Nosso Nome Na Lista.
14 Capítulo 14 - Uma Resposta à Altura.
Notas iniciais
Capítulo 14 – Uma Resposta à Altura.
A hora do almoço sempre era uma longa e dolorosa tortura.
Hoje era quinta-feira... E eu ainda não gostava de ter que almoçar com pessoas que eu odeio. Ainda mais quando eu via o almoço como sendo uma “hora de lazer”.
Não bastava eu não suportar Yvonne Tybolt e Duncan Wade, e não bastava eu falar besteira cada vez que eu me encontrava com Quentin, mas ainda tinha que dividir a mesa com eles. Aí você diz: “mas pelo amor de Deus, Letty, se você não quer, por que se presta a isso?!”, e essa é uma boa pergunta... E a única resposta que eu encontro para isso é que talvez eu seja um pouco masoquista.
Mas eu preferia usar a desculpa que dizia: mantenha seus amigos por perto, e os inimigos mais perto ainda. Yvonne estava bem ao alcance dos meus olhos. Tudo o que eu tinha que fazer, era esticar o pescoço para o lado e, bam, lá estava ela. Oferecendo seus seios siliconados numa bandeja para o moreno mais sexy que já pôs os pés em St. Justine.
Sim, era o Quentin.
– Você e a Tybolt realmente não se bicam, hein? – Gabriel comentou divertido.
Arrastei, com dificuldade, meu olhar da morena para o loiro.
– Digamos que eu não morro de amores por ela – respondi a contragosto.
Ele me mostrou um sorriso divertido.
– Por quê? O que ela fez para você? – ele quis saber.
Eu revirei minha mente em busca de todas as coisas ruins que Yvonne já havia me feito. A maioria delas, só acontecera depois que comecei a namorar Duncan, todavia, ela nunca chegou a fazer nada (de concreto) que me fizesse odiá-la. Meu ódio se restringia apenas ao como ela me tratava.
Não posso ser doce com alguém que sempre zombou de mim.
– Digamos... Que é um daqueles casos que não dá para se saber quando começou – eu respondi, bebendo um gole da minha água. – Mas você sabe que sempre esteve lá.
– Oh. – Foi só o que ele disse.
– Você entendeu? – perguntei, achando que ele pareceu meio perdido.
– Hm, claro... É uma daquelas coisas de “não bater o santo”. Como se Deus tivesse apontado lá de cima e decretado: “vocês vão se odiar”. Como cães que odeiam gatos; gatos que odeiam ratos... Tudo faz parte do ciclo da vida – Ele fez uma breve pausa. Pigarreou e murmurou: — Mas acho que essa ideia pode se aplicar em outras coisas...
Eu ergui uma sobrancelha. Esperando pelo resto.
– Como... se apaixonar... – sugeriu ele, disfarçadamente indiferente.
E foi a minha vez de fazer algo bem disfarçado: revirar os olhos. Será que seria muito presunçoso da minha parte se eu cortasse o mal pela raiz desde já? Mesmo antes de ele ter sequer me direcionado um flerte direto?
– Olha, já que você falou nisso... – eu comecei, mas me detive.
Não porque eu mudasse de ideia, mas porque alguém gritou na mesa:
– Como assim você não tem namorado, Olivia?! Por acaso, a Brucena exige que todas as amigas dela sejam idiotas e virgens como ela própria?!
Eu me engasguei com saliva.
Oh, não. Yvonne Tybolt não havia acabado de gritar isso para que o refeitório inteiro ouvisse... Mas, sim, ela havia o feito. E fora de propósito.
Percebi isso no instante em que seus olhos maliciosos pousaram em mim.
Meu rosto ficou vermelho. Não sei se foi de vergonha ou de raiva. Só sei que minha mão começou a coçar. Mandando-me socar alguma coisa... Mas, eu, inesperadamente, respirei fundo e tentei manter a calma. Ficar vermelha e sair xingando e socando tudo não resultaria em nada. Não com aquelas pessoas.
Eu as observara e escutara por tempo demais para saber que se tem algo que mais doem nelas, é se verem desacreditadas. Era se verem despencando cada vez mais de seu lugar na minúscula lista de cinco pessoas.
Sendo assim, eu apenas juntei as minhas coisas e sorri para Yvonne.
Aproveitando que todo mundo estava me encarando, meio com choque, meio constrangidos e meio... Bem, meio tudo, eu achei que deveria fazer bom uso do meu momento sob os refletores. Aproveitar bem meus quinze minutos de fama.
Então eu sorri. Realmente, sorri.
Antes de despejar o meu veneno:
– Prefiro ser idiota e virgem, a ser aquela puta que deu o rabo no vestiário... E para, praticamente, o time de futebol inteiro.
Yvonne ficou chocada. E eu me deliciei no como sua boca se abriu num “o” perfeito. Não só ela, como todo mundo. Todavia, sua reação foi a que mais me encantou, pois ela sabia que eu não havia dito por “força de expressão”. Eu realmente quis mostrar que sabia mais dela do que ela pensava. Pois bem, filha, “Quem fala o que quer, ouve o que não quer”, certo?
E, pela primeira vez desde essa semana, eu senti que falei a coisa certa na hora certa. Ainda mais quando Olivia e Paloma me olhavam com tanto orgulho como agora.
Ela se levantou do seu lugar. Seu rosto era a mistura de fúria e humilhação. Exatamente como eu me senti minutos antes... E ela fez praticamente a segunda coisa que eu pensei em fazer: saiu correndo, como uma garotinha perdida que queria a mamãe.
Oh, pobre Yvie. Eu já havia percorrido esse caminho.
E sei que ela não vai encontrar apoio nas saias da mamãe.
Juro que, por debaixo da minha expressão fria e indiferente, senti uma pontada no peito.
Eu não gostei do que fiz. Não me reconheci quando fiz o que fiz... Apesar de eu frequentemente afastar as pessoas, eu nunca as feria tão profundamente à ponto de fazê-las sair correndo. E mesmo que eu tivesse consciência de que eu somente revidei ao mesmo nível que ela... Isso não me deixou isenta da sensação de “sou uma cretina” que me acertou como um soco.
De repente, Quentin se levantou da mesa, sem dizer nada e sem olhar para ninguém, e saiu do refeitório. Algo me disse que ele foi atrás de Yvonne. E isso fez com que o soco que haviam me acertado no estômago acabasse se tornando num golpe que fez um nó ali.
Tentei continuar calma. Era como eu havia dito à Quentin no início da semana.
Eu sou um porco-espinho.
...
– Ah, então você se esconde aqui!
Ergui o olhar do livro de biologia para Quentin, com surpresa. De todos os lugares do colégio, nunca imaginei que o encontraria na biblioteca. Como ele dissera, onde eu me escondia. A maioria ia logo embora depois que as aulas acabavam. Eu preferia ficar. Ellen andava roubando meu tempo com Riot e eu sabia que não conseguiria estudar em casa.
E, de qualquer jeito, eu estava surpresa por ele ter sido tão amistoso.
Não parecia chateado pelo que eu fiz à sua “coleguinha”.
– Hm... Parece que você me encontrou! – eu disse, fingindo empolgação.
Sinceramente, depois de humilhar Yvonne na mesa, ele (sendo duas caras como era) era a última pessoa que eu queria ver agora. Na verdade, eu não queria ver ninguém agora.
Mas também não queria mandá-lo embora.
– Posso sentar com você? – ele pediu, talvez sentindo minha hostilidade.
Dei de ombros e ele se sentou na cadeira ao lado da minha. Não deixei de notar o quanto ele era alto comprado a mim... Quanto será que ele media? Quanto será que só os seus ombros mediam?
– O que você tá fazendo aqui sozinha? – ele quis saber.
Bem... Se ele ia fingir que nada havia acontecido (que Yvonne não havia me provocado, que eu não havia revidado, que ela não havia ido embora correndo e que ele não havia ido atrás dela) esse jogo dava para dois.
– Vendo as fotos eróticas do livro de Biologia – eu disse com sarcasmo.
Ele ergueu uma sobrancelha, segurando o riso.
– Engraçado que você tenha esse costume pervertido... Eu esperava menos de uma pessoa “pura” – ele brincou cruzando os braços sobre a mesa.
Meu bom humor se esvaiu rapidamente, dando espaço para o constrangimento e a raiva. Quentin deve ter percebido minha mudança de humor porque ele ficou mais sério também.
– Desculpe, foi uma brincadeira... – ele pediu.
Eu concordei com a cabeça. Eu sabia disso, Quentin jamais iria querer me humilhar afinal.
– Tudo bem – eu respondi, fingindo que eu estava bem mesmo. – Eu... Preciso estudar para as provas e você? O que está fazendo por aqui?
Ele deu de ombros, puxando aquela montanha de papéis de sua mochila.
– Queria um lugar silencioso para decorar as minhas falas, mas eu odeio ficar sozinho em casa – Quentin deu um riso triste. – Mas... Que tal eu te ensinar a matéria? Hm... Só se você precisar de ajuda, claro.
Olhei para ele com surpresa.
– Não me diga que por trás desses olhos sexys, sorrisos afáveis e temperamento relaxado, existe um CDF que sabe toda a matéria da prova – zombei.
Ele me deu um sorriso desafiador.
– Você ainda não me viu de óculos. Quando me vir de óculos, vai ver que eu sou tão estudioso quanto você – ele respondeu.
– E você usa óculos? – desdenhei.
– Prefiro usar lentes de contato na escola, por serem mais práticas, mas em casa eu costumo usar óculos de grau, sim – ele respondeu. – Acho que Deus achou que eu estava perfeito demais para um mero mortal, então me fez ser meio cego, alérgico a mariscos, meio esquecido com datas importantes e neurótico com qualquer comida de origem duvidosa.
Fitei aquele Quentin como se ele fosse totalmente diferente.
Seus olhos azuis espelhavam a diversão que ele sentia me vendo completamente surpreendida por suas características, tal como o sorriso que tentava puxar o canto dos seus lábios para cima. “Então ele é uma pessoa como qualquer outra afinal!” pensei, brincando. Tentei imaginar como seria o óculos dele e como ele ficaria com ele.
A imagem quase me fez suspirar.
– Você não quer bater uma foto? Dura mais – ele brincou.
Fiquei vermelha e desviei o olhar.
– Desculpe. Fiquei tentando te imaginar de óculos – eu respondi.
– Meus melhores amigos também ficavam assim quando descobriam – ele respondeu rindo. – Agora, podemos estudar? Antes que fique muito tarde...
Eu assenti com a cabeça. Não me deixando ceder depois da expressão: “melhores amigos”.
Talvez Paloma estivesse certa. Talvez ele estivesse me empurrando para a “Friendzone” e eu nem houvesse me dado conta. Agora que eu estava mais atenta, isso fazia sentido. A verdade era que Quentin era tão bonito e legal que eu estava desejando que suas palavras não significassem o que elas significaram. Que ele me tinha como “amiga”.
Mas, apesar de eu gostar de ser sua amiga... Eu não gostava do que estava sentindo.
Foi difícil me concentrar na aula dele, apesar de lutar. Eu sempre fui boa em não levar as coisas para o lado pessoal, todavia, aquela foi a primeira vez que eu não consegui fazê-lo. Era estranho. Com Duncan eu era capaz de levar a minha vida (e até mesmo conversar com ele) sem levar o fim do nosso namoro como um tabu ou algo constrangedor. Mas... Com Quentin, eu novamente me sentia como se estivesse tendo aquele ataque de ciúmes.
E Yvonne Tybolt só arruinava a minha vida.
– Ei... Letty. Está me escutando? – ele me chamou.
Desviei meu olhar, antes fixo no livro, para ele.
Esperei um tempo, ganhando coragem.
– Posso fazer uma pergunta que vem me incomodando? – perguntei.
Ele me olhou com cautela. Como se minha pergunta fosse uma bomba e em suas mãos estivesse um controle que a faria explodir ou não. Bagunçando os seus cabelos com a mão em que ele apoiava a cabeça, Quentin concordou.
– Quando Yvonne saiu correndo do refeitório... Você foi atrás dela, não foi?
Quentin não demonstrou surpresa e em choque. Ele sabia que eu era inteligente e sabia que mentir para mim não o ajudaria em nada. Talvez, por saber disso, ele tenha concordado com a cabeça novamente.
– Sou amigo dela. Ir atrás um do outro, não é isso o que os amigos fazem?
Meu coração quase deu uma batida de esperança. Ele vivia dizendo que era meu amigo. E agora ele dizia que era amigo de Yvonne também. Isso significa então que, ou eu tinha chances, ou Yvonne não tinha chances, não é?
– Vi que você estava na mesa, rodeada por amigos, e ela... Bem, ficou sozinha – ele continuou. – Achei que você foi cruel. Achei que aquela garota que respondeu aquilo para ela, não é a Letty que eu conheço...
– E você ainda está aqui comigo fingindo que nada aconteceu? – eu zombei.
Ele deu um sorriso sem graça.
– Yvonne pediu por aquela resposta – ele respondeu. – Só que, como você sempre é “boazinha” com ela, ela não esperava exatamente aquela resposta.
– “Boazinha”? Você me acha “boazinha”?
Olhei para ele, confusa, perguntando-me que tipo de pessoa ele achava que eu era. Mas antes que eu pudesse perguntar algo, de fato, ele sorriu para mim e apertou a minha bochecha. Fazendo-a ficar vermelho, mas não pelo aperto em si. Porque eu corei.
Não só porque ele estava sendo meigo e íntimo comigo, mas porque ele estava muito perto e tudo o que eu conseguia pensar era naquela maldita música, naquela maldita parte, que dizia: “Você é boa demais para ser verdade. Não consigo tirar os meus olhos de você”. E era justamente a parte que vinha antes do “I love you, baby!”.
– Você é “boazinha”. Senão, não se sentiria mal por Yvonne – ele respondeu, me soltando.
Olhei para ele por um momento. Até que, de repente, ofuscando totalmente a música romântica irritante que vagava pela minha cabeça, veio uma ideia que me deu náuseas.
– Você... Sente algo pela Yvonne?
Quentin olhou para mim com um misto de surpresa e estupefação. Ele certamente não esperava a minha pergunta e nem soube o que responder para ela.
Será que ele realmente gostava daquela morena oferecida e maldosa?!
– C- como é que é? – ele perguntou constrangido, quase rindo de estupefação. – Por que você está me perguntando isso? Assim do nada?
Meu coração estava doendo.
Como se algum sushiman estivesse fatiando-o e o temperando. Quase era difícil respirar ou controlar a ardência nos olhos. Ah, não, Letty! Você não vai chorar! Não vai chorar!
– Me diz uma coisa... Se você tivesse que escolher, entre Yvonne e eu, você escolheria ela, não é?! Por que ela é mais bonita, ela é mais sedutora, ela é mais...
– Letty... – ele me interrompeu, tapando a minha boca com a sua mão.
Um calor delicado e, ao mesmo tempo, abrasador tomou conta do meu rosto. Sinceramente, eu não sabia se era porque Quentin estava me tocando, ou se era porque eu estava corando de vergonha. Todavia, aquele calor, aquele calor e a proximidade de Quentin, me calaram como se todos os meus argumentos e palavras houvessem escapado da minha cabeça.
Deveria ser um crime um homem exercer tanto poder sobre uma mulher.
– Pelo amor de Deus... Pare de se menosprezar tanto – ele pediu, murmurando as palavras lentamente diante do meu rosto. Elas batiam com o seu hálito, quente e confortáveis, contra a minha face. Sua mão deslizou da minha boca pelo meu rosto. – Você está sempre tentando afastar as pessoas de você. Está sempre procurando motivos para afastar as pessoas. Não sei por que você faz isso, ou por que você permite que só Paloma e Olivia fiquem por perto, mas... Pare de tentar arranjar um motivo para me afastar de você também.
Eu olhei para ele, franzindo o cenho. Tentando decifrar suas palavras, mas não conseguindo.
Ele estava bugando o meu cérebro como se fosse um vírus.
Só existia os seus olhos claros e sinceros e aquele rosto perfeito e muito perto.
– Essa sua pergunta é sem sentido e absurda. Por que estamos brigando? Nem faz sentido – ele riu, deslizando sua mão pelo meu rosto. — Eu não quero tomar um lado, Letty. Você é minha amiga, Yvonne é minha amiga. Ponto. E quanto esse lance de “se eu tivesse que escolher entre Yvonne e você”, eu não vou responder, porque estragaria toda a emoção da coisa! – ele concluiu fingindo irritação.
Olhei para ele, confusa. “Emoção”?!
– Você está brincando comigo, por acaso? – eu perguntei, quase irritada. – Que emoção?!
Ele olhou para mim e deu um sorriso pretencioso e maldoso.
– “Decidi que não estou pronta para um relacionamento agora” – ele me provocou. – Não foi o que você disse para Yvonne na segunda-feira?
Corei pela milésima vez naquele momento.
Por que diabos eu havia puxado aquele assunto?!
Não sei se ele esperava uma resposta, mas eu não a dei. Deixando o clima incrivelmente pesado e tenso. Algo me dizia que, de algum modo, Quentin estava, sim, brincando comigo.
– Bem... Já que não vamos estudar. Que tal você me dar uma carona para casa? Eu estou sem carro durante essa semana, por isso tenho chegado mais cedo que o habitual – ele pediu calmamente, como se não houvesse acabado de me provocar.
E como se silenciosamente não houvesse ficado claro que ele mexia comigo.
E mexia muito.
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