Nossos Destinos | KiriBaku
2 Reencontro
Longos trinta minutos já haviam se passado.
Durante esse tempo, o Kirishima tratou de conversar com sua primogênita, explicando-a cuidadosamente sobre precisar sair por algumas horas e deixá-la com um velho amigo, a quem ela conheceria naquele mesmo dia.
Hikari já tinha seus sete anos de idade, conseguia compreender com tranquilidade o que seu pai a dizia, e, apesar de fazer pequenas travessuras — como toda criança de sua idade —, era uma garota doce e calma. Tinha certeza de que tudo ficaria bem. Porém, mesmo assim, para auxiliar o Bakugou, Eijirou fez questão de deixar lanches e brinquedos disponíveis, para que pudessem passar a tarde sem problemas.
Saiu do quarto da filha, onde ela brincava despreocupadamente, ao terminar de organizar tudo o que precisava, e deixou a porta entreaberta para não trancá-la. Foi quando ouviu o toque melodioso da campainha, causando-lhe um arrepio de ansiedade ao imaginar que o Bakugou havia chegado.
— Estou indo! — gritou de onde estava, apressando-se em ir até a sala de estar.
Reduziu a velocidade dos passos ao aproximar-se da porta, parando logo a frente da extensão de madeira, e fechou os olhos, respirando lento e profundamente antes de segurar a maçaneta e abri-la devagar.
Ao abrir os olhos, viu Katsuki diante de si. Sua aparência estava um pouco mais envelhecida do que a que guardava em sua memória. Os cabelos loiros e bagunçados continuavam os mesmos, assim como os olhos felinos e a expressão séria que sempre tinha no rosto, recordava-se que eram raras as vezes em que via Katsuki, de fato, sorrir. As roupas despojadas exibiam o corpo levemente definido e algumas tatuagens sobre a pele clara do Bakugou, além de pequenas cicatrizes — que ele ganhara em meio às suas aventuras —, e trazia em mãos uma sacola de tons escuros, a qual o Kirishima não deu muita atenção.
Seus olhos encontraram-se quase imediatamente, a respiração do Kirishima suspendeu-se por alguns segundos e um arrepio voltou a surgir em seu corpo. Nem uma palavra sequer saiu de sua boca.
— Estou aqui… — o Bakugou quebrou o breve silêncio, arrancando o moreno do transe em que caíra novamente.
— Katsuki… E-eu… Entra. — embaralhou-se, estampando o nervosismo em sua voz, enquanto abria espaço para que o loiro pudesse entrar em sua residência.
— Licença. — murmurou, passando pelo moreno e adentrando o cômodo.
— Obrigado por vir… — fechou a porta de casa devagar. — Eu estava desesperado, não sei o que faria se não tivesse aceitado…
— Não se preocupe. — o loiro voltou seu corpo em direção ao Kirishima, encarando suas costas enquanto ele ainda segurava a maçaneta. — Se sente melhor?
— Um pouco. — voltou a olhar o ex-namorado e suspirou, aproximando-se deste. — Senta. Quer uma água?
— Não, valeu. — observou o moreno passar por ele e o seguiu até um dos sofás dispostos pela sala, sentando-se e trazendo a sacola consigo.
— Tá… Tudo bem. — Eijirou voltou a soltar o ar pelo nariz de forma longa.
Sentou-se há alguns centímetros do Bakugou, apoiando as mãos sobre o colo e esfregando-as no tecido liso da calça que vestia. Seu olhar fixou-se ao chão, sentia-se estranho com aquele contato. Queria abraçá-lo, aninhar-se em seu peito e dizer que sentia saudades do que tiveram no passado, mas, ao olhar para Katsuki, lembrava-se de que o tempo havia passado, e que as coisas já não eram as mesmas de quando estavam juntos. Naquele momento, tudo o que mais desejava era poder voltar no tempo.
Aquele silêncio incômodo voltou a surgir. Eijirou crispou os lábios, e pensou um pouco antes de perguntar:
— C-como esteve? Durante esses anos… — estava incerto de fazer esta pergunta, afinal, tinha medo de magoar-se ouvindo a resposta do outro.
— … Bem. Não estou na minha melhor fase, mas posso dizer que gosto de como as coisas estão agora. — respondeu o Bakugou.
— Oh… — assentiu com a cabeça, ainda com o olhar sobre as próprias mãos, em seu colo. — Você… ainda costuma ir a trilhas e esportes arriscados?
— Digamos que eu já não tenho mais a mesma disposição de quando era jovem — um riso fraco escapou de seus lábios. —, mas ainda tiro um final de semana ou outro para fazer algo fora da rotina.
Um sorriso pequeno surgiu em Kirishima.
— Fico feliz que não tenha abandonado o que gostava de fazer. — murmurou.
Lembrava-se perfeitamente de quando terminaram o relacionamento. Nos dias seguintes à separação, Eijirou não viu Katsuki em lugar algum, suas rotinas eram semelhantes na época e raramente não se encontravam durante o dia. Pelo que soube da sra. Mitsuki, o filho se recusava a sair da própria casa, se isso significasse ter que olhar nos olhos do único rapaz a quem amara e ter que ignorá-lo como se suas histórias nunca tivessem se cruzado.
— Era meu único lugar de conforto, jamais pensaria em deixar de fazer. — explicou Katsuki, então direcionou os olhos ao moreno, inquieto com seu jeito acanhado. — … E você? Como esteve? — perguntou com cautela.
— Ah… Bem, bem. — respondeu inseguro. — Para ser sincero… As coisas não aconteceram como achei que seria, mas… estou seguindo.
— Eu notei… — disse baixinho, mantendo os olhos sobre o ex-namorado. — … Você costumava estar sorridente em minhas lembranças. — comentou, o que fez Eijirou erguer o rosto em direção a ele, com um olhar entristecido. — E sua filha? Como vai?
— Ah, Hikari… — um sorriso voltou a aparecer por alguns segundos. — … Ela está crescendo bem, é inteligente, e adora uma travessura. — deu um risinho curto. — Ela… parece comigo quando era mais novo. Está sempre sorrindo. — completou baixo.
— Então, deve ser uma criança tão bonita quanto o pai também. — disse o mais velho.
A fala causou um frio repentino no estômago do Kirishima, que arregalou levemente os olhos e sentiu suas bochechas esquentarem quase de imediato, fazendo-o esconder o rosto envergonhado.
Bakugou o observou em silêncio, deixando um sorriso ladino surgir com a reação do outro.
— Eu senti sua falta…
A frase saiu por entre os lábios de Katsuki quase inaudível, mas carregada de sentimentos. O coração de Eijirou perdeu o ritmo, como da primeira vez em que Katsuki disse-lhe que estava apaixonado, seus pensamentos travaram por breves segundos, e tornou a abraçar o próprio corpo, tomando coragem para respondê-lo:
— Eu também senti. — murmurou, buscando relaxar a postura. — Eu… te devo desculpas…
— Desculpas? — Katsuki franziu a testa. — Por quê?
— Por tudo… — suspirou. — … Fui eu quem causou tudo desde o começo… abandonei nosso relacionamento por egoísmo e… depois de tanto tempo, simplesmente te ligar pedindo ajuda… — respirou profundamente. — … desculpe, não queria que nosso reencontro tivesse sido assim.
O Bakugou o encarou, ouvindo atentamente cada palavra que dizia. Crispou os lábios de início, então levou sua mão até o rosto do Kirishima e o ergueu devagar, passando o polegar sobre a lágrima que escorria a bochecha do moreno.
— Não tem que se desculpar por isso — murmurou, olhando nos olhos de Eijirou. —, o erro foi meu em não ter insistido que continuássemos juntos.
Os olhos do mais novo marejaram em silêncio, enquanto tentava conter o choro que ameaçava sair do controle a qualquer momento.
— Não diga isso… — Eijirou disse, choroso, deixando sua mão sobre a do Bakugou. — … N-não é algo que precisamos discutir, certo? C-cada um já… seguiu seu caminho.
Katsuki suspirou, negando.
— Eu nunca te esqueci, Ejirou. — o respondeu. — Conheci outros caras… mas nenhum deles era você. Não tive com eles a sensação de ficar hipnotizado por um olhar, de ser contagiado por um sorriso, nem de ter arrepios com beijos longos… E agora que nos reencontramos posso dizer… que só você pode me causar isso. — confessou baixo.
O Kirishima encarou seus olhos avermelhados em silêncio, sua respiração travava sem que sequer notasse, seus batimentos cardíacos estavam aumentando, e, desta vez, Katsuki também compartilhava da mesma sensação.
Sem obter uma resposta verbal, o loiro decidiu obedecer aos seus desejos naquele momento, e levou os olhos até os lábios de Kirishima, inclinando-se lentamente em direção ao rosto de sua paixão.
— Katsuki… — a voz chorosa voltou a murmurar, fazendo o mais velho parar, quase tocando os lábios alheios. — … E-eu tenho que te apresentar Hikari. — disse, num fio de voz, enquanto se afastava do outro com cuidado.
Katsuki respirou profundamente, afastando sua mão do rosto do moreno e ajeitando-se sobre o sofá.
— Claro. Desculpe por isso, eu não queria te assustar. — pediu baixo, deixando a mão sobre os próprios lábios e desviando o olhar para um ponto aleatório da sala de estar.
— Tudo bem. Eu… volto logo. — fungou, Kirishima, secando as lágrimas rapidamente e levantando-se do sofá. — Vai gostar dela, é um doce. Depois podemos conversar sobre o pagamento e tudo mais… — desconversava enquanto ia em direção ao quarto da filha.
O Bakugou acenou com a cabeça.
— Eijirou… — o chamou, fazendo o moreno parar no meio do caminho para olhá-lo. — … Não tem que me pagar para isso, vim porque jamais negaria suporte a você… Mas quero que me prometa algo.
— … O quê? — crispou os lábios.
— Que não volte a ignorar o que tivemos. — o olhou. — Quando voltar… queria poder conversar com você sobre nós, queria poder te conhecer uma segunda vez. E quem sabe… — murmurou, sem concluir a frase.
— Eu prometo. — respondeu em mesmo tom, entendendo que Katsuki apenas queria que desse uma segunda chance a seu relacionamento.
O loiro assentiu e respirou profundamente, observando o moreno afastar-se e, só então, relaxando sobre o sofá, aguardando para que pudesse conhecer a filha do ex-namorado, de quem cuidaria aquela tarde.
Naquele momento, já nem estava mais preocupado sobre suas habilidades de babá, as quais nunca teve. Apenas sentia-se ansioso com a possibilidade de ter novamente o seu antigo, e único, amor.
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