Not Over You
32 Capítulo 31 - Moments
Notas iniciais
Sophia não havia dado muitos passos para longe do Central Park quando, imersa em pensamentos como era acostumada a estar, sentiu seu corpo ser puxado, obrigando-a não só a parar de andar, como quase tropeçar nos próprios pés ao regressar alguns passos.
Ergueu os olhos para a figura que a havia segurado e, tão subitamente quanto fora puxada com certa brutalidade, sua expressão assustada preencheu todo seu rosto e seu coração acelerou algumas batidas.
Ethan estava ali, de frente para ela. O cara de quem ela, mesmo não admitindo, vinha fugindo há muito tempo. Aquele que a magoou de maneira que ela não conseguia acreditar que um dia superaria. E, ela lamentava, aquele Ethan a quem seu coração ainda pertencia completamente.
Tinha sido imensamente corajosa ao engolir seus medos e receios para ligar para Gabriel, correndo o risco óbvio de ser obrigada a falar com Ethan, visto que eles moravam juntos. Mas, honestamente, por mais arrepios e lembranças que a voz dele tivesse causado nela, ainda era apenas uma voz. E, ali, totalmente presente e provavelmente sem a intenção de deixá-la escapar, parecia tudo mais real. Real demais para que ela decidisse que não podia enfrentar. Não havia escolha. Sophia Welch precisava enfrentar Ethan Smith.
– Surpresa? – Ele perguntou num sussurro, porém sua voz sobressaiu sob os sons em volta deles, simplesmente porque Sophia estava com toda a sua atenção voltada apenas para o cara que ainda segurava seu braço, como se o resto do mundo não existisse mais.
E que voz, ela pensou. Que voz terrivelmente maravilhosa que, ouvida pessoalmente, soava tão mais intensa e a deixava mais perdida.
Sophia não era e nem nunca fora o tipo de mulher que se sentia envergonhada ou perdida nos braços de um homem. Era mais do tipo que tinha confiança exalando pelos poros, tendo a certeza de como gostava das coisas. Firme. Forte. Causando ela mais delírio nos homens do que ao contrário. Porém não houve muito mais o que fazer depois de perceber, numa tarde de domingo chuvosa, debaixo dos cobertores e nos braços de Ethan; que aquele homem era sua exceção. Era a força capaz de derrubar a sua. E, se ela fosse sincera consigo mesma, havia tentado fugir. Mas, novamente, Ethan era uma quebra em suas certezas.
– Na verdade, não – soltou, pigarreando em seguida ao que sua voz saiu mais baixa do que normalmente. – Eu imaginei que você viria com Gabriel.
– Você parece surpresa – falou Ethan, sorrindo de canto e deixando sua mão escorregar para longe do braço da mulher de cabelo rosa em sua frente.
– Ver você é surpreendente – respondeu sincera.
Ethan e Sophia, antes de serem qualquer coisa um do outro, haviam sido amigos. Antes de o desejo aparecer, antes da paixão crescer, antes do amor ser plantado. Haviam se tornado tão amigos em tão pouco tempo e, como consequência, eram honestos um com o outro. Sophia, por exemplo, não conseguia enrolar um problema entre eles em um jogo de conversas – simplesmente soltava a verdade, era como funcionava entre eles. Entre amigos. Ethan cometeu uma quebra nesse contrato imaginário de sinceridade que eles haviam criado entre si. E isso o fez perdê-la.
– Ver você é incrível – ele retrucou, abrindo o sorriso um pouco mais.
Sophia pressionou os lábios e suspirou, balançando a cabeça de um lado para o outro como se não acreditasse que aquilo estava de fato acontecendo. Ethan estava mesmo ali e, depois das palavras que proferiu, sua mágoa por ele também.
– Você não pode aparecer depois de tanto tempo tentando ser sincero – ela disse.
O sorriso pequeno no rosto de Ethan evaporou em milésimos de segundos e, em sua cabeça, ele martelava diversas vezes o quanto aquilo era burrice. Porque ele estava correndo atrás de uma coisa que não tinha mais volta. Havia sido idiota – e precisava arcar com as consequências disso. Sabia que Sophia havia sofrido, e estava renascendo esse assunto – era se não falta de senso, crueldade.
Mas o sentimento que sentia por ela dentro de si o encorajava a fazer o possível para ter aquela mulher de volta em seus braços.
– Foi uma vez, Sophia – disse, controlando-se para que sua voz não saísse desesperada como ele sentia que estava, o sentimento nascendo em seu estômago e parecendo queimar até chegar a seu peito.
– Não foi uma vez – ela silabou. – Você não só me traiu, Ethan. Você me traiu e não me contou!
– Eu te contei! – Ethan exclamou, essa sendo sua única resposta apressada.
– Depois de dois meses! – Sophia quase gritou, bufando logo depois e sentindo os olhos se enxerem de água. Era sempre dessa forma quando se lembrava do acontecido: lágrimas e mais lágrimas. Era a única coisa que a aliviava, já que não gostava de tocar no assunto com mais ninguém além de si mesma. – Depois da droga de dois meses, Ethan!
E colocou uma das mãos na boca para evitar soltar mais alguma palavra e, junto com ela, um soluço que poderia escapar. Não queria se irromper em lágrimas. Não queria ser fraca. Sophia, então, puxou uma lufada de ar profunda e deu alguns passos até alcançar um banco de ferro, bem abaixo de um poste de luz, e se sentou, soltando a respiração calmamente.
Aquilo era importante porque ela acreditava que seria capaz de pelo menos tentar ficar com Ethan se ele tivesse falado antes. Se, depois da noite do ocorrido, ele tivesse ido até ela, verdadeiramente arrependido, contado o que houve e pedido para que ela o perdoasse. Ela provavelmente o perdoaria. Porque, apesar do erro, ele havia ido atrás de consertá-lo no momento em que percebera a burrada. Mas Ethan havia tentado conviver com isso – havia tentado viver como se nada tivesse acontecido, havia tido a coragem de tocá-la e beijá-la e amá-la do mesmo jeito... provavelmente carregado de culpa, mas ainda assim fazendo-o.
– Sophia – a voz carregada de Ethan quase a fez soltar um soluço.
Por que ele não ia embora?, ela se perguntava. Por que ele continuava lá? Será que ainda não estava satisfeito?
Rapidamente, ele estava agachado diante dela e suas mãos seguravam com firmeza em seu joelho. Sophia conseguia ver que ele estava suplicante, que seus olhos estavam marejados e que seu aperto carregava mais força do que era realmente necessário – como se ele quisesse ter certeza de que ela ainda estava ali.
– Por favor – sussurrou, e parecia carregar dor em cada sílaba –, por favor, me perdoa.
E ela sentiu como se todas as paredes que a mantiveram de pé durante todo aquele tempo haviam desmoronado. Porque o olhar de Ethan que não desgrudava do seu era tão intenso. E suas palavras carregavam uma sinceridade e uma dor quase palpáveis. As lágrimas saltaram de seus olhos e ela os fechou com força, pressionando os lábios para evitar que um soluço escapasse – porque isso seria demonstrar demasiada fraqueza.
E Sophia Welch soube de duas coisas naquele momento.
A primeira era que conseguia perdoar Ethan. Era capaz disso. Sabia que ele estava sendo sincero, que havia se arrependido do que fizera e da dor que causara como consequência. Porque, afinal de contas, aquele era Ethan. E, respirando fundo, ela fora capaz de lembrar-se da pessoa que ele era – se esquecendo completamente da parte em que ele a magoou como namorado. Ele havia sim ultrapassado os limites éticos, mas se arrependia verdadeiramente disso. E, se isso não era o suficiente para merecer perdão, Sophia não sabia o que era.
– Eu perdoo você – ela soltou num sussurro, sentindo o gosto salgado das lágrimas nos lábios.
Por alguns segundos, Ethan ficara completamente estático. De todas as coisas que esperava ouvir naquela noite, aquela sequer tinha chegado a sua cabeça. Nem em seus devaneios mais contentes esperava ouvir aquelas palavras com tanta clareza. E, se um dia havia imaginado que seria perdoado, com certeza não tivera noção de como era a sensação de se sentir leve como uma pluma. Leve, simplesmente leve. Havia sido libertado da única coisa que perturbava sua mente constantemente. A mulher que amava, mas acima de tudo sua melhor amiga, havia dito que o perdoava.
Então, depois de se ver preso na sensação que aquelas palavras causaram dentro de si, a primeira coisa que fez foi inclinar o rosto para frente para que pudesse alcançar os lábios de Sophia com os seus.
Porém ela virou o rosto. E as lágrimas, que estavam escassas, voltaram como cachoeiras.
Essa era a parte que doía.
Porque, a segunda coisa que Sophia soube... era que não conseguiria confiar em Ethan outra vez. Não como amante, não como namorado, não como o homem da sua vida. Confiava e sempre confiaria nele como uma pessoa, como um amigo, mesmo que a amizade que eles tiveram um dia nunca mais fosse voltar a ser a mesma, mas nada além disso.
– Mas não vou ficar com você outra vez – falou com a voz falhando, afastando o rosto alguns centímetros para poder focar melhor seu olhar no do homem agachado em sua frente.
E o que seus olhos mostravam machucava.
Mas Sophia estava fazendo aquilo por ambos.
– Você não me ama mais? – Ethan perguntou, mais inocente e desolado do que Sophia pensou que o veria um dia.
Ela balançou a cabeça.
– Amo – soltou, deixando escapar um soluço junto. Já não tinha mais controle. Estava liberando todos os seus sentimentos. – Acho que sempre vou amar.
– Então o que é? – Ele indagou, reforçando o aperto nos joelhos da mulher.
– Não sou capaz de confiar em você – respondeu, deixando sua voz sair elevada por causa dos soluços, mas sequer notando ou se importando com isso. Tudo o que importava era o homem de olhos marejados que, ao ouvir suas palavras, não foi capaz de segurar as lágrimas que caíram num choro silencioso. – Não como um parceiro, um amor. Gostaria de ser. Mas não sou. E não quero viver uma vida de inseguranças e incertezas, não quero viver uma vida que não vai me deixar em paz por não saber o que você está fazendo constantemente, não quero viver uma vida desconfiando de você. Porque eu não sei viver assim. Sei viver com confiança. E, se não tem isso – ela engoliu um soluço e respirou fundo, sentindo seu coração se apertar e quase a sufocar –, não tem nada.
Sophia colocou suas mãos sob as de Ethan e as apertou. E, quando depois de alguns segundos, ele permaneceu em silêncio, ela não achou que tivesse mais nada para dizer. Nem que tivesse forças para continuar ali sem desmoronar por completo. Precisava do seu apartamento, da sua janela e dos seus cigarros. Precisava pensar e chorar e sofrer porque, no dia seguinte, teria que acordar com a escolha que havia feito e viver com ela. Superá-la. Então ela afastou as mãos de Ethan de seus joelhos e se esquivou para o lado, levantando do banco.
– Eu sinto muito – falou, acariciando os cabelos de Ethan. Doía como nunca. Aquilo era definitivo, então. Era o fim. – Mas faço isso por nós dois. Nenhum de nós merece uma vida carregada de insegurança.
E se abaixou para deixar um beijo no nariz de Ethan, sem se importar com as lágrimas que poderiam molhá-lo – porque ele adorava beijos na pontinha do nariz, mas, principalmente, adorava quando vinham de Sophia.
Sophia o largou e se levantou. Olhou para Ethan uma última vez, agachado no chão, ainda sem saber o que fazer. Embora estivesse perto do apartamento, abanou a mão para um táxi, porque não tinha certeza de que conseguiria andar até sua casa sem desabar no meio do caminho.
O táxi parou e ela abriu a porta de trás, logo sendo impedida de entrar pela voz de Ethan:
– Eu amo você – falou, fazendo-a se virar para encontrá-lo já de pé, mas ainda no mesmo lugar de antes. – E também acho que sempre vou amar. E sinto muito pelo que fiz. Sinto muito por quebrar o que nós tínhamos.
A mulher balançou a cabeça e sorriu de lado.
– Eu sei – respondeu num sussurro, por fim se virando outra vez e entrando no táxi.
Ethan queria poder sentir alguma coisa além de um imenso vazio, porém não conseguia. Assistira a única mulher que amou em toda sua vida escorrer entre seus dedos. Causara isso. E, naquele momento, soube que não havia volta – que aquela decisão era para o resto da vida de ambos.
E, enquanto Sophia desabava dentro de um táxi com um homem que nunca vira na vida no volante, Ethan irrompeu sua dor num banco no meio de uma calçada qualquer, sem se importar com as pessoas que iam e vinham e assistiam sua dor.
...
– Você quer saber? – A voz de Claire soou estridente, enquanto a porta que ela havia acabado de escancarar batia com força na parede do escritório de Matthew. – Eu tenho um problema sim.
Depois de pensar muito, Claire havia decidido que seus hormônios estavam descontrolados demais para que ela simplesmente tentasse manter a calma e ficar de boca fechada. Se, há cerca de uma hora atrás, Matt, logo que chegou do trabalho e recebeu algumas respostas azedas da esposa, perguntara se alguma coisa estava errada, então ele teria a resposta. Alguma coisa estava muito errada. Na cabeça dela, pelo menos, estava.
– Pode dizer, princesa – ele disse, dando um sorriso de canto e tirando os óculos de grau que usava para prestar atenção unicamente na mulher.
Matthew sabia que aquele sorriso de canto poderia enfurecer ainda mais Claire, porque ela parecia estar espumando de raiva e um gesto como este só serviria para irritá-la ainda mais, mas não era como se ele pudesse evitar. Sorriria em todas as vezes que visse a mulher daquele jeito. Ela estava usando um vestido que ia até o joelho, o cabelo estava preso de qualquer jeito, a franja e alguns fios bagunçados; e ela tinha suas mãos apoiadas no próprio quadril, e Matt sabia que era por causa do peso da barriga. Se as bochechas rosadas de raiva não fossem motivo o suficiente para que ele a achasse incrivelmente bonita, sua barriga redonda era. Como se ele já não tivesse certeza de que Claire era a mulher mais bonita que ele já tinha visto na vida, ela se mostrara capaz de ficar ainda mais apaixonante enquanto grávida. Não saberia expressar com palavras o quanto a beleza da esposa, mesmo depois de mais de dez anos juntos, ainda o deixava perdido.
– Você tem sido o problema – ela disse e bufou. – Nem adianta me chamar de princesa, aliás, isso não vai te salvar da forca!
Ele soltou uma risada e pressionou os lábios, tentando escondê-la, quando o olhar de Claire se tornou no mínimo homicida.
– O que foi que eu fiz? – Perguntou.
Claire suspirou e andou em passos lentos até a cadeira que havia de frente para a mesa de Matthew, se sentando com um pouco de cuidado e lentidão.
– Você me deixa aqui, sozinha – ela murmurou, parecendo não mais zangada, mas sim magoada. – Tem trabalhado como nunca e... eu penso se... você se arrependeu?
– De quê, amor? – Matthew murmurou, finalmente ficando confuso e preocupado.
Ele se levantou de onde estava e deu a volta na mesa, se agachando na frente da esposa para que pudesse manter seus olhos presos aos dela. Ela soltou uma lufada de ar e seus olhos se encheram de lágrimas – e Matt sabia que aquilo era muito provavelmente por causa da sensibilidade da gravidez, mas, de qualquer forma, era de partir o coração ver aquele par de olhos verdes acastanhados que ele tanto amava prestes a transbordar por alguma coisa que não era felicidade.
– De se casar comigo – ela respondeu, tentando evitar piscar para que as lágrimas não caíssem. – De ter um filho comigo. Eu estou enorme e voc-
– Nem continue – Matt pediu, deixando um beijo entre as sobrancelhas de Claire para que ela relaxasse. – Eu te amo, entendeu? Eu não me arrependi, nem nunca vou me arrepender, de ter casado com você. Você grávida, Claire, é... – ele respirou fundo e fechou os olhos, puxando as mãos da esposa até deus lábios para que pudesse beijá-las. – É uma das coisas mais bonitas que eu já vi.
– Então por que você nunca está aqui? – Ela perguntou chateada. – Você não trabalhava tanto assim antes.
– Porque, meu amor, eu estou adiantando serviço pra poder te ajudar com Daniel quando ele nascer – foi o que Matt respondeu. – Quero poder ficar o tempo todo com você por, pelo menos, um mês. E, mesmo depois disso, vou trabalhar muito menos para te ajudar.
Claire mordeu o lábio inferior e sorriu minimamente, aproximando o rosto para poder deixar um beijo na boca do marido.
– Eu não tinha ideia – murmurou constrangida. – Sequer pensei nisso. Desculpa.
Claire e Matthew não formavam um casal de brigas, por isso toda vez que acontecia algo relativamente parecido com uma, eles ficavam sem saber muito bem o que fazer. Mas, dessa vez, Matt somente sorriu e deu de ombros, realmente não se importando com aquilo. O que importava era que eles já tinham resolvido o mal entendido.
– O que você acha de tomarmos um banho e depois deitarmos pra assistir um filme, hm? – Ele propôs, logo se levantando do chão e ajudando Claire a se levantar da cadeira. – Chega de trabalho por hoje.
Ela sorriu e acenou com a cabeça, deixando que seus dedos se entrelaçassem com os do marido para que ambos seguissem para o andar de cima. Porém Matt tinha os olhos arregalados e presos em algum ponto fixo do chão, e não deu ao menos um passo quando Claire o puxou pelo braço.
– O que foi? – Ela perguntou, as sobrancelhas franzidas enquanto olhava o marido.
– Amor, você derrubou água quando entrou? – Ele perguntou.
– Eu nem est- – Claire não fora capaz de completar a fala, pois no momento em que pensara nisso, a sensação de umidade entre suas pernas finalmente se fez presente. Talvez ela não tivesse notado antes pela ansiedade e o nervosismo, mas agora que havia sentido, era impossível ignorar. – Matthew, eu acho que você devia subir e pegar as malas e as chaves do carro.
O homem a olhou.
– Amor...
– A bolsa estourou, Matt – ela sussurrou, não conseguindo evitar o sorriso que demorou um milésimo de segundo para nascer em seu rosto. – Daniel está chegando.
...
Os dedos de Gabriel deslizaram mais uma vez pelos fios de cabelo ruivos da mulher aninhada em seu colo, escovando-os. Emma se sentia cada vez mais calma pelo carinho, era inacreditável e reconfortante a maneira com que o homem que a segurava com tanto amor tornasse tudo mais fácil – porém, ainda assim, não conseguia mais segurar as lágrimas. E, enquanto seus olhos transbordavam e suas palavras dançavam baixas pelo quarto escuro, tudo o que importava para Gabriel era ouví-la. Ouví-la e tentar fazê-la se sentir melhor.
Porque apertava seu coração vê-la daquela forma. Tão quebrada.
As luzes da cidade lá fora iluminavam um pouco o rosto de Emma e Gabriel podia ver as lágrimas que escorriam por seu rosto brilharem. Uma visão triste, porém inegavelmente bonita.
– Eu sei que isso parece ridículo – a voz doce e falha correu pelo silêncio do quarto, tão baixa que Gabriel não poderia ouvir se não estivesse com todos os seus sentidos voltados para aquela única mulher. – Não pense que não estou feliz por te ter aqui. Estou. Mas-
– Emma – ele cortou, tentando manter o tom de voz tão baixo quanto o dela. Gabriel não era um dos caras mais delicados do mundo, porém, se tinha alguma coisa capaz de deixá-lo tão amável como um filhote e sua mãe, era Emma. E ele sentia que aquele momento era uma coisa íntima demais para que o tom de sua voz ultrapasse o de um sussurro. – Tudo o que eu quero, nesse momento, é que você saiba que estou aqui por você. Para qualquer coisa. E quero te ouvir. Quero te fazer sentir bem, mesmo que demore. Quero você por completo, não somente em seus momentos felizes.
A ruiva ergueu seu rosto para poder olhar no rosto do homem que a segurava, afastando a cabeça de seu peito por aquele momento. Os olhos verdes de Gabriel ardiam com nada mais além de sinceridade. Não importava o sentimento que estava estampado ali, seus olhos sempre pareciam faiscar. Emma segurou o lábio entre os dentes e, agarrando com os dedos finos e delicados a camiseta de Gabriel, sentiu seu queixo tremer e pouco a pouco seu corpo enfraquecer.
– Me sinto quebrada – ela confessou num tom ainda mais baixo que o anterior, como se aquilo fosse difícil de assumir em voz alta. E de fato era. Emma poderia estar desmoronando por dentro, pedacinho por pedacinho, mas era capaz de contar nos dedos quantas vezes deixara que isso escapasse por seus lábios. – Como se eu não fosse conseguir melhorar outra vez. Porque dessa vez o corte foi mais fundo, Gabriel... meu próprio pai... meu... – ela pressionou os lábios, tentando ignorar as lágrimas e o bolo cada vez mais sufocante que se formava em sua garganta.
Antes que Emma tomasse um tempo para poder voltar a falar, Gabriel girou seus corpos num movimento rápido, deitando-os. Apoiou seu peso num dos braços e, com os olhos grudados nos azuis de uma ruiva assustada pelo movimento repentino, ele sorriu. Sorriu porque não era capaz de fazer outra coisa ao olhar para Emma. Gabriel não podia imaginar como ela estava se sentindo, mas sabia que faria de tudo para que melhorasse.
– Eu amo você – ele sussurrou, aproximando mais seu rosto ao de Emma e usando a mão que tinha livre para acariciar as laterais do seu rosto. A mulher sorriu, mesmo que estivesse confusa pela rápida mudança. – Você é a mulher mais bonita que eu conheço – continuou sussurrando, dessa vez beijando as pálpebras de Emma, que fechou os olhos quando ele se aproximou. – Você é forte sem nem perceber, inteligente sem se esforçar – Gabriel falava enquanto descia seus beijos pelo rosto de Emma; no nariz, nas bochechas, no queixo, nos cantos da boca. Até finalmente chegar aos seus lábios.
Emma suspirou quando Gabriel colou seus lábios aos dela.
E, com os lábios a nada mais do que um centímetro separados, ele voltou a falar.
– Eu sempre querer você. Nunca vou me cansar de você. Vou continuar perdendo minha respiração toda vez que você me olhar. Vou acordar todos os dias sabendo como sou sortudo por você me amar. Vou deixar você saber que é a única, que isso não vai mudar. Que você ainda tem meu coração batendo como um louco por você todos os dias.
A ruiva tinha um sorriso trêmulo nos lábios, e, enquanto Gabriel dizia aquelas coisas, todos os sentimentos ruins pareciam distantes demais para sequer serem notados.
– Eu não vou deixar você outra vez – ele murmurou, depositando um beijo lento na boca de Emma. – Me desmonta ver você desse jeito. Por isso quero passar minha vida empenhado em fazer você feliz. Todos os dias.
Emma, que até então tinha as mãos imóveis, levou uma para os fios de cabelo cor chocolate do homem acima de si, enroscando seus dedos por lá como tanto amava; e a outra usou para tocar seu rosto, o polegar acariciando a mandíbula definida e chamativa. Amava Gabriel tanto que, às vezes, parecia surreal.
– Eu também amo você – ela sussurrou com os olhos presos uns nos outros, sabendo que nada do mundo a faria se sentir daquele jeito como as íris verdes de Gabriel.
Parecia incapaz de dizer qualquer outra coisa. Incapaz de definir em palavras tudo o que ela ainda teria uma vida inteira para dizer a Gabriel. Todos os dias, como ele mesmo dissera.
Com o toque que recebia, Gabriel fechou os olhos, aproveitando da sensação que somente Emma era capaz de causar em si. E, mais uma vez, juntou seus lábios aos dela. Dessa vez, ele aprofundou o beijo, descendo sua mão para enroscá-la na parte de baixo do cabelo da ruiva e beijá-la com mais força. O coração de Emma ainda batia como da primeira vez em que se beijaram. A respiração de Gabriel ainda acelerava como da primeira vez em que a amou. Ambos ainda se beijavam como todas as vezes, brigando para mostrar domínio ao mesmo tempo em que eram submissos um do outro.
Gabriel apertou mais os fios ruivos em seus dedos e quebrou o beijo, puxando o lábio inferior de Emma entre os seus.
– Emma? – Ele chamou baixo depois de alguns segundos, os olhos fechados e testa colada a da ruiva.
– Hum? – Ela murmurou, suas mãos ainda acariciando o rosto de Gabriel e seu pé subindo e descendo lentamente pela perna dele. Estava com os olhos abertos, observando tudo no rosto do homem acima de si que as luzes da cidade permitiam que ela visse. Seu rosto parecia ter sido desenhado; a boca volumosa, a mandíbula firme e aparente, a barba alinhada e rala. Mas, ela sabia, aqueles eram apenas as pequenas coisas que a faziam amá-lo um pouco mais. O que importava de verdade era o seu jeito de falar, a gargalhada gostosa, o jeito orgulhoso e pomposo, a forma sutil com que ele mostrava inteligência, como ele era carinhoso com quem amava sem deixar isso transparecer, seu jeito de curvar os lábios num sorriso cafajeste, a maneira com que a puxava para si com força e delicadeza, como suas mãos pareciam cobiçá-la e tocá-la como se ela fosse um diamante raro. E como seus olhos a olhavam... como se ela fosse amada. E, depois de muitos anos, ela soube que era.
Gabriel então abriu os olhos, prendendo-os nos de Emma.
– Casa comigo.
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