido automática e sem graça durante todos aqueles anos. Todas as festas eram iguais, todas as pessoas eram iguais. As sensações eram as mesmas: repetidas e sem sabor. Maquiou-se rapidamente e soltou o cabelo. As mechas onduladas caíam por seus ombros nus e misturavam-se na escuridão do vestido. Seus olhos claros estavam devidamente delineados pela sombra negra e seus lábios na cor nude perdiam-se em meio a sua pele clara. Estava magnífica.
As leves batidas na porta ecoaram pelo dormitório e fizeram Rachel franzir o cenho em dúvida. Andou lentamente até a porta de madeira e a abriu, perdendo o oxigênio por alguns lentos segundos. Brian riu observando o olhar assustado e surpreso da garota. Ela retomou a consciência e fechou a boca, martirizando-se pela vergonha que havia passado. Observou a camiseta negra e colada que evidenciava os braços tatuados e os ombros grandes e fortes. Os olhos castanhos ainda estavam delineados, contrastando com as mechas negras e bagunçadas que caíam em seu rosto. O sorriso, como sempre, estava formado pelos lábios finos do rapaz.
"Como me encontrou?" ela perguntou observando algumas pessoas que passavam pela rua.
"Eu sei de tudo o que acontece aqui.", ele respondeu com um ar orgulhoso. "Perguntei para o reitor." ele deu de ombros, dando-se por vencido.
Ela sorriu.
"E ele pode passar as informações pessoais dos alunos?" ela ergueu uma sobrancelha enquanto fingia estar surpresa.
"Para mim? Pode.", ele respondeu firme. "Vamos?"
"Vamos. Eu só preciso pegar minha bolsa e meu celular..." ela falou enquanto virava-se e entrava novamente no quarto.
"Não precisa levar tudo isso, você não vai sair do campus." ele falou enquanto erguia uma sobrancelha.
Ela sorriu e concordou. Os dois saíram do quarto e ela fechou a porta atrás de si. Caminharam em silêncio enquanto Rachel formavam frases e as jogava fora, como se não fossem suficientemente boas para iniciar uma conversa com Brian. Um vento frio fez o corpo dela estremecer ainda mais, a obrigando cruzar os braços e colocar o cabelo para a frente, tentando cobrir seu pescoço e seus ombros nus. Ela esperou ansiosamente até que ele puxasse algum assunto. Estava desesperada para ouvir novamente a voz rouca ao seu lado.
"E então, vai cursar o quê?" ele perguntou enquanto olhava para a frente.
"Direito.", ela respondeu sem vontade. "E você, cursa o quê?"
"Medicina" ele respondeu rapidamente.
"Você não tem cara de médico." ela franziu o cenho e sorriu.
"Você não tem cara de advogada." ele respondeu no mesmo tom divertido.
"Eu não vou ser advogada. Na verdade, nem sei por quê vou cursar direito..." ela deu de ombros.
"Então não curse." ele respondeu obviamente.
"Se fosse fácil assim..." ela suspirou.
Ele sorriu e não respondeu, para a tristeza dela que implorava internamente para ouvir um pouco mais a voz dele. O caminho até as residências foi longo e torturante. Rachel espremia os dedos uns contra os outros, como se a dor pudesse acabar com a tensão e o silêncio entre ela e Brian. Observou alguns jovens descontraídos na frente de uma das casas pequenas e julgou ser o local da festa. Aproximaram-se e ela pôde ouvir a música alta e animada que ecoava pela porta aberta e cheia de gente. A passagem para dentro da casa foi difícil e tortuosa, por conta dos jovens bêbados que se dividiam entre beijar alguém e vomitar os órgãos por conta da bebida. Por causa do pouco espaço, Brian aproximou-se de Rachel e ela pôde inalar o perfume amadeirado e másculo dele. Um cheiro de homem. Um homem delicioso. Rachel ainda não havia ingerido nenhuma gota de álcool, mas já podia sentir seus nervos a flor da pele por conta da proximidade com o corpo quente de Brian. A música alta ecoava em seus ouvidos e emitia o mesmo efeito de uma droga ilícita. Ela sentiu-se ligeiramente bêbada e perdida assim que Brian a agarrou pela cintura e a guiou até a cozinha da casa, onde os copos coloridos estavam sendo enchidos com bebida. A noite escura reinava no campus e somente a festa animava o lugar. Rachel sorria desinibida para as pessoas enquanto bebia mais um gole de sua vodka.
"Acho que já chega..." repreendeu Brian enquanto tirava o copo vermelho das mãos da garota.
"Nã-ão... Só mais um pouquinho..." ela falou com dificuldade enquanto esticava o dedo indicador e o polegar, indicando pouca quantidade.
"Vou trazer uma coisa que você vai gostar" ele sussurrou, a fazendo sorrir com o curto e quase imperceptível toque dos lábios finos dele no ouvido dela.
Brian andou até a cozinha enquanto Rachel se apoiava em uma das bancadas. Seu corpo estava fraco e ela podia sentir o cômodo girar, mas não se importava. Estava se divertindo e sorrindo como nunca havia feito antes.
"Está sozinha?" um jovem loiro e alto perguntou ao se aproximar da jovem que sorria insensata.
"Não...", ela parou para pensar. "Estou com o Brian."
"Brian?" o loiro franziu o cenho e precisou aumentar o tom de voz por conta da música alta.
"Ele faz medicina." ela respondeu com dificuldade.
"Eu não conheço..."
"Ali está ele!" Rachel interrompeu animada ao ver o moreno voltar com um copo laranja e uma espécie de líquido colorido dentro dele.
O loiro fez uma careta amarga e se afastou dos dois. Rachel pegou o copo com suas mãos tremendo e, sem perguntar o que era, bebeu rapidamente grande parte do líquido. Brian sorriu surpreso. Ela devolveu bruscamente o copo para ele, que o segurou sem cuidado e acabou deixando algumas gotas da bebida pingarem em sua camiseta escura. Ele não se importou; observou a jovem em sua frente que sorria animada e cantava a música com dificuldade. Sorriu e passou a língua nos lábios. A observou segurar-se no balcão e passou o braço forte em volta da cintura fina dela, colando seu corpo quente naquele corpo frágil e gélido. Os olhos claros não conseguiram manter-se abertos e ele foi obrigado a fazer um pouco mais de esforço para não deixá-la cair no chão. Rachel tentou abrir os olhos, mas era como estivessem sido colados com algum tipo de cola extra-forte. Seus membros formigavam e ela sentia apenas algo forte envolvendo sua cintura. Sentiu seu corpo ser levantado rapidamente enquanto algumas palavras eram proferidas, mas ela não conseguia entender; era como se estivessem sendo ditas em outro idioma. Sentiu-se em coma profundo, mas não conseguia desligar-se completamente. Como se metade dela estivesse morta e a outra metade ainda estivesse viva. Ela não conseguia mover os braços e as pernas e muito menos abrir os olhos, mas ainda assim a sua mente processava tudo, mesmo que as coisas parecessem embaralhadas e confusas. Sentiu ser deitada em um lugar macio e relaxou os músculos. Ela poderia dormir agora, tudo estava bem.
"Boa noite, Cinderela." a voz rouca sussurrou perto dos ouvidos de Rachel.
Ela não ouviu; sua mente havia se desligado.
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