Not Over You
30 Capítulo 29 - Trying to do the right thing
Notas iniciais
– Você me ouviu, Gabriel? – Claire perguntou mais alto, dessa vez realmente conseguindo chamar minha atenção para sua figura em minha frente, que se focou em meus olhos aos poucos.
– Ouvi, claro que ouvi – murmurei, puxando a gravata do meu pescoço e desfrouxando um pouco o aperto.
Ela suspirou e, apoiando a mão numa das cadeiras que ficavam de frente para a minha mesa, se sentou lentamente. Observei a barriga de Claire enquanto ela fazia o movimento para se acomodar na cadeira e fiquei surpreso ao perceber como sua barriga já estava grande. Na verdade, estava enorme.
Franzi as sobrancelhas.
– Esse bebê não vai nascer? – Perguntei, olhando-a nos olhos.
Ela abriu um sorriso enquanto me respondia:
– Estava previsto pra nascer no final desse mês ou no começo do próximo – respondeu, acariciando a barriga por cima do vestido que estava usando. – Mas, como eu vou fazer parto normal, preciso esperar a vontade dele...
Balancei a cabeça, compreendendo.
– Eu acho que você vai sentir muita dor – disse dando os ombros.
Claire arqueou ambas as sobrancelhas com minhas palavras e fez um biquinho.
– Obrigada pelo conforto – falou, fazendo-me abrir um sorriso e piscar os dois olhos ao mesmo tempo repetidas vezes.
Então ela soltou um suspiro e o olhar que carregava em seus olhos me fez parar de sorrir. Era aquela coisa misturada com pena e preocupação que só Claire conseguia ter e que me fazia sentir o pior tipo de ser da espécie humana. Encostei minhas costas na cadeira e soltei a caneta que estava segurando, observando brevemente os papéis que Claire havia colocado em minha mesa.
– Como você está? – Ela perguntou, mordendo o lábio inferior em receio.
– Bem – respondi breve, baixando meu olhar para a tela do computar e fingindo ver alguma coisa realmente importante do trabalho quando, na verdade, o que eu via era a foto de Emma sorrindo como plano de fundo.
– Você anda meio desligado ultimamente – ela falou devagar, puxando meus olhos de volta para si.
Claire não sabia, mas qualquer "a" seu me fazia olhá-la. Eu não conseguia simplesmente ignorar seus olhos ou o que ela dizia, mesmo quando eram sermões chato que eu, como mais velho, não precisava ouvir – apesar de que, nesses últimos meses, minha atenção estava um pouco distorcida de qualquer coisa.
– Impressão sua – disse sem esboçar emoção.
– Não é não – disse convicta, estufando o peitoral. – Você está fechado, Gabriel – semicerrei meus olhos pra Claire e ela revirou os dela. – Mais do que o normal... até mesmo Ethan disse isso!
Estalei a língua no céu da boca.
– Estou apenas pensando demais, Claire – falei sinceramente. – Sobre Emma.
Ela abriu a boca para responder, mas eu fui mais rápido, já imaginando o que ela me diria:
– Eu sei que ela está bem – sussurrei, baixando meus olhos para a mesa de madeira rodeada de papéis e bagunçada, quando normalmente está sempre organizada. – Sei que ela está superando tudo muito bem, Claire, e isso me mata...
Joguei a cabeça para trás e fiquei encarando o teto branco da minha sala, sentindo meus olhos se enxerem de lágrimas que insistiam em aparecer toda vez que eu falava de Emma, ouvindo a respiração alta da minha irmã e sabendo que ela me olhava com atenção e preocupação.
–... porque significa que acabou. E que eu a perdi.
– Gabriel, você-
Pigarreei, interrompendo-a, e voltei a olhá-la, fingindo que não tinham lágrimas em meus olhos e que, mesmo que tivesse, Claire não as podia ver.
– Eu adoraria ficar sozinho agora – fui breve e baixei os olhos para os papéis, começando a mexer neles e fingindo que eu me importava com aquilo.
Apenas ouvi os passos de Claire e em seguida a porta sendo aberta e fechada. Ergui os olhos apenas para ter certeza de que minha irmã havia ido embora, e após ver que sim, respirei fundo e voltei a jogar minhas costas na cadeira. Passei as mãos pelo cabelo, o despenteando, quando Emma passeou por minha mente como flashs. Seu sorriso, sua risada, suas palavras, seus carinhos, seus olhos, suas carícias, seus gemidos, seu corpo...
Fechei os olhos e engoli o nó que estava em minha garganta com dificuldade para impedir que as lágrimas que estavam em meus olhos caíssem – mas não era como se eu ainda tivesse algum controle sobre isso.
Eu estava enlouquecendo.
…
Aquela era provavelmente minha nona cerveja na noite – e eu estava ignorando os dois copos de whisky e a dose dupla de tequila que havia tomado um pouco depois de chegar, entre minhas três ou quatro primeiras cervejas. Ainda não passava da meia-noite e Darcy, o dono do bar em que estava, me olhava preocupado a cada nova cerveja que eu pedia. Não era como se eu já estivesse bêbado, ou como se eu me importasse com isso.
O bar de Darcy era como um pub. Haviam algumas mesas espalhadas pelo espaço, onde pessoas pediam porções de alguma coisa para comer e bebidas, enquanto algum desconhecido – normalmente talentoso – cantava músicas para climatizar o ambiente. E, apesar disso, também haviam aqueles, como eu, que ficavam sentados no bar, debruçados sobre o balcão e bebendo como os bons miseráveis que eram. Não que minha aparência denunciasse o que eu realmente era naquele momento, mas era isso que caras que estavam miseráveis faziam: bebiam sozinhos e sem pausa. Talvez fosse por isso que o bar ficava um pouco afastado das mesas e do palco e num lugar um pouco mais escuro – porque assim os miseráveis passavam despercebidos.
– Sabe de uma coisa, Gabriel? – Darcy indagou quando eu deslizei a garrafa de cerveja vazia pelo balcão do bar e fiz sinal para que ele me trouxesse outra. Arqueei uma das sobrancelhas, esperando que ele continuasse. – Eu acho que já chega pra você por hoje.
Revirei os olhos e puxei um dos cantos da boca num sorriso, de certa forma apreciando sua preocupação – ele estava, afinal de contas, tendo consideração por mim e não ligando para o quanto eu estava gastando e ele lucrando.
– Eu ainda estou bem, Darcy, confie – falei, e era verdade. Bem, mais ou menos, se eu ignorasse a minha visão um pouco embaçada e a facilidade com que tudo na minha cabeça estava perdendo o sentido.
Ele suspirou e pegou outra garrafa, a abrindo e me entregando.
– Vai beber sozinho a noite toda? – Perguntou, jogando um pano por cima do ombro.
Balancei a cabeça, negando.
Péssima ideia… talvez fosse melhor manter a cabeça parada.
– Ethan disse que estará aqui em alguns minutos – respondi. – Ele trabalha até às onze nos dias de semana.
Darcy inclinou a cabeça para o lado, me analisando.
– Você não parece bem – apontou.
– Talvez eu não esteja – rebati.
– E qual seu motivo dessa vez?
Suspirei e tomei um gole da cerveja, de repente amaldiçoando aquele pub por não me deixar fumar ali.
– O mesmo motivo de sempre.
Ele balançou a cabeça e, quando abriu a boca para dizer alguma coisa, uma loira se sentou no banco ao lado do meu, se debruçando sobre o balcão e recebendo tanto a minha atenção quanto a de Darcy.
– O que a senhorita deseja? – Ele perguntou simpático como sempre.
Ela sorriu e mordeu o lábio inferior, parecendo decidir o que queria tomar – seus lábios eram bonitos e volumosos, embora eu apenas estivesse vendo seu perfil. Desci meus olhos por seu corpo indiscretamente, vendo o vestido vermelho colado e curto que ela estava usando, deixando suas pernas quase inteiramente nuas, juntamente com, eu reparei, suas costas. Nem de longe ela tinha o corpo que Emma tinha. Era magra, e não tinha curvas definidas. Isso não a fazia menos feia, claro que não, até porque eu poderia ser o homem mais canalha do continente – mas havia aprendido desde cedo que cada mulher tinha uma beleza diferente. E, aparentemente, essa mulher sabia o que usar a favor da sua. Levantei meus olhos para seu rosto novamente e ela estava me olhando, um sorriso sacana dançando nos lábios.
– Gostou do que viu? – Perguntou.
Sorri de canto e me inclinei para o lado.
– Talvez – respondi sem qualquer real interesse, voltando a me escorar no balcão e tirando meus olhos dela.
– Talvez eu também goste do que vejo – falou enquanto Darcy se aproximava com seu drink.
Virei o rosto a tempo de vê-la colocando a taça fina e estreita na boca e tomando o líquido branco com os olhos presos em mim.
Dei uma risada sem humor e balancei a cabeça de um lado para o outro, voltando a olhar para frente e dando um generoso gole na minha cerveja. Aquela garota estava definitivamente flertando comigo. E ela era bonita, realmente bonita, e parecia que também era confiante – o que era atraente em qualquer mulher. O problema, no entanto, era que ela não tinha longos cabelos enrolados e ruivos, nem grandes olhos azuis puxados adoravelmente para os lados, muito menos as maçãs do rosto bem acentuadas e naturalmente rosadas... seu olhar e seu sorriso não eram dóceis e perigosos ao menos tempo, eu não tinha vontade de passear minhas mãos por seu corpo nem de ouvi-la gemer meu nome, tampouco beijar sua boca – ela não era Emma.
Depois de alguns minutos bebendo seu drink ao meu lado, a garota pareceu finalmente se tocar de que eu não estava interessado nela e que talvez ela devesse ir uns bancos para a direita, onde estava sentado um outro miserável – só que, aparentemente, mais interessado nela do que eu.
– Sabe, Gabriel – Darcy falou, voltando a ficar parado em minha frente –, eu não entendo como você ainda não está com aquela garota. Ou como você ainda é apaixonado por ela… Faz quase seis anos que você vem reclamar dela no meu bar.
Soltei uma risada e o olhei nos olhos.
– Estávamos namorando – expliquei. – Por isso fiquei uns meses sumido, ou você nem percebeu? – Arqueei uma sobrancelha e ele riu, balançando a cabeça, assentindo. – Só que nós terminamos.
– Posso saber por quê? – Perguntou levemente curioso, colocando as mãos no balcão e se apoiando.
– Por que mais seria?! – Ri sarcasticamente. – Porque eu sou um babaca.
Darcy arqueou as sobrancelhas, parecendo confuso e até um pouco surpreso já que eu estava finalmente aceitando que era um idiota, mas tão rápido quanto abriu a boca para retrucar a fechou. Então senti uma mão grande e pesada em meu ombro, apertando o lugar com força e, logo depois, uma voz grossa tão conhecida por mim falou:
– Eu não tenho certeza se você deveria beber.
Balancei os ombros e sorri de lado, sem precisar me virar para saber que o homem com o corpo tão alto quanto o meu se sentou no banco ao lado.
– Eu ainda estou bem, pai – murmurei, dando outro gole na cerveja, que já estava começando a ficar quente.
– Um whisky – ouvi ele pedindo para Darcy e, observando de canto de olho, vi quando ele virou para ficar de frente comigo e escorou seu braço no balcão.
Soltando um suspiro, me virei para Charles Harrison. Ele usava uma calça jeans comum e uma camisa preta com as mangas dobradas até o cotovelo, seu típico vestuário para qualquer lugar que ele fosse que não envolvesse o trabalho.
– O que faz aqui? – Perguntei, dando um último gole na cerveja antes de deslizar a garrafa pelo balcão por pura criancice.
– Sua mãe achou que eu deveria vir conversar com você – respondeu casualmente.
– É mesmo? – Indaguei com sarcasmo, me interrompendo para pedir para Darcy outra cerveja quando ele colocou o copo do meu pai em sua frente. – E por que?
Charles suspirou e deu um gole em sua bebida.
– Ela está preocupada, Gabriel – disse. – E, sinceramente, até eu estou.
– Olha, eu-
– Você não pode esquecer o que aconteceu da última vez que a Emma te deixou – me interrompeu, soando bravo e ao mesmo tempo compreensivo. – E dessa vez, apesar de não ter brincado com a sua vida, você está se tornando um nada… e isso é preocupante.
Pisquei lentamente, surpreso, alcançando a cerveja no balcão cegamente e tomando um gole antes de responder meu pai:
– Eu estou bem – balancei a cabeça, piscando repetidas vezes ao ver tudo a minha volta girar e sentir meu corpo pender levemente para o lado.
– É, estou vendo que sim – Charles falou, segurando meu braço para me ajudar a retomar o equilibro.
Ficamos em silêncio depois disso. Eu continuei bebendo minha cerveja enquanto meu pai terminava seu copo de Whisky e logo pedia por outro. Não sabia que horas eram e muito menos conseguia enxergar os números e os ponteiros do meu relógio de pulso, mas não devia ser muito tarde. A única coisa que tive certeza foi que pedi por outra cerveja, e depois outra. Observei as pessoas perambulando, ouvi vozes e risadas altas, vi mulheres bonitas me olhando… e vi casais.
E lembrei de Emma. E todas as coisas que fizemos e passamos juntos. Como sempre. Cada segundo era uma lembrança que saía de um lugar fundo da minha cabeça. Eram coisas de anos atrás misturadas com coisas do nosso relacionamento recente. Era tudo. Tudo sobre Emma. Tudo sobre ela e o que ela me fazia sentir. Tudo sobre cada beijo, cada toque, cada palavra, cada conversa, cada abraço. E lembrar era como sentir que estava acontecendo outra vez – lembrar de seus lábios nos meus dava a mesma sensação que estar de fato beijando-os, a forma como meu coração acelerava e como minhas mãos criavam vontade própria e passeavam instintivamente por cada parte de seu corpo, o barulho gostoso e reconfortante que seus lábios faziam contra os meus, a maneira com que suas mãos pequenas eram capazes de arrepiar até meu último fio de cabelo... era como se eu vivesse tudo isso. As lembranças pareciam a única coisa que ainda me mantinha totalmente de pé.
– Eu acreditei nela no momento em que ela saiu pela porta do quarto – falei de repente. Era mais como se eu revelasse aquilo a mim mesmo, porém sabia que meu pai estava ali ouvindo tudo. – Eu sabia que ela estava falando a verdade, era notável em seus olhos o tempo inteiro. E sabia que ela estava magoada.
– Então por que? – Ele perguntou levemente confuso.
– Porque eu não percebi que confiaria nela até de olhos fechados na beira de um penhasco – falei, virando para encará-lo. – Eu não percebi naquele momento. Era uma coisa que estava em mim, mas que eu me recusei a ver. Porque ver significa me arriscar. Porque é isso que Emma significa: arriscar todas as certezas que eu tive a vida toda, ignorar todos os pensamentos egoístas e protetores que gritam na minha cabeça dizendo que se apaixonar não é saudável e que eu vou me ferrar. Porque Emma faz eu me arriscar. Ela faz as coisas mais babacas parecerem as mais bonitas, e as mais difíceis parecerem as mais simples.
Balancei a cabeça, sentindo lágrimas se acumularem em meus olhos.
– Eu tenho vontade de ser alguém melhor quando estou com ela – murmurei, prendendo meus olhos nos do meu pai. – Eu de repente me torno alguém romântico e clichê e possessivo. Ela é capaz de tirar cada gota de controle do meu corpo com tanta facilidade. E eu não consigo imaginar ela com outra pessoa. Porque dói. Mas ao mesmo tempo é isso o que eu quero pra ela, porque me convenci de que eu não sou digno o suficiente de tudo o que ela é.
Engoli o nó em minha garganta, ignorando o olhar espantado que Charles tinha.
– Tantas vezes eu fui um babaca e ela voltou pra mim, tantas vezes eu a tratei mal e ela sempre continuou me olhando da mesma forma, tantas vezes eu sei que a fiz chorar e ela ainda era capaz de sorrir aquele sorriso maravilhoso pra mim depois, tantas vezes ela foi a única capaz de me fazer sentir melhor só com um olhar. Ela se isolou da própria vida por minha culpa. E, mesmo depois de tudo isso – suspirei falhadamente, deixando que algumas lágrimas escapassem por meus olhos –... mesmo depois de tudo isso, ela ficou comigo... ela me perdoou.
Passei as costas das mãos pelo rosto, espantando as lágrimas derramadas que, uma vez libertadas, continuaram caindo.
– E quando eu disse que não acreditava nela... ela sequer sentiu raiva. Ela só ficou magoada. Mas continuou me olhando do mesmo jeito. Com aqueles olhos cheios daquele sentimento incondicional e... – respirei fundo – que tira meu fôlego. Aquele sentimento que eu sei que não mereço.
– Então você simplesmente desistiu? – Charles perguntou direto e inabalável, embora seu olhar ainda mostrasse surpresa por eu estar me abrindo daquele jeito e chorando. – Desistiu da mulher que virou a vida do avesso por você e por quem você claramente fez o mesmo? Resolveu jogar para o alto tudo o que ela fez, foi e é pra você?
– Não é assim – disse firme, quase bravo. – Ela apenas merece coisa melhor.
Meu pai balançou a cabeça de um lado para o outro, levantando-se do banco e tirando a carteira do bolso.
– Não é você quem decide o que é melhor pra ela – falou, enquanto tirava algumas notas da carteira e jogava em cima do balcão. – A única coisa que você pode fazer é mostrar as opções e deixar que ela escolha o que quer.
E, quando se preparou para sair andando, parou no mesmo lugar e se virou para se certificar de estar olhando em meus olhos enquanto dizia:
– Sabe, filho, a pior coisa do que não conseguir alcançar a felicidade é tê-la nas mãos e deixar escapar.
E dito isso se virou e saiu, me deixando sozinho outra vez.
...
– Gabriel, Gabriel! – Ouvi Ethan chamando enquanto chacoalhava meu corpo loucamente.
Grunhi algum palavrão e tateei cegamente em minha volta para tentar acertá-lo com um murro para que ele me deixasse em paz... mas não encontrei nada.
– Gabriel, acorda! – Ele praticamente urrou, dessa vez chacoalhando não só a mim como também a cama.
– Mas que caralho, Ethan – bufei, abrindo os olhos e me arrependendo no segundo seguinte.
Abrir os olhos, além de feri-los, foi como puxar a argola da granada que era minha cabeça.
Pisquei diversas vezes, tentando me acostumar com aquela luz fodidamente brilhante e a dor que estava praticamente surrando minha cabeça. E então percebi que Ethan estava ao meu lado, de joelhos na cama e tinha os olhos arregalados e ansiosos. E estava branco como um fantasma.
– Alguém morreu? Porque é bom que sim pra você ter me acordado desse jeito – murmurei e ele suspirou, logo ficando de pé ao lado da cama.
– Chegou uma carta pra você – explicou como se isso fosse a resposta para a solução da fome na África.
Travei os maxilares e o olhei com tanta raiva que realmente desejei que eu pudesse matá-lo apenas com um olhar.
– Você me acordou por causa de uma porra de uma carta? – Grunhi, levantando o tronco do corpo e afundando o rosto nas mãos.
– Não, Gabriel – ele falou de uma forma tão estranhamente séria que eu o olhei na mesma hora. – Eu te acordei por causa de uma porra de uma carta de Peter Carter.
– O que? – Indaguei num sussurro, espantado.
Talvez nada na vida fosse me surpreender mais do que aquilo
Ethan jogou um envelope pardo e grande em minhas pernas e eu o peguei no mesmo instante. Estava endereçado para o meu apartamento e o remetente realmente era o pai de Emma. E o destinatário era eu.
Que. Inferno.
– Abre isso logo, vamos – Ethan apressou, se jogando na minha cama. – E leia alto, por favor.
Com um suspiro, abri o envelope. Dentro dele havia outro envelope, mas esse era amarelo e pequeno, e também havia um papel branco com algumas coisas escritas numa letra um tanto quanto difícil de entender. Peguei o papel e comecei a ler. Alto.
– “Eu realmente não gosto de você” – comecei, sendo rapidamente interrompido pela gargalhada alta do meu melhor amigo.
– Que forma mais delicada e sincera de começar – comentou.
– Cala a boca – o cortei. – "… mas, como um homem que já fez muitas coisas erradas e tem noção disso agora, essa é a minha tentativa de fazer alguma coisa certo. E eu realmente espero que funcione. Esse envelope amarelo é uma carta da Emma… para você. Eu não sei se ela pretendia te entregar em algum momento ou não, mas a deixou aqui por um acidente desagradável. E talvez, apenas talvez… você seja a única pessoa capaz de fazê–la feliz. Principalmente nesse momento. Eu não sei o que você sente por ela, mas se sente alguma coisa, essa carta pode ser o empurrão que falta para que você vá atrás dela. Apenas faça isso, Gabriel. Das pessoas que eu conheço, Emma é, de todas, a que mais merece ser feliz."
– Uau! – Ethan sussurrou.
Balancei a cabeça, concordando. Eu não sabia exatamente o que pensar. A única coisa que consegui fazer naquele momento foi pegar a carta amarela rapidamente, ignorando Ethan se levantando para ir atender o telefone que tocava absurdamente alto e que por mim continuaria assim, e rasgar o envelope sem pudor, arrancando de lá dois papéis com a letra redondinha e alinhada de Emma.
"Não sei como começar uma carta que não vai chegar em suas mãos.
Só queria encontrar uma forma de não me afogar nos meus sentimentos, de superar pelo menos um pouco a saudade que tenho de você… parar de pensar, todas as noites antes de dormir, como estaríamos se ainda estivéssemos juntos, como funcionávamos bem, como nossa relação, pelo tempo curto que durou, foi boa, foi completa – apesar de as brigas idiotas por ciúme sem motivo."
Dei uma risadinha porque, realmente, eu era muito ciumento e implicava muito com Emma, mesmo que ela não tivesse culpa dos olhares que recebia e eu soubesse disso.
– Gabriel – Ethan chamou, estendendo o telefone na minha frente –, é pra você.
– Estou ocupado – respondi sem ao menos olhá-lo, querendo voltar minha atenção para a carta.
– Gabriel – ele chamou outra vez, dessa vez com mais firmeza, sem mover a mão de onde estava. Eu o olhei.
E, se achava que ele estava pálido quando me entregou o envelope de Peter, era porque ainda não tinha ideia do quão branco Ethan podia ficar. Ou verde. Parecia que ele ia vomitar a qualquer momento. E eu não sabia bem como interpretar aquilo.
– É pra você – falou sem tirar a expressão do rosto, balançando a mão quase imperceptivelmente. – E eu juro por Deus, Gabriel, se eu morrer de ataque no coração hoje, a culpa é sua.
Com certo receio, peguei o telefone da mão dele e o levei até o ouvido.
– Oi?! – Falei vacilante… algo que deixasse Ethan dessa forma não devia ser lá muito leve.
– Gabriel? – Uma voz rouca soou do outro lado. Eu a conhecia de algum lugar.
– Sim… – respondi arrastado.
– Aqui é a Sophia – falou casualmente.
Arregalei os olhos, virando o rosto para olhar Ethan e ele parecia… atordoado. O olhar perdido numa das paredes do meu quarto e ainda tinha a mesma cor no rosto. Eu estava começando a achar que ele desmaiaria.
– Sophia Welch – acrescentou, chamando minha atenção para si outra vez. – E eu liguei porque precisamos conversar.
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