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72 Capítulo 72 – Uma Lembrança Empoeirada


Notas iniciais
Oi Desculpem a demora e o abandono >.> Eu sou uma pessoa horrível, mas é como dizem, de pouquinho em pouquinho... né? Obrigada pelos comentários e por acompanharem ♥ Bisou ♥ Belle.Époque

Capítulo 72 – Uma Lembrança Empoeirada

Sou obrigada a comer alguma coisa quase contra a minha vontade.

Dona Christine aparece de vez em quando para ver como eu estou e acho que nunca me senti tão doente em toda a minha vida. Desempenhados em me distrair até meu pai chegar, ficamos na sala de estar vendo desenhos infantis como se nada houvesse acontecido. Como se fosse mais uma merda de fim de semana na vida dos McCullogh. Em nenhum momento eles tocam no assunto “morte” ou “suicídio”, o que me faz pensar que essas palavras foram banidas do vocabulário dos dois.

Não sei como eu consigo pegar no sono.

Mas sei que é um sono leve e perturbado. Quando percebe isso, Quentin me acorda e diz que vamos para o quarto dele. Acho difícil que eu durma por livre e espontânea vontade, mesmo assim, me deito na cama dele e ele se deita perto de mim. Envolvendo o meu corpo com um braço, como se tivesse medo que eu saísse correndo.

Ele parecia ler a minha mente.

Sair correndo era tudo o que eu queria.

— O que você acha... que leva as pessoas... a se matarem? – Eu perguntei para ele.

Quentin me disse há muito tempo que ele queria ser psicólogo, ou que ele se interessava por isso. A mente humana, como ela reagia, o que ela fazia... parte de mim espera que ele tenha um motivo razoável por minha mãe ter feito o que fez.

— Cada um tem o seu motivo, Letty – ele respondeu, fitando o teto. – Cada pessoa é uma pessoa. Cada cabeça uma sentença.

Não era o que eu queria ouvir, e acho que isso fica claro na minha cara.

— Eu acho... que muitas vezes as pessoas estão tão desesperadas que elas acham que não tem outra solução. Quer dizer, quando você está em uma crise de depressão, ou ataque de pânico... você não consegue pensar direito – ele continuou, cautelosamente. – Porque não me parece que o suicídio seja uma decisão racional.

Fico em silêncio, porque não sei o que dizer. Antes de sair de casa, minha mãe parecia bem racional e consciente a respeito de tudo. Sinto meu coração se apertar em pensar nisso e me encolho de leve, fazendo que Quentin acaricie minhas costas como se quisesse me consolar.

— Ei, não é culpa sua – ele volta a dizer.

— Eu era tudo o que ela tinha, Quentin...

— Letty, isso não tem como ser sua culpa... não era nem sua responsabilidade – ele volta a dizer. – Você tem só dezessete anos, não pode se sentir responsável pela vida de alguém. Ainda mais da sua mãe.

Não sei como ele consegue ter tanta certeza disso, mas confesso que por um instante eu queria acreditar como ele. Por isso eu não respondo nada e tento dormir. Não é fácil. Tenho um sono leve e agitado, como se eu estivesse sendo perseguida por pesadelos, mas a verdade, é que o pior deles me espera no mundo real.

.

Quando eu acordo, estou sozinha no quarto de Quentin. Não consigo encontrá-lo em lugar nenhum e isso me enche de pânico por alguns instantes. Não sei por quanto tempo dormi, mas parece muito tempo. Minha cabeça dói muito, provavelmente pelo tanto que eu chorei nesse dia, e mal consigo abrir os meus olhos direito, por isso eu continuo enrolando na cama até me sentir menos pior.

Quando isso acontece, me vejo obrigada a levantar e encarar o mundo exterior.

Eu caminho devagar, ainda um pouco sonolenta e com dor de cabeça, mas instintivamente meu corpo congela quando percebo as vozes baixas que vêm da sala. Não sei se é certo perambular assim pela casa dos outros, e só me dou conta disso quando percebo que as vozes na sala parecem estar se contando segredos. Segredos que eu não deveria ouvir.

— Que situação merda – alguém murmura.

— Imaginem a responsabilidade que devia estar nos ombros dela... muito grande para uma garota sozinha – Ouço Christine dizer, em seu tom leve e sério.

— Ela não estava sozinha – Ouço Quentin dizer, hesitante.

— Mamãe está falando de família, Q. Não de um namoradinho de colégio – reconheço a voz de Roland murmurar. – Por mais que você seja bom em se envolver na vida das pessoas, isso não te dá superpoderes para resolver a vida delas.

Um silêncio tenso se forma sobre eles e isso faz com que eu me sinta um pouco mal. Porque tenho a ligeira impressão de que estou sendo um incômodo para eles, o que não deveria me surpreender nenhum pouco. É claro que era um incômodo. Quem gostava de ser perturbado pelos problemas dos outros?

— Mamãe tem razão, é responsabilidade demais – Reconheço a voz de Gilliam, sempre a mais rouca. – Ainda mais para uma garota cheia de problemas, como ela.

Sinto meu peito começar a pesar, e é quando percebo que não consigo mais ouvir as pessoas falarem sobre mim. Ainda mais daquele jeito. Então volto silenciosamente para o quarto de Quentin, de onde não deveria ter saído.

“Uma garota cheia de problemas”.

Realmente, eu mesma não conseguiria me descrever melhor. Talvez apenas trabalhasse ao redor disso, como por exemplo: “Letty é como uma caixinha cheia de problemas”, “uma caixinha sem fim”... Eu deveria me chamar Pandora.

Como estou morrendo de dor de cabeça, volto a me deitar e tento tirar a conversa e os pensamentos da minha cabeça. Em algum momento, acabo voltando a dormir, e descubro que essa é uma maneira muito boa para evitar as pessoas. Como não estou bem, finjo que estou dormindo para evitar todo mundo até que a hora em que meu pai chega.

Sou acordada por Quentin, com beijos na minha testa.

— Seu pai está aí embaixo – ele murmura.

E quando percebo o quão perto ele está, eu tento me afastar. Porque estou lutando para manter meus sentimentos sob controle e eu tenho muito medo do que sinto quando estou nos braços dele. Ou eu começo a chorar, ou eu me encho de raiva... ou, não sei. Só tenho muito medo do que ele é capaz de desencadear em mim.

Ele me olha esquisito. Como se não entendesse.

— O que foi? – Ele pergunta.

Sinceramente, sinto vergonha de falar a verdade, então apenas digo:

— Você me assustou.

Não sei se ele acredita, mas Quentin se afasta um pouco. O que é bom (para os meus propósitos) e ruim... porque quando ele se afasta eu me sinto... rejeitada. Como quando você faz algo que magoa alguém e só se dá conta quando a pessoa devolve na mesma moeda.

— Vou te esperar lá com ele – Quentin diz, levantando-se da cama e saindo.

O tempo que fico sozinha para me ajeitar é o suficiente para eu perceber o como estou sendo imbecil com ele, mas como parece instintivo ser imbecil com ele naquele momento.

Pelo menos Quentin poderia dizer que eu não fui imbecil só com ele. Assim que desci e vi o meu pai, não fui correndo para os seus braços chorando, e muito menos fui para um abraço sentimental de quem não se vê a muito tempo. Na verdade, eu me sentia em piloto automático, então eu apenas caminhei até ele e o deixei me dar um abraço, que eu tive medo de devolver.

Porque se eu devolvesse, eu iria chorar.

E eu estava tentando, a todo custo, NÃO chorar.

Na despedida, consigo aceitar um abraço de Quentin, desde que eu tente não pensar no como ele é confortável e acolhedor, e em como ele me dá vontade de chorar. É difícil. Como lutar contra um sentimento instintivo. Quando me afasto, meus olhos estão lacrimejando e eu corro para longe dele sem conseguir olhar para o meu namorado.

É um momento muito esquisito.

Mais um para se colocar na caixinha de problemas da Letty.

Meu pai não tenta falar nada no carro, provavelmente porque o taxista está ali e seria esquisito falar sobre alguém que morreu na frente de um estranho. Porque as pessoas têm disso, não é? Esse medo de falar sobre a morte... como se ela fosse algo contagiosa. Como se, por você falar sobre morte, toda a sua família fosse morrer junta.

E o clima fica pesado o caminho todo.

— O velório vai ser amanhã – ele consegue dizer algo, enfim.

E a voz saí tão estrangulada que dá para perceber o esforço.

— Mamãe ia gostar disso – eu resmunguei. – Com só dois dias não dá tempo de ela ficar deformada.

Não percebi que havia dito em voz alta até que escuto sua tossida e eu me sinto tão mal que me encolho no banco. Desejando sumir. Tento não pensar sobre o assunto olhando para o céu muito claro e azul. Desejando que alguém me tirasse dali e me levasse para qualquer outro lugar em que eu não precisasse ouvir sobre a minha mãe morta.

Graças a Deus, não demorou muito e o carro parou em uma rua esquisita. Bem parecida com aquela parte onde eu me perdi e me deparei com Luc numa loja de conveniência. Olhei para o meu pai, perguntando-me se ele havia errado o endereço, mas ele apenas olha para o taxista e manda:

— Espere aqui. Não vamos demorar muito.

O motorista concorda com a cabeça, e meu pai faz sinal para que eu o siga. Solto um suspiro pesado e saio do carro. Estamos na frente de uma casa velha, caindo aos pedaços e que parece abandonada. Muito abandonada. Casas assim me dão aflição. Não porque eu penso em assombrações, mas porque eu só consigo imaginar que ela talvez servisse para usuários de drogas.

— Onde estamos? – Eu pergunto, seguindo-o pelo gramado malcuidado.

— Na antiga casa da sua mãe – ele responde.

Franzi o cenho.

— Minha mãe tinha uma casa?

— Aham. Casa que era da mãe dela – ele respondeu, chegando na varanda enfim. De frente para a porta de entrada, ele tateia os bolsos em busca de alguma coisa e retira uma chave do paletó. – Eu sempre disse que era para ela vender..., mas sua mãe era muito... preguiçosa, eu acho. Ou desinteressada.

Eu não respondo nada, apenas o observo abrir a casa e então entrar nela. O assoalho de madeira range debaixo de nossos pés, como se reclamasse do peso com o qual ele não estava acostumado mais. O lugar está uma bagunça, coberto com cobertores, com as venezianas quebradas e fechadas... cheio de poeira acumulada.

— O que viemos fazer aqui? – Eu pergunto.

— Procurar uma foto... Para o... o velório... – ele responde. Olhando ao redor. – Ah, ali. Pegue aquela caixa ali para mim, por favor, Letty?

Olho para uma caixa abandonada perto do que um dia deveria ter sido um balcão de cozinha, e me arrasto até lá. É surpreendente a quantidade de coisas que minha mãe deixou para trás nessa casa. Quase como se houvesse fugido daqui correndo. Não que eu me interessasse muito, ela também nunca havia me falado sobre a sua vida antes do meu pai. Não parecia ser seu assunto favorito.

A caixa é um pouco pesada, mas consigo carregá-la e colocar em cima de uma mesa de jantar que está bamba e prestes a tombar com a força do vento. Não sei se é seguro deixa-la ali, mas meu pai começa sua busca lá e percebo que ele remexe em vários papéis antigos, e sem valor, livros, e então encontra uma grande moldura.

Está velha e o vidro está quebrado, mas a foto ainda está em perfeito estado.

É a foto em preto e branca de uma mulher muito bonita. De traços finos, quase aristocráticos, sorriso encantador com os lábios pintados de uma cor escura, rímel perfeito, e cabelos perfeitos decorado com flores frescas, descendo em ondulações pelo colo, onde exibia um top e uma faixa onde se podia ler: “Miss Primavera”...

— Essa era a minha foto preferida da sua mãe – meu pai sussurra.

Meu peito se aperta, mas me obrigo não cair no choro bem ali.

— Não parecia ser a preferida dela – eu observei.

Minha mãe nunca deixaria uma foto sua numa casa abandonada a menos que a odiasse muito.

— Não era – ele respondeu, com uma risada triste.

— Não está meio... antiga? – Eu perguntei.

— Não tem problema – ele respondeu. – Seria o que ela iria querer.

Abaixei o olhar, sem conseguir olhar mais para o rosto sorridente e jovem de Victoria no que devia ter sido em seus vinte e poucos anos. Provavelmente, um dos últimos concursos que participou, depois de ser considerada “velha demais para isso”.

— A gente sempre acaba fazendo o que ela quer, não é? – Eu resmunguei.

Meu pai soltou um suspiro pesado e me encarou com um sorriso pesaroso. Como se ele quisesse rir de uma piada pesada. Ele confirmou com a cabeça.

— Você conhece a nossa história – ele diz, de maneira cautelosa, enquanto abre a moldura devagar, para retirar a foto com cuidado. – Quando nos casamos no último ano do ensino médio... foi mais porque sua mãe já estava grávida de você, do que por ser o nosso sonho ou o que queríamos naquele instante.

É. Eu acho que me lembrava dessa história. Também eu não saberia dizer que adolescentes teriam coragem de se casar no fim do ensino médio, sem nem pensar em ir para a universidade e conseguir um emprego primeiro.

— A verdade... é que, não sei se você sabe, sua mãe tinha muitos problemas com a sua avó – ele comentou. – Elas se odiavam.... De verdade. Nunca tinha visto um problema de família tão grande, que não o da sua avó com a sua mãe.... Acho que foi até por isso que ela apenas abandonou essa casa.... Então era de se esperar, que a jovem e bonita Victoria, arrumasse algum garoto otário e rico para tirá-la daqui o mais rápido possível.

Pergunto-me se ele estava querendo dizer que sempre esteve no plano da minha mãe se engravidar de alguém, para se casar e sair dessa casa. Me parece drástico demais, até para minha mãe. Como uma novela ruim de antigamente. Mas quando olho para o meu pai, seus olhos estão fixos na foto da minha mãe, quando ele sussurra:

— No fim, para uma mulher como a sua mãe, as coisas sempre são como ela quer.

Quando ele levanta o olhar para mim, eu vejo lágrimas nos olhos dele e então consigo ver uma dor que até então eu não havia percebido nele. Sem que eu perceba meus olhos se enchem de lágrimas também e eu odeio que a minha armadura gélida esteja derretendo por conta de uma história e de uma maldita foto antiga.

Sem que eu consiga evitar, dou a volta na mesa e lhe abraço.

Ele acaricia meu braço com sua mão.

— Menos você – ele murmura, dando uma risada triste. Franzo o cenho e ele sorri para mim. – Você nunca seria como ela quis... e você não faz ideia do alívio que eu sinto por causa disso.

Eu recuo. Suas palavras parecem um tapa na minha cara.

— Alívio? – Perguntei confusa.

— Por mais que eu amasse a sua mãe... eu jamais iria me perdoar se você se tornasse exatamente igual a ela – ele confessou, mas então mostra aquele sorriso triste novamente. – Mas no fim, você não precisou muito de mim... não é? Você lidou com tanta coisa... sozinha. Você se fez forte... sozinha. Eu tenho orgulho de você, Letty.

Não sei se entendo o que ele quer dizer.

— Por que você diz isso com um olhar tão triste? – Perguntei.

Ao invés de estar me sentindo melhor, me sinto pior ainda.

— Porque não era para ser assim – ele admite, com o olhar cheio de lágrimas. – Não era para você lidar com isso sozinha, não era para as coisas serem desse jeito, não era...

"Para você encontrar sua mãe morta no banheiro" eu penso.

Ele se interrompe, como se houvessem tantas coisas que não devessem ter sido daquele jeito que lhe faltava fôlego para citá-las. E por algum motivo eu consigo entender. Porque eu também adoro ficar pensando no como as coisas deveriam ter sido, quando, obviamente, as coisas apenas acontecem. Sem padrão, sem ritmo... sem um roteiro.

— Não acho que seja culpa sua – eu digo... porque ele parecia tão culpado...

— Mas é – ele insiste. – Porque eu nunca deveria ter deixado você sozinha..., mas eu te prometo que nunca mais vou te deixar.

Franzi o cenho.

— Quer dizer que...?

— Você vai morar comigo agora... na Alemanha.