Not Over You
18 Capítulo 17 - Never seemed so right
Notas iniciais
– O que houve? – Ouvi Claire perguntar.
Virei o rosto e a vi entrando no quarto em absoluto silêncio. Suspirei e voltei a olhar para frente, guardando dentro da minha bolsa um short jeans e uma blusinha que estavam em cima da cama. Sacudi a cabeça de um lado para o outro, como quem queria dizer que não era nada, e Claire não falou mais nada.
Cerca de dez minutos atrás, Claire havia batido na porta da nossa suíte, quase no mesmo segundo em que Gabriel abriu a porta do quarto do Ethan e me olhou acusadoramente, sabendo que eu estava ouvindo a conversa deles como uma boa curiosa que eu não costumava ser. Minha melhor amiga foi atendida por um Ethan de careta e quase verde. E eu não tive tempo nem de abrir a boca e perguntar alguma coisa, não tive tempo de me explicar por estar ouvindo atrás da porta — não que eu fosse fazer isso, afinal, era o que era e não tinha explicação. Não tive tempo para fazer nada. Meu cérebro mal conseguiu processar os acontecimentos, porque Claire logo destampou a falar que ela e Matt haviam alugado um iate e que nós íamos para uma ilha, por isso deveríamos nos arrumar logo para irmos.
Gabriel, que continuava parado na porta do meu quarto comigo, e Ethan, que havia parado com Claire perto da porta de entrada da suíte, passaram por mim sem dizer nenhuma palavra. Mas Ethan, pelo menos, lançou-me um sorriso de canto antes de entrar em seu quarto e bater a porta.
– Tudo bem se você não quer falar – ela disse depois de algum tempo em silêncio, e logo estava se sentando na cama, ficando de frente para mim.
– Eu não sei o que falar – retruquei, colocando meu celular na bolsa e fechando-a logo em seguida, para depois finalmente olhar Claire nos olhos. – Porque eu ainda não entendi.
Era óbvio que se alguém soubesse de alguma coisa, esse alguém seria Claire Harrison, porque ela era a irmã do Gabriel. Mas 1) eu não queria enchê-la mais sobre o Gabriel naquela viagem que nós estávamos fazendo para nos divertir, 2) tinha quase certeza de que ela não me falaria nada além de me aconselhar a falar com seu irmão e 3) eu queria ouvir tudo da boca do Gabriel. Queria que ele me dissesse por que foi para a reabilitação, queria que ele me contasse como foi e queria ouvir sua voz dizendo como ele ficou depois disso.
Claire suspirou e concordou com a cabeça. Sorri, me obrigando a ficar animada, e joguei minha bolsa no ombro. Já havia prendido meu cabelo em uma trança, que caiu bem feita e firme ao longo das minhas costas, o que constatava que eu estava pronta.
– E aí, vamos? – Perguntei e Claire pulou da cama animada.
– É claro! Aposto que os meninos já estão prontos – ela disse depois de assentir animadamente. E nós caminhamos juntas para a porta logo depois.
Gabriel e Ethan já estavam nos esperando na porta da suíte.
...
Depois de pegarmos um táxi do hotel para nos levar até onde Matt estava, que era um cais bem perto do hotel em que estávamos hospedados; e ficarmos uns vinte minutos dentro do automóvel enquanto apenas Claire falava, finalmente o motorista do hotel chegou ao nosso destino.
Claire andou animada na nossa frente, começando a andar pela plataforma de madeira, enquanto Gabriel, Ethan e eu a seguíamos, ambos os três admirados com as águas límpidas que se alongavam pelo horizonte, e com os grandes iates e barcos que pareciam tão perfeitos por fora quanto deveriam ser por dentro.
Aquela imensidão azul não parecia em nada com o que eu já tinha visto. Era lindo, e parecia ter sido feito para embasbacar as pessoas.
– Acho que vou comprar um iate – Ethan falou de repente e eu gargalhei, o que o fez me olhar com uma falsa expressão ofendida. – Estou falando sério – empinou o nariz e olhou para frente. Claire acenava para o Matthew há alguns metros de distância, que estava acompanhado de um senhor. – As garotas iam amar... – acrescentou pensativo, e eu não fiz nada além de revirar os olhos.
– Você não precisa de um iate para ter garotas, gato – Gabriel falou para Ethan, e ergueu a mão para o mesmo, mostrando seus dedos como se fossem garras, rosnando sensualmente, o que me fez gargalhar mais uma vez.
E de repente era como se aqueles poucos minutos na suíte naquela manhã não existissem mais, não naquele momento. E eu não sabia por quê. Apenas sabia que fora tão natural quanto respirar. Simplesmente aconteceu.
– Então, tudo certo? Podemos ir? – Claire perguntou assim que chegamos até Matt e o senhor que estava com ele, logo se enfiando nos braços do primeiro.
Nós estávamos na frente do iate que seria, provavelmente, o que nós usaríamos. Ele não era nem muito pequeno, nem muito grande. Era todo branco, com o que deveria ser a cabine para pilotar — não poderia ter certeza, já que os vidros eram escuros — e uma área bem grande atrás, com cadeiras de recostar, mesinhas baixas do lado e também vi escadas do lado do iate, o que significava que nós poderíamos parar no meio do nosso trajeto para pular no mar.
Matt assentiu e, logo em seguida, anunciou:
– Temos que estar de voltar ás cinco da tarde de hoje. Tem um banheiro na parte de baixo do iate, assim como uma sala com televisão, aparelho de som e frigobar; e um quarto com cama de casal – ele explicou, parecendo ter decorado cada palavra do que o senhor provavelmente havia lhe falado.
Claire abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Matt a impediu, voltando a falar:
– Já coloquei as bebidas e os petiscos no frigobar.
Claire sorriu.
– Então vamos? – Perguntou Ethan, se mostrando repentinamente tão animado quanto minha melhor amiga.
Nós subimos no iate sem muita demora e, ao que parecia, o Sr. Kent — dono do iate, que estava ao lado de Matthew quando chegamos — já havia ensinado Matt a mexer em tudo, porque disse a ele depois de nos desejar um bom passeio: "você já sabe o que fazer, rapaz". E não demorou para que nós já estivéssemos andando.
Gabriel, Ethan, Claire e eu nos sentamos nas cadeiras reclinadas de tomar sol logo que o iate começou a andar, enquanto Matt estava na cabine de comando. Eu joguei minha bolsa em uma mesinha que havia entre a minha cadeira e a de Gabriel. Ethan foi o primeiro a tirar a camisa, mas logo Gabriel seguiu sem exemplo, do mesmo jeito que eu fiz logo em seguida, e segundos depois, Claire fez o mesmo. E não demorou mais do que minutos para Matt estar com a gente lá fora, alegando ter colocado o iate no piloto automático.
– Isso é possível? – Ethan perguntou admirado. – Meu Deus, como estou ficando velho.
– É, minha irmãzinha vai se casar, Ethan – Gabriel falou e sorriu. E, eu não sabia se era só impressão, mas podia jurar que o vi me olhar pelo canto dos olhos rapidamente. – Imagina como eu me sinto.
Matt sorriu e Claire revirou os olhos, apesar de estar visivelmente tentando esconder um sorriso.
Não era sempre que Gabriel chamava Claire de "irmãzinha", mas não deixava de ser adorável vê-lo trata-la dessa maneira. E eu conhecia minha melhor amiga bem o suficiente para saber que ela era inundada por uma enorme onda de felicidade toda vez que falavam de seu casamento. Eu sabia, só de olhar nos olhos dela, o quanto tudo aquilo parecia irreal... e isso a assustava tanto quanto a encantava.
Perguntei a mim mesma se era tão fácil para ela me ler dessa maneira.
– Vocês estão muito ansiosos? – Perguntei de repente, deixando meus olhos presos no casal aconchegado em uma única cadeira em minha frente.
Matt piscou lentamente e assentiu com Claire devagar, parecendo levemente envergonhado por assumir seu nervosismo; os dois tão sincronizados que pareciam ter ensaiado aquele aceno de cabeça.
– Parece que vai dar tudo errado na hora – Claire falou e suspirou. – Às vezes eu sonho que na hora da festa não tem comida e os convidados começam a jogar coisas em mim... Ou eu entro nua na igreja... E acho que já sonhei com Matt me largando no altar umas três ou quatro vezes.
Ethan e eu gargalhamos juntos, fazendo Claire corar e nos olhar como se fôssemos dois monstros judiando de uma criancinha. Eu não sabia o que se passava na cabeça de uma mulher prestes a se casar, e talvez esses medos fossem normais... Mas, vamos, não tem possibilidade de não rir com sonhos tão bobos como aqueles. Se a comida do casamento acabasse algum dia, eu ficaria surpresa... teria comida o suficiente para alimentar dragões. Claire só entraria em uma igreja se nem sequer um fiozinho de linha estivesse aparecendo no vestido, e era impossível acreditar que ele iria sumir do corpo dela de uma hora para a outra. E sobre Matt deixar minha melhor amiga no altar...
– É mais fácil você abandonar o Matt, Claire – Ethan falou, as linhas das gargalhadas de segundos atrás ainda visíveis em seu rosto. Matthew arregalou os olhos, alarmado, me fazendo rir baixinho e revirar os olhos... Será que eles não percebiam que um jamais teria a coragem de abandonar o outro? – O cara é louco por você.
Claire ficou olhando-o sem expressão por alguns segundos, mas logo seus olhos começaram a se encher de lágrimas, o que fez Ethan me olhar assustado, como se me perguntasse se fez ou falou algo de errado.
– Desculpa – minha amiga falou e riu, começando a chacoalhar as mãos em frente aos olhos, até que as lágrimas se dissipassem. – O casamento está tão perto e isso está me deixando muito emocional.
– É, está perto mesmo – Gabriel falou, sorrindo terno e confiante para a irmã.
Suspirei pesadamente e sorri. Logo minha melhor amiga estaria casada e eu mal podia acreditar nisso.
– Falando nisso – começou Matt –, o que você vai fazer depois do casamento, Emma? – Todos olharam para ele, e eu arqueei a sobrancelha, não entendendo a pergunta. – Sabe, você veio por causa do casamento... vai ficar aqui ou vai voltar para Montana?
Pisquei, meio abobada com a pergunta.
Eu não havia pensado nisso ainda. Quer dizer, sim, eu estava trabalhando e tinha um apartamento só meu e estava vivendo por mim mesma. E eu sabia que voltar para Montana implicaria em perdoar papai por sua mentira e demonstrar fraqueza por estar voltando. Mas a questão era: eu queria ficar em Londres? Parecia tão errado voltar a morar com papai, mas não me parecia seguro continuar onde estava.
E você precisa voltar a ser a Emma de antes pra isso... você era mais corajosa.
E eu estava tão confusa que nem sabia o que queria ao certo. Não sabia se minha mente já tinha decidido se tornar corajosa ou se eu continuava com tanto medo de me magoar a ponto de abandonar tudo o que eu construí e recuperei para não sofrer outra vez.
Fechei meus olhos por alguns segundos e quando abri, pronta para dizer que eu não pretendia voltar a morar com Peter, Gabriel chamou a atenção para si com uma tossida. Olhei para o lado e o vi de pé.
– Vou, hm, ao banheiro.
E saiu antes que alguém pudesse dizer alguma coisa.
Não que tivesse o que dizer.
– Eu acho melhor... – Ethan começou a falar, mas eu logo estava acenando freneticamente com a cabeça e o interrompi, dizendo:
– É, eu vou lá falar com ele – disse.
Levantei da cadeira e desci as escadinhas que ficavam ao lado da porta da cabine e que davam para a parte de dentro do iate. Onde deveriam estar a sala, o banheiro e o quarto.
Gabriel estava sentado em um sofá de couro preto, de costas para mim, mas eu tinha quase certeza de que ele sabia que eu estava lá no momento em que pisei no cômodo. Olhei envolta de lugar, vendo as paredes e o chão de madeira praticamente brilharem de tão limpos.
De frente para o sofá havia um painel de madeira um pouco mais escura que o resto do cômodo, onde havia uma televisão, um aparelho de som, com caixinhas de som espalhadas pelas estantes do painel, um aparelho de DVD e alguns enfeites. Do lado esquerdo do sofá havia uma pequena mesinha de vidro, com três controles em cima dela. E do lado oposto uma parede com duas portas brancas.
Dei a volta no sofá e me sentei ao lado de Gabriel.
– Então – falei, batendo as pontas dos meus dedos nos joelhos nervosamente –, tudo bem?
Virei para olhar Gabriel e o vi negar com a cabeça. Ele estava com as costas inclinadas, apoiando os braços nas pernas e com os dedos entrelaçados. – Não quero pensar que você vai embora outra vez – foi o que ele disse, surpreendendo-me... Ainda não havia me acostumado com esse lado todo aberto e sincero de Gabriel. Assustava.
– Então não pense – respondi, fazendo-o me olhar e dar um sorrisinho de canto, como se dissesse "claro, muito fácil". – Nem eu estou pensando nisso agora... acho que tenho coisas mais importantes para pensar.
Fiquei sustentando o olhar de Gabriel depois daquelas palavras, esperando que ele entendesse o que eu queria dizer com aquilo. Queria que ele percebesse que essas palavras significavam que eu estava pensando em tudo o que ele me disse, que eu estava cogitando a ideia de arriscar-me por algumas coisas outra vez... arriscar-me por ele outra vez. Que eu pensava nele a cada minuto com mais frequência.
– Pode me prometer uma coisa, Emma? – Perguntou de supetão e eu franzi as sobrancelhas, confusa.
– Depende... – mas ele me cortou antes de eu terminar.
– Se você decidir ir embora, vai me contar olhando nos meus olhos – então ele levou suas mãos até o meu pescoço, usando os polegares para acariciar meu lábio inferior e bochechas. – Promete pra mim?
Assenti lentamente.
– Eu prometo.
Porque eu faria aquilo mesmo sem a promessa.
...
Depois de praticamente uma tarde inteira em alto mar, mais duas horas na cidade para fazermos tatuagens de henna — porque Ethan disse que não seríamos bons turistas se não fizéssemos uma -, nós finalmente estávamos no hotel outra vez. Mortos de fome e de cansaço, mas no hotel.
– Vamos descer pra jantar ou vamos pedir serviço de quarto? – Matt perguntou, parando com Claire em frente a suíte dos dois, que ficava um pouco antes da nossa.
– Vamos descer, né? – Ethan sugeriu. – Pra fechar o dia.
Ele sorriu abertamente e eu ri, acenando com a cabeça em seguida para mostrar que estava de acordo com aquilo. Claire e Matt fizeram a mesma coisa.
– Então nos vemos em uma hora – Gabriel falou, e todos concordaram.
Matthew e Claire entraram em sua suíte e Gabriel, Ethan e eu seguimos pelo corredor até a nossa. Ethan abriu a porta para nós e eu logo segui para o meu quarto sem dizer nada. Precisava de um banho como um ser humano precisa de água para viver. Água de mar dá uma sensação estranha de sujeira. E isso me incomodava, por mais idiota que fosse, mas incomodava.
Entrei no quarto e fui tirando os chinelos, jogando a bolsa em cima da cama e desfazendo a trança, que havia virado uma total bagunça graças à água. Tirei minha blusa, jogando-a perto da cama, para guarda-la separada das roupas limpas depois e fui em direção a porta do banheiro. Mas o som estranho de alguém limpando a garganta bem atrás de mim impediu-me de terminar o percurso.
Não precisava nem me virar para saber que era Gabriel.
Porque sempre era.
Virei para trás, vendo-o a poucos passos de distância de mim. Era infantil, mas não consegui evitar que minhas bochechas corassem por eu estar sem blusa — mesmo que estivesse usando um biquíni.
Gabriel sorriu ao notar minhas bochechas vermelhas e se aproximou, ficando bem perto de mim, obrigando-me a erguer a cabeça para olha-lo. Senti suas mãos deslizarem por minha cintura nua até ficarem espalmadas na base das minhas costas, embaixo do meu cabelo. Ele empurrou meu corpo para frente com delicadeza, deixando nossos corpos juntos.
– Vou estar te esperando às onze horas na porta da suíte – ele sussurrou, como se estivesse me contando um segredo.
Então juntou nosso lábios em um selinho lento.
E, quando ele rompeu o contato, ouvi o barulho pegajoso de nossos lábios se separando. Um barulhinho que era tão bom de se ouvir e que me fez abaixar a cabeça para que Gabriel não visse que eu estava tentando conter um sorriso.
As mãos de Gabriel largaram minhas costas e seu corpo se afastou do meu. Levantei o rosto quando ouvi duas batidinhas na porta de madeira, vendo Gabriel encostado ali com um sorriso todo bobo.
– Saímos pra jantar em vinte minutos – disse e saiu, fechando a porta.
Suspirei e virei, continuando meu caminho para o banheiro.
Não sabia por que Gabriel estaria me esperando às onze horas da noite, mas independente do que fosse ou do quão errado parecia, eu iria. Era isso, não era? Arriscar, ser mais corajosa. Eu seria corajosa, então. Mesmo que estivesse com medo do que eu seria capaz de fazer, mesmo que eu soubesse que um passo errado seria o suficiente para tudo virar um grande bolo de coisas e sentimentos ruins. Mesmo não sabendo se confiava nas palavras de Gabriel.
Tomei um banho rápido, ou pelo menos tentei, já que meu cabelo grande daquele jeito não ajudava. E coloquei um vestido soltinho e curto, estampado com flores laranjas, amarelas e vermelhas. Calcei um par de sandálias baixinhas e peguei meu celular dentro da bolsa que tinha usado para passar a tarde. Nenhuma ligação. Apenas uma mensagem do Ian dizendo que esperava que eu estivesse tendo uma boa viagem.
Responderia essa e as outras duas mensagens quando já estivesse em Londres.
– Você está dez minutos atrasada – Ethan falou assim que eu me inclinei entre ele e Gabriel, no sofá que havia na pequena sala da suíte, no qual eles estavam sentados conversando.
– Vou te dar um cabelo desse tamanho pra você cuidar e aí a gente conversa, okay? – Falei pra ele, apontando para as minhas costas.
– Então, vamos? – Gabriel perguntou, já ficando de pé e se virando de frente para mim.
Endireitei meu corpo e assenti, ao mesmo tempo em que Ethan se levantava do sofá.
Andamos juntos pelo corredor da suíte, e Gabriel abriu a porta para nós sairmos. E enquanto o mesmo a trancava, Ethan me analisou com atenção e disse:
– Já está na hora de cortar esse cabelo, Emma – semicerrei os olhos para ele, que deu os ombros, despreocupado. – Já está quase na sua bunda, olha aí.
– É, talvez eu corte – disse, e imitei seu gesto.
– Eu gosto dele assim – Gabriel disse, guardando a chave no bolso da bermuda branca e passando um braço ao redor da minha cintura, coisa que me surpreendeu além do necessário. – Combina com você – acrescentou, escorregando um pouco a mão para brincar com as pontas do meu cabelo.
Sorri para ele.
– Obrigada.
– Então, vamos? – Ethan chamou minha atenção.
Gabriel e eu assentimos e nós três descemos juntos para o primeiro andar do hotel, onde ficava o restaurante. Durante todo o percurso, o braço de Gabriel permaneceu enlaçado em minha cintura. Minha felicidade contida pareceu ficar nítida quando nós avistamos Claire e Matt sentados em uma mesa do restaurante sozinhos. E eles já tinham nos visto. Claire me olhava como se soubesse de um segredo obscuro meu e estivesse amando isso porque poderia me ameaçar a qualquer momento. Mas ela apenas sabia que eu estava feliz por um toque tão bobo e insignificante quanto o braço de Gabriel ao redor da minha cintura.
– Dez minutos de atraso, heim – Claire falou quando chegamos até a mesa.
– Foi culpa do cabelo da Emma – Ethan respondeu com um sorrisinho irônico, se sentando na ponta da mesa e deixando que Gabriel e eu ficássemos de frente para Claire e Matt, lado a lado.
Gabriel chamou o garçom e nós fizemos os pedidos. Claire e Ethan pediram sopa de galinha, eu pedi um prato de salada e peixe empanado frito, e Matthew e Gabriel pediram macarrão ao molho branco. Tomaríamos um vinho tinto italiano de sei lá qual década, mas que Gabriel jurou ser bom.
– Então – Claire falou baixo, inclinando a cabeça para frente para que só eu ouvisse. Não que fosse necessário, os três homens da mesa estavam falando sobre carros. – O que foi aquela entrada no restaurante?
Senti minhas bochechas ficarem vermelhas.
– Isso foi o caminho inteiro – falei e sorri minimamente –, da suíte até aqui.
Ela piscou algumas vezes, deixando sua boca se abrir um pouco. Mas logo se recompôs, sorrindo e parecendo, por algum motivo, extremamente feliz.
– Eu perdi alguma coisa? – Perguntou, dessa vez tão baixo que eu quase não ouvi.
Assenti com a cabeça.
– Perdeu a parte em que eu decidi seguir o seu conselho – respondi. E tive o prazer de ver sorriso da minha melhor amiga se alongar ainda mais, o que me fez rir e olhar para os lados casualmente, fingindo que eu não sabia o motivo de tudo aquilo.
E então eu percebi que tinha decidido ser mais corajosa de uma forma meio inconsciente, como se a vontade de tentar alguma coisa fosse maior do que qualquer medo ou dúvida. Não seria corajosa como fora antes. Antes era mais orgulho do que coragem, eu sabia disso. Mas, naquele momento, daquela vez, era diferente. Era por alguma coisa que eu sabia que queria, que eu sabia que não ficaria em paz enquanto não pudesse ter uma certeza concreta de que realmente não daria em nada. Gabriel estava diferente, de um jeito que eu nunca vi nem de relance nele e isso devia significar alguma coisa. Nem que fosse uma mudança mínima, ainda era o suficiente para que eu me arriscasse...
Eu o amava. Era meio que uma obrigação íntima tentar mais uma vez.
Sem esperança.
Mas também sem medo.
– Estou animada por estarmos aqui – Claire falou, fazendo Gabriel, Ethan e Matt pararem de falar sobre o carro que seu noivo queria comprar para olha-la. – Parece que eu já me diverti por uma vida toda. E ainda estamos no nosso segundo dia.
Matthew sorriu para a noiva e colocou a mão direita em cima da mesa, entrelaçando seus dedos com os de Claire. Vi a tatuagem de henna que ele havia feito na palma da mão. Dezessete de novembro. A data do casamento. E também vi o pequeno M que ela fez no pulso. E eles nem haviam combinado isso.
– Eu também estou animado – Ethan falou, e de repente ele ficou sério, o que era extremamente estranho e incomum. – É bom estar com vocês.
Todos nós sorrimos, fazendo-o retribuir um tanto quanto envergonhado. Ele passou a mão pela nuca, subindo-a pelo cabelo e despenteando-o mais do que já estava despenteado. Isso chamou minha atenção para a tatuagem de henna que ele havia feito no lado esquerdo do pescoço, um sinal de música. Mas era muito simples para alguém que estava tão empolgado com uma simples tatuagem que sairia depois de alguns dias, o que me fazia desconfiar de que ele havia feito mais uma.
A tatuagem de Gabriel, no entanto, era um mistério. Ele havia feito uma, todos sabiam disso, mas ele se recusou a mostrar para qualquer um de nós. E, depois que saiu da barraquinha das tatuagens, não tirou mais a camiseta. Isso só serviu para me deixar curiosa. Não tão curiosa a ponto de ficar pensando nisso o tempo todo, mas curiosa o suficiente para perder alguns minutos refletindo quando me lembrava do assunto.
– Matt e eu estávamos conversando sobre o casamento enquanto vocês não chegavam, sabe – Claire começou a falar, mostrando animação e fazendo o noivo assentir. – Ficamos tão felizes em ver que você – apontou pra mim – e você – apontou para o irmão – estão se dando bem.
– O que isso tem a ver com o casamento? – Gabriel perguntou, sorrindo abertamente.
– Ué, a Emma é minha dama de honra – Claire começou.
– Você é meu padrinho – Matthew continuou, fazendo Ethan rir.
– Eles vão entrar juntos, não vão? – Perguntou para Matt e Claire, que assentiram sorridentes, fazendo-o rir mais uma vez. – Ah, mas eu sabia.
Olhei indagadora para Claire, não ligando muito para o fato de que entraria com Gabriel em seu casamento. Porque, bem, eu já desconfiava disso. E nós estávamos mesmo nos dando bem, e eu estava tentando ser mais corajosa. Acompanha-lo na entrada de um casamento não era uma coisa grande. Até porque, eu sabia, minhas atenções estariam todas em Claire e Matt. Mas...
– Esse sempre foi o plano? – Perguntei.
Ela assentiu.
– E se não estivéssemos bem? – Gabriel perguntou.
Claire suspirou e soltou uma risadinha sarcástica.
– Eu sabia que estariam.
Decidi não discutir e mudei de assunto. Não seria saudável discordar ou questionar uma mulher que estava emocionalmente afetada e prestes a se casar. Logo nós embarcamos em uma conversa que misturava a festa de despedida de solteiro de Matt e a de Claire, o casamento, e a obsessão de Ethan pelo número 69. O cara era simplesmente fissurado nisso.
Os minutos se passaram e nós ao menos percebemos. Os pratos vieram, nós comemos e os pratos se foram. A sobremesa foi uma torta de maçã divina, só não melhor do que a que Gabriel fazia, e nós quase explodimos de tanto comer. Matt jurou que era o mesmo sabor que a torta que sua mãe fazia. E, quando nós vimos, já passava das dez e meia da noite e o restaurante estava se esvaziando aos poucos. E as pessoas que estavam por lá quando chegamos já haviam ido embora há algum tempo.
Acertamos nossa conta e rumamos em direção ao andar das nossas suítes.
– Bem, boa noite – Claire falou quando chegamos em frente a porta da suíte dela e do Matt.
Ia acenar e continuar andando com os outros dois quando Claire soltou a mão de Matthew e deu alguns passos até onde eu estava, enrolando seus braços em meu pescoço e me puxando para um abraço apertado. Um pouco surpresa, passei os braços por suas costelas e a abracei de volta.
– Estou orgulhosa de você – sussurrou em meu ouvido.
Poderia jurar que a ouvi fungar em algum momento entre nosso abraço, mas não pude ter certeza, porque logo que sussurrou aquelas palavras para mim soltou meu pescoço, me livrando e se livrando do abraço. Ela se afastou e acenou para Ethan e Gabriel antes de virar para abrir a porta do quarto e puxar Matt pela mão, que disse um "noite" antes de entrar no quarto com a noiva.
Ethan assoviou ao que nós recomeçamos a andar, dessa vez para nossos quartos.
– Ela está mesmo emotiva, não é? – Questionou.
Gabriel e eu assentimos, e ambos sorrimos.
Entramos em nossa suíte e Ethan saiu andando na frente, dizendo um boa noite alto e se fechando em seu quarto enquanto Gabriel ainda fechava a porta atrás de mim. Fiquei parada onde estava, de costas para Gabriel, o esperando.
Era quase onze da noite.
Tínhamos um compromisso.
– Vou trocar a calça por uma bermuda – ele falou perto do meu ouvido, passando os braços ao redor dos meus ombros e abaixando para deixar seu rosto ao lado do meu. – Você pode deixar o celular, se quiser – e beijou minha bochecha antes de me soltar e ir para o quarto.
Entrei no meu quarto e joguei o celular em cima da cama, indo direto para o banheiro em seguida. Apoiei as mãos na bancada da pia e olhei meu reflexo no espelho que estava em minha frente. Estava nervosa somente de pensar em sair com Gabriel. Mas precisava ser corajosa, como Claire falou. Como eu havia decidido ser.
E seria.
Só que, na hora, parecia mais difícil.
Era como se um peso me mantivesse parada no lugar, como se uma força tirasse toda a pouca coragem que eu consegui reunir. Eu nem sabia o que Gabriel e eu faríamos naquela noite, o que ele tinha em mente ao dizer que estaria me esperando na porta da suíte; mas já estava com medo outra vez.
Estava sendo mais difícil do que parecia ser.
Respirei fundo, reunindo todos os chuviscos de coragem espalhados em mim.
Precisava fazer isso. Fazer uma escolha, seguir um caminho. Arriscar entre sorrir ou chorar, ganhar ou perder. Era devastador e desencorajador pensar que minha felicidade também poderia ser minha ruína. Porém, seria pior se eu vivesse remoendo para sempre o que poderia ter acontecido se eu tivesse mandado meus medos embora e sido mais corajosa, e arriscado.
Levei as mãos até o cabelo e o ajeitei rapidamente, logo virando e saindo pela porta antes que minha coragem resolvesse me deixar novamente.
Gabriel já estava me esperando encostado na porta de entrada da nossa suíte tripla quando eu fechei a porta do meu quarto lentamente, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Ele estendeu sua mão ao que eu cheguei onde ele estava e eu aceitei, sentindo-o entrelaçar nossos dedos logo depois e abrir a porta para sairmos.
– Onde vamos? – Perguntei enquanto nós atravessávamos o hotel em direção à saída.
– À praia – ele respondeu simplesmente.
Assenti e virei o rosto para poder olha-lo. O vento batia em seu rosto e fazia seus cabelos rebeldes se agitarem. Seus olhos verdes estavam semicerrados por causa do vento. E ele estava sorrindo de uma maneira tão encantadora que eu desejei congelar aquele momento e guarda-lo para ficar revivendo-o quantas vezes fosse preciso até que meu coração não se acelerasse mais com um sorriso tão sincero como aquele.
Gabriel mostrou a um homem em uma cabine nossos cartões para provar que éramos hóspedes, e o enorme portão de ferro preto se abriu para podermos sair. Não precisei dar dois passos depois de sair do hotel para ver a linda praia que se encontrava ali, bem na minha frente. Haviam banquinhos entre coqueiros na calçada que havia em volta da areia, e no horizonte, a lua iluminava o mar.
– Vamos – Gabriel falou e soltou minha mão, passando um braço pelos meus ombros e brincando com a pele nua do meu braço enquanto andávamos em direção à praia.
Atravessamos a rua e Gabriel me fez sentar em um dos banquinhos da calçada. Ele se agachou em minha frente, pegou meu pé esquerdo e desafivelou minha sandália, fazendo a mesma coisa com o outro pé logo depois. E eu não perguntei nada quando ele me puxou pela mão e, segurando minhas sandálias com a outra mão, voltou a caminhar comigo.
Quando meus pés tocaram a areia, eu automaticamente sorri e levantei meu rosto para Gabriel, que me olhava com um sorriso contido nos lábios.
Quando estávamos bem próximos do mar, Gabriel parou de andar, fazendo-me parar também, então soltou minha mão e se virou para mim. Olhei-o, atenta e quase hipnotizada pela forma como o vento balançava seus cabelos e a lua refletia em um lado do seu rosto, dando um brilho unicamente especial no verde de seu olho.
– Sente como preferir – ele disse e eu franzi a sobrancelha, confusa.
Mas fiz o que ele disse.
Sentei-me no chão e, sem me importar de estar de vestido, abracei minhas pernas e apoiei meu queixo em cima do meu joelho, deixando meus olhos aproveitarem a paisagem tão bonita que se apresentava em minha frente.
Senti um calor perto do meu corpo e então os braços de Gabriel passaram por baixo das minhas pernas, abraçando minhas coxas. Ele deixou uma perna de cada lado do meu corpo e apoiou seu queixo em meu ombro, o que me fez recostar as costas em seu peito quase que no mesmo instante.
– Bonito, não é? – Perguntou, se referindo a nossa vista.
Assenti com a cabeça.
– Incrivelmente bonito.
Senti os dedos de Gabriel dedilharem minhas coxas descobertas delicadamente, ao mesmo tempo em que ainda mantinha seus braços firmes ao redor delas. Senti minha pele se arrepiar com o toque e fechei os olhos, aproveitando daquele momento o máximo que poderia. O vento batendo em meu rosto, com Gabriel acariciando-me e abraçando-me... era a mesma sensação que tinha quando andava a cavalo. Eu me sentia viva. Tão perto dos meus sentimentos, tão entregue a todas as sensações. E pensar que o medo tentou me impedir de estar ali era quase incompreensível.
Como eu podia ter medo de uma coisa tão sincera e tão boa?
– Eu fui para a reabilitação, Emma – ele falou de repente, e sua voz não passava de um sussurro.
Abri os olhos e percebi que seus dedos apertavam com firmeza, e até um certo receio, minha pele.
– Por que? – Perguntei no mesmo tom de voz.
– Quando você foi embora... – ele começou, mas então não parecia com muita coragem para continuar. Senti meu coração se apertar com o silêncio e quis, mais do que nunca, estar olhando em seus olhos. – Sabe, não demorou muito para eu perder o controle.
"Sentia saudade de você, Emma. E nada parecia ser o suficiente para suprir a falta que você fazia. Garotas, bebidas. Nada. Eu normalmente bebia pra esquecer você, mas não estava mais funcionando. Porque você não voltaria. E, quanto menos resultado o álcool dava, mais eu insistia nele.
"As coisas se complicaram quando eu comecei a faltar ao trabalho. Meu pai já não estava gostando de saber que eu estava chegando bêbado nos finais de semana, porque Claire contou pra ele. Você me conhece, Emma, eu não fico bêbado com pouco."
Senti um fio gelado atravessar minha espinha e me arrepiei. Realmente, Gabriel precisava de muito para ficar bêbado. E eu comecei a me perguntar a qual extremo ele havia chegado para isso.
– Meu pai me demitiu – ele continuou. – Disse que eu estava agindo como um moleque e que precisava aprender a ser um homem de verdade. Mas ele não sabia que você tinha ido embora, entende? E eu não achava que isso faria alguma diferença, porque era bem capaz de ele dizer que eu merecia.
"Em uma noite, Emma, as coisas foram além da conta pra mim. Eu havia bebido demais, feito misturas bizarras. E posso jurar que alguém colocou alguma droga em um dos meus copos. Cheguei ao apartamento que dividia com Claire às oito e vinte da manhã, fiquei bebendo até aquela hora. Meu pai estava lá com minha irmã, ambos preocupados.
"Quando entrei no apartamento, meu pai veio correndo até onde eu estava. Tudo estava em borrões aos meus olhos, e as vozes dele e de Claire se misturavam e se embolavam. Só consegui entender quando meu pai disse que sabia que você tinha ido embora. E que eu não tinha feito nada pra impedir isso. E então foi tudo muito rápido."
Ele parou por alguns segundos. E eu não sabia se ele estava fazendo força para se lembrar do que tinha acontecido ou arrumando coragem para me contar. Ou tentando lembrar ao mesmo tempo que queria simplesmente esquecer. Levei uma das minhas mãos para trás e acariciei sua nuca.
Ele suspirou e continuou:
– Primeiro eu estava chorando, e em segundos estava tentando me livrar das mãos do meu pai, que tentava me segurar no lugar. Mas por mais em forma que meu pai fosse, eu ainda era mais. Consegui me soltar e então... – ele pareceu confuso por alguns segundos. – Então eu só me lembro de ver meu reflexo em frente a um espelho. Senti tanta raiva de mim, Emma. E tanta raiva de você por me fazer sentir assim.
"E, me desculpe se isso vai ficar vago, mas eu só me lembro de sentir muita dor logo depois. E então eu estava caído no chão. Ethan e Matt, que vieram de algum lugar em algum momento, chegaram fazendo muito barulho. Matthew começou a gritar alguma coisa para alguém e eu só vi Ethan em minha frente, tentando falar comigo.
"Meu estômago começou a queimar e se revirar, uma coisa quente subiu até minha garganta. Meu corpo todo parecia pegar fogo, Emma. Senti que tudo tremia, meu mundo todo rodava e as vozes a minha volta não faziam nenhum sentido. Eu pensei que fosse morrer.
"E então eu apaguei."
Minha mão havia parado de acariciar a nuca de Gabriel.
– O que aconteceu? – Perguntei, notando minha voz sair embargada e falha.
Eu não havia notado o bolo que se formou em minha garganta até aquele momento.
– Overdose – ele respondeu vagamente. – Eu realmente teria morrido se estivesse sozinho. Vomitei praticamente desacordado – deu um suspiro. – E eu quebrei o pé quando caí no chão. Acabei caindo em cima de um pedaço do espelho, que segundo Ethan eu quebrei, e ele afundou em minha coxa. E minha mão também ficou em um estado horrível.
"Acordei no hospital. Explicaram o que tinha acontecido comigo. E meus pais já haviam decidido que eu ficaria internado em uma clínica de reabilitação. Eu era maior, responsável por mim mesmo, eles não podiam decidir por mim. Mas ver Claire chorando, praticamente gritando dentro do hospital e querendo me bater me fez ver que eu tinha passado dos limites."
– Mas você continua bebendo – eu disse de supetão, tirando minha mão de sua nuca.
– É, bem, o médico e o psicólogo que cuidaram de mim durante os seis meses da reabilitação disseram que isso havia acontecido pelo meu estado emocional – ele falou.
– Eu poderia beber, desde que não exagerasse. E, caso acontecesse, eu voltaria pra lá. É por isso que Ethan e eu moramos juntos agora... ele quer se certificar de que eu não vou fazer isso outra vez.
Remexi-me no lugar, mostrando que eu queria me mover, e Gabriel tirou os braços das minhas coxas. Virei meu corpo rapidamente, ficando de joelhos entre as pernas de Gabriel. Levei minhas mãos até seu rosto, deixando uma de cada lado, e fiquei olhando em seus olhos como se aquilo fosse a única coisa que eu pudesse fazer naquele momento.
– Você não tem ideia de como eu quero te bater – falei, e senti lágrimas escaparem dos meus olhos. – Mas estou tão aliviada por estar aqui com você nesse momento que não tenho forças pra isso.
Ele riu.
O desgraçado riu.
Sua mão subiu até meu rosto e ele usou os polegares para limpar o rastro das lágrimas que haviam escorrido por minhas bochechas. Então pegou minhas mãos de seu rosto e as tirou de lá, dando um beijo em cada uma, com os olhos fechados.
E então ele me olhou.
– Estou feliz por estar aqui nesse momento.
Suspirei, notando minha respiração saindo entre cortes. E apenas joguei meu corpo em cima do de Gabriel e enlacei seu pescoço com os braços, abraçando-o com toda a força que eu conseguia. Porque, naquele momento, estar em seus braços era tudo o que eu queria e precisava. Como se fosse a minha certeza de que ele estava realmente ali, como se estivesse com medo demais de perde-lo caso o soltasse. Não pensei em tudo o que ele tinha feito porque sentia minha falta, nem pensei se me sentia ou não culpada. A única coisa que tinha em mente era abraça-lo e garantir a mim mesma que estava tudo bem.
– Você é um idiota – eu disse, afundando meu rosto na curva do seu pescoço. – E você teve sim uma vida nesses três anos que eu estive fora.
Gabriel apenas apertou mais seus braços ao redor das minhas costelas.
– Eu tive um inferno nesses três anos, amor.
Ficamos abraçados daquele jeito por mais alguns segundos, até Gabriel se deitar na areia lentamente e me levar junto. Rolei para o lado, ainda sem soltar seu pescoço e me aconcheguei ao seu corpo.
Depois de alguns segundos em silêncio, enquanto eu acariciava a ponta do meu nariz no pescoço de Gabriel e inalava seu cheiro, ele disse:
– Quero ver sua tatuagem de henna.
– Mas você já viu – respondi.
– Quero ver inteira.
Apoiei-me em um dos cotovelos e levantei o rosto para olhar Gabriel. Assenti lentamente e voltei a me deitar, dessa vez completamente na areia, sem me apoiar em seu corpo.
Ele voltou a se sentar, e então se virou e ficou agachado em minha frente, com um dos joelhos do meio das minhas pernas. Suas mãos deslizaram suavemente pelas minhas pernas, começando pelas minhas panturrilhas. E, quando elas chegaram ao meio da coxa, na barra do vestido, continuaram subindo, mas dessa vez levando o vestido junto. Gabriel deixou meu vestido na altura do umbigo, e dedilhou suavemente o osso do lado direito da minha cintura por cima do tecido da calcinha branca com rendas. Então seus dedos puxaram o tecido fino e sensível um pouco para baixo, revelando completamente a tatuagem de henna que eu havia feito naquela tarde.
Minha fênix.
Ele passou o polegar pela tatuagem suavemente, causando arrepios prazerosos em meu corpo. E então tirou os olhos da tatuagem por alguns segundos e olhou-me.
Perdi o fôlego com aquele olhar tão carregado e cheio de significado.
– Por que uma fênix? – Ele perguntou.
– Porque ela renasce das cinzas – eu respondi.
E era por isso. Mais ou menos.
Gabriel sorriu minimamente, mas de maneira sincera, e voltou a olhar para a tatuagem. Então ele curvou seu corpo, deixando seu rosto muito próximo da fênix, e deixou um selinho demorado em cima da mesma, roçando o nariz nela antes de voltar a ficar com o corpo ereto.
Delicadamente, como se um toque bruto seu fosse me quebrar, ele arrumou a lateral direita da calcinha e desceu meu vestido.
Ele voltou a se sentar ao meu lado e logo se deitou.
– Meio injusto, você não acha? – Falei de repente.
– Por qu-
Gabriel não pôde terminar de falar e eu já tinha arrumado coragem o suficiente para passar uma perna para o outro lado de seu corpo e ficar sentada em sua barriga. Pousei as mãos em seu peito, por cima da camiseta e me inclinei para falar com o rosto bem perto do seu.
– Você viu minha tatuagem, mas eu não vi a sua – sussurrei.
– Você pode ver se quiser – ele falou.
– Onde? – Perguntei.
E ele colocou uma das mãos em cima da minha, que estava posicionada em cima de seu peito esquerdo. Sua mão saiu de cima da minha e foi para a minha coxa.
Levei minhas mãos até a barra de sua camiseta, que havia subido um pouco quando eu sentei, de modo que eu não precisei levantar minhas coxas mais do que um centímetro para poder subi-la. Gabriel ergueu os braços e a cabeça, deixando que eu tirasse sua camiseta completamente.
Meu coração parou quando vi a tatuagem em seu peito esquerdo.
Emma.
Automaticamente minhas mãos foram até ela, dedilhando-a suavemente. Meus dedos sentiam o coração de Gabriel bater acelerado.
Abri a boca para perguntar por que meu nome estava tatuado em seu peito esquerdo, mas Gabriel foi mais rápido e, como se lesse meus pensamentos, disse:
– Por causa dos meus sentimentos.
Inclinei meu corpo como ele fizera minutos antes, sentindo meu coração bater ferozmente, e deixei um beijo demorado em cima da tatuagem. Suas mãos voltaram às minhas coxas e as apertaram suavemente. Então eu subi meus beijos, deixando vários selinhos em seu ombro, pescoço e mandíbula. Afastei meu rosto para ficar frente a frente com ele. Olhei em seus olhos por longos segundos, desejando não estar de costas para a lua para poder ver o brilho dos seus olhos com mais nitidez.
Então eu o beijei.
Sem aviso, sem medo, sem pensar.
Porque éramos só nós e os nossos sentimentos.
E isso nunca pareceu tão certo.
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