Not Over You

14 Capítulo 13 - Says to me


Notas iniciais
Heeey cogumelos.
Não vou falar muito hoje, porque eu estou chateada u.u Pessoas, eu sei que teve um intervalo maior entre o capítulo 11 e o 12, mas a quantidade de comentários do capítulo passado me desanimou. Cara, sou muito grata por meus leitores, pelos que deixam comentários principalmente, mas eu fico verdadeiramente magoada quando a quantidade de comentários cai drasticamente de um capítulo para o outro D: Precisava desabafar isso com vocês.
Enfim, queria agradecer a Lu e a Biah, que deixaram duas recomendações mais do que perfeitas para NOY. Sério, meninas, eu fiquei imensamente feliz quando vi as recomendações de vocês. Estava na escola e comecei a pular e gritar como uma louca, AUAHSUHAUSH. Então, obrigada mesmo. Me deixou superanimada para escrever!
Antes de deixar vocês partirem pro capítulo, queria dizer que está chegando um momento da história pelo qual eu estou muito ansiosa desde que comecei a escrever. E, pelos comentários, acho que vocês estão tão ansiosas quanto eu. Ui, o que será? Haha.
Espero que vocês gostem desse capítulo tanto quanto eu gostei.
Enjoy :3

– Emma! – Gabriel gritou, o corredor escuro e comprido fazendo ecos de sua voz.

Ignorei. Estava com tanta, mas tanta raiva de Gabriel. E, aparentemente, ele também estava com raiva de mim. E talvez esse fosse meu único conforto naquele momento. Deixar Gabriel com raiva era prazeroso quando eu estava na mesma situação. Eu me sentia no mesmo nível que ele.

– Será que dá pra parar? – Falou com a voz normal, mas mais baixa e mais próxima do que deveria.

Senti sua mão grande e quente agarrar meu braço com força, puxando-me, fazendo-me dar uma volta completa e ficar de frente para ele. Como se estivesse pensando naquele movimento antes mesmo de fazê-lo, logo que fiquei de frente para ele, Gabriel empurrou meu corpo para a parede, prensando-me entre ele e ela.

Como ele havia chegado até mim tão rápido?

Ele segurou meus pulsos quando comecei a me debater para sair dali, e os segurou acima da minha cabeça, fazendo força para que suas pernas imobilizassem as minhas. Minha respiração estava acelerada, e parecia que tentar acalma-la só piorava a situação. Meu coração batia forte no peito, e pulsava raiva.

Alguns segundos se passaram com nós dois naquela posição quando ele finalmente resolveu falar alguma coisa.

– Acho que foi extremamente infantil o que você fez – sussurrou em meu ouvido, sua voz soando raivosa e perigosa, mas ainda assim sedutora, fazendo os pelos da minha nuca se eriçarem.

– Não sei do que você está falando – falei, dando um sorrisinho cínico quando ele afastou a cabeça para olhar meu rosto.

Mesmo no escuro podia ver seus olhos queimando de raiva e desejo. Exatamente como os meus deveriam estar.

– Beijar outro cara só porque eu estava com aquela loira? – Ele perguntou, mantendo o tom de sua voz controlado e perigoso, deixando um sorriso tão cínico quanto o meu nascer em seus lábios. – Infantilidade pura.

– Qual é, Gabriel – falei, aumentando ainda mais meu sorriso de vadia cínica que ele tanto odiava ver em meus lábios. – Nós dois sabemos que se eu quero beijar ou transar com algum cara, não tem nada a ver com você.

O sorriso cínico sumiu de seus lábios, e ele apertou meus pulsos com mais força, fazendo-me arfar. E depois colou ainda mais nossos corpos, ainda que eu não entendesse como aquilo era possível, fazendo com que respirar se tornasse uma tarefa um pouco complicada.

– Você é minha, Emma – falou possessivamente, parecendo mais um cão raivoso rosnando. Então abaixou sua cabeça e começou um caminho de beijos molhados por meu pescoço e colo, como se quisesse provar que eu era dele...

...Como se eu não soubesse.

Aos poucos, Gabriel soltou meus braços, e dirigiu sua mão para a lateral de minhas coxas, puxando a barra do meu vestido para cima e depois fez força com as minhas pernas para cima, fazendo-me ficar suspensa sobre seu colo. Ele subiu sua boca, obrigando-me a jogar a cabeça um pouco para trás, e começou a mordiscar e beijar minha mandíbula e meu queixo, enquanto eu tentava, quase inutilmente, manter o controle.

Coloquei as mãos em seu peito, tentando afasta-lo de mim. Mas àquela etapa do nosso "relacionamento", eu sabia que aquilo não adiantaria de nada. Gabriel era muito mais forte do que eu, e minha pequena força desaparecia diante da sua.

– Emma? – Ouvi alguém chamar distante de mim.

Senti as mãos de Gabriel subindo ao londo das minhas coxas, deixando meu vestido mais parecido com uma blusa do que qualquer outra coisa. Estremeci quando seus dedos chegaram ao cós fino da minha calcinha de renda. Gabriel afastou o rosto, olhando nos meus olhos com um sorriso malicioso e quase sincero.

Ele simplesmente adorava quando eu usava lingerie de renda. E eu nem sabia por que.

– Você sempre vem pronta pra mim, amor – sussurrou, atacando minha boca com a sua ferozmente, deixando transparecer todo o seu desejo. E me mostrando que eu estava ansiosa por aquele contato desde que sua mão segurou meu braço e seu corpo prensou o meu contra a parede.

– Emma? – Ouvi a voz me chamar novamente.

Abri meus olhos lentamente, vendo Ian debruçado por cima de mim no sofá, olhando-me com uma expressão de curiosidade e uma das sobrancelhas arqueadas. Pisquei algumas vezes e virei o rosto, vendo os créditos do filme que eu deveria ter assistido com Ian passando na tela da televisão.

– Não acredito que peguei no sono – falei, tentando não me sentir culpada por sonhar com Gabriel enquanto dormia nos braços de Ian. – Desculpe – pedi, e Ian se levantou aos poucos, assim como eu segundos depois.

– Não tem problema – ele falou com um sorriso. Mas não sincero como de costume. Tinha algo de diferente. Algo que me deixou desconfortável. – Você estava mesmo cansada.

Assenti com a cabeça, com um curto sorriso de canto.

Incomodada com o silêncio, me levantei do sofá quase que de imediato, e comecei a andar em direção à cozinha, ouvindo os passos leves e lentos de Ian e sabendo que ele estava me seguindo.

– Quer tomar alguma coisa? – Perguntei, abrindo a geladeira e começando a procurar alguma coisa para beber.

– Não, linda, obrigado – ele falou e eu peguei uma lata de Coca-Cola para mim, fechando a geladeira e me virando para vê-lo encostado no balcão, me analisando. – Na verdade, eu preciso ir agora.

– Bem – comecei, então olhei para o relógio pendurado ao lado da geladeira e vi que já eram duas da manhã –, tudo bem.

Ian e eu nos despedimos com um beijo lento e carinhoso antes que eu abrisse a porta. Um beijo diferente dos outros, um beijo em que ele se entregou de um jeito inimaginável, tocou-me com delicadeza, mas com firmeza. Tocou-me de um jeito que nem mesmo Gabriel havia feito. Se eu não soubesse que nós havíamos marcado de nos encontrar para almoçar no dia seguinte, diria que era como um beijo de despedida.

Desliguei a televisão e fui para o quarto, vesti um short de malha e um blusão dos Rolling Stones e me deitei na cama, tentando não pensar em como Ian pareceu diferente depois que eu acordei. E tentando acreditar que o fato de que às vezes eu falasse em quanto dormia não tinha nada a ver com isso.

(...)

A campainha do apartamento me despertou. E mesmo que eu tenha tentado ignorar e voltar a dormir, não funcionou. Seja lá quem quer que fosse, estava mostrando que não desistira até que eu abrisse a porta.

A impressão era de que eu não havia dormido nada, e tive certeza quando olhei meu celular e vi que ainda eram três e meia da manhã. Uma hora e meia não era nada.

E provavelmente era uma hora horrível para alguém tocar a campainha. Mas a pessoa insistente que havia acabado de tocar a campainha, pela sei lá, vigésima vez?, não parecia perceber isso.

Ignorei o fato de que estava dormindo com um short minúsculo e me levantei da cama, indo diretamente para a porta de entrada do apartamento com a minha melhor cara de poucos amigos, desejando que o acéfalo que estava do outro lado da porta percebesse o incômodo e fosse embora para que eu voltasse a dormir.

Abri a porta e me assustei instantaneamente ao dar de cara com...

– Gabriel? – Indaguei surpresa, vendo-o parado há poucos centímetros da minha porta, com as duas mãos na cintura e com uma expressão um tanto quanto incomodada. – O que diabos você faz aqui?

– Emma, há quase dois meses que eu não consigo ter uma noite de paz – ele falou de um modo que parecia mesmo que aquilo explicasse tudo.

Fiquei alguns segundos em silêncio, esperando que ele dissesse mais alguma coisa, mas não. Gabriel apenas ficou parado, olhando nos meus olhos como se tivesse sido muito explícito.

– E...? – Incentivei, mas logo continuei a falar. – Não, quer saber? O que isso tem a ver comigo? Eu consigo dormir. Então tchau.

Fechei a porta em sua cara. Ou pelo menos tentei. Porque quando ela estava prestes a se fechar, Gabriel colocou o pé na frente, impedindo que isso acontecesse.

– É sério, Emma – falou, tirando meus olhos de seu pé intruso e fazendo-me olhar em seus olhos outra vez. – Temos uma conversa inacabada. E eu não vou conseguir pregar os olhos até que nós conversemos. E também não vou deixar que você o faça.

Pensei por alguns segundos, mas logo vi que não havia saída.

Suspirei e abri a porta, dando espaço para que ele entrasse no apartamento. E eu sabia que podia simplesmente fechar a porta em sua cara ou começar a gritar por socorro e depois deitar na cama com os fones de ouvido para não escutar a campainha tocando sem parar...mas Gabriel tinha razão. Precisávamos conversar. Por mais que aquilo fosse doer. Ele já sabia sobre o bebê, sobre meus sentimentos e o tamanho da dor que eu senti. A verdade já estava ali, estampada em nossa cara. O que nos restava era conversar, colocar tudo a limpo. E quem sabe isso me ajudasse a seguir em frente sem a sensação de que, se nós tivéssemos sido sinceros, as coisas poderiam ter sido diferentes.

Esperei alguns segundos antes de fechar a porta e seguir com Gabriel até a sala. Respirei fundo e tentei manter minha mente calma, então caminhei até onde ele havia ido.

Gabriel estava sentado no sofá, com uma blusa branca de manga comprida e tecido fino — ele adorava essas blusas -, calça jeans escura e um par de tênis social. Aos poucos, ele levantou o rosto, então deu um sorriso de canto ao me encontrar encarando-o. Mas não era um sorriso no estilo de Gabriel, era um sorriso forçado. Dei dois passos para frente, virando o rosto para os dois lados, como se buscasse uma saída daquele fogo cruzado, mesmo sabendo que não havia uma.

Soltei a respiração que eu nem ao menos tinha percebido que estava segurando. Ela saiu falha.

– Então... – falei depois de alguns segundos em silêncio, depois de esperar que Gabriel falasse alguma coisa. – O que exatamente está fazendo aqui?

Dei alguns passos em direção ao sofá, ficando há uns dois metros de distância de Gabriel.

– Eu vim falar com você, Emma, já disse.

Baixei os olhos, sem vontade ou coragem de encara-lo. Eu sabia que ao deixa-lo entrar no apartamento, estava aceitando aquela conversa. Eu achava que era o certo. Mas vê-lo ali, prestes a começar uma coisa que eu não sabia se teria forças para terminar...acabava comigo. Destruía aos poucos minha coragem.

– Eu não acho que nós...

Gabriel me interrompeu:

– Tenhamos algo para conversar...eu sei, eu sei o que você pensa, Emma, eu simplesmente não aceito.

Suspirei pesadamente.

Eu sabia disso. Gabriel nunca aceitaria meu silêncio, seria ingenuidade pensar o contrário disso. Ele nunca aceitou o silêncio de ninguém, nunca aceitou o fato de que não tinha as respostas que queria e quando queria...era orgulhoso demais pra isso, e curioso também. Mas, ao contrário do que eu imaginei, ele não parecia disposto a me forçar a dizer a verdade. Parecia simplesmente...interessado. Interessado ao ponto de lutar pelas respostas que queria.

– O que você quer conversar, Gabriel? – Perguntei, erguendo os olhos, encarando-o em uma tentativa de mostrar coragem e frieza, e talvez assim ele entendesse que era melhor ficar longe de mim, talvez ele resolvesse me deixar em paz.

– Que tal se nós tentarmos ter uma conversa sem gritos e palavrões? – Ele perguntou com a voz cuidadosa, dando um sorriso de canto, me encarando com aquele par de olhos verdes intensos que me faziam afogar em um horizonte sem fim, fazia-me esquecer de tempo e espaço, e quase conseguia me influenciar a cometer loucuras por um amor doentio, perigoso, mergulhado em mágoas.

Respirei fundo. Andei em direção a uma mesinha que ficava de frente para o sofá, de frente para Gabriel, e me sentei nela. Gabriel apenas apoiou os cotovelos nas pernas e ficou me encarando por alguns segundos.

Era uma péssima ideia. Estar com ele em um lugar fechado, apenas nós dois, um sentindo apenas a presença do outro e a de mais ninguém. Ouvindo sua voz. Ouvindo sua voz provavelmente falar de nós dois, do bebê, das mágoas. Porque eu era inteligente o suficiente para saber que a conversa não ficaria só em nosso bebê. Mas mesmo assim, eu não sabia o que iria ouvir. Nunca seria imune a Gabriel, e não sabia no que estava me metendo quando ele convenceu tão facilmente a aceitar uma conversa, quando eu pensei que aquela conversa poderia ser uma boa ideia. Eu certamente não sabia o que prever.

– Então – comecei. – O que você quer falar, Gabriel? – Perguntei. – O que você quer ouvir?

Ele suspirou alto e calmamente. Fechou os olhos e subiu a mão direita, prendendo seus dedos ás suas pálpebras com certa força, então sua mão subiu por seu cabelo, o desarrumando.

– Quero conversar sobre muitas coisas, Emma – falou, dando mais um suspiro, parecendo perdido pela primeira vez em anos. Gabriel raramente ficava daquele jeito, sem saber o que dizer ou o que fazer. – Mas primeiro, só quero entender por que não me falou sobre o bebê.

Meu coração batia forte e acelerado e havia chegado a hora de conversar sério com ele. Aquele tipo de conversa que nós dois nunca tivemos. Não haveria beijos, nem tentativas de Gabriel em me levar pra cama e simplesmente esquecer nossa discussão. Olhando em seus olhos eu podia ver que sim, ele queria mesmo saber a resposta. Ele queria que eu olhasse no fundo de seus olhos e dissesse a verdade. Gabriel não estava indiferente e pela primeira vez eu podia vê-lo de verdade, ele não estava nem tentando esconder o que estava sentindo. Era como se quisesse me mostrar. Era como se ele quisesse que eu visse.

– Eu já te respondi isso, Gabriel – disse, deixando minha voz mais controlada e fria do que realmente gostaria.

– Você realmente acha que alguma coisa seria mais importante que esse bebê, Emma? Acha mesmo que eu sou tão egoísta a ponto de não dar a mínima para o fato de que você tirou um bebê meu? Nosso?!

Mordi meu lábio inferior, sentindo meu queixo tremer e meus olhos arderem, ameaçando se encherem de lágrimas a qualquer momento. Gabriel estava falando comigo com tanta calma e tanto controle que eu comecei a pensar que seria melhor se ele gritasse, se ele me fizesse sentir raiva. Assim eu não me lembraria com tanta nitidez do que passei.

– Você começou a se mostrar assim depois que nos envolvemos, Gabriel – falei sinceramente, mantendo meus olhos azuis em seus olhos verdes. – Como você queria que eu me sentisse se você nunca demonstrou se importar?

– Eu não sabia que precisava mostrar, Emma.

– Não precisava, de fato – admiti, engolindo todo o desespero que começava a se espalhar por mim naquele momento. Eu estava mesmo conversando com ele sobre nós, sobre tudo. Mal conseguia acreditar. – Mas que ao menos me tratasse melhor, não só como uma garota que passava as noites com você.

– O que quer dizer com isso? – Perguntou, esticando o pescoço para ficar mais perto de mim, para que eu conseguisse enxergar aquele brilho diferente em seus olhos.

– Quero dizer que, quando não estávamos transando, você me tratava como uma qualquer, como se eu fosse mobília velha – falei, sentindo a mágoa se apertar em minha garganta.

– Você está sendo injusta – ele falou, e pude ouvir sua voz falhar.

– Estou, Gabriel? Tem certeza disso? – Perguntei retoricamente, sentindo uma lágrima escapar do meu olho direito e escorrer por minha bochecha. – Vai me dizer que não agia diferente quando terminávamos de fazer sexo? Vai me dizer que você não ficava alguns dias evitando minhas ligações depois que nossas relações eram mais intensas do que o normal? Ah, vai me dizer que você não ignorava minha raiva e me fazia deitar com você mesmo sabendo que aquilo seria uma humilhação pra mim? Vamos, Gabriel, diga olhando nos meus olhos. Diga que você não fez nada disso.

Gabriel não disse nada, apenas ficou olhando nos meus olhos por um tempo indeterminado. Mas, ao ver que eu não iria interromper nosso contato visual, ele o fez. Olhou para a janela de vidro, contemplou o céu arroxeado por um ou dois minutos, e só então voltou a me olhar nos olhos.

– Nossas relações sempre foram intensas – falou, fazendo-me soltar uma risada sarcástica. – E especiais.

Não falei nada, não tinha o que falar. Gabriel dificilmente aceitaria a verdade algum dia.

– Então – ele começou, quebrando o silêncio de poucos segundos que se instalou entre nós dois. –, você não me contou por que não confiava em mim?

– Não – respondi. – Isso não tem nada a ver com confiança, Gabriel... Não te falei porque você não se importaria. Você sempre teve coisas mais importantes na vida.

– Nada seria mais importante pra mim do que isso – falou e eu sorri de canto.

Gabriel baixou os olhos e começou a brincar com seus próprios dedos, sem dizer mais nada.

Embora eu achasse que Gabriel tinha coisas mais importantes na vida, embora achasse que ele realmente não se importaria com o bebê... eu sabia que estava errada. Gabriel era, querendo ou não, o pai daquela criança. Ele merecia saber como e quando eu o havia perdido. Mas eu, por medo, preferi me manter calada. Achei que a melhor opção fosse viver com aquela dor só pra mim. Mas talvez não fosse.

– Desculpe – falei baixo, fazendo Gabriel erguer os olhos para mim novamente. – Eu deveria ter contado, sinto muito. Mas, mesmo assim, quero que entenda o meu lado.

Ele assentiu e disse, com a voz baixa e rouca:

– E eu entendo.

Ficamos nos olhando por algum tempo, sentindo a tensão entre nós diminuir aos poucos.

Eu queria muito saber como Gabriel tinha ficado sabendo do bebê, queria muito que ele respondesse a uma dúzia de questionários meus. Mas, além disso, queria que ele fosse embora e me deixasse deitar na cama e ficar só na presença de mim mesma e dos meus pensamentos perturbados e incertos. Queria que aquela madrugada acabasse logo.

– Bem, se era isso... – comecei, levantando da mesinha de centro da sala e olhando para a direção que dava para a porta do apartamento. Mas Gabriel não me deixou terminar de falar. Ele me puxou pela mão, fazendo-me cair em cima de si e arfar de surpresa.

Minhas pernas caíram exatamente uma de cada lado de sua cintura, dobradas. Olhei para o meu braço levantado, vendo uma de suas mãos segurando meu pulso e fiquei sem saber o que fazer por algum tempo. Mas, ao começar a sentir vontade de abraça-lo, comecei a me levantar, fazendo um pouco de força para que Gabriel soltasse meu pulso.

Ao notar o que eu estava fazendo, Gabriel segurou meu outro pulso com sua mão livre e forçou meus braços para baixo, fazendo-me voltar a ficar sentada em seu colo. Ele então passou meus braços para trás, segurando-os firmemente em minha cintura e fez força com as mãos para frente, fazendo meu corpo escorregar por sua calça jeans, deixando nossos corpos quase colados e fazendo com que meu rosto ficasse há pouquíssimos centímetros do seu.

– Na verdade, eu tenho mais uma pergunta – falou, e eu pude sentir seu hálito de menta se chocar com meu rosto e seu perfume masculino misturado com um cheiro de creme de barbear adentrar minhas narinas, me enchendo de Gabriel, me infectando com seu cheiro.

Mantive-me quieta, esperando que Gabriel dissesse mais alguma coisa, sentindo minha respiração ficar cada vez mais descompassada. Sentindo as borboletas do meu estômago se agitarem. Eu estava tão próxima de Gabriel, mas tão próxima, que se inclinasse minimamente minha cabeça, seria o suficiente para que nos beijássemos. E só Deus sabe o quanto eu queria fazer aquilo.

– Por que você foi embora há três anos, Emma? – Perguntou calmamente, descendo seus olhos para os meus lábios rapidamente.

– Você realmente não sabe? – Perguntei, e então pude ouvir as batidas do meu coração ficarem mais fortes do que nunca.

– Não – disse, balançando a cabeça de um lado para o outro. – Gostaria que me dissesse.

Fiquei quieta por alguns segundos, sentindo minha mente se esvaziar. Eu sequer precisava pensar para lhe responder. E então, sentindo como se alguém estivesse espremendo meu coração sem nenhuma piedade, respondi:

– Porque ficar com você dói.

Fiquei olhando para Gabriel depois do que disse, sentindo um nó se apertar em minha garganta, sentindo meu coração palpitar dolorosamente, como se estivesse se castigando por ainda estar batendo. Mas Gabriel não disse nada, e, apesar de estar com seus olhos grudados nos meus, eu sabia que ele não estava me olhando de fato. Seu rosto demonstrava que seu olhar estava desfocado, e o modo como sua boca secou e ficou entreaberta dava a entender que ele estava sem palavras, chateado, cercado. Magoado.

Mordi meus lábios, segurando a vontade de abraça-lo e dizer-lhe que eu aceitava aquela dor se nós ficássemos juntos de verdade. Mas eu não poderia fazer aquilo, e não sabia se queria realmente. Porque, para começar, eu estava namorando outra pessoa. E ficar com Gabriel sempre doeria, nenhum de nós sabia fazer as coisas funcionarem do jeito certo. Estávamos sempre errados, fazíamos tudo errado. Éramos o avesso. E eu ainda tinha um medo imenso de derrubar aquelas lágrimas mais uma vez.

– C-c-omo assim? – Perguntou baixinho, soltando aos poucos minhas mãos. Sua voz soou fraca, incerta.

– Você ouviu tudo o que eu disse para Claire sobre você, Gabriel – falei, mais firme do que nunca. – Ficar com você dói, machuca. Porque nós dois juntos só causamos danos. E se eu continuasse aqui, não conseguiria me manter longe de você.

Comecei a me afastar, pronta para me levantar, quando senti as mãos de Gabriel segurarem minha cintura, me mantendo ali. Ergui meus olhos para olha-lo e vi os seus fitando-me intensamente.

– Preciso que você me diga uma coisa – falou, e eu me mantive quieta, como que esperando para que ele continuasse. – Diz que não está disposta a correr o risco de se machucar para estar comigo outra vez, diz que toda aquela intensidade que tinha entre nós morreu, diz pra mim que não consegue me amar mais. Diz olhando nos meus olhos e eu te deixo em paz.

Voltei a morder meus lábios, sentindo o gosto metálico de sangue invadir minha boca. Então, fraca, quase impotente, ousei abrir minha boca para responder-lhe, mas não consegui. Balancei a cabeça de um lado para o outro, em negação, apertando meus olhos com força. Eu não poderia dizer nada daquilo. Seriam mentiras, mentiras impossíveis de se fazerem confiáveis quando teria que dizê-las olhando em seus olhos. Gabriel, para a minha surpresa, levantou sua mão esquerda e tocou meu rosto, passando seu polegar por meu lábio inferior, onde havia uma ferida por minhas próprias mordidas, fazendo o lugar arder. Afastei meu rosto imediatamente.

– Não posso, não posso – falei apreensiva, aproveitando a deixa para sair de seu colo apressadamente, sentindo minhas pernas bambas, minhas mãos trêmulas. – E você deveria ir embora agora.

Virei as costas e caminhei apressadamente até a porta, ouvindo os passos de Gabriel atrás de mim alguns segundos depois. Abri a porta rapidamente e a escancarei, ficando quase completamente atrás dela, segurando a maçaneta com força, enquanto minha mão suava.

Gabriel passou por mim lentamente, continuando assim até atravessar o corredor. Saí de trás da porta e fiquei olhando-o pegar o molho de chaves no bolso da frente da calça e depois colocando uma das chaves na fechadura.

Quando sua mão tocou a maçaneta, me lembrei de uma coisa. Uma coisa importante.

Uma coisa que deveria ser dita.

– Gabriel – chamei, fazendo-o virar o rosto para me olhar. – Eu não tirei o bebê, eu perdi.

Diferente da reação que eu esperava, Gabriel sorriu de lado e virou a cabeça para frente, entrando em seu apartamento logo em seguida e me deixando ali, parada na porta. Agindo como se eu tivesse feito uma piada sem graça depois de uma discussão, como se eu fosse óbvia e ele já estivesse esperando por aquela fala. Agindo como se não acreditasse em mim.

Depois de alguns segundos parada ali como uma estátua, fechei a porta e a tranquei, virando de costas e me apoiando nela. Meu coração batia como se fosse rasgar minha pele e saltar para fora, minhas pernas ainda estavam bambas, o que me fez escorregar aos poucos, caindo sentada no chão.

Deixei meu corpo cair para o lado aos poucos, apoiando minha cabeça na parede, sentindo as batidas do meu coração se normalizarem lentamente. Minha mente rodava enquanto eu tentava entender tudo o que havia se passado há alguns minutos atrás, enquanto eu castigava-me mentalmente por me sentir aliviada em estar tão próxima dele novamente.

Senti o sono vindo aos poucos, fazendo com que meus olhos pesassem e com que a força de mover meu corpo se esvaísse aos poucos. E apaguei.

Notas finais
E aí, o que acharam? Deixem seus lindos comentários falando o que acharam, o que mais gostaram, o que odiaram e o que eu deveria melhorar, hihi.
Beijos, gatas ♥