Nossos Destinos | KiriBaku
1 Meu Destino
Notas iniciais
Os olhos cor de cereja encaravam fixamente a tela do smartphone. Suas mãos seguravam firmemente o aparelho, com o polegar sobre a tela, relutando em clicar no ícone esverdeado ao lado do contato de telefone, que tinha como título o nome do ex-namorado.
Não entrava em contato com Katsuki desde que sua vida virara de cabeça para baixo. Quando mais jovem, lá para seus dezenove anos, Eijirou teve uma relação intensa com o Bakugou, o amava imensamente, e amava a forma como levavam a vida, a aproveitando em cada segundo. Mas, apesar disso, tinham pequenos conflitos ao pensar sobre seu futuro.
Katsuki era apaixonado pela liberdade, tinha prazer em curtir aventuras, descobrir novos horizontes, criar lembranças e memórias que fossem eternas para ele. Eijirou, pelo contrário, era apaixonado pela calmaria, não negava gostar de acompanhar o namorado em suas diversões, mas desejava estabilizar-se, buscar um emprego bem remunerado, encontrar um bom lugar para morar e ter uma família, afinal, seu maior desejo era de ter filhos antes de seus vinte e três.
Katsuki dizia ser uma responsabilidade a qual não queria ter que se preocupar naquele momento.
— Talvez quando eu tiver trinta, ou trinta e cinco anos… mas não agora. — Dizia ele.
Eijirou não quis esperá-lo.
Anos mais tarde, estava casado com um cara qualquer, por quem sentia um pouco de carinho. Eijirou engravidou pouco depois do matrimônio, com algumas semanas de diferença, foi quando seu conto de fadas tomou um rumo diferente. Não tinha a atenção que tanto recebia quando namoravam, não trocavam carícias como antes, não ouvia um elogio sequer. A gestação o deixava exausto, cuidava de toda a casa, cuidava do esposo, cuidava dos preparativos para receber seu bebê, tudo sozinho. Precisou deixar o emprego de lado, aos poucos perdeu o contato com os amigos, perdeu sua autoestima, perdeu seu sorriso. Mas não se arrependeu de sua decisão.
Ao nascer, Hikari, como batizou sua filha, era o maior bem de Eijirou.
A criou com todo amor que tinha, nunca permitiu que o humor ranzinza do outro pai — ausente na maior parte de sua gravidez e da infância da filha —, chegasse ao alcance de Hikari. Fez de tudo para que sua relação com o pai de sua filha parecesse a mais perfeita possível.
Até que o fatídico dia chegou.
Seu esposo solicitou o divórcio, alegou não ser bem tratado por Eijirou, não sentir mais prazer em possuí-lo na cama, não ter mais atração pelo marido.
E agora, Eijirou estava ali, encarando a lista de contatos exibida na tela do celular. Precisava tomar uma decisão antes de ir a uma sessão com o juiz e o seu, até então, futuro ex-esposo, para continuar o processo de divórcio.
Ele respirou profundamente e tomou coragem, desferindo o indicador com certa força contra o ícone verde ao lado do contato.
tuuu… tuuu… tuuu…
O toque repetitivo da chamada em espera ecoava nos ouvidos de Kirishima, suas mãos começavam a suar, e sentia um arrepio estranho na barriga. Sua ansiedade aumentava a cada segundo, implorando para que alguém atendesse a ligação com pressa, mesmo que número não fosse de sua antiga paixão, ou que apenas a rejeitasse e acabasse de vez com toda aquela tortura que era aguardar por uma resposta.
— Alô? — uma voz grave soou do outro lado da linha, arrancando o Kirishima de seus pensamentos ansiosos e o causando um misto de alívio e nervosismo.
— Alô… Eu… eu falo com Katsuki? Katsuki… Bakugou. — murmurou o moreno, a voz baixa denunciava suas baixas esperanças sobre uma resposta positiva.
— Ahm… Sim, sou eu. Quem fala? — perguntou o homem, ele sabia perfeitamente de quem se tratava, afinal, assim como Eijirou, ele jamais considerou deletar o número de telefone de sua lista de contatos. Mas por um instante teve receio, não conseguia imaginar um bom motivo para a ligação após tantos anos. Talvez fosse apenas um desconhecido com o mesmo telefone que seu antigo amor.
O Kirishima respirou profundamente ao ter sua resposta, a sensação de alívio tomou seu peito e o acalmou, por parte.
— Eijirou. — o respondeu, sentando-se sobre sua cama, e finalmente sentindo seu corpo relaxar. — Lembra de mim?
— Eijirou… — repetiu baixo, no outro lado da linha, um pequeno sorriso surgia nos lábios do homem. — … Como eu poderia esquecer?
Um silêncio repentino tomou a ligação. As bochechas do rapaz de cabelos escuros ruborizaram levemente ao ouvir sua última fala, por um segundo, pensou que seu coração erraria as batidas. Ele simplesmente esquecera, com o passar dos anos, que Katsuki tinha o poder de desconcertá-lo facilmente. Entretanto, não se deixou viajar pelas lembranças do passado naquele momento, havia uma razão para ligar para Katsuki, e precisava resolvê-la rapidamente.
— Eu liguei porque… Na verdade, você estaria livre hoje pela tarde? — corrigiu a ordem dos assuntos ao focar no que fazia.
— Ahm… Tô. Hoje eu tô em casa, não tenho nada marcado. — um barulho suave soou pela chamada de Katsuki, ao erguer-se sobre o sofá onde estava deitado, ajeitando-se ao imaginar o que levaria o Kirishima ao perguntar aquilo. Talvez um encontro? Não… ele está casado, ele pensava. — Por quê?
— Eu… preciso que cuide de minha filha. — disse de forma direta, o que causou uma expressão confusa no outro.
— An?
— Desculpa, é que… — suspirou Eijirou ao notar a reação do Bakugou, voltando a ficar nervoso. — … Sei que é estranho pedir algo assim depois de tanto tempo afastados… mas eu preciso ir a uma sessão com o juiz e não consegui ninguém para cuidar dela. Eu não posso levá-la, e é muito nova para ficar sozinha em casa. Eu pago pelo tempo que ficar com ela…
O Bakugou franziu a testa com aquilo, sentando-se onde estava e ouvindo atentamente as explicações do rapaz.
— Juíz? — preocupou-se ao ouvir tal palavra. — Não pode deixá-la com seus pais? Ou na casa de algum amigo da escola? Um vizinho, não sei… Seu marido não ficará em casa também?
Eijirou crispou os lábios ao ouvir sua última pergunta, ficando em silêncio por alguns segundos.
— Ele não está… A sessão é sobre meu divórcio. — murmurou. — Nós nos mudamos recentemente, ela trocou de escola, e não sou próximo o suficiente de ninguém a quem posso confiar cuidar dela. Meus pais viajaram e… bem… você foi a única pessoa a quem encontrei o contato no celular, e que já tive alguma proximidade. — o contou calmamente, com um tom preocupado na voz.
— Sinto muito. Eu não queria… — o loiro perdeu-se nas palavras, coçando a nuca e suspirando também. — Eu não sei, Eijirou… Nunca cuidei de crianças, não tenho jeito para isso, e você sabe bem…
— Por favor, Katsuki… — pediu o Kirishima, num fio de voz, sentindo o choro prender de leve na garganta.
O coração do Bakugou doeu ao ouvir o choro silencioso do outro, decidindo aceitar, mesmo que duvidasse de suas habilidades como babá.
— Não chore, ficará tudo bem… — o confortou, baixinho. — Me diga seu endereço, eu irei até aí.
Os olhos marejados do moreno fecharam-se por um instante, enquanto engolia o choro e respirava profundamente para retomar a conversa. Então, descreveu o endereço da pequena casa onde estava morando, junto de algumas referências. Quando ligara para o Bakugou, sequer considerou que talvez não estivessem mais morando no mesmo local, porém, por sorte, ele ainda residia na mesma cidade que o Kirishima.
— Chego aí em meia hora, uhm? Não se preocupe.
— Tudo bem. Obrigado…
Finalizou a chamada de voz com uma sensação reconfortante no peito, sua mente acalmou-se, sentia algo que há muito tempo não desfrutava: sentiu-se protegido. Por um lado, estava melhor em pensar que poderia cuidar do divórcio com mais tranquilidade, por outro, preocupava-se com aquele reencontro.
Quase dez anos desde a última vez em que viu Katsuki com olhos apaixonados, e seu coração parecia voltar a inquietar-se com a voz grave e dócil que o loiro possuía. Ele perguntava-se em silêncio: E se todos aqueles sentimentos antigos voltassem? Se olhar no rosto de Katsuki o lembrar de todos os momentos que tiveram juntos? O que ele fará?
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